Conclusões “rotundas” sobre o aproveitamento dos vínculos com a lusofonia

Após o congresso da passada semana, IGADI tira valorações positivas das quatro sessões celebradas



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Nos passados dias 27 e 28 de Março, Ponte Vedra acolheu o terceiro Congresso ‘Galiza e a lusofonia perante os desafios globais’. Organizado pelo IGADI, o Observatório da Gobernanza G3 e a Universidade de Vigo, o evento serviu para refletir sobre o estado de desenvolvimento da lei Paz Andrade, as suas potencialidades e, em geral, as possibilidades da Galiza na lusofonia. As gravações das quatro sessões, realizada pela Universidade de Vigo, serão publicada proximamente na web, onde já estão disponíveis os anteriores congressos.

“Tudo saiu muito bem, principalmente porque muita gente de distintas posições ajudou a construir um programa que tentou ser o mais inclusivo e representativo possível”, valora Daniel González Palau, diretor do IGADI. Com 62 pessoas inscritas e mais de 100 participantes, o congresso aspira a medrar em próximas edições.

Os ritmos da Administração a debate

Depois das sessões inaugurais –com as entidades financiadoras, o vice-cônsul de portugal e Filipa Soares, a diretora do Camões na Espanha e Andorra–,  a primeira mesa teve como protagonistas os representantes políticos no parlamento galego, que debateram o estado da lei Valentin Paz Andrade. “Se tivesse que resumir as sensações, acho que existe um consenso total sobre a necessidade de normalizar o conhecimento e uso do português na Galiza, mas também há divergências sobre a capacidade e ritmo para que isto seja implementado, e as consequências desta normalização”, aponta Palau.

César Fernández, representante do Partido Popular, afirmou que o partido no governo está a fazer “todo o possível” para implementar a lei, mas que os ritmos da Administração não facilitam um desenvolvimento rápido. No entanto, desde a oposição política existiu uma olhada crítica que falou sobre a necessidade duma “vontade política” para fazer real a legislação.

Potencialidades económicas da lusofonia

Na segunda sessão do congresso, celebrada a primeira hora da manhã do dia 28, os conferencistas fizeram intervenções complementarias sobre o aproveitamento económico do português como factor de competitividade para a Galiza. “É destacável a intervenção de Hakan Casares Berg -do Observatório da Cultura Galega- sobre o valor do conhecimento de português na Galiza e como isso influi no nível de renda individual e coletiva das galegas”, lembra Palau. A política portuária ou universitária são outros dos pontos tratados durante a mesa de debate, onde se insistiu de jeito unânime na vantagem competitiva da Galiza no contexto da União Europeia a respeito de relações internacionais com outras potencias económicas–lusófonas– como o Brasil.

Ato post-congresso celebrado na sexta-feira 29, na faculdade de Filologia da USC, organizado pela faculdade e o Instituto Camões.

Ato post-congresso celebrado na sexta-feira 29, na faculdade de Filologia da USC, organizado pela faculdade e o Instituto Camões.

Crítica colonialista à lusofonia

Por outro lado, a sessão sociocultural serviu como ponto de questionamento do próprio espaço da lusofonia. A investigadora Luzia Oca mostrou o caso paradigmático das pessoas cabo-verdianas na Marinha, onde esta comunidade é empregada para “construção dum discurso político” sobre tolerância e integração, sem presença de medidas reais. Posteriormente, o professor universitário Elías Torres fez uma leitura histórica sobre a relação da Galiza com a lusofonia, com uma crítica para as instituições do sistema cultural galego como principais responsáveis da situação atual.

Por ultimo, o escritor cabo-verdiano Germano Almeida também realizou uma leitura post-colonial do panorama. Almeida tratou a interpretação do próprio conceito e espaço da lusofonia desde Cabo Verde, e como a história do seu pais mostra que a lusofonia dista muito de ser uma expressão organizativa entre iguais. “Depois do 25 de Abril, todo o mundo reconhece a igualdade entre Estados e pessoas… mas ele observou que, na vida real, segue sem existir uma relação horizontal entre Portugal e outros países de língua portuguesa”, conta Palau.

Eivas e potencialidades da CPLP

Na linha da exposição de Almeida, a  última sessão do congresso foi a geo-política, onde intervieram João Casqueira com uma revisão crítica do processo de construção da Comunidade de Países em Língua Portuguesa. “Questões como a luta LGTBI nunca entram no espaço da CPLP, mesmo quando esta nasce com o discurso dos direitos humanos. Isso gera muitas diferenças entre Estados membros, são coisas que não passam pelos órgãos de decisão coletivos”, comenta o diretor do IGADI.

Maria Sousa –Universidade de Lisboa– e Luís Cardoso –escritor de Timor Leste– achegaram as últimas visões do congresso. A primeira mostrou um discurso positivo sobre a lusofonia e o que esta inclui. O segundo, pela contra, fez um discurso crítico com a própria ideia de lusofonia, ao tempo que destacou as bondades dum sistema em comum. “Cardoso fez menção do importante que foi para Timor Leste a oficialização do português no processo de independência, e como foi formoso ser testemunha de como ajudou a língua para mediar com Nelson Mandela, porque pessoas próximas a ele falavam português, e isso foi uma ferramenta fundamental para a comunicação e a libertação das colónias”, concluiu Palau.


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