Carvalho Calero, adail do reintegracionismo



Alguns vínhamos denunciando cada ano uma situação que considerávamos anómala, como é o feito de que o insigne professor Ricardo Carvalho Calero vinha sendo postergado indevidamente como a personagem elegida para ser homenageado o Dia das Letras Galega, que podia dever-se a uma espécie de censura tácita cara ao escritor ferrolano por ter sido o maior estandarte da posição normativa ortográfica conhecida com o nome de reintegracionismo. A prática da censura e da repressão ideológica esteve muito estendida no Estado espanhol um dos maiores escaparates mundiais da inquisição, país, que fez estragos na psicologia do «homo hispanus». A esta tendência, que costuma aninhar nas diversas associações e instituições tampouco foi alheia a RAG, que em tempos de Garcia Sabell marginava os escritores de proclividade marxista, prática que se eliminou com Fernández Del Riego que deu cabida nela a escritores desta ideologia política, e, a partir da presidência de Garcia Sabell, mais Delegado do Governo espanhol na Galiza que Presidente da RAG, a censura orientou-se cara ao reintegracionismo. Esta tendência não foi protagonizada só pola RAG senão também pelos órgãos do poder político galego e por associações de pais e mães de alunos. Eu teve que responder a acusações de pais perante a Inspeção de Educação em Santiago por utilizar a variante linguística, tolerada pela normativa, mais próxima ao português por entender alguns que a utilização da terminação bel era lusista, e, portanto, sancionável disciplinadoramente. Inclusive o grande escritor Méndez Ferrín pedia que se sancionasse a quem não aceitasse a normativa isolacionista.

Carvalho Calero foi um grande intelectual, com uma cultura muito extensa com quem dava gosto falar. Não me toca a mim valorar a sua vertente literária, porque há muitas pessoas muito mais preparadas do que eu neste eido. Somente quero destacar, neste momento, que foi o autor, lá polo ano oitenta, da primeira normativa do galego, que abria a via da convergência com o português, que defenderam João Vicente Viqueira, Evaristo Correa Calderão, Castelao, Manuel Rodrígues Lapa, Ernesto Guerra da Cal,…, e, nos nossos dias, muitos autores que, na maior parte, se movem na órbita da AGAL e da Academia Galega da Língua Portuguesa. Esta normativa de convergência foi substituída no ano 1982 polo Decreto assinado por Filgueira Valverde, que enviou ao BOE José Luis Barreiro Rivas, e que recolhendo as aspirações dos sectores mais espanholizados da sociedade galega, pretendia que se aprendesse o galego a partir do espanhol. A língua galega ficava assim numa dependência gramatical a respeito do espanhol, a língua intocável. Reproduzia-se assim, a nível lingüístico o que passa a nível político em geral: a subordinação da Galiza à Espanha.

A normativa reintegracionista limita-se ao âmbito ortográfico e ao literário e não pretende que obrigatoriamente se fale como se escreve, senão que pretende rachar com o isolamento da nossa língua a nível da escrita e dar-lhe uma projeção universal. É difícil compreender e explicar que, sendo o galego e o português duas variantes linguísticas do mesmo tronco não aproveitemos as vantagens que a convergência na escrita nos procura e que favoreceria extraordinariamente a supervivência da nossa língua frente ao acosso da língua dos supremacistas espanhóis, e, por conseguinte, do traço mais salientável da nossa cultura. Na era do cosmopolitismo, das intercomunicações a escala planetária, parece um suicídio político e cultural fecharmo-nos em nós mesmos.

Não podemos criar cultura a todos os níveis mais que inseridos num mundo amplo que, no nosso caso, deve ser o mundo galego-português, ou galaico português como costumava chamar Castelao. Alguém pode alegar que hoje a ciência e também da filosofia se faz em inglês, que, em grande parte, é certo, mas isso não tem porque ser sempre assim, -parece que o futuro vai ser protagonizado por China-, e, por outra parte, ainda que não sejamos os primeiros, só desse modo podemos ter protagonismo no mundo ampliado e das comunicações a escala planetária. Aliás, a ciência não é todo na vida das pessoas, senão que estão também o mundo da arte, da literatura, da religião, cultura autóctone,…, que sempre necessitarão expressar-se na língua comunitária própria dos seus criadores.

Parabenizamos à RAG por ter-se atrevido a dar esse passo e pedimos-lhe que esta esperada homenagem não se limite ao elogio ritual deste autor, senão também assuma os valores que Carvalho representa, e isto passa porque se avenha a negociar com os reintegracionistas uma solução ao problema normativo, que somente tem duas saídas viáveis: a) aceitar a proposta de AGAL e permitir que haja duas normativas oficiais, pelo menos, dum jeito transitório, solução que evitaria que surja na sociedade uma situação brusca com o passado, ou b) chegar a um acordo de convergência que recolha a possibilidade de incorporar o g e o j, quando proceda, na vez do x, a substituição do ñ e do ll por nh e lh, e substituir as terminações em «íon», que são alheias às nossa língua, pelas terminações em «ao» ou em «om», alternativa esta última que seria a solução de longo alcance. Também propomos que, uma vez que a normativa deixou de ser um motivo de exclusão para o grande filólogo ferrolano, o seja igualmente para os que na atualidade defendem o reintegracionismo, e, por conseguinte, que se lhe dê entrada na RAG a membros desta corrente, que creio que há entre eles pessoas muito merecedoras desta distinção. Penso que, desta maneira, lhe fariam um grandíssimo favor à nossa língua, que, suponho, é o que todos pretendemos.

Ramom Varela Punhal

Ramom Varela Punhal

Nascido em Carvalho em 1942. Estudoi Teologia na Universidade Pontifícia de Salamanca, e Liturgia no Instituto Superior de Pastoral, em Madrid; Filosofia na Universidade de Pamplona e Filosofia, Psicologia e Organização do Trabalho na Universidade de Lovaina, Bélgica. Doutor em Filosofia pela Universidade de Santiago. Catedrático de Filosofia reformado.
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