Carvalho Calero deseja um feliz ano



Quando iniciamos o que vai ser o Ano Carvalho Calero 2020 é boa ocasião para sentirmos como dirigida também a nós a felicitação de Carvalho em circunstância similar há mais de 60 anos.

Em dezembro de 1955 Carvalho Calero dirigiu aos galegos residentes na Argentina a seguinte mensagem de bons desejos para o novo ano 1956 (texto que aqui transcrevo em normativa reintegrada, como provavelmente hoje faria o próprio Carvalho):

Bem quisera que estas verbas levassem a todos vós, galegos da Argentina (entre os quais figuram alguns dos meus melhores companheiros dos anos moços), um eco da infinda voz da Terra, cheia da vossa lembrança, como vós estais cheios da lembrança dela.

Como vós não a esqueceis, Ela não vos esquece. Como vós estais nela em espírito, Ela está em espírito em vós. E vós e nós, por riba do mar que nos afasta e junge, somos um só coração, um só latejar, um só viver.

Recebei a expressão dos meus sinceros anseios de boa andança e saúde para o ano que vai dar começo. Que ele vos traga fartura e ledice nos vossos fogares, glória e enxebreza nas vossas obras, nas vossas almas alento e vigor. E que cada dia enriqueça as vossas vidas com novos frutos de benção, e que cada dia vos sintais mais irmãos entre vós e mais irmãos conosco.

Galegos da Argentina, bom ano novo!

Trata-se de uma mensagem destinada a ser lida no programa radiofónico Galicia emigrante, que o desenhador e escritor galego Luís Seoane promoveu por esses anos em Buenos Aires. Na Galiza era sobretudo Francisco Fernández del Riego, incansável animador e intermediário de contatos com os emigrados americanos, quem se preocupava de solicitar de diferentes personalidades do mundo cultural galego essas mensagens.

Tomo o texto da (excelente) edição do epistolário de Carvalho Calero a Fernández del Riego, transcrito e anotado por  Dolores Vilavedra e Montserrat Pena[1].

As editoras também informam em nota que na antologia de textos emitidos nesse programa editada por Xavier Seoane e Lino Braxe em 1989 aparecem, para esse ano novo de 1956, felicitações de Florentino Cuevilhas, Iglésia Alvarinho, Jesus Carro e Valentim Paz-Andrade, que foram lidas no dia primeiro do ano, mas não se recolhe a de Carvalho Calero[2].

Dado que Carvalho envia este texto (“as liñas que me pedías”) a Fernández del Riego desde Lugo a Vigo em carta datada a 22 de dezembro (desculpando-se porque “Denantes, non as puiden facer”), é possível que resultasse já tarde de mais e que Fernández del Riego renunciasse a reenviar o escrito a Buenos Aires. O feito mesmo de conservar-se unido ao epistolário pode ser prova de que não foi reexpedido.

Como as editoras também advertem, não foi essa a única vez que Carvalho redigiu uma felicitação dessa índole: noutras passagens do epistolário aparecem referências a similares mensagens de ano novo, alguma mesmo em verso, cujos textos, porém, não se conservaram com as cartas que os acompanhavam (o que parece confirmar que o que aqui reproduzimos não chegou a ser enviado nem portanto radiado).

[1]  Epistolario a Francisco Fernández del Riego, Editorial Galaxia, Vigo 2006, 580 pp. (“Transcripción e edición Dolores Vilavedra e Montserrat Pena”), pp. 175-176.

 [2]  Xavier Seoane / Lino Braxe (eds.), Escolma de textos da audición radial de Luís Seoane «Galicia emigrante» (1954-1971): Versión galega e edición de Lino Braxe e Xavier Seoane, Ediciós do Castro, Sada – A Corunha 1989, 516 pp. [Serie «Documentos», núm. 60].

José-Martinho Montero Santalha

José-Martinho Montero Santalha

José-Martinho Montero Santalha (Cerdido, Corunha, 1947) é doutor em Filologia e especialista em poesia trovadoresca. É um dos membros fundadores da Associaçom Galega da Língua (AGAL) e integrante da sua Comissom Lingüística. Foi o primeiro presidente da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP) desde a sua criação, em 2008.
José-Martinho Montero Santalha

Latest posts by José-Martinho Montero Santalha (see all)


PUBLICIDADE

  • Captain Ahab

    Eu coido que Carvalho, hoje, provavelmente nom escreveria «não a esqueceis», mas «nom a esquecedes», nem escreveria «expressão», mas «expressom». Se quadra, em 2034 ou 2035, sim, bravo sei. Mas tamém acho que Feijoo em 2085 ou 2086 escreveria em português. Logo Feijoo é reintegracionista e patriota galego. Acho.