Carta aberta a Maria Balteira



Estimada Maria Peres, ‘a Balteira’:

Permite-me o atrevimento de dirigir-me a ti, mas como em breve compreenderás, muitos são os motivos que me empurram a isto.

Tu viveste oito séculos atrás, e transitaste o barulho do cais e das ruas da cidade de Betanços que conformaste e que este ano de 2019 se comemora a si mesma pola sua fundação, pondo no centro de interesse o teu tempo.

Tenho que dizer-che que desde o século XIII até entrado o século XX pouco ou nada soubemos de ti. Mas nesse século as sociedades europeias todas, através das suas universidades, foram descobrindo no campo de estudo das literaturas e idiomas uma personagem literária sobranceira no que atualmente é considerada internacionalmente a idade de ouro da literatura galego-portuguesa. Magistralmente representavas as cantigas, como expressão artística da mais destacada das soldadeiras, capazes de conjugar poesia, música, canto e dança, que chegaram aos nosos dias no território do Reino da Galiza.

Também tem relevância ao longo destes oito séculos que o Reino de Portugal difundisse o teu idioma aos cinco continentes. Em todos esses lugares as cantigas de amor, amigo, escárnio e maldizer, também as tenções e pastorelas, são o berço das suas literaturas, e como tais consideradas monumentos literários de incalculável valor.

Como compreenderás, o interesse em ti e nos jograis e trovadores que contigo criaram a arte que nos foi legada, é imenso e as mentes mais lúcidas dedicaram muito tempo e esforço ao estudo da tua figura. Agora no século XXI sabemos que não só és uma personagem literária, sabemos que és uma mulher real de carne e osso.

Nasceste em Armeia (atual concelho de Coirós), de origem fidalga renunciaste ao estreito papel que às mulheres do teu tempo era atribuído. Escolheste a liberdade que o âmbito artístico che proporcionou, foste a soldadeira mais cobiçada e de maior prestígio das cortes dos reis Fernando III e Alfonso X “O Sábio”. Também sabemos que como integrante dos círculos de poder mais elevados do reino, exerceste de embaixadora e diplomata, chegando mesmo a evitar com a tua mediação guerras e desencontros.

Foi de tal magnitude a tua relevância, que os jograis e trovadores coetâneos teus, organizaram ciclos para criar contra ti as cantigas de escárnio mais incisivas e as cantigas de maldizer mais obscenas.

Maria, eu falo-che desde o século XXI e honestamente che digo que sabemos discernir, polo que tens que saber que és reconhecida mundialmente como uma personagem histórica de primeira magnitude, e por isso sentimos orgulho e fachenda.

Assim, nas terras de Betanços as suas gentes juntamo-nos para que em todos os lugares dos reinos todas as pessoas saibam de ti, e se beneficiem da referência duma mulher brava. Também da obra literária dos jograis Pero d’Armeia, Pero d’Ambroa e do trobador Pedr’Amigo de Sevilha. Todos eles betanceiros como tu, que embora, como francamente demonstram algumas das cantigas deles, houvesse momentos em que se erigiram em inimigos teus, compreenderás que a poesia deles, ao igual que ti mesma, sois para nós um tesouro que recebemos na sua totalidade com a responsabilidade da sua custódia, por vós, polo hoje e polo amanhã.

Não podemos negar que chegas aos nossos dias envolta no manto do escárnio e do maldizer, mas é possível concentrar as nossas forças ao ritmo das cantigas de amor e amigo para ti. Estamos a organizar um ciclo dedicado a ti, de signo bem diferente aos do século XIII, com a participação como daquela de poetas, mas também de qualquer pessoa que compartilhe connosco a oportunidade de honrar-te.

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Chamamos ao nosso ciclo Projeto Maria Balteira e tens que saber que com o santo e sinal da Balteira não houvo porta que não se abrisse. Conto-che:

-As tuas paisanas e paisanos de Armeia, através da Asociación Cultural Colantres (Coirós), acollerão uma caminhada popular até o lugar da casa natal em que também esteve o teu amigo Pero d´Armeia.

-As boas gentes de Guitiriz organizarão através do grupo NPG, Nova Poesía Guitirica, recitais de poesia para a vossa honra.

-As paisanas e paisanos de Pero d´Ambroa e Pedr´Amigo de Sevilha, através da Asociación de veciñas e veciños de Ambroa (concelho de Irijoa), criarão uma festa da poesia na igreja de São Tirso de Ambroa, em que foi batizado o jogral Pero e em que ressoou a voz do trovador Pedro exercendo de sacerdote.

-As tuas paisanas e paisanos da vila de Betanços, na cidade Velha, difundirão o conhecimento sobre vós e a vossa poesia, através da Asociación Cultural Lar de Unta com centenas de dípticos informativos a partir da sua sede social.

-Vão-se realizar representações teatrais nas praças, ruas e lugares para vos darmos a conhecer.

-À beira do pórtico da glória da igreja de Santiago, ofereceremos, a partir da taberna musical mais animada da vila, O Lanzós, um concerto de música medieval.

-Reuniremos ao redor de colóquios e conferências em que participará a escritora Marica Campo (autora da novela Confusión e Morte de María Balteira), o escritor Manuel Portas (autor da novela Lourenço, xograr), acompanhados do estudioso Alfredo Erias (diretor do Museu das Marinhas). O filólogo Eduardo Maragoto (presidente da Associaçom Gañega da Língua, AGAL) e Xulio Loureiro (professor de galego em Betanços). Também a professora e estudiosa da lírica medieval, a betanceira Concha Delgado e o professor e estudioso da literatura galega Xosé Ramón Pena, betanceiro morador nas terras da universidade do mar de Vigo.

-O Centro Ramón Piñeiro para o estudo das humanidades, cede para a sua difusão a totalidade da obra dos autores betanceiros, assim como as cantigas que outros trovadores como Alfonso X “O Sábio” escreveram tendo-te como protagonista.

-A Fundación Luís Seoane, cede a gravura do grande pintor galego feito para ti, para que sirva de imagem do Projeto Maria Balteira.

-A Editorial Biblos editará com a colaboração dos Concelhos de Coirós, Irijoa e Betanços um livro de poemas prologado por Concha Delgado, para que as vossas cantigas estejam sempre à nossa disposição nos nossos lares, escolas e bibliotecas. A edição corresponderá a Manuel Ferreiro, estudioso da lírica medieval ao som das ondas da universidade da Corunha.

A XXII Feira Franca Medieval de Betanços será dedicada a ti e aos três Pedros, e por ocasião do 800º aniversário de Betanços também ocuparás um lugar especial no coração das tuas vizinhas e vizinhos. Desejamos, cara Maria, a tua visita assim como a de todas as pessoas que habitam reinos ou repúblicas do mundo inteiro, quer sejam de perto ou de além mar. Porque é bem merecida a oferenda, e quantas mais almas se juntarem, com maior força vão ressoar, nos céus e na centenária pedra, da tua voz as cantigas do nosso ser.

Minha Senhor, Maria Peres A Balteira, aguardando seja do teu agrado o que as tuas vizinhas e vizinhos argalhamos, recebe uma afetuosa saudação.

Moncho Bouzas

Moncho Bouzas

Integrante da NPG Nova Poesía Guitirica e do Grupo de Apoio á Vocalía de Cultura da Asociación Cultural Lar de Unta.
Moncho Bouzas

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