Crónica de um genocídio anunciado



Parafraseando o título da obra de Márquez “Crônica de uma morte anunciada”, o que estamos a viver no Brasil, poderia ser pensado enquanto uma crônica de um genocídio anunciado. Da mesma forma que o autor faz em sua crônica, anunciamos o fim da trama logo no título: mais um genocídio de povos indígenas, quilombolas, povos da floresta, negros, pobres, e assim por diante.

Neste caso não é a morte de Nassar, mas de coletivos, muitos e diversos. Cada perca é um indivíduo, um nome, uma história e por isso nos remeter ao título do livro de Márquez vale, juntando a palavra genocídio.

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Indígenas yekuana e yonomami demandam atenção médica | Joedson Alves

Levanta-se aí um foco de tensão que é estrutural e que diz sentido aos usos de categorias globalizantes como indígena, por exemplo. No entanto, penso que neste momento, devido à falta de rigor no que diz sentido ao tratamento das vítimas, sendo divulgados unicamente números indiscriminados, colocar em xeque a diversidade é de fato relevante. Quem está morrendo, preferencialmente pelo COVID, são os grupos que não têm apartamentos, nem repercussão na mídia, nem togas e colarinhos e nem possibilidades de pagar um avião medicalizado particular para ser tratado em um dos hospitais privados de São Paulo.

Aos que moramos no Brasil e estamos em contato com as pessoas que pertencem a algum desses grupos, no momento em que soubemos da dinâmica da doença, a preocupação nos assolou, sabíamos que a dor, poderia se arrastrar por muito tempo, e que se não havia medidas claras, os nomes de conhecidos, conhecidos de conhecidos iriam chegando. E, infelizmente assim foi, assim está sendo.

Se num primeiro momento as cidades eram as mais atingidas pelo Covid-19, o chamado interior, dependente da transmissão comunitária veio a reboque. Como sempre acontece, quando as cidades (signos do capitalismo selvagem e de todos os aparatos do estado) são atingidas, medidas são criadas. Assim, da mesma forma que nos demais países ouvimos falar de hospitais de campanha e compra de respirador, etc. Já quando a pandemia vai caminhando para esse “interior” as medidas começam a ser desmontadas e a imagem mais clara são os hospitais de campanha sendo encerrados. Casualidade ou não, o que vemos é uma atualização desse descaso sistêmico com o que não é urbano. Os habitantes desses lugares, possuidores de alteridades que não são, nem ocupam, majoritariamente, os lugares de atenção do capital que é urbano-centrado, começam a ser novamente esquecidos, silenciados, maltratados.

Como sempre acontece, quando as cidades (signos do capitalismo selvagem e de todos os aparatos do estado) são atingidas, medidas são criadas. Assim, da mesma forma que nos demais países ouvimos falar de hospitais de campanha e compra de respirador, etc. Já quando a pandemia vai caminhando para esse “interior” as medidas começam a ser desmontadas e a imagem mais clara são os hospitais de campanha sendo encerrados.

Um outro aspecto silenciado, é o trending topic da COVID, o líder mais aclamado da pandemia pela OMS, o tal do isolamento social.

Retornamos de golpe ao título do livro de García Márquez, se olharmos para os ocupantes das estruturas do Estado, negacionistas raiz, sabíamos que antes ou depois o genocídio no Brasil estava sendo anunciado. Havia esperanças que não acontecesse,

Mas, ele já está em curso.

O isolamento social foi negado desde o começo da pandemia, assim como a batalha dos remédios que um paraquedista do exército decidiu tomar pra si como cura milagrosa, além de claro, estarmos há quase 3 meses sem ministro da saúde, nas palavras do presidente de ontem, temos um técnico ocupando essa cadeira.

Agora, que esperar de um indivíduo que na campanha eleitoral, ainda presidenciável repetia pra quem quisesse ouvir que não iria demarcar um centímetro a mais de terra indígena, que as áreas de conservação eram terra sem uso, que os indígenas devem explorar as riquezas de suas terras, que os quilombolas podem ser pesados em arrobas, que o apartamento que ele tinha como deputado federal em Brasília era ótimo para comer mulheres, etc. e, as não menos desagradáveis (criminais) afirmações acerca da ditadura militar e dos seus sicários, esses sim sempre enaltecidos. Os militares, e com esse tema sim que ficam sérios quando se trata de defender a honra deles, nem uma crítica a ser feita, só serviço em nome do bem, dos cidadãos e do Estado. Diante dessa série de depoimentos facilmente rastreáveis pelo oráculo google, chegamos ao presente.

Diante da pandemia, que exige quanto menos responsabilidade e altura de miras, que podíamos esperar?

Os presságios do genocídio, mais do que publicizados são técnicos, como muito bem sabem fazer os militares.

Fato é que apesar do funcionamento da máquina propagandística do Estado (Chomsky) e suas novas funcionalidades comunicativas, ainda não entendidas, como as redes sociais e o whatsapp, os panos quentes não são suficientes. O caos está cada dia mais certificado e, as notícias nos começam a indicar que o genocídio parece estar planificado. Falar que o presidente vetou o uso obrigatório de mascarilhas, que animou aos seus seguidores a invadir hospitais para mostrar como havia leitos vazios, e que criticou, de forma veemente que a morte por outras doenças respiratórias seriam mais um motivo para aumentar o número de casos da Covid. Essa é, segundo ele a batalha que estamos travando, contra a pátria.

O caos está cada dia mais certificado e, as notícias nos começam a indicar que o genocídio parece estar planificado. Falar que o presidente vetou o uso obrigatório de mascarilhas, que animou aos seus seguidores a invadir hospitais para mostrar como havia leitos vazios, e que criticou, de forma veemente que a morte por outras doenças respiratórias seriam mais um motivo para aumentar o número de casos da Covid. Essa é, segundo ele a batalha que estamos travando, contra a pátria.

Se a propaganda já nos mostra o tamanho da insensibilidade do atual chefe do governo, o que dizer de alguém que nega água potável? Eliane Brum entrevistou a jurista Deisy Ventura e, acredito que explique bem ao que quero referir, deixo um trecho da entrevista abaixo destas linhas (disponível aqui:

P. E Bolsonaro vetou a garantia de acesso à água potável aos povos indígenas…

R. Muita gente ficou chocada com o fato de o presidente da República vetar a garantia de acesso à água potável. Mas, se nós formos ler o conjunto dos vetos, vamos ver que vai muito além de uma suposta crueldade com relação à água. Foi vetada a obrigação de organizar o atendimento de média e alta complexidade nos centros urbanos, foi vetado o acompanhamento diferenciado dos casos que envolvam os indígenas, inclusive foi vetada a oferta emergencial de leitos hospitalares e de UTI. Foi vetada a obrigação de aquisição ou disponibilização de ventiladores de máquinas de oxigenação sanguínea, foi vetada a inclusão dos povos indígenas nos planos emergenciais de atendimento dos pacientes graves das secretarias municipais e estaduais, que inclusive obrigava o SUS a fazer o registro e a notificação da declaração de raça e de cor. Com este veto, se tenta dificultar a identificação dos indígenas atendidos no SUS. Veja como a comunicação é importante… Foi vetada a parte da obrigação de elaboração de materiais informativos sobre os sintomas da covid-19 em formatos diversos e por meios de rádios comunitárias e de redes sociais com tradução e linguagem acessível. Isso foi vetado. Foi vetada a obrigação de explicar para os indígenas a gravidade da doença! Foi vetada a obrigação de oferecer pontos de internet nas aldeias para não ser preciso se deslocar aos centros urbanos. Foi vetada a distribuição de cestas básicas, de sementes e ferramentas agrícolas a famílias indígenas. Por isso, eu afirmo: a questão vai muito além das frases de efeito, vai muito além de tudo aquilo que é promovido pelo Governo Federal para insuflar a sua base de apoio a odiar as instituições, a odiar os partidos de oposição, a odiar a população que é considerada por eles inferior e subalterna, como indígenas e negros, aqueles que atrapalham seus interesses e são considerados por eles um obstáculo do ponto de vista da racionalidade econômica que eles defendem.

Joédson Alves

Joédson Alves

Diante de tamanha crueldade e predisposição ao extermínio, não é difícil pensar novamente naqueles coletivos citados no começo do texto.

São afinal de contas esses grupos historicamente invisibilizados que podem ser os 30.000 aos que Bolsonaro se referiu em uma entrevista na televisão Bandeirante em 1999, o problema é que hoje lá vão (com todos os erros de contagem) mais de 90000 brasileiros e brasileiras.

Se mais de 500 anos de saque sistemático bem descrito no clássico de Galeano da década de 1970, anos de escravidão e humilhações, esquecimento sistemático, extermínio ou eliminação por parte do Estado, o que será Bolsonaro para esses grupos? Se toda ação tem sua reação, é isso que também estamos aqui vivenciando.

Nos vimos surpreendidos com a rápida e eficiente resposta de diversos coletivos que se auto-organizaram. Heliópolis a maior favela de São Paulo, organizou equipes de saúde próprias que iam pelas casas medindo a temperatura das pessoas e caso estivessem com sintomas da covid eram isolados e as famílias assistidas pelas associações que angariavam recursos em múltiplas campanhas de arrecadação de dinheiro. Isso obrigou ao Estado de São Paulo a abrir um hospital de campanha lá.

Nos vimos surpreendidos com a rápida e eficiente resposta de diversos coletivos que se auto-organizaram. Heliópolis a maior favela de São Paulo, organizou equipes de saúde próprias que iam pelas casas medindo a temperatura das pessoas e caso estivessem com sintomas da covid eram isolados e as famílias assistidas pelas associações que angariavam recursos em múltiplas campanhas de arrecadação de dinheiro. Isso obrigou ao Estado de São Paulo a abrir um hospital de campanha lá.

O MST está desde o começo da pandemia doando alimentos agroecológicos lá onde estão. Os grupos indígenas como os Munduruku do Tapajós através da associação Pariri estão com campanhas na internet para aquisição de equipamentos de proteção individual, alimentação e diversos kits. Infelizmente, o Estado não conseguiu controlar os madeireiros e garimpeiros que ocupam e invadem as suas terras.

Os beiradeiros da Terra do Meio também do Pará ofereceram os seus produtos às famílias mais necessitadas de Altamira aonde construíram a barragem de Belo Monte acabando com o rio e o meio de subsistência de milhares de famílias.

Tem milhões de pessoas que sabem que este Estado não faria nada por eles, não é esperado por muitos, pois, nunca fez nada por milhões de seus concidadãos.

E quem sabe, desde aí poderemos começar a imaginar e inventar um outro mundo, em que caibam os mundos das pessoas que não entendem a terra como uma mercadoria, que não vem num rio quilowatts, que têm nas pedras confidentes, que querem ser tratados, ouvidos e assistidos como são no momento os detentores de cargos, chefes de corporações, os ricos com dólares etc… somente dessa forma poderemos algum dia pensar em que outras lógicas de mundo, pluriversos, como diz Arturo Escobar, possam falar tudo o que têm a dizer.

Numa recente entrevista Ailton Krenak refletia acerca da natureza da pandemia, e deixava uma pergunta no ar: será que nos humanos seremos capazes de ver que a pandemia só nos ataca a nos? Afinal, a crônica da morte é anunciada todo dia, com pandemia ou sem ela.

Diego Amoedo

Diego Amoedo

Nascido no Condado, natural da aldeia das Cortellas. Formou em Engenharia Técnica Florestal pela UVigo em 2007. Em 2014 finalizou o mestrado em Antropologia Social na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP, Brasil) e em 2019 se doutorou na mesma universidade. Os temas de pesquisa abordados no mestrado foram os usos e desusos das terras da aldeia de Tourém (Montalegre, Alto Barroso, Portugal). Foi vencedor do XXII Prêmio Vicente Risco das Ciências Sociais (2018) sendo publicado o seu livros: "Usos e desusos das terras de Tourém: transformações sócio-territoriais numa aldeia rural fronteiriça do Norte de Portugal com a Galiza" (Dr Alveiros, 2018). Já no doutorado o foco de sua pesquisa foram os conhecimentos mobilizados no sistema agrícola das aldeias de Tourém e Pitões das Júnias (Montalegre, Alto Barroso), os usos das terras, as culturas e suas historicidades. Desde dezembro de 2017 é professor de Antropologia na Universidade Federal do Oeste do Pará (Brasil) e pesquisa os sistemas agrícolas tradicionais e os usos das terras e das águas principalmente de populações tradicionais e indigenas.
Diego Amoedo

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  • conavirus

    Só que o conavírus nom mata. Mata é o confinamento e negar os idosos com gripe a hydroxicloroquina assi como drogá-los e meter-lhes tubos nas traqueias …

    • conavirus

      O genocídio é o que estám a fazer as elites globalistas com todos nós, mas visto que a gente nom o vê nem o quer ver, preferendo acreditar nas alburgadas e propaganda dos «prestitutos», haverá que se perguntar se isto nom é, em realidade, «suicídio».

      Bem, fique claro que houvo quem vos avisou, e que o nom queredes pescudar a realidade é um acto volitivo inteiramente vosso.

  • conavirus

    O conavírus este só afecta os idosos com problemas sérios de saúde, sobretudo se vivirem em lugares de alta poluiçom atmosférica (China, Lombardia …) e tiverem hábitos de vida pouco saudáveis. Ora, os indígenas do Brasil parece-me que nom tenhem nengum desses condicionantes (na medida em que nom tenham já sido influenciados polo modo de vida ocidental moderno). E como o Covid19 nom fai muita diferença respeito ao resto de coronavírus existentes (contrariamente ao que di a propaganda criminosa dos nossos mídia) é de esperar que seja o mesmo assunto cos indígenas. Ou seja, o que em anos anteriores funcionou ou nom funcionou nas suas terras, igualmente funciona ou nom neste ano. Isto é, se hai um aumento da mortalidade na povoaçom indígena, será polas mesmas razões que no resto da populaçom: a política criminosa dirigida polos psicopatas criminais das grandes farmacéuticas e o seu campiom Bill Gates, coa ajuda da OMS. Bolsonaro é nisto o monicreque de turno, tal coma os líderes do resto dos paises…