Carvalho Calero e a renovação pedagógica do Colégio Fingoi

Ramom Reimunde ofereceu a seguinte palestra sobre o homenageado no Dia das Letras 2020 a passada terça-feira em Lugo



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O primeiro dar os parabéns a todos porque já estamos no ano em que por fim se dedica o Dia da Letras Galegas a D. Ricardo Carvalho Calero e este de hoje é um dos primeiros atos comemorativos. Será todo um ano de homenagens a quem o merece.

Será também um ano intelectualmente polémico, porque cada quem quererá adatar o homenageado ás suas posições políticas e linguïsticas. Se quisseram assimilar e minimizar a Castelao no 86 e desde 1950, como não o iam fazer com o seu correligionário galeguista? Estão preparando-se homenagens, reedições das suas obras e sobre o autor (- aqui mesmo nesta casa se imprimirá o novo Cativeiro de Fingoi, da mão de Joam Ramiro Cuba, que é garantia de bem fazer, onde se explica tudo o que fijo D. Ricardo em Lugo durante quinze anos, e em Laoivento o  magnífico livro de Martinho Montero ampliado-), uma biografia em Ir indo de Paulo Mirás,  banda-desenhada de AGAL e mesmo congressos e festas. Cousas veremos! Todo um ano de celebrações á altura do máis importante lingüísta e estudoso da literatura galega do século passado. E não só, porque como escritor cultivou todos os géneros literários com grande qualidade.

 Hoje aqui vou falar de D. Ricardo, -como nós sempre lhe chamamos com respeito-, e da sua experiência pedagógica no Colégio Fingoi em Lugo, entre os anos 1951 e 1965. Para isso vou seguir só o capítulo 3 do livro que como disse confio que reedite esta Deputación de Lugo, capítulo titulado “Uma ( maravilhosa) experiéncia docente chamada Fingoi”, também poderia dizer “decente”,  que alguns terám lido na primeira edição, e outros já me terám ouvido falar disso noutros foros, pelo que pido desculpas pela repetição e insistência no mesmo tema e argumentos.

 Começarei com dous razoamentos que não figuram nesse livro nem noutras publicações minhas.

A primeira é a diferença entre pedagogia e didática. Alguns terão-se dado conta de que o título desta palestra se referia á inovação didática no Colégio Fingoi, do que também falarei  no relativo aos métodos e técnicas de ensino para promover a adquisição de conhecimentos, na prática, quer dizer, o arte de ensinar, de ensinar a ensinar. Mas eu falarei porém de pedagogia em um sentido máis amplo como ciência teórico-prática da educação, especialmente dirigida aqui aos meninos. Não hai que esquecer que pedagogo na antiga Grécia era o escravo que acompanhava a pé as crianças ou o preceotor e educador dos menores. Nos dicionários vém a palavra pedagogia como “a ciência que tem como objetivo a melhoria no processo de aprendizagem dos indivíduos em geral, atravês da reflexão, sistematização e produção de conhecimentos, quer dizer, pedagogo é o que ensina e educa por doutrina e exemplos. Aparentemente, pedagogia e didática são o mesmo, referidos a esse difícil arte de ensinar bem, mas não são exatamente o mesmo no conceito. A pedagogia é teoria complexa, e a didática é prática metodológica.

Por isso me pareceu pouco afortunada a afirmação referida ao professor D. Ricardo Carvalho Calero que aparece duas vezes no livro antes citado do Cautivério (- aquela vez anterior jogando com a palavra Salterio, de salmos bíblicos, título de um poemário escrito precisamente em Fingoi pelo nosso autor analisado hoje-), concretamente nas páginas 61 e 75. Segundo a opinião de várias pessoas, algumas talvez aqui presentes, D. Ricardo como professor era um bom didacta e um mal pedagogo, por que não estava á altura dos jóvenes alunos e alunas, nem os comprendia. Queriam dizer que exerceria melhor como professor universitário de alunos maiores que foi a partir de 1965, porcerto, o primeiro catedrático de Língua e Literatura Galega da USC. Creo que se trata de uma contradição em si mesma, segundo as anteriores definições, porque se era um bom professor (- isso sim muito exigente e sério, com autoridade-) com o que se aprendia muito e bem, então empregava uma boa didática fundamentada numa boa pedagogia geral. Pode-se ser bom pedagogo teórico e mal didacta prático. Todos temos sofrido algum desses professores ou professoras  que sabia muito e não sabia ensinar ou resultava pesadíssimo. Mas não se pode ser de boa didática e má pedagogia, a não ser que se sustente em ideologias perversas e ensine bem o que está mal. Não sei se me explico, mas pela minha idade eu estudei nos tempos em que Formación del espíritu nacional o davam os de Falange e Religion uns curas preconciliares.

Na didática do Colégio Fingoi como arte ou técnica de ensinar, como parte da Pedagogia que se ocupa dos métodos e técnicas de ensino, destinada a colocar em prática as diretrizes da teoria pedagógica, intervinham quatro elementos:

  •  O professor e o aluno
  • A disciplina ou matéria
  • O contexto de aprendizagem
  • As estrategias metodológicas.

Todos eles importantes, mas não hai que esquecer duas máximas que divulgava a doutrina da ILE, – que logo aclararei-, uma delas que dize “la reverencia máxima que al niño se debe” e outra contundente “Dadme el maestro, y os abandono todo lo demás”. Ah! O mestre!, o magister, o que nos fai ter mais, o que nos educa. (Reservamos a palavra “maestro” em galego para o professor ou compositor de música). D. Ricardo foi um bom  professor e mestre, quiçá com um estilo antiquado e com impressionante autoridade moral, mesmo imponhente pela voz e a olhada, mas isso não impede admitir que ensinava bem. Outra cousa é o “princípio de autoridade”, e o temor e respeito que infundia no alunado, incluso universitário, não digo já nos nenos pequenos. Eram outros tempos. Eu sei do que falo porque fum aluno dele na Universidade de Santiago, e efetivamente, era uma educação todo o culta que se quisser, mas espartana, rígida e sem lugar a indisciplina. E estou metendo-me em terreo pantanoso… Porém sempre foi o melhor dizer a verdade por diante. Também fum professor, inovador e liberal, depois só um adestrador para a Selectividade, mas na disciplina e rigor nom admitim concessões. “Cada mestrinho tem o seu livrinho”, um livrinho para estudar a lição e praticar depois repetindo-a na aula, um estilo de oficiante desse rito e de diretor de orquestra, com os seus trucos para captar a atenção do alunado. Eu também os tivem, um deles era socrático e peripatético, passeiar pela aula. Se conseguia que me seguissem com a mirada, já estava conseguida a atenção. E D. Ricardo também os tinha: os seus acenos de tribuno romano com as mãos, os silencios circunspectos,  a olhada elevada, a suma seriedade, talvez um sorriso tímido de costas ao público escolar, e sobretudo a entoação e a voz potente. Ademais demonstrava que sabia do que falava argumentando em longas peroratas eruditas. Todo bom professor é um orador em práticas.

E tudo isto tem que ver com a segunda aclaração: a inovação didática do Colégio Fingoi nos seus primeiros quinze anos tem o seu fundamento pedagógico indiscutível na ILE, a Institución Libre de Ensinança, fundada em 1866 por D. Francisco Giner.

 Tanto o fundador e dono D. António Fernández, como o diretor e professor D. Ricardo Carvalho, estavam conformes em  seguir esse modelo de ensino como transmissão de conhecimentos e método de instrução. Porque ambos os conheciam dos tempos do SEG.

 Quales eram os princípios pedagógicos da ILE, que procurava a liberdade de pensamento e métodos inovadores que lograssem superar um ensino de corte religioso e medieval, pouco científico, com tolerância? Pois eram:

  • A nova relação mestre/aluno
  • Despertar o interesse nos alunos pela cultura em geral, sem disciplina férrea.
  • Fomentar a saúde e higiene corporal, o decoro pessoal e hábitos e maneiras corretas.
  • Sensibilidade e gosto estético com um ideal
  • Trabalho intelectual, jogos ao ar livre e natureza
  • Sem exames nem livros de texto, sem lições de memória, e sem prémios e castigos
  • Coeducação de nenos e nenas, sem discriminação da mulher
  • Ensinando a razonar e ressumir com notas breves, a redigir apontamentos.
  • Excursões escolares como processo intuitivo.
  • Cooperação com as famílias dos alunos e mescla de ricos e pobres. Mundo rural.
  • A JAE, Junta para ampliación de estudios, com becas no estrangeiro e na península.
  • Ser independentes, rejeitar subvençoes e liberdade de cátedra.
  • Procurar um humanismo integral por método intitivo, sem homologação de tiítulos.

Reconhecem já que o Colégio Fingoi seguiria todas estas diretrizes, com as salvedades do tempo político dos anos cinquenta, salvo talvez o caso da disciplina férrea?

 Tema central

Pois então vamos falar um pouco do Colégio Fingoi e do seu Diretor, o tema central.

No opúsculo Memórias e Estatutos do Colégio Fingoi de 1960 já figurava uma descrição do Colégio, saída da pena do seu diretor:

—1) Quanto á pedagogia do Colégio Fingoi, parece-nos com a perspetiva de hoje, uma maravilhosa experiência irrepetível, que semelha ter acontecido noutro país e noutros tempos mais próximos. Sem temor a exageração foi um singular caso aparte, único na Galiza, quiçá com a excepção de Antia Cal em Vigo.

António Fernández tivo a originalidade insuspeitada de criar o melhor dos colégios possíveis para os seus numerosos filhos e de familiares ou amigos, investindo importantes somas de dinheiro numa educação de elite, muitos anos antes de que isto se considerasse rendível. Aquele “engenheiro metido a pedagogo” levava as ideias á prática com tesão. Essa era a verdadeira grandeça da vida, segundo Castelao.

 Insiste-se uma e outra vez nos Estatutos no lado prático da pedagogia com o fim de capacitar os nenos para a vida ao margem de todo aspecto industrial ou lucrativo:

—-2)  Sabemos assim por numerosas declarações de alunos que em Fingoi não se utilizavam livros de texto convencionais, si enciclopédias e livros de leitura, tomavam apontamentos na aula, não estudavam memorísticamente, faziam contínuas investigações de campo sobre o que estudavam, cultivavam as suas parcelas de horta, plantariam e cuidariam as suas árvores, viajariam pelo país e por Espanha, saberiam o que era a matança do porco ou a compra no mercado pelas observações in situ, apreendiam a alimentar-se e manter um comportamento correto e higiénico na mesa, consumindo os produtos vegetais que cada um produzia, faziam literatura e teatro em vivo e realizavam práticas elementais de laboratório.

 Para isso contavam no Colégio, situado no meio do campo, com parques e instalações de carácter botânico-agrícola, zoológico-gandeiro. Com talheres e oficinas de carpintaria, electricidade, metais, motores de explosão adatados, laboratórios de Física, Química e Ciências, tão insólitos no Lugo de 1953. Além disso, a educação era galega, de subtil tendência galeguista, com alusão a autores galegos em Literatura, recitais de textos galegos, obras de teatro, atividades folclóricas, aulas de dança galega e gaita, com viagens por toda Galiza os domingos durante o curso e pelo resto de Espanha ao final do mesmo. Todo isto era conduzente a galeguizar um ensino espanholista, o qual nos parece aínda máis insólito naqueles anos da ditadura. E podia fazer-se com dissimulo, porque detrás estava D. António e a família de Antom  de Marcos, pouco suspeitosa.

 Outra das peculiaridades era o número de alunos por aula, que não podiam exceder de vinte em aulas de trinta e seis metros quadrados com luz natural, sem competitividade nas qualificações e nos desportos, com ausência de castigos (-salvo maior permanência na sala de estudos sem recreio-, e sem livros de livros de texto da época.

 O trabalho técnico e docente do colégio foi executado pulcramente por D. Ricardo, mesmo dando todas e cada uma das matérias de letras, servindo de tapadeira o Patronato de Cultura e Pedagogia, onde figuravam diretores de institutos e membros da Igreja, sem problema porque eram afectos a D. António e concordavam com o método ou olhavam para outro lado.

 O Próprio D. Ricardo tem falado desta experiência pedagógica  desde o seu ponto de vista:

—-3)  As atividades e locais do Colégio Fingoi desde 1952 eram estas:

  • BIBLIOTECA, livros de consulta e leitura, que ainda estão lá.
  • TEATRO. Araceli Herrero Figueroa poderia falar. Não tratarei este tema.. 7G, 2L, 5C
  • ALUNADO E PROFESSORADO. (60 ALUNOS E ALUNAS em 15 anos)
  • GRANXA ESCOLA, Barreiros, Sárria.. Devesa, Pousa Antelo e Plata Astrai
  • DANZA E GAITAS GALEGAS
  • ÁRVORES E PARCELAS
  • EXCURSIONS
  • CENTRO DE ESTUDOS FINGOI. Publicações: Cancioneiro popular, Pero Meogo Versos esquencidos de Pondal e Contos populares da Provincia de Lugo (reeditáveis).
  • Professores beneficiados, Ferrín, Maria Jose Queizán e Bernardino Graña.

A FIGURA DO FUNDADOR E MANTEDOR DO COLEGIO FINGOI

Nom queremos concluir esta palestra sem homegear a D. António Fernández, como felizmente se começou a fazer em tempos recentes, trás 50 anos de esquecemento.

Cedemos a palavra literamente a D. Ricardo Carvalho Calero, quem no artigo “Quinze anos em Lugo” do livro Letras Galegas expressa o conceito que tinha de D. António:

—4) Conhecendo a precisão e meticulosidade de quem as dita, temos as anteriores palavras laudatórias por rigorosamente certas e exatas, apesar da paixão contida nesta espécie de pranto pela perda do amigo e protetor e de que seja o justo pago agradecido a quem lhe dera o pão e a pousada segura em tempos difíceis.

Mas, sendo o nosso dever consultar outras fontes próximas, tivemos a oportunidade de contrastar a veracidade da versão de D. Ricardo com pessoas de ambas as famílias. A sua filha Magali Carvalho-Calero Ramos, tem-nos comentado que seu pai tinha certos problemas dialécticos com D. António, porque chocavam um idealista fronte a um técnico do ensino, já que seu pai tinha o papel de limitar o ideal de Colégio Fingoi à realidade de Lugo e de Galiza no pós-guerra. D. Ricardo viveu muita tensão pelo colégio, tantas horas imerso naquela complicada organização educativa em regime de meiopensionado, que exigia a sua atenção constante, sobretudo na negociação económica com o professorado, que era o mais difícil.

Por outro lado, Siña Fernández, filha de D. António, de quem tem herdado entre outras qualidades paternas a discreção e a modéstia, recorda que seu pai falava em galego sempre na intimidade, que dotou do seu personalismo e tradição galeguista o colégio e que ainda tratando-se de um idealista, pensava essas ideias e punha-as em prática com carácter firme sem preocupar-se dos comentários nem da publicidade, pois se era um empresário emprendedor e ganhador noutros campos, não lhe preocupava Fingoi especulativamente pelo lado económico. Sim lhe importava muito no aspeto didático, e no pedagógico no que quiçá tivesse mais discussões com D. Ricardo que, tudo há que dizê-lo, era muito bom didacta ensinando e discutível pedagogo compreendendo os meninos, como sabem os ex-alunos de Fingoi. D. António dava muita importância à alimentação e ao cuidado sanitário dos alunos do Colégio, segundo a opinião da sua filha Siña, que nos dize que a família dispõe de poucas fotografias do fundador relacionadas com Fingoi ou com atividades públicas em Lugo, porque sistematicamente rejeitava os honores e a publicidade: “Fago as cousas porque penso que hai que facé-las, non para sair nos peródicos”, como dizia com frequência para defender-se e manter a discreção com que sempre viveu.

A professora Concepción Fernández Crespo  –que o sabia muito bem por estar presente daquela–  expressou de forma eloquente e singela a atitude e ideário de D. António:

Gostava muito de ver as obras de teatro representadas pelos meninos e moças, brincar ao tempo dos gregos e dos romanos, ou doutras culturas. Passava horas vendo as danças galegas, os ensaios de gaita, observando os alunos. Mas Don António do que mais gostava era de fundamentar tudo sobre a natureza, sobre as ciências naturais.

António Figueroa, médico e farmacéutico amigo pessoal de D. Ricardo e admirador de D. António, tem-nos comentado com claridade e simpatia que considerava a D. Antonio Fernández como uma grande pessoa, um homem independente, idealista, o típico Mecenas no nobre sentido grego, não só crematístico, do que se dizia em Lugo que fizera o Colégio Fingoi para a prole dos seus próprios filhos e que se supunha que lhe custava quartos, ainda que sobre isso havia uma certa reserva porque D. António tinha, como bom empresário da família Fernández, uma forma muito especial de pagar e de contratar de palavra. Segundo Figueroa, pagava pouco e não existiam pagas extraordinárias, um invento, para ele, franquista. Opina –porque o sabe de boa tinta– que Carvalho Calero era leal a D. António, com quem sostinha discussões abondo, sendo o diretor partidário de que se constituisse em Padroado pela questão económica, pela seguridade social e outros temas laborais do professorado. Acredita que a sociedade luguesa chegou a respeitar aos dous, ainda que também houvesse daquela fundamentalistas em Lugo que os olhassem com receio, inveja ou desconfiança.

Esta última opinião exposta faz-nos recapacitar, neste nosso intento de reconstruir uma época da vida luguesa, que desconhecemos por não a ter vivido directamente. Porque há algo obscuro nesse passado lucense do pós-guerra, que nos impede ver bem.

Con toda a admiração e respeito por aquela doutrina educativa e galeguista do Colégio Fingoi, mesmo com clara simpatia cara ela, não entendemos por que foi rejeitada e não foi seguido o seu exemplo, ainda entendendo as circunstâncias políticas da época. Produze-nos surpresa e desilusão comprovar que na altura de meados do século XX este Colégio Fingoi aqui sintetizado, foi discutido em Lugo, tachado de progressista e esquerdoso quando a sua ideologia era conservadora, olhado com reticências pelo seu galeguismo ligeiro, acusado despetivamente de idealista pelos técnicos do ensino oficial, de pouco formador em matérias indispensáveis para um estudo técnico e com saídas laborais, quando era prático, salientando o inconveniente de ser caro (800 pts/mes), fronte à gratuidade do ensino oficial, quando proporcionava bolsas para estudantes rurais e non era só de alunos ricos de famílias “progres” como se pensava, ignorada pelas instituções e pelos jornais a sua originalidade e peculiaridades por ser mixto e laico, e depois de tudo, castigado pela sociedade luguesa conduzida subtilmente por quem ostentava o poder real, com o pior dos despreços de ignorá-lo, porque o certo é que não mandavam os seus filhos estudar ali, como se deduce do limitado listado de alunos que estiveram matriculados nessa época entre 1950 e 1965, os mais afortunados culturalmente.

Em realidade o Colégio Fingoi seria discutido e questionado pelas mesmas causas que o eram o seu fundador e o seu diretor, todo um luxo para aquele tempo e lugar. Não queremos pensar que também atuaria a inveja e o complexo que a gente do comum sente pelos indivíduos excepcionais a quem não perdoam a sua singularidade e valia. Ou a ignorância de um povo desconfiado e mal educado, que as forças vivas mantiveram sempre mal informado ou subtilmente submetido. As cidades e os povos não chegam a conhecer  o melhor e os melhores que tiveram ao seu arredor. Agora os tempos são chegados de compensar isso.

1971. António Fernández, que foi um dos melhores cidadãos que teve Lugo, morre aos sessenta e oito anos em 1971. Este engenheiro de caminhos de família folgada e bem preparada para os negócios, estudara em Madrid entre 1920 e 1930, onde também se fizera aparelhador, sendo criador de empresas industriais muito importantes como Celtia, Transfesa, Cementos Cosmos, Calfensa, Prebetong e Cegrán; emprestou grandes serviços à cultura galega com empresas culturais como o Museu de Lugo, o Talher de Gaitas, os Cursos Agropecuários da Granja-Escola de Barreiros, os Cursinhos de Primavera do Círculo das Artes, o Centro de Estudos Fingoi com as suas publicações e bolsas para estudantes e com a sua participação na fundação da editorial Galaxia, e sobretudo, para o que a nós interessa aqui, fundou aquela maravilhosa experiência pedagógica do Colégio Fingoi, que nos tem ocupado hoje e nos tem produzido sempre tanta admiração. Louvado seja por isso, e por isso também, lembrado na posteridade.

António Fernández, nascido em 1903, conhecera sem duvida os avanços pedagógicos e inovadores da ILE. A sua irmã estivo na Ressidência de estudantes de Madrid. Os seus irmãos Fernández, sobretudo José, fundador de Pescanova, assim como D. Ricardo, estudaram em Santiago nos anos vinte e tiveram amigos galeguistas com bolsas da JAE, sendo admiradores das Misiones Pedagógicas e do Instituto Escola.

 Aliás, a independência e neutralidade ideológica do Colégio Fingoi nos primeiros tempos é inegável, apesar do seu galeguismo tímido e tradicional permitido. Acolheu professores represaliados e apartados da cátedra pelo franquismo, entre eles o próprio D. Ricardo, D. Vicente Devesa, D. Avelino Pousa Antelo e outros.

Conclusão

 

 Portanto, a conclusão final é que tanto D. Ricardo, como D. António , como o próprio Colégio Fingoi, são uma experimentação nos anos 50 dos pricípios da ILE, adatada á nossa cultura na medida em que lhes foi possível pelos tempos da ditadura que lhes tocou viver. Foi aquela uma decente experiência inovadora, da que foi muito grato falar-vos em Lugo e que os lucenses não devíamos ignorar nem esquecer.

 Finalmente direi, que penso que a figura de D. Ricardo Carvalho Calero, ressuscitada este ano 2020 trás trinta de ostracismo oficial, é uma estrela na constelação das nossas letras galegas que brilha com luz própria e poderosa, uma luz tão intensa que não será possível apagar e ocultar pelos seus detratores, como algumas instituções pretendem por não estar de acordo com as suas ideias dos últimos dez anos, plasmadas felizmente em muitos livros, sobre a integração da nossa língua milenária na lusofonia internacional quanto a sua escrita, não a sua pronúncia como podem observar, quem sempre seguiu a trajetória clássica dentro do galeguismo máis tradicional e auténtico, do PG e Castelao.

 Eu pessoalmente fiquei sempre muito orgulhoso e feliz de ter sido um dos seus alunos e discípulos nessa doutrina, quiçá o menor, mas não por isso deixei de ser um dos máis ativos e fieis defesores do nome e personalidade do nosso professor D. Ricardo, sempre que me foi possível e com as minhas limitadas forças, sem fazer apologias exageradas que não são precisas pelos méritos patentes do protagonista da película, já que sobrados doutores tem o reintegracionismo da Santa Mãe Academia Galega da Língua Portuguesa que o saberam fazer melhor que este humilde membro dela, e com quem espero estejam afinal conformes e convencidos os ilustres presentes que tiveram a paciência de escuitar-me hoje , a quem muito agradeço o seu interesse e atenção. Disse.

Ramom Reimunde Norenha

Ramom Reimunde Norenha

São Martinho de Mondonhedo, Foz, na Marinha de Lugo. Seguiu estudos na escola rural de Ferreira a Velha, em Xixón, no internado claretiano, em Oviedo na Faculdade de Ciências, e em Madrid, na Escola Superior de Engenheiros Navais, na Crunha estudou Náutica, até lograr o título de Capitão da Marinha Mercante. Licenciado em Filologia Hispânica em 1979 e em Galego-Portuguesa em 1982, começou a trabalhar no Ensino Público nos Liceus de Viveiro, Lugo, e afinal no IES de Foz, onde atingiu a condição de Catedrático em 1992. Escreveu livros de crítica literária de feição pessoal: Poesia Galega Completa de Leiras Pulpeiro, 1983; Trebom de Armando Cotarelo, Agal-1984; Bem pode Mondonhedo desde agora (Prémio de ensaio Ánxel Fole em 1998, sobre Leiras). Também escreveu sobre Costumes antigos de Galiza, e uma crónica romancística sobre o mar e os pescadores do bonito, A Costeira, em 2006. Está a escrever uma história florestal do mato na Galiza, desde a sua experiência, O Segredo do monte, porque desde 1990 preside uma SAT e trabalha em plantações e em implantações de associações de propietarios florestais locais. Vai para vinte anos que mora na sua antiga casa fidalga familiar em Adelã (Alfoz) com a mulher, de Carnota, e os três filhos, agora universitários ausentes. Leva vida retirada e solitária, longe do mundanal ruído. Como ele reconhece, gosta do seu labor no ensino e dos livros; ama o mar e o mato, as árvores e os navios, e o seu país e a língua dos seus por cima do razoável. Mas considera que a sua pátria é a Língua Portuguesa, como Pessoa, e que é galego pela graça do idioma comum, como Castelão.
Ramom Reimunde Norenha

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