ALDEIAS DE ORDES

Charlton Heston ou o “cam galego”



Voltamos ao Castro Ceidom em que estivemos em junho para vê-lo junto com Vila Cide de Baixo e Vila Cide de Riba, aldeias da freguesia de Oroso – onde casualmente também há um castro, o Castro de Vila Cide – que ainda aparecem citadas como umha soa vila rural, “Villazide, in feligresia sancti Martini de Eroso”, num documento do ano 1238 em que é transferida de um proprietário a outro, incluindo na operaçom comercial os “serviciais” que a trabalhavam1. “Galegos de Alabama”, que diriam os Ataque Escampe…

Escola de Vila Cide, em Oroso.

Escola de Vila Cide, em Oroso.

Estes nomes de lugar fam-nos pensar, naturalmente, no mercenário castelhano Rodrigo Díaz de Vivar, ‘El Cid Campeador’, herói fundacional da espanholidade embora fosse mais conhecido entre os árabes espanhóis como “cam galego”, como neste texto do escritor e magnífico poeta de Santarém, Ben Bassam (c. 1077 – c. 1147):

“Quando Ahmed Ben Iusuf Ben Hud […] se cercionou de que os soldados de Emir-al-Moslemim saiam de todos os desfiladeiros, e rubiam por todas as partes aos pontos mais elevados, excitou um certo cam, dos cans galegos chamado Rodrigo e apelidado o Campeador. Este era um homem mui sagaz, amigo de fazer prisioneiros, e mui molesto. Deu muitas batalhas e causou infinitos danos de toda classe às taifas que a habitavam, e venceu-nas e sojuzgou-nas”.

Foi umha pena que no filme protagonizado por Charlton Heston (quem visitou o historiador Menéndez Pidal para se assessorar, e nom em vao foi a versom castelhanista da história a que se espelhou no resultado final) nengum árabe increpasse ao seguidor da Associaçom Nacional do Rifle dos EUA com tam simpático insulto.

Segundo a teoria tradicional, o apelido Cid/Cide e os topónimos derivados do mesmo seriam arabismos procedentes da palabra do árabe andalusi sid ‘senhor’. Assim se vem explicando desde Diego de Guadix a finais do século XVI até todos os seguidores atuais de Menéndez Pidal, mas o professor Eulogio Losada Badía2 intentou refutar esta teoria (que sentido poderia ter que os árabes alcumassem de “Senhor” ao seu inimigo?), demonstrando que a voz Cid já figura em numerosos diplomas medievais desde o ano 900, muito antes de nascer o herói dos castelhanos, sobretudo na área da Magna Gallaecia. Entre este abundante corpus documental, Losada Badía também acha citado duas vezes um tal Ceidone, e outras tantas um Cidone, ambos os dous nomes pessoais num mesmo documento de 9093, de maneira que o lugar de Ceidom de Ordes se poderia corresponder a umha pessoa que levasse este nome. Aparecem estes antropónimos sempre em documentos notariais, correspondendo-se a “testigos insignificantes o anónimos que asistían a los actos notariales”, de maneira que deveu ser um “nombre comunísimo, en esos siglos [entre X e XII], entre siervos y siervas”4, ainda que Losada, que desbota a etimologia árabe, tampouco oferece umha outra explicaçom alternativa ao dito nome. Tampouco se pode esquecer que, para além do mito da Reconquista e a suposta guerra interminável de oitocentos séculos, a galega e a árabe também foram duas culturas em contato permanente durante esse mesmo tempo, e que de nengumha maneira se limitárom a guerrear entre ellas. Os influxos culturais tenhem-se estudado a propósito da poesia medieval, mas devêrom ser muitos mais, de maneira que tampouco resultaria tam estranho um possível arabismo como o de sidi a circular pola Galiza.

mapa-ceidon

Para o caso de Ceidom resultará determinante a documentaçom medieval, pois se assim como no Catrastro de Ensenada aparecia como Seirom, também tem aparecido Sendom ou Zendom, que Ferrín explica por um nome germánico de possessor em genitivo: umha (villa) Sendone ou vila de Sendo (one), nome pessoal que conteria o elemento gótico sinths ‘caminho, viagem’5.

Por sua parte Gonzalo Navaza, quem sempre achega nas suas investigaçons um grande rigor histórico, documentou como o topónimo da freguesia de Sam Pedro da Mesquita, no concelho da Merca (e indiretamente, a de Sam Vitório da Mesquita, em Alhariz), se chamava até começos do século XI San Pedro de Ecclesiola. Entom produziu-se umha querela pola sua propriedade entre o mosteiro de Cela Nova e Vistriário, o sobrinho do rei Afonso V. O rei nom quijo pronunciar-se a favor de uns nem de outros, enviando ao lugar um homem de armas (sagione) chamado justamente Sarracino para que ocupe a paróquia em desputa com as suas gentes e as senhoreei de maneira provisória. Sustém Navaza que é no contexto desta desputa que começa a chamar-se-lhe a San Pedro de Ecclesiola (e que hoje seria Sam Pedro de Grijoá) por Sam Pedro das Mesquita, com umha evidente intençom burlesca ou ridiculizante, favorecida polo nome pessoal do saiom que ocupou as terras. Sarracino era nome comum também entre os cristaos, mas nesse contexto, que também é o das incursons de Al-Mansur, estimulou a associaçom entre os ocupantes “sarracenos” e a ecclesiola convertida em “mesquita”. Pois bem, após estas explicaçons Navaza deixava aberta a possibilidade de que o apelido Cid (em que “conflúen aparentemente un patronímico en xenitivo a partir do nome altomedieval Citus e mais o arabismo procedente de sidi (‘señor’)” especialmente abundante na zona dos topónimos a Mesquita, “poida ser outra consecuencia onomástica dos mencionados feitos de comezos do século XI”6. Desta maneira, muitos dos “senhores árabes” galegos poderiam ser o resultado de umha alcunha paródica.

Aparecendo o apelido concentrado por volta de Alhariz, zona de procedência do ex-preso de Galicia Ceibe (OLN) e escritor Xosé Cid Cabido, na história ordense aparece um Domingo Rodríguez Cid, franc-maçom da lógia Amor Universal n. º 32, que no ano 1892 exercia o cargo de Porta Estandarte da mesma7.

Referências

1 “Era MCCLEXXVI [1238] et quotum Mai, Notum sit omnibus quod Magister Iohannis Alfonso, archidiediaconus de Trastamar, nomine Capituli compostellani, absentis, commutat cum Petro Gutierrit milite de Varzea [no atual concelho de Lalim], agnuente pro se et pro uxore sua, donna Maria Oduarii, absente, casale ilud de Mooes, quod este in feligresia sancti Iacobi de Gresande [também em Lalim], quod ibi habeant Capitulum compostellanum cum tota popullacione et moni iure et actione qua ibi habet Capitulum, tam in hereditate quam contra seruicialiam, pro illo casali quod predictus Petrus Gutierriz et uxor sua predicta habent in Villazide, in feligresia sancti Martini de Eroso, cum omni populatione et hereditate quam Petrus Bispus, seruicialis dicti militis et uxoris sue, hodie tenet pro eis, et transfert ipse milles, pro se et predicta uxore sua, in predictum acidiaconum nomine Capituli omne ius et actionem quam ipsi habent et habere debens in ipsa villa et contra seruicialem”. Reproduzido em: José Barreiro Somoza, El señorío de la Iglesia de Santiago de Compostela, Corunha, Diputación Provincial, 1987, p. 425, n. 253.

2 Eulogio Losada Badía, “El Campeador CID en las peninsulares fuentes medievales”, Anuario Brigantino, n.º 28, 2005, pp. 139-147.

3 Emilio Sáez e Carlos Sáez, Colección Diplomática del Monasterio de Celanova, vol. 1., 1996, doc. n.º 10, cit. Em: Eulogio Losada Badía, op. Cit., p. 144.

4 Eulogio Losada Badía, op. Cit., p. 143.

5 Xosé Luís Méndez Ferrín, Consultorio dos Nomes e dos Apelidos Galegos, Vigo, Xerais, 2007, p. 386.

6 Gonzalo Navaza, “Sarmiento toponomástico. O topónimo Mezquita”, Actas do I Congreso Internacional de Onomástica Galega “Frei Martín Sarmiento”, 2006, pp. 87-96.

7 Alberto Valín Fernández, Galicia y la masonería en el siglo XIX, Sada, Ediciós do Castro, 1990, p. 337.

Carlos C. Varela

Carlos C. Varela

Carlos Calvo Varela (Ordes, 1988) colaborou e colabora com diveros meios de comunicaçom, entre os quais Novas da Galiza, Praza Pública e o Portal Galego da Língua. Estudante de Antropologia e investigador, tem publicado numerosos artigos em portais web, revistas e livros, além de realizar um reconhecido labor como dinamizador social e cultural em coletivos de Compostela e Ordes.
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