UM QUEIPO NO LAR

Uns corvos



A primavera está florida e quase anuncia o verão, que já está perto no calendário. Em Lugo andam a preparar o Arde Lucus, a festa mais genial e divertida que conheço.
Os dias amencem cedo e deitam-se mais tarde. Logo virá o dia mais longo. A noite mais pequena: o solstício de verão. Este ano cai em dia 21 pelo calendário astronômico. Já andam as meigas e trasnos em revolta a se remexerem por entre a brétema das nossas carvalheiras. As cidades nem são alheias aos seus movimentos telúricos e misteriosos.

A Luz do Sol ilumina , por fim, as ruas desta cidade bimilenar: Lugo.

Os passarinhos, que casaram pola Candelária, já tiveram seus pintinhos. Todos eles andaram, em seu tempo, à procura dum lugar seguro em que aninhar. E as aves viageiras já cá chegaram. Andam os aviões e os cirros a cruzar rápidos o céu com seu voo compulsivo. Aninham na muralha.

Uma parelha de corvos aninhou na varanda da minha casa. Tomaram conta da propriedade e grasnam-me todos os dias à manhancinha quando saio regar as plantas. Tenho muitas flores para cuidar porque gosto de ver as balcoadas floridas.

Mas também tenho corvos que reclamam espaço e território. Já vai para três anos que aninham sob o meu telhado e vão colhendo confiança.

Hoje, pela primeira vez, atacaram-me. Apenas de advertência. Foi um raspar na cabeça vinda em voo fugaz e forte polas minhas costas, dum dos filhotes, enquanto os grandes gralhavam ameaçadoramente da varanda de enfrente. Comprazidos a ver os avanços da cria que já vai grandinha. Mas foi uma boa lapada.

Devem ter comida algures e se calhar sabem que nesta casa vive uma ecologista. Por isso se sentem seguros e avalentoam-se. Mas eu nem sei que fazer. Porque as minhas flores estão agora bonitas e eles me não deixam sair para cuidar delas.

Ainda, gosto de sair à minha varanda para olhar a vizinhança e deliciar-me do meu bairro cheio de gente que vai e vem, de música, de cores e de odores que reconheço cada manhã.

Dizem que do trabalho do lobo aproveita o corvo, porque come refugalhos da caça e outras cousas de desfeito.

Os operários da limpeza estão de greve. A cidade já começa a cheirar a lixo e esgoto. Produzimos mais lixo do que o ecossistema pode metabolizar. Mas nunca aprendemos… Os meus corvos terão comida, com certeza.

A cidade é , em fim, um ecossistema.

Mas eu nemconsigo tirar da minha cabeça aquilo de «cria corvos e tirar-te-ão os olhos».

Hoje, eles próprios mo diseram, crocitando, gralhando-me, grasnando-me. E atacando-me por trás em voo rasante.

Tenho agora uma propriedade em condomínio com uma família que ma disputa.

Sei que quando cresçam os pintos, finalmente, a família irá embora. Por enquanto, estudarei como regar as minhas plantas sem os ofender demasiado.

Adela Figueroa Panisse

Adela Figueroa Panisse

Adela Clorinda Figueroa Panisse é de Lugo (Galiza), fazedora de versos, observadora do mundo e cuidadora de amizades. Trabalhadora no ambientalismo e na criatividade da palavra. Foi professora e lutadora pela recuperação da dignidade da Galiza e, ainda, pela solidariedade entre os seres humanos e a sua reconciliação com a terra. Gosta de rir, cantar e de contar contos. Também de escutar histórias, de preferência ternas e de humor.
Adela Figueroa Panisse

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  • Ernesto V. Souza

    Que bom texto… parabéns. Tenho uma sensaçao semalhante com o estado… algo cheira por toda a parte, descompõe-se tudo e os restos, mesmo os humanos (danos colaterais) estão a deixar um bom festim aos corvos

    Produzimos mais lixo do que o ecossistema pode
    metabolizar. Mas nunca aprendemos… pois é…

  • madeiradeuz

    O título original do artigo era «Corvos», mas há uma falha pola qual rompe a formatação quando o título é uma única palavra de poucos carateres. Estamos trabalhando para solucionar esta misteriosa eiva 😉

  • Isabel Rei Samartim

    Que curioso, sim senhora. Gostei de imaginar outro tipo de corvos a atacar em voo rasante. E de novo a mulher cuidando da natureza que nos cuida, não lutando contra ela. O respeito às normas, o saber que quebrá-las pode causar danos piores. O equilíbrio. O dilema de Heinz e o olhar longo. Quando os filhos cresçam, os corvos irão embora sabendo que aquele não é lugar para eles, que tu estavas antes aí, ainda que agora o defendam como se fosse seu…