O FUTURO POSSÍVEL

Diferenças e igualdade



Alguém dizia um dia que somos diferentes e por isso a igualdade entre as pessoas não pode existir. Da mesma maneira nos ensinaram a pensar sobre a língua: O galego é diferente do português e por isso a igualdade ortográfica, normativa, linguística, não pode existir. O que é diferente não pode ser igual. Mas que é o diferente?

Eis duas meninas que por sangue pertencem à mesma família, mas por circunstâncias moram em distintas comarcas da Galiza. Uma delas vai visitar a outra num dia assinalado. Há uma festa e, com parentes chegados de toda a parte, o clã inteiro se reune em torno da casa original. Se por acaso fosse na Peregrina, Compostela, haveria uma menina de Verdia e outra da afastada Arca de Taveirós. As duas da mesma idade, as duas co-irmãs de tranças trigueiras e meixelas rosadas. As duas galegas de língua e de vivos olhos brilhantes.

Depois do banquete, mediando a tarde ensolarada e morna, entanto a gente farta se abandona à aguardente e à conversa, as duas crianças brincam na eira diante da casa, e depois na horta por entre as legumes, e brincam mais além, perto já da palheira, e longe do rebúmbio avistam, brincando, a leira da vizinha. Ali, uma formosíssima maceira oferece nos seus braços uma multidão de saborosas e ruivas maçãs.

A ideia não demora, é preciso subir ao valo de pedra para pegar as maçãs lindas. Pensando a melhor maneira de o fazer, a de Arca levanta pé e braços, pedindo ajuda para iniciar o movimento de elevação: – Apolita-me, apolita-me!. A de Verdia fica perplexa e, não entendendo, ignora a petição soltando um equivalente: – Afinca-me, afinca-me!, que deixa uma cara de espanto na pequena companheira.

Como a surpresa de ambas é maior do que o apetite, passam uns instantes daquele jeito. Uma: -Apolita-me, apolita-me!, a outra:  -Afinca-me, afinca-me!, sem subir ao valo nenhuma das duas. No fragor da repetição o que elevam a cada passo é a voz, até fazer um barulho que acaba por chamar a atenção da vizinha, a qual decide ir botar uma olhadela nas maçãs. Ao senti-la chegar, as meninas fogem de mãos vazias, embora com a noção de terem descoberto algo muito mais interessante.

Há que conhecer o código. É o princípio de todo intento de comunicação. As nenas entendiam-se bem, mas teria saído melhor a aventura das maçãs se de antemão soubessem das suas diferenças linguísticas. As formas próprias da língua são boas, mas as comuns são completamente necessárias, até ao ponto de não podermos valorizar umas sem as confrontarmos com as outras. As relações entre o comum e o próprio, em Taveirós e na Peregrina, no Brasil e em Timor, devem conhecer-se e alimentar nosso mapa interno de vida.

A língua diz, mosqueteira: o meu é de todas, o de todas é meu. Porém, não deixamos de suportar dia após dia a ladainha oficial da diferença. Convém lembrar que o diferente e o igual não são perceções absolutas, que o desigual só aparece num contexto de igualdade. Como a beleza dum bordado na continuidade da tela, ou o brilho das estrelas no céu noturno, só podemos perceber as nossas diferenças na língua em que somos iguais.


(*) Opinião publicada originalmente no n.º 135 do Novas da Galiza, na seção Língua Nacional.

Isabel Rei Samartim

Isabel Rei Samartim

Mulher, música guitarrista, galega. Pensa que a amizade é uma das cousas mais importantes da vida. Aprendeu a sobreviver sem o imprescindível. Aguarda, sem muita esperança, o retorno do amor. Entanto isso não acontece, toca e escrevinha sob a chuva compostelana.
Isabel Rei Samartim

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  • Agostinho Magalhães

    Galiza ceibe!

    GALIZA

    Desde os tempos livres, gallaecia celtica,
    Do pisar do chão druídico Atlântico
    Clama o nosso povo a Liberdade
    Roubada por um povo estranho e bruto!

    Sobre os ossos dos avós da nossa Terra,
    Passeia a bruta gente degradante
    Roubando a nossa língua à nossa Gente
    Trazendo ao nosso povo infâmia e guerra!

    Que o clamor do nosso povo, dividido,
    Seja ouvido pelos homens bons do mundo
    E um deles, filho nosso, nosso Clã,
    Connosco queira à Terra Nossa Breogã!

    Lutam os galegos das letras dos arados,
    Lutam nas cidades nas vilas nas aldeias,
    Lutam pelo sol nos olhos espantados,
    Lutam p’la Galiza perfumada com ideias…

    Agigantam-se os Heróis da nossa Terra!
    Ondas de revolta expandem-se no ar…
    Levanta-se o povo a gritar e a cantar
    Que o ocupante negro e bruto haverá de expulsar!

    AGM

    • Isabel Rei Samartim

      Muito [email protected] por seu poema, admirado Agostinho Magalhães.

  • lgualíssimo Lusista

    “Um ano já passou desde a última festa familiar. Reunidos mais uma vez na mesma casa, o clã conversa após rematarem o jantar, que desta vez foi deslocado contra as sete da tarde,para não desfazer a igualdade lusófona. O avô, que parece o menos interessado nas mudanças que estão a afetar o país (ingresso pleno na Lusofonia), não quer contrariar à família, por isso tenta falar “igual”: «ó mulher, cadê as nenas?Marcharom embora?» E a mulher, um algo amolada por o homem a ter distraído da telenovela da Globo que estão a passar no meiodia brasileiro,responde-lhe: «Marcharam embora, sim, sei-que vão-che no horto e já rubiram na
    maceira da vizinha … »

    «Boeno — diz o velho — e já fixeches (sic) as compras?», e a velha lusista responde casual, «fi-las». O velho, que não entende mui bem a resposta, embora tenha trebalhado às agachadas coas brasileiras do puticlú da bisbarra, pensa que se quadrar havia muita fila no supermercado, e por isso a mulher não fez as compras … e coa mesma marcha embora decontado para o supermercado …

    Enquanto isso, as duas raparigas, que conseguiram afinal apoleirar-se na maceira, já perderam o interesse nas maçãs,e agora andam mui ocupadas a fuchicarem em cadanseu telemóvel, a textarem a outra co-irmã (que mora em outra bisbarra lusófona, no Macão). Não sabemos mui bem de que estarão a falar, mas o único que nos resta é esperar que, após comporem as suas mensagens em bom português, tenham o bom senso de os passarpor um corrector ortográfico, que decerto devem ter instalado no seu trebelho, para fortuna da igualdade na Lusofonia inteira … ”

    Isabel Rei São Martim (antigamente Isabel Rei São-Martim)

    «Cadê as nenas – Contos lusistas com final
    feliz»

    Rio do Janeiro – Lisboa – Dili – Corcubião

    (2015) Edições lussísimas

  • António Gil Hdez

    Sem dúvida: as línguas, nadas para comunicar, podem incomunicar, se os comunicadores procuram não comunicar-se… Procuram ou simplesmente se deixam arrastar pela inércia de incomunicar-se…

    • Isabel Rei Samartim

      Como sempre não são as línguas que incomunicam, mas os incomunicadores que argalham maneiras de ofender, maltratar e provocar o desânimo nas pessoas que as leva à incomunicação.

  • agal_gz

    Neste fio fôrom marcados como spam vários comentários de umha pessoa que utilizou diferentes alcunhas para fazer ‘trollagem’. Este mesmo usuário já foi banido em anteriores ocasions nos últimos anos polo mesmo comportamento. Agradeceremos que desista dessa atitude tam pouco construtiva.

    • Isabel Rei Samartim

      Ah, pois não cheguei a ver. Obrigada.

  • Paulo Soriano

    Todos sabem que Isabel Rei é uma música de talento extraordinário. Mas não apenas. Ela se revela uma escritora de mancheia. O texto de Isabel é um primor. Meus imensos parabéns!

    • Isabel Rei Samartim

      Obrigada pela amabilidade e o carinho, Paulo. Um abraço para ti e a Quequê.