Carme Saborido: «O ensino de Língua Portuguesa cria muitas perguntas e curiosidade sobre a identidade própria»



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Carme Saborido é professora de português no IES A Sangrinha da Guarda, falamos com ela sobre o seu labor como docente.

A maioria dos docentes de português na Galiza não está numa situação regulada. O primeiro concurso em que se incluíram vagas para o ensino desta língua no nosso país foi no ano 2019 e foi uma das pessoas em conseguir uma vaga. Em que situação se encontram as suas colegas que não têm vaga e procedem do corpo de galego e ainda de outras matérias?

A Língua Portuguesa no ensino secundário parece andar sempre na corda bamba. Foi com muito esforço por parte de docentes e associações que a matéria chegou aos IES. E o descanso não é uma opção. Há que negociar a sua introdução nas Comissões de Coordenação Pedagógica, manter acesa a chama do interesse nos alunos e alunas para a matéria continuar cada ano, ser diplomático com outros departamentos doutras matérias que se ofertam como optativas nas mesmas horas…

Fui, sim, uma das pessoas que conseguiu uma vaga. Contudo, recordo o primeiro mês no meu IES a telefonar para os sindicatos: estava a ver que havia muitas vagas de substituições com português que não recebiam professores da nossa lista. Quer dizer, a situação dos especialistas também não é a melhor: sempre em estado de alerta, vendo se realmente a administração age com profissionalismo e uma pessoa com a formação adequada vai para a vaga que lhe corresponder.

Quanto às pessoas que procedem doutros corpos, nos IES passam por esses mesmos apertos que referi acima. Muitas delas deram os primeiros (e não fáceis) passos para a introdução do português no secundário. Através do concurso público podem vir a engrossar o corpo de docentes de Língua Portuguesa na opção de mudança de especialidade. Oxalá sejamos mais e a associação Docentes de Português na Galiza ganhe mais tecido associativo para continuarmos no caminho à regularização.

Do seu ponto de vista, porque não interessou, nem interessa, regular e promover o ensino do português no nosso país?

O ensino da matéria de Língua Portuguesa cria muitas perguntas e curiosidade sobre a identidade própria. Suponho que para certos setores isto pode ser um risco.

Devemos ainda refletir sobre a ideia que se tem no ensino espanhol sobre Europa e as línguas. Em Espanha, os idiomas aprendem-se para ser-se competitivo na Europa e na mente de muitas pessoas Europa é só aquilo além dos Pireneus. Nunca vemos Portugal como um país europeu ou uma oportunidade. Consequentemente, esta imagem vai também para a consideração da língua. Por outras palavras, é preciso uma maior consciência de quem somos e onde é que estamos no mapa.

Em Espanha, os idiomas aprendem-se para ser-se competitivo na Europa e na mente de muitas pessoas Europa é só aquilo além dos Pireneus. Nunca vemos Portugal como um país europeu ou uma oportunidade. Consequentemente, esta imagem vai também para a consideração da língua. Por outras palavras, é preciso uma maior consciência de quem somos e onde é que estamos no mapa.

Um estudo recente do Consello da Cultura Galega assinala que 73% da população galega considera que esta matéria deveria ser ministrada nas escolas. Contudo, só 17% sabe que isto é já uma realidade nalguns IES. Se continuarmos a ler, aparecem os dados sobre a competência e 60% da população afirma ser já competente. Neste conceito está a questão, do meu ponto de vista. Ser competente não é só perceber e ser percebido num restaurante em Valença, consiste também em ser capaz de escrever um e-mail formal, saber redigir um CV, poder preencher um formulário, poder acompanhar uma série, etc.

Como galegos e galegas temos todas as chances para termos a excelência quanto ao conhecimento do português. Não podemos ficar só no “desenrascar”.

Carme Saborido

Que a motivou a ser docente de português?

Sempre senti aquela faísca.

Antes do concurso público eu já dava aulas de português na Gentalha do Pichel, na escola Lorca Institute ou postava conteúdos didáticos no meu blogue. Com estas experiências vi logo que eram tudo vantagens: podes continuar a transmitir a tua língua e cultura, mas com as técnicas didáticas comunicativas e lúdicas que permite o ensino de uma língua estrangeira.

Por outro lado, o facto de os materiais de ensino do português não estarem adaptados à realidade galega e estarem focados no ensino de adultos também ajuda a avivar a minha criatividade. O meu público são os adolescentes e tenho sempre que andar a procurar, criar e adaptar materiais. Quem me conhece, sabe que a parte da didática é uma coisa que me seduz muito. Para mim até é viciante.

Atualmente, é professora na Guarda. Conta com muitos alunos nas suas aulas? Que atitudes mostram os discentes frente ao ensino do português? Veem-no como uma cultura alheia ou, pelo contrário, percebem a conexão com a nossa língua e cultura?

Trabalho no IES A Sangrinha, uma escola pioneira e com muita tradição de estudo desta matéria. Não há melhor marco para desenvolver este trabalho: muitos grupos reduzidos, onde as destrezas comunicativas podem ser livremente exploradas nos 50 minutos das aulas.

Temos um departamento próprio com mais de 30h, português em todos os níveis da ESO e Bacharelato (também como língua primeira), e até contamos com uma auxiliar de conversa: Isabel Gonçalves. Ver tudo isso conseguido e poder trabalhar assim é um luxo.

No IES A Sangrinha temos um departamento próprio com mais de 30h, português em todos os níveis da ESO e Bacharelato (também como língua primeira), e até contamos com uma auxiliar de conversa: Isabel Gonçalves. Ver tudo isso conseguido e poder trabalhar assim é um luxo.

Quanto às atitudes dos discentes, comprovei que trabalho numa escola onde o ensino do português está tão normalizado que não faz sentido perguntar aos alunos e alunas porque é que estudam esta língua. A resposta é que é o normal. E assim é que deve ser.

Na questão das conexões com a nossa língua e cultura, não há grandes diferenças quanto às atitudes mostradas quando se leciona Língua e Literatura Galegas. Os e as estudantes que reconhecem a sua cultura quando estudam galego também a veem quando estudam a língua portuguesa.

Na questão das conexões com a nossa língua e cultura, não há grandes diferenças quanto às atitudes mostradas quando se leciona Língua e Literatura Galegas. Os e as estudantes que reconhecem a sua cultura quando estudam galego também a veem quando estudam a língua portuguesa.

Em geral, qual é a relação com o português das pessoas que moram perto da fronteira? Pensa que a imagem que se tem do português e de Portugal é muito diferente nos diversos pontos da Galiza?

Vou meter-me em maus lençóis com isto que vou dizer. Penso que o comum da sociedade galega não tem muito conhecimento ainda sobre a língua ou Portugal. Ou a imagem que se tem passa por um crivo bastante folclorizante.

Acho que as pessoas que moram perto da fronteira têm, sim, mais contactos, mas eles são também de natureza comercial, são interações breves e motivadas pelo económico. Não dá para aprofundar muito. Não é como uma experiência Erasmus onde uma pessoa tem uma imersão continuada um ano, por exemplo.

carmensaboridoSão necessárias muitas mais iniciativas como os aPorto, intercâmbios escolares, etc. Medidas que criem conexões duradouras.

6. Para além de dar aulas, tem um blogue intitulado Lusopatia, dedicado à promoção da língua e da cultura portuguesa. Que lhe motivou a começar esta iniciativa? Qual é o seu objetivo?

O projeto do blogue começou em 2011 num contexto de crise económica e precariedade laboral para mim. O site pode ser definido como um blogue pessoal, com focagem docente e divulgativa. Quis abrir uma janela ao mundo que fala em português.

Em 2011 A Gentalha do Pichel pede-me que ministre aulas de português. O objetivo era lecionar uma hora à semana, mas achei que era pouco tempo de imersão e que seria bom complementar as explicações com informações sobre eventos culturais que os/as estudantes pudessem ler. A fórmula era simples: a maior input, maior output.

Aí é que nasceu a ideia e realmente foi vantajosa para todas as partes: os alunos e alunas mantinham contacto no resto da semana e eu podia fazer divulgação cultural.

Anos depois a didática, a divulgação cultural e o contacto com as pessoas continuam a ser os meus motores.

Após tantos anos de postagens, qual a sua valoração?

O balanço é muito positivo. O Lusopatia tem-me dado muita felicidade. Mesmo que não seja a melhor época para os blogues, porque já estamos no tempo do Instagram, Twitter ou Youtube, o blogue conseguiu adaptar-se para continuar a dar conteúdo.

Há pequenos reconhecimentos que valorizo muito: o facto de aparecer em vários sites de IES ou EOI, ser referenciada nalgum artigo do Ciberdúvidas ou ficar em 5º lugar no concurso Aventar ao melhor blogue estrangeiro em língua portuguesa.

Há pequenos reconhecimentos que valorizo muito: o facto de aparecer em vários sites de IES ou EOI, ser referenciada nalgum artigo do Ciberdúvidas ou ficar em 5º lugar no concurso Aventar ao melhor blogue estrangeiro em língua portuguesa.

Por último, a língua… para quê?

Vou dar uma resposta em várias vias:

-como ser humano: para me comunicar

-como galega: para me identificar

-como filóloga e professora: para estudar e trabalhar

-como mãe: um presente para a minha filha

-como Carme (e penso esta ser a resposta definitiva): porque realmente me faz feliz

Karina Pereira Rei

Nasci em 1995. Considero-me meio muxiana (de onde é a minha família) e meio corunhesa (cidade em que me criei). Sou graduada em Galego e Português e em Inglês pela Universidade da Corunha. Após concluir estes estudos, em 2018, fui estudar para o Porto o Mestrado em Português Língua Segunda/ Língua Estrangeira, o qual, se tudo correr bem, teria de finalizar este ano.


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  • Arturo Novo

    Não morras nunca Carme. Simplesmente, és fantástica!

  • Ernesto Vazquez Souza

    Que bom tudo, Carme… apertas

  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    Muito boa entrevista.

    “O ensino da matéria de Língua Portuguesa cria muitas perguntas e curiosidade sobre a identidade própria. Suponho que para certos setores isto pode ser um risco.”

    O problema é o espanhol (pessoa) que se leva dentro….E Portugal não é espanha. Eu tive bem experiencias ee ter atis em Portugal com nacionalistas galegos bem de esquerda, e olharem como agem como verdadeiros espanhóis sem eles perceberem