Comentários às Conversas com Estraviz: o reintegracionismo em Madrid



Moncho de Fidalgo é sócio da AGAL e académico da AGLP

Moncho de Fidalgo é sócio da AGAL e académico da AGLP

Felizmente chegou-me o livro das Conversas com Isaac Alonso Estraviz. Sem tempo não era! Galiza é um país em que se transita devagar… Tanto que por vezes nem se transita!

Para mim o das Conversas com Isaac Alonso Estraviz é um livro de leitura agradável. Foi lindo ir percorrendo o caminho do Isaac, como um rio de vida que vai fertilizando os campos com a sua rega. Por onde ele passa, com as suas atividades tanto eclesiásticas quanto pedagógicas, deixa um rasto de vida intelectual e de sabedoria própria dos génios.

Depois de ter lido O Primo Basílio do Eça ou as Viagens na Minha Terra de Almeida Garrett, posso afirmar que para mim este é o terceiro livro que me faltava por ler. Acho que o contributo de Bernardo Penabade é decisivo para que o seu conteúdo se torne agradável como se fosse um romance.

Assim conheci Isaac Alonso Estraviz

Fora eu candidato pelo BNPG nas eleições locais de 1979. Como cabeça de lista, aspirava a ser alcaide de Oincio, mas a minha candidatura só atingira uma ata de concelheiro. Após três meses de trabalho muito intenso no concelho, por razões de trabalho vim para Madrid no final do ano, quiçá nos derradeiros dias do mês de novembro.

Haviam de passar uns meses para que Isaac se interessasse por mim, a consequência de um breve artigo que eu publicara no semanário A Nosa Terra. Naquela altura eu escrevia já em galego regenerado, isto é, com ortografia etimológica e sem castelhanismos desnecessários no possível e até onde os conhecimentos mo permitiam. Este pormenor chamara a atenção do nosso amigo. Estraviz perguntara por mim a José Blanco, responsável local da UPG e da ANP, organizações de que também eu fazia parte.

Não estávamos longe. Eu morava na Rua Boltaña de Canillejas -um bairro de Madrid-, Isaac em San Fernando de Henares, um concelho próximo. Um dia regressara de trabalhar e a mulher disse-me que havia uma telefonema da parte de “um tal Estraviz…”. Para mim, esse nome era conhecido: havia pouco tempo que tinha lido na revista Encrucillada um artigo seu a respeito de que os nomes da semana em galego deviam voltar ao modo original (opinião que eu compartilhava).

Fiquei muito impressionado da sua mesa de trabalho:
havia dicionários de português por toda a parte

Liguei por telefone. A voz do outro lado do cabo resultou-me estranha (quase sempre, a voz defere muito do que um aguarda!).

-Agora mesmo vou na tua procura…
-Mas, agora?
-Sim, agora; para que adiar?

Lembro que combinámos num ponto da autovia que vai a Barcelona, próximo do meu bairro; que fora na paragem do autocarro que faz a linha Madrid-Alcalá; e que ele viera num Seat 600 de cor verde.

Mais tarde, visitei a sua casa e fiquei muito impressionado da sua mesa de trabalho: havia dicionários de português por toda a parte. Andava ele a trabalhar numa grande obra, na sua obra-prima. O projeto era pensado para publicar na editorial Galáxia, mas todos sabemos que por motivos óbvios não pôde ser: os arredistas da Galaxia exigiam um dicionário castrapeiro cem por cem, e Estraviz desejava que fosse publicado também com entradas em galego etimológico (mulher, Minho, janeiro, caixa, longe…).

-Nenhuma língua latina fora reduzida à vulgaridade de escrever tudo com “x” ! – zangava-se o Isaac sempre que falava no tema.

Aquele dia -possivelmente do mês fevereiro ou março de 1980- começou uma amizade que perdura até ao dia de hoje. Com ele viriam projetos comuns realizados nas associações culturais Irmandade Galega e Lôstrego, que uma vez fusionadas dariam passo à Irmandade Galega-Lôstrego, de grande sucesso para a cultura galega em Madrid. Não se esqueça que lográramos reunir até três ou quatro mil pessoas em atos programados por nós (concertos de grupos galegos). Estraviz tinha sido um dos fornecedores da unidade de ambas as associações, pela banda de Irmandade Galega. Por parte de Lôstrego estávamos os próximos do BN-PG e alguns da UPG que não simpatizavam com a unidade.

O reintegracionismo em Madrid

Conversas com Isaac Alonso Estraviz (capa)Na página 133 do livro, Bernardo Penabade descreve-nos magistralmente as atividades do nosso amigo em Madrid entre 1970 a 1984. Eu compartilhei os quatro derradeiros anos em que colaboramos na publicação das revistas da associação, e até por primeira vez apresentei um livro nos próprios locais, em novembro de 1983: O Sereno (Um guerrilheiro em Estalinegrado) foi publicado por Luís Rapela em Atria com prólogo do próprio Isaac. A obra apareceu com muitas gralhas, já que as provas de imprensa não foram corrigidas, mas foi a primeira publicação de ficção em galego regenerado ou reintegrado.

O local, um andar amplo e ideal para as convocatórias do nosso movimento em Madrid, estava na rua Tetuán, perto de Sol. Tínhamos um bar magnífico em que se podiam tomar vinhos da Galiza. Lembro que me vinha dor de cabeça sempre que bebia de um mau Ribeiro branco! Como ele não ia ser nocivo, se a adega se chamava Ribera!?

Coincido com Estraviz quanto à atitude de controlo que exerciam membros da UPG. Eu posso acreditar nisso e ainda contar mais uma anedota que teria a sua piada se não fosse pelas consequências finais: tanto José Luís Galego Rolám como eu próprio fôramos expulsos do BNG por um autocolante redigido em galego internacional e publicado com a nota: “Membros do BNG de Madrid”. Depois, tentaram convencer-nos de que não nos fôssemos com aquilo de “… é que o BNG não concorda com essa linha ortográfica…”, mas ficava claro que o Bloco Nacionalista Galego de Madrid censurava o nosso galego regenerado.

A associação cultural “Irmandade Galega-Lôstrego” fechou por causa das interferências políticas. Contudo, mais tarde os coronéis também foram expulsos tanto da UPG quanto do BNG após ter-se demonstrado a sua incapacidade para construir e a muita facilidade para destruir todo o que achavam no caminho. Foi mágoa perder aquela associação cultural tão plural no início e espalhadora da cultura e língua próprias da Galiza!

Também lembro emocionadamente a participação naquela manifestação pelas ruas de Madrid da que fala Isaac: cada pessoa levava uma letra e fazia aquela leitura possível: “Galego na escola” e “Dia das letras galegas”… Eu ia tocando uma caixa acompanhando as gaitas de fole!

Protagonistas

Pela minha situação laboral -tinha turno de tarde-, perdia quase todos os eventos importantes celebrados no local da Irmandade Galega-Lôstrego. Ainda assim, lembro com muito carinho e reconhecimento o trabalho de pessoas que foram muito importantes para o contributo do bom funcionamento da sociedade. Peço desculpas a todos aqueles que omita, sendo importantes naquela associação cultural galega em Madrid, mas a minha memória não dá para mais.

Um daqueles principais, José Luís Galego Rolám, fornecera a mobília de madeira autêntica tanto para o bar quanto para resto de dependências do andar. Era o que levava o grupo de teatro e colaborava economicamente com generosidade em tudo o que se movia na associação.

Outra das pessoas que andara a trabalhar muito e bem fora Henrique Albor, principal animador do grupo de baile. Ainda neste mês, contava-me uma anedota muito engraçada. Pelos vistos, andara também por ali um argentino professor de dança e a ele, recém-chegado da Argentina, confundiram-no com aquele outro:

-Quem bem que tenhas vindo; precisamos um professor de baile!

Carlos Taibo frequentaria connnosco
lugares de Madrid onde passava por brasileiro

Ele, Albor, chegara lá por meio do conhecimento de outro assíduo, um tal Buscom que agora dá aulas por Vigo. O do grupo de baile até fora tudo um sucesso; alguns pares que se conheceram por estes eventos até chegaram a casar (Maquieira, entre outros).

José Luís Forneiro (da Universidade Autónoma) ia muito pelo local. Ali cheguei a confundi-lo com um militante político; a nossa amizade continuaria após a desaparição da própria sociedade cultural. Carlos Taibo, a quem também tinha visto, frequentaria connosco lugares de Madrid onde ele passava por brasileiro pelo bem que imitava o sotaque. Por ali andavam Xartinho, o gaiteiro; Crisanto Veiguela Martins, que dera aulas de galego com Estraviz; Lila, de quem não gostavam alguns por ela ser uma das principais da UPG em Madrid; Charito; Temes; Celeiro, um rapaz de Samos que estudava jornalismo; Rifom, que afinal morrera num acidente de trânsito; Fidel, que repartia o jornal A Nosa Terra; Xan Rei; Liz, um dos que seria denominado coronel da UPG, que chegaria a dirigir a agrupação nos derradeiros anos; Manolo Conde; Vitoriano de Sárria; Manolo Saco; Manolo Veiga; Portela; Rapela e Parga -que trabalhavam lá nas exposições no local-; Seoane, outro dos principais do Bloco; José Maria Blanco, com quem fora a Valência para intervir num “mitim” político com o famoso Letamendia, basco da HB; e um tal Fernando -não lembro mais dele- da UPG, com quem tinha assistido a uma reunião com o secretário da Embaixada Soviética após as primeiras eleições galegas.

Como já tenho contado várias vezes, apresentáramos um documento e o responsável inquirira:

-Em que língua está redigido?

Nós guardáramos silêncio porque o Fernando sabia da minha postura reintegracionista e não queria polémicas perante o soviético e eu tampouco. Mas, antes que o silêncio nos afogasse, o soviético disse:

-Ah! Sim, está em castelhano!, -o documento estava redigido no “galego” do Bloco.
-Como o sabe?
– Pelo “ñ” do titular!

De Isaac Alonso Estaviz já se tem dito tudo: era o professor de língua, o animador cultural, o que trabalhava sem remuneração e o ensinante paciente. Com que paciência ele argumentava, sempre a rir e apresentando argumentos. Mágoa que em dous mil e catorze ainda se defenda que um “ñ” é galego ou que um “-ción” é evolução?

Renovação

Decorridos os anos, surgiu-me a ideia de por quê não fundar outra entidade -ainda que fosse mais modesta- para podermos trabalhar em Madrid pela cultura e língua galegas.

Falei com a Lola Alonso Paio, sobrinha do Estraviz que ainda morava em San Fernando (Madrid) e com seu marido José Ramón Álvarez -meu tocaio-; com Crisanto Veiguela Martins, Tomé Martins, José Galego Rolám, M.ª Inés García e Aracéli Árias. Após muitas discussões quanto a nomes -eu queria Renovação, que alguns rejeitavam por ser muito “lusista”-, alguém apontou a possibilidade de “Embaixada” -acho que Tomé- e afinal decidimo-nos por Renovação-Embaixada Galega da Cultura.

Tramitados os papéis na Delegación del Gobierno en Madrid, com data de 16 de março de 1989 fica legalizada esta associação cultural com património social de 250.000 pesetas [1.500 euros]. Uma vez posta em andamento, passaram como membros desta associação -além dos fundadores- muitas pessoas interessantes: José Manuel Outeiro; Alberte García Vessada; José Luís (o de Vital Aza); África Leira, uma mulher muito comprometida com os movimentos operários; Luís Bairros; Fernando (o brasileiro); Jurjo Valinha; J. Cousido de la Cruz; e Roi Rodrigues.

Segundo o artigo 4.º dos estatutos, os fins da associação iam ser: “1.º Manter o uso, dignificação e difusão da língua própria da Galiza através de publicações, conferências e atos legais entre os galegos residentes em Madrid e entre qualquer pessoa ou grupo interessado na cultura galega. 2.º Ser vínculo de união entre pessoas, grupos ou povos com idêntico sentir”.

Assim, sob esta chancela publicamos três números da revista Renovação, onde participaram com suas ficções ou artigos de divulgação D. Ricardo Carvalho Calero, Isaac Alonso Estraviz, Martinho Montero Santalha, Carlos Durão, José Luís Fontenla ou António Gil.

Com efeito, se os astros do galeguismo e o reintegracionismo galego em Madrid se não tivessem alinhado, nem R” como revista nem Renovação-Embaixada Galega da Cultura teriam nascido e não se teriam publicado três livros: a segunda edição de O Sereno (Um guerrilheiro em Estalinegrado) (1990); os Contos do Outono (1996) e as Conversas com Antom Árias Curto (2000); todos eles da minha autoria.

Este foi o contributo para a difusão da língua e cultura próprias da Galiza feito em Madrid por aquele movimento galeguista, aquela agitação nacionalista e reintegracionista que o Isaac A. Estraviz (e outros mais jovens que também tivéramos algo a ver) promovera no início dos anos setenta.

LISTAGEM DE COLABORAÇÕES NA REVISTA

RENOVAÇÃO
Nº 1-1989

Desenho da capa: José Luís Galego Rolam

Escrevem ou desenham neste número:

M.Alguém
Isaac Alonso Estraviz
Ricardo Carvalho Calero
Carlos Durão
José Luís Fontenla
Antonio P. Gil H.
Carmen González
Roi da Bolandeira
Pires Laranjeira
José Ramão Rodrigues Fernandes
Luís Rapela e Parga

RENOVAÇÃO
NÚM. 2-1990

Desenho da capa: José Luís Galego Rolám

Escrevem ou desenham:

José Martinho Montero Santalha
Crisanto Veiguela Martins
Amado L. Caeiro
Carmen G. Ares
M. Rabunhal Corgo
Jesus Lopes
J.L. Valinha
Jõa R. Do Padrão
Roi da Bolandeira

Desenhos de Tomé Martins, Luís Rapela e Parga

RENOVAÇÃO
NÚM. 3 1991

Desenho da capa: José Luís Galego Rolám

Escrevem ou desenham:

Desenhos de Roi e Tomé
Autocolante que provocara conflito no BNG de Madrid

José Martinho Montero Santalha
Carlos Durão
José Luís Forneiro
Ângelo Brea
Crisanto Veiguela Martins
João MacDonald Oliveira
José Ramão (Moncho de Fidalgo)
Alberte G. Vessada
X .M. Monterroso Devesa

 

Moncho de Fidalgo

Moncho de Fidalgo

José Ramão Rodrigues Fernandes nasceu no concelho de Oincio, no seio da família dos Fidalgos do lugar de Penaxubeira. Estudou eletrónica industrial na Escola de Mestres Industriais de Lugo e também em Madrid (Espanha) e na Escola de Engenheiros Industriais desta última cidade. É sócio da AGAL e académico da AGLP. É autor de O sereno, um guerrilheiro em Estalinegrado (1983), Seguindo o caminho do vento (1985), Contos de fada em do maior (1987) ou Luzia, ou o canto das sereias (1989). Atualmente continua a residir em Madrid, onde participa ativamente em Renovação, Embaixada Galega da Cultura.
Moncho de Fidalgo

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  • Ernesto V. Souza

    Muito interessante e revelador texto, parabéns, meu…

    Sempre lamento que a gente na Galiza não escreva mais memórias ou mais textos de caráter autobiográfico, dão para entender muitas cousa, relações e contextos necessários…

    Reunirmo-nos os galegos com afinidades sociais, políticas e culturais… em terra alheia parece mesmo natural e é muito importante.

    Apertas

    • Moncho de Fidalgo

      Obrigado amigo.

  • Moncho de Fidalgo

    Bom, tenho que esclarecer um dado que até o mês de Janeiro era certo, agora não: devido a um ERE executado na empresa onde exercia meus conhecimentos de eletrônica industrial sou um feliz “pre-reformado”!

  • Isabel Rei Samartim

    Lila, Charito, Lola Alonso, Mª Inés Garcia, Aracéli Árias e Carmen Gonzalez. Cinco nomes de mulher (nada, que ando pensando nessas cousas…)

  • ranhadoiro

    muito interessante o texto. Parabens pelo trabalho que fazem esses galegos e galegas em madrid

  • Proxecto Neo

    Obrigado, Moncho! Se algumha vez se chega a reeditar o livro, faremos acréscimos com estes teus contributos. O meu desejo era este: que aparecesse informaçom facilitada polos protagonistas de cada umha das etapas vitais de Isaac.