AS AULAS NO CINEMA

A CONDUTA DOS ESCOLARES E SEU TRATAMENTO EDUCATIVO

Filmografia básica



Nas últimas décadas, por distintas razões, especialmente para os docentes que ensinam na Educação Secundária Obrigatória (ESO), é muito difícil desenvolver o seu trabalho educativo-didático, por causa da conduta negativa de muitos de seus alunos. Nos outros níveis escolares os casos de má conduta são menos numerosos e mais pontuais, notando-se uma grande diferença entre as escolas rurais e as de âmbito urbano, nos comportamentos dos escolares, muito mais positivos no âmbito rural. Para o presente depoimento tive muito em conta o excelente trabalho realizado sobre a conduta escolar pela pedagoga brasileira Milenna Monteiro, tirando alguns treitos importantes do mesmo.conduta-escolar-ao-mestre-com-carinho-2-foto1

Entramos no século XXI com muitas mudanças na educação. A facilidade de acesso de nossos educadores às ideias e teorias desenvolvidas por pesquisadores e escritores muito tem contribuído para o desenvolvimento da qualidade da educação nos diferentes países. Mas, ao mesmo tempo em que a escola se desenvolve, ela, juntamente com a família, parece perder o poder e o espaço que outrora tiveram na formação do indivíduo, pois as crianças começaram a entrar mais cedo na escola, fato que pode favorecê-las (quando a criança é bem acompanhada pelos pais) ou prejudicá-las (quando os pais por deixá-la durante muito tempo na escola geram na mesma, um sentimento de descaso em relação ao seu desenvolvimento). A influência da indisciplina e agressividade na escola no comportamento de crianças e adolescentes, pois não existe aprendizagem de qualidade em um ambiente de indisciplina e agressividade, é enormemente importante. Faz-se necessário buscar novos caminhos que levem a família, a escola e a comunidade a assumirem o seu verdadeiro papel neste processo. Neste sentido, a ausência de limites, instituídas na educação familiar por pais demasiadamente tolerantes, fecunda consequências desastrosas, produzindo crianças indisciplinadas, agressivas, insolentes e que vivem conflitos internos demonstrando insegurança em tudo o que realizam. A indisciplina e a agressividade constituem um desafio para os docentes, representam um dos principais obstáculos ao trabalho pedagógico demonstrando a ausência de regras e limites por parte da criança. Necessitamos de uma postura compartilhada em relação à disciplina, investindo na prevenção. Pretende-se que a escola funcione através de espaços e tempos, geridos com critérios adequados à participação e ao diálogo entre os alunos e destes com os professores, onde o problema deve ser contextualizado, analisando as suas causas profundas e favorecendo a mobilização de ações alternativas.

Ser professor nunca foi uma tarefa simples. Hoje, porém, novos elementos vieram tornar o trabalho docente ainda mais difícil. A disciplina parece ter-se tornado particularmente problemática. Analisar as causas do problema é preocupação sobre a qual, hoje, se debruçam todos os que estão envolvidos com educação, que desejam uma escola de qualidade. É claro que são inúmeros, não apenas um, os elementos que concorrem para a atual situação educacional em muitos lugares e países. Desde alguns anos atrás, vai instalando-se em nossas sociedades, e de maneira especial em nossas escolas, a convicção de que os estudantes vão sendo cada vez mais indisciplinados e mal-educados, mostrando comportamentos que interrompem o clima acadêmico da escola, quando não protagonizam agressões verbais e físicas, furtos e destruição do mobiliário, etc. É necessário e essencial à educação saber estabelecer limites e valorizar a disciplina, e para isso é necessária a presença de uma autoridade saudável. O segredo que difere autoritarismo do comportamento de autoridade adotado para que outra pessoa torne-se mais educada ou disciplinada está no respeito à autoestima.

As instituições de ensino, cuja tarefa é introduzir as crianças nas normas da sociedade, muitas vezes se omitem. O estudo é essencial, portanto os filhos têm obrigação de estudar. Caso não o façam, terão sempre que carregar com as consequências de sua indisciplina. Temos que trazer e despertar o interesse de pais e educadores os limites da disciplina numa maneira bem-humorada e realista, mostrando que pai ou professor, é o educador, e não se pode esquivar da tarefa de apontar na medida certa os limites para que os jovens se desenvolvam bem e consigam viver bem em harmonia. As crianças aprendem a comportar-se em sociedade ao conviver com outras pessoas, principalmente com os próprios pais. A maioria dos comportamentos infantis é aprendida por meio da imitação, da experimentação e da invenção. Por isto, é importante sobre o tema conseguir estes objetivos: Refletir sobre os fatores contribuintes para crianças indisciplinadas e/ou agressivas; mencionar atitudes dos professores que contribuam para a melhoria da relação professor-aluno; analisar o papel da escola frente aos problemas de convivência dos alunos no âmbito escolar. Visando a consecução dos objetivos citados é necessário fixar as seguintes questões norteadoras:

– Que fatores podem contribuir para uma criança tornar-se indisciplinada e/ou agressiva?

– Que atitudes docentes poderiam contribuir para a melhoria da relação professor-aluno?

-O que é necessário para que as escolas enfrentem os problemas de convivência cumprindo seu papel de educar sem discriminar o aluno-problema?

– É preciso lembrar que uma criança, quando faz algo pela primeira vez, sempre olha em volta para ver se agradou alguém. Se agradou, repete o comportamento, pois entende que agrado é aprovação, e ela ainda não tem condições de avaliar a adequação do seu gesto.

– A força dos pais está em transmitir aos filhos a diferença entre o que é aceitável ou não, supérfluo, e assim por diante. O professor também perdeu a autoridade inerente à sua função.

– É preciso continuar investindo na melhoria da qualidade do ensino em nossas escolas, para isso é fundamental o maior interesse das políticas públicas na educação, incentivando a formação e aperfeiçoamento do quadro docente, realizando melhorias do espaço físico das escolas, além de contar com a participação efetiva da família e da comunidade.

– Quando o limite é apresentado com afeto, a criança o aceita mais facilmente. Sem dúvida, não é um trabalho fácil, mas geralmente funciona. Além da família, cabe à escola este papel. Afinal, os educadores continuam a deter parte considerável da responsabilidade pela formação da criança.

– A fundamentação teórica podemos encontrá-la nas obras de educadores como Don Bosco, Pestalozzi, Tagore, A. S. Neill, J. Flanagan, Paulo Freire, Rogers ou Gadotti.

Para apoiar o depoimento apresento uma pequena antologia de filmes, em que aparecem distintos tipos de conduta dos escolares em aulas e estabelecimentos de ensino.

FICHAS TÉCNICAS DOS FILMES:

  1. Zero de conduta (Zéro de conduite):conduta-escolar-zero-de-conduta-cartaz1

     Diretor: Jean Vigo (França, 1933, 42 min., preto e branco). Produtora: Gaumont.

Roteiro: Jean Vigo. Fotografia: Boris Kaufman. Música: Maurice Jaubert.

Atores: Louis LefebvreGilbert PluchonGérard de BédarieuxConstantin Goldstein-KehlerJean Dasté e Robert Le Flon.

Argumento: Um grupo de quatro meninos rebela-se contra o sistema repressivo e as rígidas regras de um colégio interno francês num dia festivo. Um verdadeiro ato de rebelião é instaurado na escola, e ganha ares de surrealidade, resultado das leituras libertárias da infância. Os quatro diabinhos (subtítulo do filme: Diabinhos na Escola) acabam sendo bem sucedidos na rebelião e depois triunfam num telhado, parecendo prontos a alçar voo.

  1. Os rapazes do Preu (Los chicos del Preu):

     Diretor: Pedro Lazaga (Espanha, 1967, 88 min., cor). Produtoras: CB. Films e Pedro Masó PC.1967; Los Chicos Del Preu. Original Film Title: Los Chicos Del Preu, Composer: Anton Garcia Abril, Director: Pedro Lazaga, IN CAST: Mª Jose Goyanes, Emilio Gutierrez Caba, Cristina Galbo, Pedro Del Corral, Karina

Roteiro: Pedro Masó. Fotografia: Juan Mariné. Música: Antón García Abril.

Atores: Alberto ClosasJosé Luis López VázquezEmilio Gutiérrez CabaMaría José GoyanesCristina GalbóKarinaRafaela AparicioMaría BaizánMary Carrillo,Margot CottensGemma CuervoAlfonso Del RealPedro Díez del CorralManuel GasCarlos MendyÓscar MonzónJosé OrjasErasmo PascualPastora Peña,Luisa Sala e Camilo Sesto.

Argumento: Um grupo de jovens muito afeiçoados à música estão a ponto de ir à universidade. Alguns deles vão conhecer o primeiro amor ou hão de ter que sofrer o rigor dum intransigente catedrático que em raras ocasiões aprova os seus alunos. Porém, outros vão ter de enfrentar problemas mais sérios: a difícil comunicação com os seus pais ou os esforços destes para pagar os seus estudos.

  1. Meu mestre, minha vida (Lean on Me) :

     Diretor: John G. Avildsen (EUA, 1989, 104 min., cor). Produtora: Warner Bros. Pictures.conduta-escolar-meu-mestre-minha-vida-cartaz

Roteiro: Michael Schiffer. Fotografia: Victor Hammer. Música: Bill Conti.

Atores: Morgan FreemanBeverly ToddRobert GuillaumeAlan NorthLynne Thigpen,Ivonne CollRobin BartlettMichael BeachEthan PhillipsKarina ArroyaveDelilah CottoRegina TaylorKaren Malina WhiteSloane SheltonJennifer McCombTony Todd e Yvette Hawkins.

Argumento: O professor Joe Clark (Morgan Freeman) é convidado pelo seu amigo Frank Napier (Robert Guillaume) a assumir o cargo de diretor numa problemática escola de Nova Jersey. Autoritário e arrogante, Clark comanda com pulso firme e com métodos pouco ortodoxos, as vezes até violentos. Dessa forma, ele consegue com que alguns alunos da escola, que sofre com problemas de tráfico de drogas e violência, passem no exame de final de ano realizado pelo governo. Mesmo fazendo o bem para os alunos, seus métodos contraditórios atraem admiradores mas também inimigos.

Nota: O filme também foi titulado como Escola de rebeldes.

  1. Mentes perigosas (Dangerous Minds):conduta-escolar-mentes-perigosas-cartaz

     Diretor: John N. Smith (EUA, 1995, 99 min., cor).

Roteiro: Ronald Bass, Segundo a autobiografia de Lou Anne Johnson.

Fotografia: Pierre Letrarte. Música: Wendy and Lisa.

Produtoras: Don Simpson, Jerry Bruckheimer Films e Via Rosa Productions.

Atores: Michelle PfeifferGeorge DzundzaRenoly SantiagoWade DomínguezCourtney B. VanceBruklin HarrisRobin Bartlett e Marcello Thedford.

Argumento: Uma ex-oficial da marinha abandona a vida militar para ser professora de inglês. Só que logo na primeira escola em que começa a lecionar, ela vai-se deparar com diversas barreiras. Sendo um colégio de negros, latinos, e na maioria de pessoas pobres, ela terá que lidar com a rebeldia dos alunos. Como a professora Louanne Johnson não consegue através de métodos convencionais a atenção da sua classe, ela parte para outra forma de ensino. Passa a dar aulas com karaté e músicas de Bob Dylan, tentando ajudar a turma através de métodos pouco convencionais.

  1. Ao mestre com carinho 2 (To Sir, with Love 2):

     Diretor: Peter Bogdanovich (EUA, 1996, 92 min., cor). Produtora: TriStar Television.conduta-escolar-ao-mestre-com-carinho-2-capa-dvd

Roteiro: E.R. Braithwaite e Philip Rosenberg. Fotografia: William Birch. Música: Trevor Lawrence.

Atores: Sidney PoitierChristian PaytonDana EskelsonFernando LópezCasey Lluberes,Michael GilioL.Z. GrandersonBernadette L. ClarkeCheryl Lynn BruceLulu e Judy Geeson.

Argumento: Em vias de se aposentar, depois de dar aulas por 30 anos numa escola de um bairro da classe operário de Londres, o professor Mark Thackeray (Sidney Poitier) aceita o convite para lecionar nos Estados Unidos, numa escola da região sul de Chicago. Mas seu verdadeiro objetivo em Chicago é voltar a encontrar seu primeiro amor, uma mulher que conheceu há mais de 30 anos na Guiana. Quando reencontra sua antiga amante, Mark se vê em grandes dificuldades tendo de lidar com alunos muito indisciplinados em sua nova cidade.

Nota: Esta é a segunda versão do filme que fora realizado em 1967 por James Clavell, filme que já foi comentado por mim nesta série de «As Aulas…» do PGL, em data 15 de fevereiro de 2012. Pode ser visto entrando na ligação: http://www.pglingua.org/opiniom/as-aulas-no-cinema/4743-o-mestre-e-a-conduta-dos-adolescentes-no-filme-qao-mestre-com-amorq

 

O IMPORTANTE PAPEL DO PROFESSOR E A SUA FORMAÇÃO:

    Por considerar que é muito interessante o trabalho redigido no seu dia pela brasileira Milenna Monteiro, que citei ao início, continuo apoiando-me em seus comentários.

Atualmente começam a adquirir maior importância os problemas de disciplina e convivência nos centros educativos, especialmente no período das séries superiores do ensino fundamental. Sem perder de vista que esta problemática faz parte de um momento de crise que invade nossas sociedades e afetando instituições educadoras tradicionais como a família, a escola e outras instituições, podemos afirmar que a tal problemática pode ter um tratamento curricular indo além do simples agravamento das medidas regulamentares punitivas. A indisciplina e a agressividade constituem-se em um desafio para os docentes, representa um dos principais obstáculos ao trabalho pedagógico, demonstra a ausência de regras e limites por parte da criança. Necessitamos de uma postura compartilhada em relação à indisciplina, investindo na prevenção. A escola deve funcionar através de espaços e tempos geridos com critérios adequados à participação e ao diálogo entre os alunos e destes com os professores, onde o problema deve ser contextualizado, analisando as suas causas profundas e favorecendo a mobilização de ações alternativas. Para isto é urgente preparar ao docente para saber lidar com alunos-problemas.

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Estamos vivendo um momento de desafio em nossas escolas, assistimos um aumento considerável da indisciplina e atos violentos, bem como as preocupações de professores e pais em relação ao comportamento escolar dos alunos, precisando ser melhor refletido e enfrentado. O problema é complexo e muitas vezes os professores buscam “receitas prontas” que se revelam ineficazes quando aplicadas à situação concreta. Um dos maiores problemas que o professor pouco experiente enfrenta é a criação de um clima favorável a aprendizagem na sala de aula, onde se integra a análise de situações indesejáveis e a gestão do comportamento do professor. A disciplina escolar não consiste em um receituário de propostas para enfrentar os problemas de comportamentos dos alunos, mas em um enfoque global da organização e a dinâmica do comportamento na escola e na sala de aula, coerente com os propósitos de ensino. Para isso é preciso, sempre que possível, antecipar-se ao aparecimento de problemas e só em último caso reparar os que inevitavelmente tiverem surgido, seja por causa da própria situação de ensino seja por fatores alheio à dinâmica escolar. Precisamos incentivar comportamentos de trocas, diálogos, estimulando a análise, criticando os alunos sobre situações variadas. Podemos evitar, desencadeando situações de indisciplina. Para isso precisamos gerir adequadamente a turma, levando em consideração que muitos vivem em contextos familiares desestruturados. É, portanto, necessário incentivar as famílias a acompanhar a educação de seus filhos.

Os professores não têm recebido formação inicial que lhes permita gerir de forma eficiente os conflitos, torna-se necessário que a formação contínua desenvolvida nas escolas proporcione uma reflexão pautada em subsídios teóricos e autores recentes na área da educação, que possibilite uma intervenção esclarecida. Cabe à escola impor regras de maneira coerente, prevenindo tratamento desigual e trabalhando os conflitos emergentes. Precisamos entender que a construção de uma nova disciplina é tarefa de todos, pais, alunos, professores e comunidade, por meio de um planejamento participativo, que tenha a ação de todos, de forma ética, lembrando que é um processo que vai se construindo de forma gradativa e necessita de acompanhamento. O professor precisa desempenhar seu papel, o que inclui disposição para dialogar sobre objetivos e limitações e para mostrar ao aluno o que a escola (e a sociedade) espera dele. Só quem tem certeza da importância do que está ensinando e domina várias metodologias consegue desatar esses nós. Quando há relacionamento de afeto e um professor atencioso, qualquer caso pode ser revertido em pouco tempo.

Temos que acreditar que esses alunos-problemas têm um porquê e um para quê e nós precisamos nos ajudar, porque sozinhos não conseguiremos ser uma escola de fato. Uma escola que pensa na vida, partindo da vida das pessoas… Está na hora de repensarmos o processo, a teoria que nos embasa, o currículo, a gestão e o conselho escolar; de repensarmos se estamos apenas brincando de democracia. Ser professor nunca foi uma tarefa simples. Hoje, porém, novos elementos vieram tornar o trabalho docente ainda mais difícil. A disciplina parece ter-se tornado particularmente problemática. Na escola são vistas como alunos problemas, em casa como bagunceiras ou, dependendo do caso, distraídas. Essa é a realidade de crianças com sintomas de inquietação, baixo rendimento escolar, dificuldade nos relacionamentos, ansiedade, agressividade e resistência a receber ordens. Segundo Gadotti, são necessárias algumas diretrizes básicas, dentre as quais estão: a autonomia da escola, incluindo uma gestão democrática, a valorização dos profissionais de educação e de suas iniciativas pessoais. Oportunizar uma escola de tempo integral para os alunos, bem equipada, capaz de lhe cultivar a curiosidade e a paixão pelos estudos, a curiosidade e a paixão pelos estudos, a valorização de sua cultura, propondo-lhes a espontaneidade e o inconformismo. Inconformismo traduzido no sentimento de perseverança nas utopias, nos projetos e nos valores, elementos fundadores da ideia de educação e eficazes na batalha contra o pessimismo, a estagnação e o individualismo. O preparo e bom senso do professor é o elemento chave para que essas questões possam ser melhores abordadas. A problemática varia de acordo com cada etapa da escolarização e, principalmente, de acordo com os traços pessoais de personalidade de cada aluno. De um modo geral, há momentos mais estressantes na vida de qualquer criança, como por exemplo, as mudanças, as novidades, as exigências adaptativas, uma nova escola ou, simplesmente, a adaptação à adolescência. As crianças e adolescentes como ocorrem em qualquer outra faixa etária, reagem diferentemente diante das adversidades e necessidades adaptativas, são diferentes na maneira de lidar com as tensões da vida. É exatamente nessas fases de provação afetiva e emocional que veem à tona as características da personalidade de cada um, as fragilidades e dificuldades adaptativas. Erram alguns professores menos avisados, ao considerar que todas as crianças devessem sentir e reagir da mesma maneira aos estímulos e às situações ou, o que é pior, acreditar que submetendo indistintamente todos os alunos às mais diversas situações, quaisquer dificuldades adaptativas, sensibilidades afetivas, traços de retraimento e introversão se corrigiriam diante desses “desafios” ou diante da possibilidade do ridículo. Na realidade podem piorar muito o sentimento de inferioridade, a ponto da criança não mais querer frequentar aquela classe ou, em casos mais graves, não querer mais ir à escola. Rumo ao 3º milênio é imprescindível que vivenciemos o paradigma da inclusão social, que objetiva uma sociedade para todos, incluindo a inserção escolar de pessoas com diversos tipos de deficiências em todos os níveis de ensino. A escola precisa se reestruturar para atender às necessidades de seus alunos, respeitando e acolhendo todo aspecto da diversidade humana. Reconhecemos que é um desafio. Um desafio necessário para o reconhecimento do aluno em potencial, que exige uma nova postura pedagógica frente à relação desenvolvimento aprendizagem. A partir de uma visão sócio-histórica que compreenda as diferenças enquanto construções culturais, percebendo como lidar com o indivíduo que se relaciona e expressa o movimento da sociedade em que vive.

Com algum preparo e sensibilidade o professor estaria mais apetrechado do que os próprios pediatras, dispondo de maior oportunidade para detectar problemas cruciais na vida e no desenvolvimento das crianças. Dentro da sala de aula há situações psíquicas significativas, nas quais os professores podem atuar tanto beneficamente quanto, consciente ou inconscientemente, agravando condições emocionais problemáticas dos alunos. Os alunos podem trazer consigo um conjunto de situações emocionais intrínsecas ou extrínsecas, ou seja, podem trazer para escola alguns problemas de sua própria constituição emocional (ou personalidade) e, extrinsecamente, podem apresentar as consequências emocionais de suas vivências sociais e familiares. Como se sabe, a escola é um universo de circunstâncias pessoais e existenciais que requerem do educador, ao menos uma boa dose de bom senso, quando não, uma abordagem direta com alunos que acabam demandando uma atuação muito além do posicionamento pedagógico e metodológico da prática escolar. O tão mal afamado “aluno-problema”, pode ser reflexo de algum transtorno emocional, muitas vezes advindo de relações familiares conturbadas, de situações trágicas ou transtornos do desenvolvimento, e esse tipo de estigmatização docente passa a ser um fardo a mais, mais um dilema e aflição emocional agravante. Para esses casos, o conhecimento e sensibilidade dos professores podem se constituir em um bálsamo para corações e mentes conturbados, essas crianças geralmente são incompreendidas tanto em casa como na escola. Também costumam ser marginalizadas e isoladas pelos colegas. Nesse caso, é importante que a escola ofereça atendimento e acompanhamento personalizado, para estimular o crescimento pessoal e social dessas crianças, educação deve ser uma parceria, senão não funciona.

ESTRATÉGIAS EDUCATIVO-DIDÁTICAS A DESENVOLVER:

 

Quando imaginamos uma sala de aula, pensamos em um lugar onde os alunos estejam em silêncio, prestando atenção ao professor, que está dando aula, onde os alunos, quando querem perguntar, levantam a mão e só podem falar após autorização do professor. Nessa relação valorizam-se mais o professor, como se o ensino-aprendizagem partisse do mais sábio para o menos sábio, do mais experiente para o menos experiente…. Porém, na relação na sala de aula todos aprendem. E o professor deve principalmente aprender como se relacionar melhor com seus alunos e desenvolver sua aprendizagem. Este desnível provocado pela ideia de que o professor sempre sabe mais sobre tudo pode dar maior poder ao professor. Esse poder, muitas vezes, gera alunos passivos, e obedientes, mas pouco envolvidos no processo ensino-aprendizagem. conduta-escolar-mentes-perigosas-foto4
Por isto é muito importante ter em conta os seguintes aspectos:

-É importante, na sala de aula, estabelecer uma relação que favoreça a construção conjunta do conhecimento.

-O professor é mediador no processo de aprendizagem e responsável pelas condições para que ela ocorra.

-O conhecimento prévio, trazido pelo aluno, deve ser valorizado e uti1izado na construção do conhecimento.

– O que notamos na relação professor-aluno é uma diversidade muito grande, própria das diferenças existentes entre os sujeitos. Mas, podemos perguntar-nos: o que seria de uma sala de aula onde não houvesse diferenças, onde todos pensassem iguais? Provavelmente estaria comprometida a interação social responsável pelo alargamento do conhecimento, pelo processo de ensino-aprendizagem.

A riqueza da aprendizagem está no fato de poder contar com cada aluno, com colegas partilhando de experiências, de iniciativas, de potencialidades, onde cada um atua com elemento formador do outro. Um aluno que tenha uma autoimagem negativa, que se considera um fracassado, mesmo reconhecendo a sua dificuldade, provavelmente vai buscar nas outras pessoas que estão ao seu redor responsabilidade pelo seu fracasso. Dirá que o professor é chato, ou que a matéria não serve para nada ou mesmo que os colegas é que são ruins. Esse aluno acaba por desenvolver comportamentos problemáticos na sala de aula, ou torna-se indisciplinado. Para lidar com a indisciplina, em primeiro lugar, é importante que o professor garanta em sua relação com os alunos condições igualitárias de participação, proporcionando diferentes contribuições para o processo de aprendizagem. Na verdade, a questão da indisciplina ou da disciplina tem sido muitas vezes utilizada para justificar práticas autoritárias por um lado e, de outro, estimular uma espécie de domínio por parte dos alunos, o que prejudica o projeto pedagógico da escola.

– Em segundo lugar, fazer da inquietação, da agitação e da movimentação elementos que possibilitem o ato de conhecer. Transformar o que aparentemente denominamos indisciplina em disciplina poderá estar construindo, na interação da sala de aula, o surgimento da criatividade e o nascimento do novo. Podemos observar que tanto o aluno “problema” como o aluno “excelente” possuem uma característica comum, que é o querer se mostrar, ou tornar-se visível. Eles se tornam visíveis, nos fazendo felizes ou nos fazendo sofrer. É importante notar que, enquanto esses tipos de aluno aparecem mais, os outros, considerados “normais”, correm o risco de cair em uma zona sombria, do esquecimento. Não podemos nos esquecer de que cada aluno é singular, único, diferente do outro.

– O fato de dar importância apenas aos aspectos considerados negativos ou positivos do comportamento de um aluno pode fazer com que não prestemos atenção na relação que estamos construindo com ele dia-a-dia. Essa postura provavelmente fará com que evidenciamos uma prática muito comum, que é a superficialidade com que a escola ou cada um de nós se relaciona com os outros, com o saber e com a própria vida. Dessa maneira, aquilo que consideramos problema, na nossa relação com os alunos, deve ser transformado em um momento de reflexão sobre nossa prática, sobre as dúvidas que aqueles alunos-problema fazem nascer em nós a respeito de nosso papel de professores-educadores. Cabe então, ao professor, enquanto educador, participar da formação de seus alunos, garantindo uma relação que evite que uns se calem, outros apenas obedeçam e outros dominem, estabelecendo condições para a colaboração, a compreensão mútua e uma boa comunicação.

– A intervenção do professor é fundamental para que as interações sociais que acontecem na sala de aula façam parte da formação de todos os que dela participam. É importante fornecer aos alunos referencias que possibilitem uma relação de confiança e respeito mútuo para que as questões afetivas, emocionais, presentes no processo de aprendizagem, possam ser discutidas e ressignificadas.

O papel do professor é desafiador: estimular e mediar o conhecimento com seus alunos. Para exercer esse papel, é necessário desenvolver estratégias concretas como:

– Que sejam criadas atividades que promovam reflexão coletiva

– Que a relação professor-aluno seja parte do conhecimento a ser construído na sala de aula,

– Que sejam utilizados os recursos existentes em sua região, no desenvolvimento de atividades pedagógicas que promovam a disciplina necessária ao processo de aprendizagem.

– O professor não pode esquecer que, antes de mais nada é um agente cultural, um pesquisador e um contínuo aprendiz. Como disse Guimarães Rosa: “Professor é quem, de repente, aprende”, e em sua prática escolar ficam alguns desafios, tais como:

– Transformar os problemas identificados nas relações com seus alunos em condições para se trabalhar a formação da cidadania.

– Sair do lugar de autoridade detentora do saber e do poder, e aprender a lidar com as indisciplinas presentes na sala de aula.

– Possibilitar que as relações professor-aluno e aluno-aluno sejam uma relação de confiança que dê conta das questões afetivas que permeiam o processo de ensino-aprendizagem.

– Resgatar, juntamente com seus alunos, o papel de autores que elaboram escreve e constrói a história.

– Aproveitar o melhor possível os momentos nos que trabalhemos os diferentes temas transversais ao largo do curso (educação para a paz, educação emocional, intercultural, democrática e moral), para realizar atividades práticas preventivas da indisciplina e da agressividade escolar.

– Realizar intervenções que propiciem aos alunos saber respeitar as diferenças, estabelecer vínculos de confiança e uma prática cooperativa e solidária. Já o comentava Paulo Freire: «A educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda».

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:

Servindo-se da técnica do Cinema-fórum, analisar e debater sobre a forma (linguagem cinematográfica: planos, contraplanos, panorâmicas, movimentos de câmara, jogo com o tempo e o espaço, truques cinematográficos, etc.) e o fundo dos filmes antes resenhados, e, especialmente daqueles que possamos incluir dentro de um ciclo cinematográfico dedicado à conduta dos escolares.

Com a participação dos escolares do nosso estabelecimento de ensino, organizamos uma exposição sobre a conduta escolar. Na qual se devem recolher textos livres dos alunos, frases, aforismos, poemas, desenhos e fotos, assim como propostas dos próprios estudantes.

Podemos organizar também uma assembleia escolar em que participem estudantes e docentes. A mesma deve servir para fazer propostas de tipo prático para melhorar a conduta escolar no nosso colégio, e para ajudar aqueles alunos com condutas negativas, analisando causas e efeitos das mesmas. Aproveitaremos para destacar aquelas experiências educativas em que os seus diretores pedagógicos tinham estabelecido o funcionamento de assembleias semanais dos escolares, com a finalidade de tratar, entre outros temas, os problemas de conduta dos escolares. Entre elas temos as «Cidades dos Rapazes» de Flanagan e Jesus Silva, a «Casa do Gaiato» do Padre Américo, a «Santinketon» de Tagore, etc.

 

 

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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