XOÁN ANTÓN PÉREZ-LEMA

Duas normativas para o galego?



texto de Xoan Antón Pérez-Lema extraído de El Correo Gallego

A Associaçom Galega da Lingua (AGAL), que preside Eduardo S. Maragoto, ven de propor intelixentemente a admisión en pé de igualdade, canda a normativa oficial da Real Academia Galega, da normativa do galego internacional, aquelando conscientemente o criterio de identidade co de utilidade e poñendo o foco tanto na pertenza ao galego ao tronco lusófono como o evidente dos seus caracteres diferenciais por mor da evolución histórica.

Compre dicir que tamén a RAG, dende a liña respectuosa co reintegracionismo que representan o seu presidente, Vitor Freixanes ou o seu secretario, Henrique Monteagudo, foi quen de se afastar de tempos pasados nos que se caracterizou por excluir da consideración cultural e intelectual a lingüistas e autores tan notábeis como Carvalho Calero (ogallá axiña se lle dedique o Día das nosas Letras que lle pertence) ou Marinhas del Valle, canda a xenreira de determinados académicos a respecto das persoas que lexitimamente usaban dunha opción alicerzada na filoloxía e na historia.

“Velaí que sexan tempos para xuntar esforzos. Tan galega é a escrita ILG-RAG de Manuel Rivas, Suso de Toro ou Xavier Alcalá como a reintegracionista e internacional de Teresa Moure”

Velaí que sexan tempos para xuntar esforzos. Tan galega é a escrita ILG-RAG de Manuel Rivas, Suso de Toro ou Xavier Alcalá como a reintegracionista e internacional de Teresa Moure e as dúas arrequecen a nosa literatura e a nosa lingua. Cómpre, pois, rematar de vez coa discriminación que outrora sofriron -e seguen a sofrir- na súa liberdade os autores lusistas.

Outro avance fundamental sería implantarmos a Lei Paz Andrade de vez, mais mudando un erro substancial que está a pexar a súa implantación nos seus cinco anos de vixencia. Como aqueladamente teñen observado Xavier Alcalá ou Henrique Sáez Ponte, o erro é considerarmos o portugués como lingua extranxeira, cando a súa aprendizaxe polo miúdo haberíase instrumentar nas aulas de galego, até chegar ao total dominio da nosa lingua e a un cumprido nível no portugués e no brasileiro.


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  • Miguel-Anxo Varela

    Nom podo estar mais de acordo! Penso que esse binormativismo seria uma grande notícia nom só para os galego-falantes (totais ou ocasionais) que ainda quedamos, senom tamém para a mesma saúde do idioma. Quem sabe se o binormativismo daria pé ao nascimento de um renovado orgulho pola língua do que temos neste momento tanta necessidade?

  • Venâncio

    Miguel-Anxo,

    A sua intervenção faz-me ver uma coisa muito clara: é que não não é claro o que deve, ou pode, entender-se por “binormativismo”. Com efeito, que normativa é essa outra, alternativa à da RAG?

    Vejo que existem dois cenários, e eles vivem maravilhosamente baralhados nesta discussão, correndo-se o real risco de nunca se vir a perceber de que é que faláveis.

    Mas primeiro isto. Que deve entender-se por “normativa”? Pergunto: trata-se de tornar normal circularem na Galiza duas ortografias ou duas normas?

    Como julgo tratar-se de normas, suponho que deve pensar-se, por um lado, na Norma RAG e, por outro, na Norma AEG (ex-AGAL), essa que Você usa. É que, se não for esse o cenário, a coisa muda radicalmente de feição!

    Falando claramente: se essa outra norma for a portuguesa, tereis não um “binormativismo”, mas um “trinormativismo”.

    Com efeito, existe uma norma gramatical, lexical e ortográfica portuguesa brasileira e uma norma gramatical, lexical e ortográfica portuguesa europeia.

    Conseguistes até hoje fugir a fazer escolhas nesse terreno. Mas, se realmente isso do “binormativismo” tem algum sentido, importa o mais cedo possível esclarecer o que deve concretamente entender-se por isso.

    Em suma: enquanto essa questão não for perfeitamente clara, o “binormativismo” continuará a ser o sexo dos anjos. Isto é: branco, branquíssimo, sem cor e sem conteúdo.

    Um abraço,
    Fernando Venâncio

    • Venâncio

      Um pequeno esclarecimento, talvez importante.

      A palavra “normativa” não diz muito (se alguma coisa disser) a brasileiros e portugueses. O Houaiss só conhece normativa como adjectivo, e o dicionário da Priberam nem a reconhece como ‘entrada’.

      Quando nos falais deste tema, tereis de explicar de que estais a falar.

  • Venâncio

    A existência das duas normas do português ‒ a brasileira e a europeia ‒ é o grande tabu do Reintegracionismo galego. Nunca falais nisso. Aquilo que para nós é um tema pacífico, e até altamente interessante, nunca surge em nenhuma intervenção reintegracionista, seja em debates na Net, seja em artigos de revista, em crónicas no PGL, e até nos grossos volumes que produzis. Falais do português como se existisse uma só norma, o tal «português-padrão» a que amiúde vos referis.

    Como sou linguista e sou vosso amigo, vou-vos dar uma pequeníssima ideia daquilo de que se trata. Deixo de lado o complicadíssimo (mas fascinante) terreno das “formas de tratamento”, deixo de lado um imenso léxico e uma importante semântica em que brasileiros e portugueses não coincidem, e frequentemente se desentendem, e vou dar-vos alguns exemplos dum outro domínio de irredutabilidade das duas normas: a sintaxe.

    As frases seguintes são a expressão normal e dominante no Brasil, aceites (claro!) por todas as gramáticas brasileiras. Pois bem, nenhuma dessas frases é aceitável em Portugal. Estamos, atenção, a falar de sintaxe, portanto da ordem dos elementos da frase.

    «Onde ela está?», «Quando eles chegam?», «Como ele soube?»

    «Ela se casou», «Me enganei», «Te levo em casa». «Preciso me alimentar»

    «Estamos nos habituando», «Ele terá se esquecido».

    «Seu marido vem já», «Conhecemos nossos direiros», «Eles moram em nossa cidade».

    «O jornal ela comprou», «Esse filme eu vi».

    São simples exemplos, e eu poderia prosseguir longamente. O importante é isto: nenhum português fala assim. E contudo, para um brasileiro, essas são as formas mais normais de expressão.

    Vou comentar só dois dos casos acima.

    Estamos nos habituando exige, em português europeu, um hífen (um tracinho) entre verbo e pronome. E nesse caso obtém-se «Vamo-nos habituando». Mas não é tudo ainda. O brasileiro não usa hífen porque pode fazer algo que, em Portugal, é impossível: inserir um elemento entre o verbo e o pronome, dizendo «Vamos JÁ nos habituando», «Vamos TAMBÉM nos habituando».

    Ele terá se esquecido</b» não se resolve em Portugal pondo um hífen, pois «Ele terá-se esquecido» é aceitável em galego, mas não nas duas normas do português. Mais uma vez: o brasileiro pode inserir aí um elemento: «Ele terá OUTRA VEZ se esquecido», «Ele terá COMO SEMPRE se esquecido». Estas construções não são aceitáveis em Portugal. Mas há mais; em português europeu, seria obrigatória a mesóclise, dizendo «Ele ter-se-á esquecido». Na prática, evitamos este tipo de construção, preferindo dizer «Ele há-de ter-se esquecido».

    Enfim, isto para dar-vos uma pequena ideia desta realidade: a tal «norma internacional», o tal «português-padrão», simplesmente não existem. São uma invenção vossa, reintegracionista, uma criação puramente ideológica, sem contacto com a realidade.

    • Carlos

      A mesóclise é um claro exemplo de divergência entre o português de Portugal e o do Brasil. Neste último país, a mesóclise é, certamente, umha grande desconhecida. Da mesma maneira, também o padrom reintegracionista galego desaconselha o uso dela.
      Já agora, é extremamente raro ouvirmos mesóclises nas falas populares de Portugal? Sabia que os falantes portugueses costumavam procurar outras soluçons alternativas, mas desconhecia a intensidade disto. Às vezes aparece algumha mesóclise ou nom?
      Em relaçom com isto, também podem aparecer num registo coloquial construçons sem mesóclise? Ou seja, podemos ouvir um português a dizer chamarei-te ou diria-te?
      Abraços, Venâncio.

      • Venâncio

        Caro Carlos,

        Como eu disse antes, também nós, portugueses, evitamos a mesóclise na expressão espontânea. Ela é marca dum discurso formal. Dito doutro modo: no momento em que uso uma mesóclise (o exemplo mais banal é «dir-se-ia que…»), damos a entender que entrámos num “formal mode”. 😉

        Respondendo à sua pergunta: essas soluções, «chamarei-te» ou «diria-te», deixaram de ser gramaticais em português, seja no brasileiro seja no europeu. Foram usuais entre nós até cerca de 1500, mas hoje só sobrevivem no galego.

  • Venâncio

    A proposta do binormativismo é óptima, e eu espero que tenha sucesso. Mas (e mais uma vez) essa proposta tem de ser clara.

    A existência de DUAS NORMAS (gramaticais, lexicais, pragmáticas, ortográficas) do Português não vos permite apresentar – como alternativa à normativa RAG – a “norma portuguesa”, que simplesmente não existe.

    Só tendes duas opções:

    – ou escolheis uma das duas normas do Português, a brasileira ou a europeia,

    – ou escolheis a Norma-AEG (ex-AGAL).do Galego.

    Não existe nenhuma possibilidade de fuga a esta escolha. Pensar que existe é perda de tempo e… quem sabe, perda desta oportunidade.

    Se aceitais um conselho de amigo, direi que escolhais a segunda opção.

    • Venâncio

      P.S.

      Eu conheço um fantasma que vos povoa a mente. Este: quem sabe, quem sabe, um belo dia, brasileiro e português começam novamente a aproximar-se…

      Não alimenteis ilusões, amigos. O processo de afastamento que as normas brasileira e portuguesa há muito tempo iniciaram não tem retrocesso, e está mesmo em aceleração. Quem observa os factos não tem dúvidas a tal respeito.

      E, sobretudo, não projecteis sobre isso a sombra do espanhol, que conheceu uma história linguística colonial inteiramente diferente. Já o expliquei, não vou repetir.

      Podemos lastimar que a nossa história tenha sido aquela que foi: com isso não adiantamos nada. O primeiro passo para fazer escolhas adequadas é limpar as teia mentais: o lirismo, a nostalgia… e agarrar com força a realidade que está diante dos nossos olhos.

  • Venâncio

    Proponho um pequeno exercício pascal. Tomemos a seguinte frase:

    Se os médicos podem se recusar, porque a população deve se conformar?

    A primeira pergunta será: a qual das duas normas do português pertence esta frase? Isto é, ela é gramatical como frase brasileira ou como frase europeia? Atenção: trata-se de SINTAXE, e não de “ortografia”. Pois bem, volte a ler a frase e tente dar uma resposta.

    *

    A resposta é: essa frase é gramatical só na norma brasileira.

    *

    Bom, agora vem a segunda pergunta: como se constrói em Portugal aquela frase?

    Primeiro: o português europeu inverte a ordem sujeito-verbo após um elemento interrogativo. Diz portanto

    … porque deve a população…

    Depois, existem duas possibilidades quanto à colocação dos cliticos:

    – ou se esolhe a «ênclise» (isto é, coloca-se o clítico depois dos dois verbos), e esta é a escolha mais ‘formal’, sendo o resultado

    >i>Se os médicos podem recusar-se, porque deve a população conformar-se?

    – ou se escolhe a «próclise» (isto é, coloca-se o clítico antes dos dois verbos), e esta é a escolha mais ‘informal’, sendo o resultado

    >i>Se os médicos se podem recusar, porque se deve a população conformar?

    Por fim, a cereja em cima do bolo: nada impede um português de, num dos casos, usar a ênclise e, no outro, usar a próclise.

    E se alguém lhe disser novamente que o Português tem “só uma norma gramatical”, mande-o dar uma volta muito, mas muito longa ao bilhar grande.

    Boa Páscoa!