‘Da Identidade à Norma’ Laiovento, 2017



DA IDENTIDADE À NORMA :
Língua, singularidade, consenso, antilusismo, reintegracionismo, jornalismo: de Galicia Confidencial a Sermos Galiza, Santiago de Compostela, Laiovento, 2007

Os autores:

Vitor Vaqueiro e Nicolás Xamardo, foto de perfil na Web de Laiovento

Nicolás Xamardo, galego que desde há muitos anos desenvolve sua vida privada e profissional em Euskadi. Licenciado em Filologia Románica pola Universidade de Compostela, em Linguística Geral pola de París VIII, e doutor em Filologia pola de Valhadolid. Professor titular do departamento de jornalismo da Faculdade de C.S. e Comunicação do País Basco. Discípulo de Lacan, Altthusser, Badiou e Derrida na Escola Normal Superior de París.

Vítor Vaqueiro, licenciado em Ciências Químicas pola Universidade de Compostela: após uns anos de exercício da docência no ensino médio decide dedicar-se à fotografía  arredor de que desenvolveu e impulsionou numerosas atividades. Em 2003 obteve prémio extraordinário de doutoramento na Faculdade de Ciências da Comunicação da Universidade de Compostela, pola tese “A obra fotográfica dos Pacheco”

 

identidade-normaPara os autores a existência de duas representações gráficas das falas galegas, que se apresentam como normativas em confronto sobre a nosa lingua, uma “oficial, quer dizer, com o apoio dos aparatos do estado espanhol” representada polo ILG e a RAG e outra reintegracionista (exprimida na norma Agal ou na integração galega no Acordo Ortográfico). Isso levanta, nos autores, a necessidade de oferecer-nos as razões do seu compromisso com esta segunda opção.

Cumpre salientar que não nos confrontamos com um ensaio de corte filológico; arrisco a dizer que o foco é sociolingüístico e/ou político-lingüístico. A exposição é maciça, rigorosa e muito didática. A racionalidade do discurso e o seu fio condutor lógico,  combinam com uma leitura muito cómoda e amena do texto.

O magistério e a originalidade da obra consiste, precisamente, em conciliar os dous focos, o sociolinguístico e o político, através da noção de identidade, conceito duma enorme complexidade de que os autores têm consciência.

Passamos, logo, a percorrer brevemente a trilha por onde estes nos conduzem.

Logo desde o começo vão mostrando, explícita ou implicitamente, uma série de categorias, conceptualizações, situações e mesmo dilemas que se inter-relacionam para construírem e desenvolver uma lógica argumentativa que nos vai acompanhar durante toda a leitura.

Deste jeito abrolham, de início, conceitos relevantes no dispositivo identitário como os de invariança ou os de assimilação. Dão-se referências ao nacionalismo banal assim como à capacidade adaptativa das diferenças. Referem-se também ao potencial emancipatório do nacionalismo cívico ou político. Aparece, pela mão de Badiou, o acontecimento coma mecanismo corrector dos componentes conservadores da identidade.  Mostra-se também como a identidade é muito singular, e como isso está ligado à decisão e à invenção.

À medida que avançamos na leitura constata-se a questão da lingua galega coma um dos fatores fulcrais da nossa identidade, e a não neutralidade e sim planificação num modelo que estataliza e submete as falas galegas à dependência da língua  que nos é  imposta, o castelhano. Reflete-se, a seguir, sobre a intencionalidade política subjacente no fato de a língua ser adjetivada como “minoritária ”, tanto no âmbito interior como na posição e projeção externa, para concluirem na vinculação que há,  entre a opção normativa e a identidade.

É muito interesante, de uma perspetiva histórica, a secção: “A quebra do consenso e a formulação explícita do antilusismo” que para os autores abrange desde a fundação da Editorial Galaxia até a publicação das “Normas ortográficas do idioma galego”, contrastivo  com os caminhos que estavam a pegar as falas galegas justo antes da sanguinária guerra terrorista impulsionada polos nacionalistas “castelhanos”, e o seu triunfo.

O antilusismo, é a subordinação a um padrão ortográfico castelhano (espanholizante).

Continuam analisando a criação do ILG, no mesmo ano que Ricardo Carvalho Calero é  nomeado catedrático, e a decisão ideológica-política do nomeamento do seu primeiro diretor, o professor Costantino González García, pessoa alheia ao país e absoluto desconhcedor do galego e suas falas, e o ostracismo a que foi submetido o professor Carvalho Calero primeiro catedrático de galego-português (esse era o nome da língua seguindo a tradição  galeguista, que ele reclamou na criação da cátedra). Faz-se abordagem, também, do trânsito de diversos intelectuais para as posturas isolacionistas até chegarem às perspectivas contemporâneas discrepantes.

Achamos, também, uma contestação do relato que sustenta a noção de “normativa oficial ou galego normativo”, como monopólio normativo, e que já fora invalidado como discriminatório por sentença do TSJG em cujo Acórdão estabeleceu que a normatividade só pode ter efeitos dentro da Administração. Resulta também rechamante, e objeto de reflexão, o superior peso de que desfruta o português na Estremadura do que na Galiza.

Cumpre salientar, ao mesmo tempo, o ilustrativo da  análise que realizam os autores do confronto entre as opções Galicia vs Galiza como nome do país, e tudo o que isso envolve.

A última parte da obra, inclui um trabalho de pesquisa sobre a realidade, quer dizer, um caso prático em que analisam quatro jornais on line:   Galicia Confidencial,  Galicia Hoxe, Praza Pública e Sermos Galiza. Nele examinam e correlacionam quantitativamente a qualidade do idioma usado nesses meios a fim de poderem estabelecer alguma possível correlação entre a dita qualidade e a posição sobre o padrão lingüístico empregue, constatando uma significativa diferença de grau entre as publicações.

Finalizam questionando a fórmula de primeiro normalizar para depois aperfeiçoar, concluindo com um final, quando menos, preocupante.

É um livro que, com certeza, não vai deixar indiferente nenhum leitor.

Leia.

Henrique del Bosque Zapata

Henrique del Bosque Zapata

Ourense, 1959. É mestre e licenciado em Direito. Na actualidade exerce a docencia no IES de Mos. Publicou livros como 'Lexislación para o profesorado' (Xerais), 'Guía dos dereitos do profesorado' ou 'O dereito de autodeterminación: Un potencial democrático'. Tem colaborado em diversas revistas e publicações, comoTerra e Tempo, Praza pública,Sermos Galiza, A Nosa Terra, Vieiros.
Henrique del Bosque Zapata

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  • Ernesto V. Souza

    Claramente, cada dia somos mais… e mais diversos 😉

    Bem-vindos…

  • abanhos

    Eu já lei o livro, e ele todo é sensancional, e muito interessante, sobre todo por não estar feito desde perspetivas simplesmente filológicas.
    As opções de submetimento ao castelhano nunca foram nem são um acaso ou a opção de umas pessoas, se não a escolha que interessa e defende castela/erspanha.

    Os autores sabem que além da liberdade individual, está o nosso caldinho qque comemos cada dia, e se essas pessoas não tivessem a opção que tenhem “livremente”, não teriam ordenado a fim de mêes.

    A cousa é dura e assim de simples.

    • Galego da área mindoniense

      Tenhem ou têm?

  • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

    Hei de ler.

  • Ângelo Cristóvão

    Parece interessante, começando polo título, que dá jogo.
    Poderíamos fazer uma sequência como esta: Da identidade à norma, e da norma ao desastre. E tudo isso sem que ninguém assuma responsabilidades.

  • Galego da área mindoniense

    Para os autores a existência de duas representações gráficas das falas
    galegas, que se apresentam como normativas em confronto sobre a nossa
    língua […]
    Duas? Eu diria catro:
    – A da RAG, arestora “oficial”.
    – A da AEG e histórica da AGAL
    – Esta: https://umnovoreintegracionismo.wordpress.com/normativa/
    – A da AGLP (adaptaçom do Acordo Ortográfico)
    Logo, tamém há híbridos antre estas opções.