Carlos Velasco: “A sociedade galega, em geral, demanda bastante história”



A Através editora publicou recentemente 40 datas que fizeram a história da Galiza. Conversamos com o coordenador da equipa autora, Carlos Velasco, professor titular de História Contemporânea na Universidade da Corunha.

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O livro recolhe 40 datas chaves da história da Galiza. Podiam ter sido mais? Quantas datas-chave pode ter uma história nacional?

Tudo depende do que considerarmos datas-chave. Podem ser três ou quatro ou bem várias dúzias, como as que recolhemos no livro para o caso do nosso país. De todos os jeitos, as datas em si mesmas não importam tanto como os processos históricos de que fazem parte, e que em certa medida elas simbolizam e exemplificam. É esse o espírito medular do livro, conforme fica de manifesto no prólogo.

Há um ramo, lúdico e divulgador, da historiografia que joga com o esquema: e que teria sido da história de X se tal facto tivesse ocorrido de uma forma diferente? No nosso caso, que itens achas que poderiam ter mudado significativamente a realidade atual caso a resolução tivesse sido diferente?

Esse jogo de imaginar percursos históricos diferentes e alternativos (construção de hipóteses contra-factuais, que diríamos tecnicamente) pode ser divertido mas julgo que não dá muito rendimento, especialmente quando vem a dar em lamentações do tipo “o que poderíamos ter sido e não fomos”. Contudo, pode ter uma certa utilidade: a de contribuir a pôr de manifesto que não existem trajetórias históricas pré-determinadas por divindade, acaso ou fado nenhum, mas construções humanas que amiúde se produzem num contexto não tanto linear como de “encruzilhadas”, isto é, várias opções possíveis de entre as quais uma se torna triunfadora sobre as outras em função da correlação de forças existente e não porque a priori fosse a única com possibilidades de se impor. No nosso caso concreto, é óbvio que os Galegos e Galegas não seríamos o que hoje somos se, por exemplo, Roma não nos tivesse colonizado, o milho não tivesse arribado às nossas costas no século XVII, o país tivesse experimentado um desenvolvimento industrial-capitalista no século XIX, no canto de afundar no subdesenvolvimento, e uma burguesia pujante tivesse exercido as funções de classe dirigente nacional. Mas, mesmo que tais hipóteses se tivessem tornado realidade, tampouco seríamos quem de saber ao certo aonde esses linhas de força teriam ido a dar porque são muitas as variáveis e agentes que intervêm no processo histórico, alterando o seu curso aqui e além, agora e depois.

Que qualidade tem o conhecimento da história galega por parte da nossa sociedade?

Contra o que possa parecer, a sociedade galega, em geral, demanda bastante história, a julgar polos índices de venda de livros e o impacto apreciável que estes têm entre uma boa parte do público leitor. Quer dizer, a nossa gente quer saber cousas do seu passado; saber de onde vem. Ora, nem é ouro tudo o que cintila, pois esse público constitui apenas uma pequena parte, mais ou menos ilustrada, da nossa população e, para além disso, o interesse acha-se focado muito prioritariamente nuns determinados temas, nomeadamente aqueles que têm a ver com a dimensão identitária (Galiza como nação) e com o nosso passado recente: etapa republicana, ditadura franquista e restauração democrática. Em geral, a qualidade do que se publica é média-alta, levando em conta que os autores adoitam ser profissionais de reconhecida solvência. Outra questão é a qualidade do conhecimento adquirido polo público, pois ele está altamente mediatizado pola construção historiográfica espanhola; o que nos desloca para a pergunta a seguir.

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Em que medida a auto-imagem da sociedade galega está condicionada pola construção historiográfica espanhola?

Numa grandíssima medida, cuido cada dia mais. A alienação dimanada da mídia e a trama institucional do Reino de Espanha funciona a todo o vapor. Tanto é assim que o conhecido mote “Isto não é Espanha” aplicado à nossa Galiza está a virar irreal, se é que não falaz. Gostemos ou não, o referente identitário e psicológico-cultural da grande maioria da nossa população é Espanha, como espanhola é a sua maneira de se ver no mundo. Por agora ainda conservamos alguns traços diferenciais um tanto ativados no inconsciente coletivo mas, ao ritmo que imos, à volta de uns poucos anos o nosso destino será o de nos convertermos num rinconcito verde de España, como as Astúrias ou a Cantábria. E frente a isso, pouco estamos conseguindo fazer os [email protected] em construir futuro na base da preservação e enriquecimento do nosso ser coletivo. Não digamos já os membros dessa inteletualidade galega e galeguista autosatisfeita no seu “parnasinho” e sem outro projeto para a nossa sociedade e cultura que a subalternidade perpétua. Lamento ser tão contundentemente pessimista. Mas é-che o que há, por empregarmos uma expressão tão nossa.

Este livro tem uma autoria coletiva. Que desafios levantou o trabalho de coordenação?

Coordenar o livro foi relativamente doado e mesmo gostoso. O desafio principal foi conseguir reunir a tempo os materiais para facilitar a sua publicação a 25 de julho. Leve-se em conta que todos os participantes na obra somos docentes e o calendário académico é bastante abafante antes e depois do São João. De maneira que tive de, quase literalmente, aguilhoar os meus colegas para entregarem textos e imagens numas datas um tanto complicadas. Fora disso, não interferi absolutamente nos conteúdos dos seus capítulos, realizados competentemente segundo as diretrizes propostas pola Através Editora que previamente tínhamos combinado.

Em que medida esta obra pode interessar num leitor de Portugal?

Pode interessar a qualquer leitor ou leitora de Portugal com sensibilidade, ou simplesmente curiosidade, perante a nossa realidade social e cultural, aparentemente tão próxima à deles. Em tal sentido, acho que a obra apresenta uns conteúdos básicos suficientemente esclarecedores e exequíveis a um público com formação académica de grau médio. Questão diferente é essa sensibilidade apriorística existir ou não. Como sabemos, do mundo académico e da institucionalidade cultural do país vizinho nada podemos esperar, visto o escasso ou nulo interesse levantado entre eles pola nossa realidade coletiva. Certamente, aquela perceção da Galiza como “problema ontológico” (a expressão é do Norberto Ferreira da Cunha) relacionado com a formação histórico-cultural da nação portuguesa ficou para a inteletualidade transminhota de a cavalo entre os séculos XIX e XX: os Teófilo Braga, Leite de Vasconcelos, Bernardino Machado… epigonalmente Rodrigues Lapa. A partir daí, e com uma ou outra exceção conhecida, “o resto é soidá”, que diria o nosso poeta. De maneira que, se quisermos que o livro tenha mínima difusão no espaço lusófono, teremos de botar mão dos nossos amigos pessoais de lá, esses sim de provada sensibilidade para connosco e o nosso ser, para eles difundirem sequer minimamente nos seus espaços respetivos de sociabilidade, esta sorte de Boa Nova. Que os fados sejam propícios!

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim


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