UM QUEIPO NO LAR

Eco-feminismo no século XXI

A bióloga e ativista Adela Figueroa analisa o eco-feminismo contemporâneo, exemplos do movimento e questons chave do seu discurso



Segundo Mary Mellor o eco-feminismo é um movimento que visa uma conexão entre a exploração e degradação do mundo natural e a subordinação e opressão das mulheres.

As reportações do pensamento crítico feminino e o pensamento ecológico oferece-nos a oportunidade de nos defrontar-mos a dous problemas sócio ambientais: A injusta situação de domínio e ocultação das mulheres, e ao perigo da dominação da natureza típicos ambolousdous da sociedade patriarcal ligadas ao paradigma do homem como amo e guerreiro (A. Puleo, El Ecologista, 2002)

Na sequencia desta afirmações entendemos o eco-feminismo como uma corrente de pensamento e de ação visando:

Mulheres ativas para preservar os recursos naturais. Mulheres em luta para preservar a terra a paz e o alimento.

Analisemos estes dous assertos:

A natureza fornece-nos de abrigo e alimento. Estes dous recursos primários resultam imprescindíveis para assegurar a vida nossa e da nossa descendência. O eco-feminismo representa o compromisso da mulher com a Terra e também com a vida que nela se desenvolve. Não é somente procurar alimento e abrigo. É garantir que isto vai estar ao alcance de nossa filharada. Ativas refere-se a isso. Implica trabalhar sobre os recursos primários para que estes perdurem mais aló da nossa temporalidade vital. É um conceito oposto ao de rapina. Ao da simples extração, ou a depredação.

É uma conceção vital que implica ao intelecto mais finamente humano. Aquele que compromete  a ideia de futuro. Este compromisso e este paradigma necessita educação, disciplina e preparação.

Ter-mos assimilado que existe um tempo futuro precisa de toda uma estrutura social e da complexidade duma normativa partilhada. Sermos seres previdentes é um resultado de sermos seres inteligentes e sociais.

A superação do estado de recoletores caçadores pola invenção da agricultura instaura um novo regime nas comunidades humanas. Por uma parte faz-se necessário controlar os tempos, passado, presente e futuro, conhecendo as variações estacionais, condição imprescindível para o controlo das labores agrícolas.

“A superação do estado de recoletores caçadores, pola invenção da agricultura,instaura um novo regime nas comunidades humanas”

Por outra parte aparece um novo elemento, o conceito de propriedade. Ligado à posse da terra e do gando que vem de ser domesticado. Em case todas as culturas humanas a mulher passa a ser uma posse mais da estrutura produtiva. O homem tem de se assegurar que a descendência que nasce dela é sua e para isso encerra a mulher sob diferentes crenças e religiões. Também o homem precisa de mão de obra que trabalhe a terra. Para isso resulta mui prático ter a metade da população submetida e sem direitos como elemento produtor. As diferentes religiões com seus tabus colaboram neste encerramento imaterial das mulheres, mais tão efetivo como as grades de natureza física. Em quase todas as culturas as mulheres são as responsáveis das crianças e de fornecer de alimentos à família polo cuidado das hortas. Por isso as mulheres sentem-se responsáveis da preservação dos recursos. Se calhar tem algo a ver com a sua capacidade de “dar vida”.

É necessário e justo virar o paradigma estabelecido por Hegel e comummente admitido, ainda hoje em muitas sociedades, que baseia a inferioridade da mulher com seu “primitivismo” estabelecido pola forte ligação da mulher com a natureza. Este paradigma justificava a minoria de idade das mulheres perante a supremacia do varão porque eram “mais próximas” do natural. Consideradas como incapazes de elaborar pensamentos abstratos e complexos.

Mas agora afirmamos que esta ligação com a Natureza é digna, importante e indispensável para garantir a preservação dos recursos naturais e para lutar em defesa da Terra, da Paz e do alimento. E, pelo contrario, exige um pensamento muito mais elaborado que aquele que se dirige a simples pedação da Terra.

O sistema patriarcal que glorifica ao “macho” dominante, predador e sem necessidade de prever futuro que garanta a sobrevivência dos descendentes, está baseado na grande falácia. Na grande mentira. Os sistemas sociais humanos mantém-se pola exploração injusta e inclemente das mulheres e pola exploração da Terra sem qualquer previsão de futuro. O sistema Patriarcal dominante ainda hoje é destrutor. Responde mais à “estratégia” de Terra Queimada primitiva e irreflexiva que a aquela da previsão do futuro que é produto da mais fina inteligência. Do ponto de vista ético-moral  é o cumprimento do chamado Mandado Biblico de «Crescei e multiplicar-vos, enchei e dominai a Terra» (Gen,1-28) defendido polas religiões, nomeadamente a católica e outras monoteístas que deram o substrato ideológico da civilização occidental (mas não só).

O segundo asserto o que diz a respeito de mulheres em luta faz apelo a defensa ativa contra a destruição dos recursos naturais. Contra a depredação irresponsável destes que os vai levar  ao esgotamento e por em risco comprometendo a sua renovação.

Na atualidade assistimos ao confronto de dous sistemas económicos em luta aberta:

A Economia Capitalista que visa o enriquecimento pessoal e a economia do Bem Comum, ou dos comuns que visa a preservação do “comum” mediante uma gestão coo-partilhada.

A economia capitalista é indissociável do sistema patriarcal, aquele que procura os máximos benefícios com os mínimos custos. Que identifica o exito pessoal com o enriquecimento que precisa identificar a descendência para garantir sua herdança e empregar “mão de obra” barata como pode ser a da mulher. Presa a ele por instituições- cárceres como o matrimonio. A femia trabalhando gratuitamente polo sustento, abrigo e segurança da família e o grupo social. O Homem,para manter o património dentro da sua herdança genética precisa garantir que os filhos som dele. O mais prático para isto é encerrar a mulher, bem seja com muros físicos ou tabus morais . A s atitudes díscolas pagar-se irão com a perda da socialização. O desprezo da sociedade.

O BEM COMUM

É significativo que este modelo económico, que tenta partilhar a gestão dos “comuns” entre a população, seja defendido por numerosas mulheres na história. A defesa do Bem Comum imbrica-se com a defesa da natureza e dos recursos naturais, e com a inteligência superior que é capaz de elaborar horizontes de futuro.

Este é um conceito que pode ser enfrentado desde diferentes pontos de vista,

  1. Cultural
  2. Material
  3. Económico
  4. Político.

Todos eles imbricados e dificilmente separáveis.

Mas como estamos analisando o eco feminismo, vamos tratar o que atinge aos bens materiais sempre sabendo que nenhum destes bens podem ser separados claramente entre sim.

Os rios, as fontes, os regatos pequenos e grandes, os mares a terra, for ela de labor ou não cultivada, as plantas e os animais. O ar que respiramos a água que bebemos ou onde nos lavamos e cozinhamos, as múltiplas e diferentes paisagens que nos acocham, isso tudo faz parte dos Bens Comuns.

Elinor Ostrom

A Economista americana Elinor Ostrom levou o prémio Nobel de economia em 2009 polo seu trabalho: “Análise dos recursos partilhados, O Governo dos bens Comuns”, onde demonstra que uma economia baseada na Governanza dos “Comuns” é muito mais eficaz e reparte melhor a riqueza entre a população que a economia Capitalista que fomenta o individualismo e prima o êxito pessoal. A riqueza do conjunto aumenta e acaba por ser em beneficio de toda a gente.

Para Ostrom o governo dos comuns vem implementado por instituições que são produto dumas normas que o próprio grupo se dá e que implicam duas características importantes: O incumprimento das normas carreia sanções, e a reciprocidade implica o retorno dos benefícios partilhados polos indivíduos que usufruem o Bem Comum. Desde o meu ponto de vista estas duas características são fundamentais. Eu penso nos montes vizinhais ou de mão comum, como um bom exemplo de economia do Bem Comum. Quando bem gerido o monte dá benefícios aos comuneiros e a comunidade como: criação de emprego, melhora dos caminhos, luita contra o lume… E ainda representa um beneficio ambiental sustentável.

Outra característica que Ostrom sinala é a importância do conhecimento entre os elementos que partilham o Bem, cousa que ajuda para a confiança mutua. Isto é, a proximidade na toma de decisões favorece que estas sejam mais acertadas e produzam mais benefícios para o conjunto.

Como podemos ver o Capitalismo desembocado que hoje estamos a viver é tudo o contrario a isto. A economia mundial é um macro sistema que gera perda de energia e falta de controlo o que tem como consequência o aumento de entropia do sistema Lixo, insegurança,destruição irreparável do ambiente e dos recursos naturais, perda de direitos laborais, exploração, trabalho infantil..). O aumento desmedido desta entropia está a produzir um grande desajuste que, segundo Carlos Taibo conduzir irá ao colapso do sistema (Colapso: capitalismo terminal, transicion ecologica, ecofascismo, editora Catarata).

Já o estamos a perceber, imersos no processo de Câmbio Climático, malia o negacionismo que disso fazem os representantes do sistema capitalista e patriarcal que, na atualidade, governa a maior parte da Europa,  América e Países Emergentes.

A acumulação de lixo produto deste sistema entrópico é o sintoma mais grave e visível.

movimento chipka india

Entre as lutas femininas em defesa da Terra gosto de por em destaque a das mulheres da Tribu Chipko , na Índia. O Movimento das mulheres Chipko, tem um significado fortemente feminino e ecológico. Abraçadas às árvores das suas florestas opuseram-se a que estas fossem cortadas numa tala massiva. Os homens defendiam o trabalho de corta por um salário imediato. Mas elas razoaram que sem árvores iriam degradar-se as fontes de água para regar as hortas ,e para o uso doméstico, e, ainda a erosão iria alastrar a terra da montanha para os vales arruinando as culturas que garantiam o sustento a longo prazo, Foi um enfrontamento de mulheres com visão de futuro e ligadas a natureza contra seus homens que visavam unicamente dinheiro rápido sem prever as consequências dos seus atos. Foi um confronto entre a inteligência provisora e fina em oposição à imediata da depredarão. Aqui Engels e a ideia dominante sobre a deficiência intelectual das mulheres teria perdida a batalha intelectual. Elas ganharam a batalha material e os bosques foram preservados. A estas mulheres chamaram-lhes Borboletas de aço, pola sua resistência e sua finura.

No mundo da teoria económico- ambiental destaca também Gro Halem Brundland.

gro-harlem-brundland

Ministra de Ambiente e também primeira ministra de Noruega e presidenta da Comisão Brundland da organização das nações Unidas dedicada ao medio ambiente e a sua relação com o progresso (1983-1987). O Informe Brundland  ( Nosso Futuro Comum) definiu o termo económico ambiental de “Desenvolvimento Sustentável”, Hoje manipulado pola sociedade capitalista que nos domina , mas que de inicio marcou uma linha a seguir a respeito do controlo das atividades extrativas e industriais e de mau trato ao ambiente. Ainda hoje a sustentabilidade é uma condição para rexeitar ou aprovar projetos de todo tipo.

wangari-mathaii

Outra mulher transcendental na defesa do ambiente e das mulheres , na Africa, exemplo para o mundo é Wangari Mathaii prémio Nobel 2004 ministra do ambiente de Kenia. Foi responsável pelo programa o “Cinto Verde” que conseguiu travar o avanço do deserto, fornecer matéria  vegetal em abundância e regular as recursos hídricos com a plantação de milheiros de árvores, feito maioritariamente por mulheres.

O seu programa Plantio de ideias concretiza-se neste texto:

Graças a esses recursos, a visão que tive, no início dos anos 1970, se transformou, passando de algumas conversas e uns poucos viveiros de árvores ao plantio de literalmente milhões de mudas e à mobilização de milhares de mulheres. (…). Para restaurar terrenos degradados, tínhamos que cuidar das mudas. Disse então às mulheres:
– Vocês precisam verificar se as pessoas a quem deram suas mudas realmente as plantaram e também se essas mudas sobreviveram por pelo menos seis meses. Só então receberão sua compensação financeira.

vandana-shiva

Cá observamos como se implementa um dos condicionantes sobre o Governo do Bem comum que indica Ostrom: Controlo do cumprimento dos acordos. Quer dizer disciplina, co- responsabilidade e visão de futuro.

Segundo diz Wangari Mathaii O Plantio de árvores passou a ser Plantio de Ideias. Consequente mente seguiu a dignificação das mulheres que faziam um lavor tão necessário e tão complexo para a comunidade.

Na India Vandana Shiva preconiza: Que nenhuma mulher  seja violada. Que nenhuma espécie desapareça.

O seu discurso pode ser um compêndio de todo o declarado anteriormente:

 “Para mim, ecofeminismo é, basicamente, primeiro reconhecer que há uma confluência: do poder, da cobiça, do mercado, do capitalismo e da violência. Então, primeiro é reconhecer isso e segundo é reconhecer nosso próprio poder, porque o capitalismo e o patriarcado declararam que as mulheres sejam passivas e que a natureza morra. O ecofeminismo reconhece que a natureza não só está viva, mas também é a base de toda a vida e que somos parte dela. E compreendendo que nós, as mulheres, temos um grande potencial; mas um potencial diferente, não violento, não de dominação e morte, mas sim de cuidar e compartilhar. A criatividade e a compaixão das mulheres é possível em todos os humanos, porque não creio no determinismo genético. Então, este é realmente o poder do ecofeminismo”.( V. Shiva)

berta-caceres

Em todo o mundo vemos ações valentes e decididas de mulheres na defesa do “ Comum” , dos bens naturais e da sua conservação. Isto é perigoso porque colide contra os interesses do capitalismo, machista, destrutor e predador que procura o beneficio rápido sem previsão do futuro. Berta Cáceres foi uma destas mártirs pola sia defesa do rio Gualcaque rio sagrado dos Lencas. Rosane Santiago Silveira,  de 59 anos, lutadora de causas ambientais, culturais e de direitos humanos foi brutalmente torturada e assassinada no sul da Bahia, na cidade de Nova Viçosa no dia 29 de janeiro 2019. São apenas alguns exemplos de mulheres mártires na defesa do ambiente património comum. Muitas outras no calado sofrem desprezo repressão e silencio.

virginia-rodriguez

Temos bons exemplos na Galiza acerca deste tipo de lutas em que mulheres junto com homens defendem o ambiente e o Territorio como o Nosso Bem Comum. Recentemente a iniciativa legislativa popular em Defensa do Bosque autóctone foi defendida no Parlamento Galego pola Presidenta de ADEGA Virginia  Rodriguez. Não obteve a aprovação deste parlamento dominado polo partido de direitas PP, mas sim que teve  grande sucesso popular pois conseguiu mais de 40.000 assinaturas de apoio.

O ecofeminismo, na Galiza tem longa tradição já manifestada pola nossa devanceira Rosalia de Castro. Sua voz sempre se ergueu em defesa das causas do comum, entre as que não esquecia o ambiente. Ela foi a única em protestar perante a destruição das carvalheiras.

Bajo el hacha implacable

Bajo el hacha implacable, ¡cuán presto

en tierra cayeron

encinas y robles!;

y a los rayos del alba risueña,

¡qué calva aparece

la cima del monte!

Sua protesta contra a destruição do bosque de Conxo foi a única que se ergueu face a ignomínia provocada polo Cardeal Payá recentemente chegado a Compostela:

A Poesia Jamás lo Olvidaré é todo um alegato ecologista e também feminista que nos deixa ironicamente com esa simples frase «porque gime asi importuna esa mujer»,

Mas nosotros si talan nuestros bosques

 que cuentan siglos

-quedan ya tan pocos-…

 

(¿Porque gime así importuna esa mujer?)…

 

Mas oh! , Señor a permitir no vuelvas

Que de la helada indiferencia el soplo

apague la protesta en nuestros labios,

Que es el silencio hermano de la muerte

 

Y yo no quiero que mi Patria muera

Sino que , como Lázaro, 

       ¡Dios bueno!

Resucite a la vida que ha perdido;

Y, con voz alta , que a la gloria llegue,

Le diga al mundo que Galicia existe,

Tan llena de valor  cual tu la has hecho

Tan grande y tan feliz cuanto es hermosa

 Deixo este alegato rosaliano com expoente da defesa do ambiente polas mulheres e como ostra da rebeldia necessária perante a injustiça, seja esta contra os seres humanos ou contra a natureza.

Adela Figueroa Panisse

Adela Figueroa Panisse

Adela Clorinda Figueroa Panisse é de Lugo (Galiza), fazedora de versos, observadora do mundo e cuidadora de amizades. Trabalhadora no ambientalismo e na criatividade da palavra. Foi professora e lutadora pela recuperação da dignidade da Galiza e, ainda, pela solidariedade entre os seres humanos e a sua reconciliação com a terra. Gosta de rir, cantar e de contar contos. Também de escutar histórias, de preferência ternas e de humor.
Adela Figueroa Panisse

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