UM QUEIPO NO LAR

Cousa de raízes



No domingo 8 de junho foi apresentada ao público a nova campanha de ADEGA em defesa das nossas florestas. Como habitantes sensíveis da Galiza e, ainda, por sermos um grupo ecologista, manifestamos a nossa grande preocupação pelo deterioração ambiental da nossa Terra. Nomeadamente, pelo que diz a respeito das massas florestais mais nossas, como as que formam os soutos, carvalheiras,  etc., carvalhos, castinheiros, nogueiras  freixos, vidoeiros, amieiros… Quer dizer, as massas arvoradas caducifólias.

É bem sabido que estas árvores crescem mais lentamente do que o faz o eucalipto, mas elas representam a nossa paisagem mais reconhecível, a que está metida na nossa memória coletiva e afetiva. A que identificamos como fazendo parte da nossa cultura. As árvores de folha caduca ( e os pinheiros…), estavam cá antes de que os romanos invadiram as nossas terras e antes de que a ditadura do capitalismo mais selvagem nos invadirae na atualidade. Agora, para onde quer que olharmos, a nossa vista afaga-se na monotonia das massas de monoculturas de eucalipto, nomeadamente na costa.

É esta uma luta desigual, porque os eucaliptos crescem a grande velocidade para ser cortados em turnos de 15 anos e, ainda, às vezes menos. A plantação de eucaliptos é uma prática que está apoiada pelos mesmo poderes que fomentam a colonização cultural e econóômica do nosso País. As fábricas de celulose, como o é a de Ponte Vedra, estão interessadas em que haja grande produção (oferta) e , na prática do seu monopólio, poderem  fixar os preços à baixa. Não se importam com a descida da biodiversidade —quer animal, quer vegetal—, nem com a desaparição da cultura tradicional, diversa e rica que sabia cultivar carvalhos ou castinheiros de maneira equilibrada e sustentável. Não se importa também com o abandono do rural, porque desta maneira fica mais campo para fomentar a cultura do eucalipto —velhos e poucos, os habitantes vem nesta planta uma boa solução para um último uso das suas terras, que já nem podem trabalhar—. O território fica pouco a pouco em mãos das multinacionais que sabem manejar melhor uma monocultura do que a diversidade que sempre caraterizou o rural galego. Os incêndios tampouco lhes preocupam tanto. Acabam por ser, nos seus inventários, danos colaterais , perdas contáveis.

Mas nós sabemos que um outro mundo é possível, que é factível o convívio das tradições com a capacidade de vida no rural. Que se pode combinar respeito pela natureza com qualidade de vida. Não queremos perder as palavras em que se exprimem os nossos saberes tradicionais. Que o tema florestal e de cultura do monte é, sobre tudo, uma questão de vontade política. Na Eira da Xoana escutámos várias experiências que se estão a pôr em andamento e que representam uma esperança para a nossa floresta e para o nosso agro:
Alibós, a empresa que facilita a plantação de massa de castanheiros; Asporcel, a Associação do Porco Celta que combina a sua cria com a cultura dos soutos e das carvalheiras; as comunidades dos Montes Vicinais e de Mão Comum, que defendem um uso diversificado dos montes; a FRUGA, que unifica a muitos produtores agrícolas e defende a diversidade de produção no rural; e muitas associações mais assim quanto os grupos ambientalistas, em geral, que defendemos um rural vivo porque sabemos que só os habitantes serão quem o vão manter para as gerações  futuras.

Fazemos votos porque assim seja. Com a nossa força e com a força da razão.

 

AO CARVALHO DA EIRA DA XOANA

Grande árvore és tu, Carvalho da Eira da Xoana
A teu carão  amoroso
Milheiros de almas dançam
Nas noites de luar, nas beiras
Do caminho que tu governas,
Ou no amanhecer cinzento
de tantos invernos que tu já viveras.
Árvore formosa
Quercus , herança dos celtas
Que aos teus pés cantaram
Cantos de amor e de guerra
Magnífica árvore nossa, árvore senlheira
Por seres refugio
De boas e generosas mulheres galegas
A boa gente de ADEGA.
Ao teu pé hoje celebramos
A tua vida,a tua nobreza
As tuas sombras, as tuas luzes
as tuas certezas.
Na verde borda sinuosa das tuas folhas
Meu pensamento se perde
Se ondula, cresce
Com o cantar do vento entre delas.
Nos solpores de cobre
que no verão te alumeiam
vejo eu o olho do sol
que me leva até Fisterra.
Leva-nos nas tuas pólas
até à noite das Trebas
Da Kalaikaia Velha,
Árvore matricial
Da nossa Terra Mãe Galega.

Adela Figueroa Panisse

Adela Figueroa Panisse

Adela Clorinda Figueroa Panisse é de Lugo (Galiza), fazedora de versos, observadora do mundo e cuidadora de amizades. Trabalhadora no ambientalismo e na criatividade da palavra. Foi professora e lutadora pela recuperação da dignidade da Galiza e, ainda, pela solidariedade entre os seres humanos e a sua reconciliação com a terra. Gosta de rir, cantar e de contar contos. Também de escutar histórias, de preferência ternas e de humor.
Adela Figueroa Panisse

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  • Isabel Rei Samartim

    Caríssima, de cinco tu és a única mulher. Um artigo sobre as árvores, sobre a natureza. Sobre o respeito e devoção de filhas que lhe devemos. Somos filhas da madrugada e das florestas e parece que as mulheres temos isso mais presente, damo-nos conta disso. Um artigo, também, sobre o ativismo, sobre o teu ativismo social, com convite e poema incluído.
    Ao teu redor vejo homens, muito masculinos todos (suponho que se sintam louvados por este adjetivo). E todos eles têm a minha simpatia, todos, humanos que são. Espero que não lhes importe que só te comente a ti (se se sentirem preocupados por isso também comentarei nos textos deles, varonis). Há um artigo que debate sistemas de governo, se monarquia ou república, se estado ou não estado galego, europeu, artigo de atualidade com tema muito próprio de homens, por algo levam séculos governando. Há outro que entra em diálogo com outros homens e fala de pensamento e duma Castela de origem galega, como se a raiz que ele semeia fosse impossível de arrincar, tema muito próprio de homens guerreiros e viris. Também há outro artigo que adverte dos perigos do neonazismo, que denuncia o conceito de homem tal qual o conhecemos, branco, heterosexual, burguês, profissional, enfim, os homens com quem nos casamos e temos filhos que são como eles. Tema muito próprio também de varões varonis, mas sem contar o que é que fazem com esse pequeno ditador que [email protected] levamos dentro.
    Dentro da corte que te arrodeia, querida, tens também aquele homem que foge dos estereótipos mais evidentes e fala do amor, ainda que não dum amor de carne, ou de fogo, não fala do seu ventre (do dele) ardendo no amado, ou na amada, ou das báguas e dos vazios que o amor profundo ocasiona no seu fraco corpo. Não, ainda que mais refinado, é um tema varonil, portanto não vai falar de árvores que as árvores não amam. Fala do amor quebrado, da tristeza da mulher que fica sozinha, do lamento feminino. Curioso que por todos estes homens eu guardo um profundo respeito e nalguns casos devoção e gratitude. Espero que não se incomodem por eu ter feito este comentário, querida Adela. Vejo-te a anos luz deles, sempre por cima, a compreender e indicar caminhos que outros nem enxergam. Obrigada por estares aí.

    • Miro Moman
      • Isabel Rei Samartim

        Há que aceitar as diferenças dentro dum contexto de igualdade, já o dizia eu nalgum artiguinho por aí… Botar-lhe a culpa ao ADN da nossa falta de análise sobre nós próprios para assim evitar ter que mudar alguma cousa da nossa atitude, carácter ou ações, não é solução, caro.

        • Miro Moman

          Não é “botar-lhe a culpa” a nada. É entender a realidade. Na verdade, o artigo de Ragini Verma confirma bastante o que tu apontas no teu comentário.

          Significance

          Sex differences are of high scientific and societal interest because of their prominence in behavior of humans and non-human species. This work is highly significant because it studies a very large population of 949 youths (8–22 y, 428 males and 521 females) using the diffusion-based structural connectome of the brain, identifying novel sex differences. The results establish that male brains are optimized for intrahemispheric and female brains for interhemispheric communication. The developmental trajectories of males and females separate at a young age, demonstrating wide differences during adolescence and adulthood. The observations suggest that male brains are structured to facilitate connectivity between perception and coordinated action, whereas female brains are designed to facilitate communication between analytical and intuitive processing modes.

          • Isabel Rei Samartim

            Eu refiro-me a que no teu artigo não falas de como a ideologia do homem-branco-burguês-supremacista tem influído na tua vida e no teu conceito de “homem”. O autor não reflete sobre o que mais próximo tem: a si mesmo. Não vejo mais que uma descrição do que se coloca como um pretenso problema social mas sem o reconhecimento no próprio corpo, na própria pele, do dano que essa ideologia supremacista baseada no estándar de homem ocidental tem incutido nas vidas dos nenos ocidentais como tu foste um dia. Eu pergunto por que os homens não contais as báguas que chorastes aprendendo que não se chora, por exemplo.
            E leio no artigo da Adela muito mais dela, muita mais sinceridade e coração, muito mais ativismo e compromisso que em todas as vossas harmónicas frases.

          • Miro Moman

            Honestamente, não sei que é melhor, se tentar deixar a subjetividade fora da análise (sabendo que é impossível) ou se assumi-la e falar sempre de nós próprios ainda que estejamos a falar doutra cousa.

            Eu leio o artigo de Adela e gosto muito dele. Mas acho que é um artigo que bem poderia ter sido escrito por um homem (não qualquer um, mas um que tivesse grande talento para a escritura, o que não é o meu caso). Não vejo que seja um artigo muito pessoal ou intimista. Antes ao contrário. É um artigo que é digno continuador da tradição galeguista desde o Ressurgimento até hoje e que se insere à perfeição dentro da linha discursiva do ecologismo nacionalista desde os anos 70 até hoje.

          • Isabel Rei Samartim

            E não por nada, entre outras cousas porque Adela é uma das grandes construtoras do ecologismo galego desde os 70 até hoje…

          • Miro Moman

            Assim é.

          • Adela Figueroa

            Muito obrigada. Mas não esquecer que houve, neste País, Galiza, muita gente a lutar que nem se fez visível. Gosto das figuras dos Castellets catalans, Um, o mais pequeninho, chega lá cima, mas, em baixo há uma pinha que sustem tudo o edifício e, sem eles, em colaboração e em força nunca se poderia ter construído a Torre. Na Galiza ha´tecido social. Faltam as interconexões que deberiam estar feitas. Ainda podemos nos por a construi-las sempre é tempo.

          • Isabel Rei Samartim
      • Adela Figueroa

        N4ao é tal. É cousa educativa, mas tão introduzida nas fibras neuronais e até musculares que nem se percebe no consciente até que alguém, como Isabel fai-no ver.

    • Adela Figueroa

      Carissima Isabel. Não podes saber quanto fico obrigada pelo teu comentário!!.É mesmo assim SEMPRE. Em qualquer lugar que vaiamos as mulheres ficamos em segundo plano. Eu nunca pretendo ficar nem por diante nem por trás( ainda vai a ironia misturada. tu és inteligente e vais comprender…) mas sim, sempre tentei estar ao par.. Ainda , sempre foi dificil. Muito dificil. Eu sei que os meus neuronios têm as mesmas interconexões que a media da humanidade ( quer masc. quer fem.) que , julgo, deberia ser o único elemento a ter em conta, e muitas vezes fico chateada a ver como o inconsciente masculino esquece a nossa presencia . É uma militância permanente, como o é a de me reivindicar galega com todas as suas consequências. As vezes resulta cansativo. mas já ficou impresso nas fibras que constituem as minha pessoa de maneira a estar sensibilizada. Vejo cousas que muitas das minhas amigas ou não vêm ou não querem ver. Nas associações em que trabalho e em geral no dia-a-dia e , mesmo as vezes ainda me reprimo para não resultar contra-producente e sempre na aguarda de momentos oportunos para mostrar a minha dis-conformidade. Vai eese chamado para omens e mulheres de boa intenção e que nem são conscientes dos mecanismos de ocultamento sobre as mulheres , semelhantes aos que se executam sobre povos colonizados como o é o nosso. Beijinhos com esperança.

      • Ernesto V. Souza

        Quase perco este debate… quando li o texto, não vi mais que a árvore…

        Pois vai ser que tendes razão… obrigado, por o lembrar e fazer ver,
        concordo plenamente com que é uma questão educacional, como tudo… e não é bom, não… tanto texto e rosto masculino…

        • Isabel Rei Samartim
          • Ernesto V. Souza

            Interessante. Adoro ver que por cá nem somos tão raros… entre os nossos contemporâneos há um magma arredor.

            p.s. Refiro-me, não a números totais, quanto e precisamente a presença, a visibilização em termos absolutos.

          • Isabel Rei Samartim

            A visibilização é mínima, mas não é por causa do escasso número, que isso é a sua consequência. Não confundamos. Além disso, o número de mulheres visíveis no reintegracionismo já foi bem maior e diminuiu suspeitosamente, como veremos.
            A nossa força está em sermos [email protected] É a capacidade de subverter as fições assumidas o que nos faz [email protected] Sermos [email protected] é bom.

          • Ernesto V. Souza

            Claro, é o que pretendo dizer.

            Desculpa se não o exprimi bem.

          • Isabel Rei Samartim

            Ah, pois é que dizias justamente o contrário…

      • Isabel Rei Samartim

        Porém, houve muitas mulheres no reintegracionismo. Sairá algum dia um artigo sobre isso, proximamente. Onde é que foram? Que foi o que as silenciou? Por que calaram? Agradeço-te tu não calares, apesar de todos os esforços que outros passaram para que o fizesses. Se isto fosse uma simples questão de número estávamos ganhando, pois mulheres somos mais. Não. É quem detenta o poder e a perspetiva do androcentrismo sempre a pairar nos miolos, reproduzindo-a nos comportamentos, perpetuando-a na educação dos filhos… Às vezes penso que nos tocou viver os tempos em que uma grande teoria, levada à prática, se está gerando. Passaram trinta anos e ainda não se formulou uma apresentação clara e lógica do movimento galego reintegracionista, a sua explicação no contexto, e as suas características. Infelizmente uma dessas características é o apagamento, silenciamento, das mulheres afins e ativas. O seu rol de meras companheiras de homens “importantes”. Ou pensadoras à sombra de erudições de outros. Como a estas alturas do movimento feminista ainda nestes âmbitos da língua, precisamente da língua que tanto temos a dizer com ela, estamos neste estádio de sub-desenvolvimento? Há cousas que não podem continuar na mesma, e [email protected] somos responsáveis. Por isso gosto de te ler, de te ver aí, de ver-te apresentando e publicando, a demonstrar que não precisas de nenhum homem que te corrija, nem te oriente. Que tu mesma és suficiente para perseguir o sonho. Somos necessárias, não somos prescindíveis, a nossa visão do mundo é fundamental, temos que crê-lo, dizê-lo e obrar em consequência. E se algum desses “importantes” quer acompanhar, que acompanhe e saiba estar no seu sítio, sem incomodar nem silenciar, sem substituir nem jogar sujo. Cada quem no seu sítio e um lugar digno para todas.