Diego Bernal: “A onomástica mostra um fascinante ponto de encontro entre as identidade galega, portuguesa e brasileira”



O último livro da coleção Através da Língua, Apelidos da Galiza, de Portugal e do Brasil, já está nas livrarias galegas e portuguesa bem como na loja on-line da editora, portanto, é um bom momento para conversar com o autor, Diego Bernal, atualmente a lecionar língua galega na EOI Jesús Maestro de Madrid.

Antes de mais, Diego, que te motivou a abordares esta temática, agora livro?

img_3090É umha paixom de velho. Desde criança sentia curiosidade por esses apelidos que muitas vezes viravam nomes de pia. Todos nós crescemos entre Silvas, Pereiras, Vianas, Mendes, Nogueiras, Moreiras, Macedos, Seixas, Garcias, Penedos… Alguns som léxico comum outros palavras misteriosas. Porém, além do seu significado imediato, eu perguntava-me, de onde vem o costume de usar nomes de árvores ou animais como apelidos? Porque alguém se apelida Ledo, Santos ou Deus? Eram perguntas que me fazia e às quais fum procurando respostas. Pode ser cativante descobrir os enigmas do teu quotidiano.

O professor e divulgador Marco Neves, responsável polo prólogo, afirma que será “uma surpresa para muitos portugueses (…) ver os nossos apelidos em análise num laboratório galego. A verdade é que os nossos apelidos são, em grande parte, apelidos galegos”. Atreves-te a quantificar o grau dessa surpresa?

Ah, o Marco é que é a grande surpresa para nós. O lingüista mais lido e referencial de Portugal sempre a mostrar umha sensibilidade e carinho extraordinários para com o galego.

Quanto à pergunta que me fás, suponho que a surpresa nom é menor que a que sentimos nós ao passear pola baixa Lisboeta ou pola Zona Sul do Rio de Janeiro vendo os nossos apelidos nos nomes das ruas, dos comércios, da vizinhança… Eu admito que nisto sou igual a um neno, e apesar de ter morado dous anos em Lisboa e sete no Brasil continuo a emocionar-me cada vez que atravesso o Minho ou dou um pulinho na outra beira do Atlántico, igual que me emociono quando ouço crianças a falarem galego. Em todo o caso, se queremos que o galego viva mil primaveras mais era bom incluirmos Portugal e o Brasil nos nossos planos.

Apelidos há muitos, até talvez sejam umha realidade que tende para o infinito. Quais foram os critérios na hora de fazer a seleçom?

Nom diria infinitos, porque podem ser quantificados, mas com certeza som vários milhares.

A escolha foi feita seguindo critérios quer quantitativos quer de interesse lingüístico-cultural. Segundo o primeiro critério, fôrom incluídos apelidos corriqueiros da Galiza, Portugal e/ou Brasil. No resto dos casos, selecionei apelidos que apresentavam pormenores interessantes para melhorar a competência lingüística do público leitor ou para dar a conhecer curiosidades culturais ou etimológicas.

A escolha foi feita seguindo critérios quer quantitativos quer de interesse lingüístico-cultural. Segundo o primeiro critério, fôrom incluídos apelidos corriqueiros da Galiza, Portugal e/ou Brasil. No resto dos casos, selecionei apelidos que apresentavam pormenores interessantes.

 

O livro nom recolhe apenas o seu foco de atençom, os apelidos em si, como também informações de teor mais técnico para ajudar a quem o lê a navegar nesta área fascinante das línguas. Fala-nos um bocado destes capítulos e da tua motivaçom.

Tal e como dis, o livro tem duas partes: um breve estudo introdutório, cujos objetivos som familiarizar o leitor com a terminologia técnica desta área de conhecimento e debruçar-se brevemente sobre a formaçom dos nossos apelidos; e por outro lado, umha seleçom de apelidos onde se explica a etimologia, a origem e se fornecem dados sócio-culturais relacionados com eles.

O mundo da onomástica é complexo e nom é fácil apresentá-lo de umha maneira simples e clara ao leitor nom especializado. Tomara que este livro ajude nesse senso.

No livro nom apenas se descreve a origem de alguns apelidos como também nos informa de personalidades que os portam, ou portaram. Qual a motivação para integrares estas informações?

Os motivos som vários mas podem ser resumidos em dous pontos: o primeiro, é umha desculpa ótima para dar a conhecer personalidades notáveis das culturas galega, portuguesa e brasileira e contribuir para o diálogo intercultural entre os nossos países; o segundo, mostra um fascinante ponto de encontro entre as nossas identidades, visibiliza a proximidade lingüística dos nossos povos e sublinha o carácter ecuménico do galego, que por ser umha língua menorizada e estigmatizada precisa destes apoios.

O livro recolhe, ainda, a arte de Maurício Castro na forma de imagens ilustrativas. Fala-nos desta parceria.

Diego Bernal dando umha palestra sobre o galego e o português brasileiro na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Diego Bernal dando umha palestra sobre o galego e o português brasileiro na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Tenho a sorte de o Maurício, além de ser um magnífico pintor, ser um velho amigo. Eu já conhecia parte da sua obra e, ao perceber que alguns quadros podiam servir para ilustrar o livro, comentei-lho. Ele, com a sua característica humildade e generosidade, aceitou e ainda se ofereceu para acrescentar algum desenho a mais que tivo a gentileza de fazer ao longo destes meses. Entre eles destaco as ilustraçons de Vímara Peres, conde da Corunha e fundador do condado de Portugal; da heroína corunhesa Maria Pita ou o do nosso inesquecível amigo e camarada Afonso Mendes Souto, recentemente falecido.

Já para concluir, o que vai encontrar quem se debruçar sobre este livro?

Vai dar cumha porta de entrada a um mundo enigmático e apaixonante: a viçosa seara dos nossos nomes e apelidos. Um campo que lhe vai descobrir tesouros preciosos e fornecer dados de interesse sobre a nossa identidade individual e coletiva. Mas, sobretodo, vai achar altas doses de entusiasmo e amor pola nossa língua e cultura.

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim

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  • Joám Lopes Facal

    Estou desejando lê-lo, a onomástica e a toponimia guardam o recendo da história irrecuperável. Parabéns ao Diego, galego tropical.