“Canibalismo pretende fazer um cinema de intrusão, obrigar-te a olhar o monstro cara a cara”

A tão só 18 dias de finalizar a primeira fase de financiamento coletivo, o projeto obteve 66% dos 7.600 euros precisos para realizar a curta-metragem



cartaz canibalismo

A história começa aqui, como poderia começar em qualquer outro sítio. É uma noite fria. Há um caixeiro abandonado. Dentro, um mendigo dorme. Perto de ai, dois homens no seu carro procuram uma besta que julgar.

Marcos Abalde escreve Canibalismo com esta ideia inicial. O escritor galego foi merecedor do IV Prémio Josep Robrenyó pela AIET no ano 2008. Mais de dez anos depois, o racismo e o sem-fogarismo continuam ocupando a primeira capa dos noticiários e Amanda Seijas e Diego R. AballeProjeto Jägher– colhem o relato de Abalde para adaptá-lo como curta-metragem. “Uma história sobre a natureza humana, o ódio sobre o desconhecido, os juízos morais e as certezas imorais”, resumem. Canibalismo está programada para ser gravada no próximo mês de Outubro e conta com uma iniciativa de financiamento coletivo em Goteo. O dinheiro coletado servirá para cobrir as altas da equipa técnica e artística, os gastos básicos da produção, a cenografia e as máquinas de rodagem. “A colaboração e coletivização é importante, uma curta-metragem não é de uma pessoa só, é uma arte coletiva, e nós temos uma equipa maravilhosa”, explicam ambos diretores. Se o projeto superasse o mínimo, seria possível ampliar a qualidade das infraestruturas, o material e o processo de post-produção.

Agora mesmo, ficam 15 dias para finalizar a primeira rolda, com mais da metade do orçamento mínimo já logrado.

diego r aballe amanda seijas

Canibalismo é uma adaptação duma obra de Marcos Abalde premiada pela Associació d’Investigació i Experimentació Teatral. Como chegais a este texto?

D.R. O primeiro que teve a sorte de ler o texto fui eu. Foi quando estudava na ESAD e procurava textos de cara ao TFG. Lembro que me passaram o texto de Marcos de Canibalismo e quando o li gostei muito. É um dos poucos textos que posso dizer que tem a capacidade de pôr-me os pelos de ponta, sobretudo a parte que vamos adaptar. Tive a vontade de levá-lo adiante mas, tal e como são as coisas quando estudas, as energias que há na escola… Acabamos por fazer outra coisa e isto ficou num caixão. Quando fomos a Catalunya estudar à ESCAC isto voltou à mente. Pensei-no de cara ao audiovisual, sobretudo a parte do segundo ato, Uma máquina insone¸ que é uma leitura audiovisualmente muito interessante.

Como embarcou Amanda no projeto?

D.R. Amanda é companheira minha. Estudou Escenografia e eu Direção de cena. Já trabalhávamos juntos na escola e ela também foi à ESCAC. Eu fui por direção cinematográfica e ela por direção artística. Então vivemos juntos, trabalhamos juntos e somos uma parelha artística assim que dissemos “para diante os dois!”.

Além de vós, também trabalhais com Méjico.tv, que são co-produtores do projeto.

D.R. Sim, Méjico.tv são de Catalunya. Digamos que a sua parte da produção é a que se ocupa da direção de fotografía, da mão de Bernat Eguiluz. Ele montou, com outra gente que saiu da ESCAC, uma plataforma artística. Começaram fazendo truchos [publicidades falsas para se dar a conhecer] e trabalham muito bem, têm equipamento próprio porque investiram dinheiro em comprar câmaras, ópticas… E embarcam no nosso projeto porque acreditam nele e querem co-producir.

A.S. Por outro lado temos também o som de Tapesons. A jefatura de som será  responsabilidade de Eloy Táboas.

Como decidistes integrá-lo?

A.S. É o de sempre, tu tens o contato… mas conhecemos o Eloy graças a Cinematográfica, a antiga associação cinematográfica galega.

D.R. Fizera um curso com David Fernández e Santi Prego, e chamei a Cinematográfica porque o próprio Prego dissera que o som do meu trabalho estava muito bem. Falei com a Cinematográfica pedindo recomendações a nível de som, porque nós procuramos que a post-produção e o som direto fosse galego. Sobretudo por fonética. 75% são catalães, mas o som direto deve ser galego. Queríamos que fosse gente galega.

A.S. Também porque um dos personagens utiliza o galego reintegrado.

D.R. Precisamos gente de aqui que tenha compreensão da língua, um galego que respeite também as variantes dialetais.

“Queríamos que o som fosse galego, que tivessem compreensão da língua, porque é muito importante a fonética para o galego reintegrado e as variantes dialetais que haverá no filme”

Onde vai ser a localização?

A.S. Pelo de agora estamos trabalhando com a Vigo Film Commission. Estamos interessados na área de Vigo e extra-radio… mas não temos ainda localizações. Haverá um só espaço que é este caixeiro abandonado, e estamos a procurar este lugar na província de Ponte Vedra. Precisamos que seja ali porque vamos solicitar uma ajuda da Deputação de Ponte Vedra que requer que a rodagem seja dentro da província.

D.R. É uma ajuda que obriga a que a produção seja na província de Ponte Vedra, mas nós temos prioridade para a zona interior, numa vila galega de interior, melhor que na costa. Por uma questão fotográfica.

A.S. Sim, procuramos um área mais rural.

D.R. Será uma localização que estará numa rua duma vila, na área mais “burguesa” da vila, ou uma área que esteja perto do Concelho… É importante porque a história tem lugar num contexto de crise económica onde o banco da vila está fechado, abandonado.

story canibalismo

Para a interpretação escolheis atores galegos: Toni Salgado, Fran Nogueira e Germán Prenta. Como foi esta seleção?

D.R. Para ser honesto, a primeira leitura do texto fez-nos pensar em atores mais velhos, duma certa idade, com uns rostos marcados pelo passo do tempo… E o mendigo seria alguém ainda mais velho cá eles. Porém, estivemos a falar com Santi Prego, que foi o nosso tutor na ESAD, e ele disse-nos que apostáramos melhor por gente da nossa quinta. Há muita gente recém saída da escola que tem um futuro por diante incrível, e há gente muito boa. Nós estivemos na escola durante quatro anos e tivemos tempo para trabalhar com todo o mundo, conhecer-nos e, digamos, ter o olho em certos atores.

A.S. Atores que prometem muito.

D.R. Do mesmo jeito que nós somos desconhecidos no audiovisual, a eles acontece-lhes o mesmo, por isso é bom dar a oportunidade à gente com a que temos estudado. Com Germán trabalhamos na escola, é um moço com muitíssimo potencial, e com Fran Nogueira não trabalhamos, mas ele é um monstro cénico. Salgado é, se calhar, a pessoa que tem feito mais coisas, e é também o mais velho e com mais percurso, mas os três saíram da ESAD. Somos canteira da ESAD, e orgulhosos disso!

“Toni Salgado, Fran Nogueira e Germán Prenta são atores que prometem muito. São canteira da ESAD, coma nós, e orgulhosos disso!”

Quais são os vossos referentes estéticos e cinematográficos?

A.S. Eu penso que ambos partilhamos grandes referentes. Sempre vamos aos mesmos: Kubrick, Tarkovskii… Som os universais. Nesta curta pretendemos trasladar esse ambiente clássico. Também gostávamos de dotar de frialdade e tensão à ambientação. Aí temos referentes como os irmãos Cohen no seu filme No Country for Old Men.

D.R. São referentes americanos, muito próximos ao western mas trabalhados com uma olhada de autor, com uma sensibilidade especial. Penso que são referentes comuns, mas poderíamos ampliá-lo muitíssimo, com respeito ao panorama atual, galego e estatal. A nível espanhol, um dos meus diretores favoritos é Carlos Vermut. Gosto muito de como trabalha a direção cénica e a representação no cinema, como move os atores diante da câmara a nível de partitura cénica, que é algo que normalmente não se trabalha tanto. Normalmente os diretores são mais técnicos e não estão acostumados a trabalhar com atores. Nós, como viemos do teatro, estivemos quatro anos vivendo o mundo da interpretação. Acho que temos uma capacidade e uma educação de empatizar com estar diante da câmara ou acima do cenário. E penso que isso é importantíssimo, que é algo que não chega.

storyboard canibalismo

Faláveis da canteira da ESAD e do talento audiovisual da Galiza. Achais que o cinema galego está a ter um momento doce ou ainda fica muita leira por sachar?

D.R. A nossa experiência em geral é dentro do âmbito catalão porque levamos dois anos em Catalunya e penso que ali é um mundo muito diferente ao do audiovisual galego. Eu sou dos que pensa que todos os momentos –quer os 90, quer os 70, quer os 2000– sempre sempre há projetos interessantes. Em todas as épocas há coisas incríveis. É como se dizemos que Hollywood está num período de crise, porque agora está sempre com remakes… mas mesmo assim, penso que o que está em crise é o cinema mais comercial, o cinema para todo o mundo que só entretêm. Agora faz-se cinema de autor a uns níveis incríveis. Não paro de surpreender-me cada ano com a inovação constante que há cada ano, porque no cinema de autor é onde mais se aposta.

Então, pensando em Galiza e Catalunya… As comparações são odiosas?

A.S. A verdade é que chegamos aqui há relativamente pouco tempo, e começamos o processo de fundar a produtora. Colaboramos em projetos de outras pessoas e não sei dizer a nível do nosso próprio processo. Se é mais difícil ou mais fácil… O que vemos é que há movimentos mas custa mais, vai tudo mais lento, há mais burocracia… Temos essa sensação. Esta sinergia chega numa época rara. Não pudemos optar às ajudas de AGADIC por questão de datas e encontramos a da Deputação de Ponte Vedra de casualidade. Nesse sentido, tivemos também a sorte de encontrar a plataforma de Goteo, que funciona muito bem e está ajudando muito. É uma oportunidade de fazer base social e dar a conhecer o projeto antes de estar a fazê-lo.

D.R. A grande diferença que posso ver a grandes rasgos é que na Catalunya pode ser mais fácil procurar sinergias com outras produtoras, com diferente gente, e procurar coletivos e jeitos de levar adiante projetos. Aqui tenho a sensação de que –também passa no teatro– somos de minifúndios, de ter o marco bem posto, a minha casinha, as minhas coisas… Se a mim me vai bem e estou bem… Somos menos valentes para nos juntar.

A.S. Também é certo que ali têm mais facilidades a nível institucional. É mais complicado comparar.

“Em Catalunya pode ser mais fácil procurar sinergias com outras produtoras, com diferente gente, e procurar coletivos e jeitos de levar adiante projetos. Aqui tenho a sensação de que –também passa no teatro– somos de minifúndios, de ter o marco bem posto”

Contra a evasão que mencionáveis do cinema comercial, pode o cinema ser também um jeito de remover consciências, mudar a sociedade…?

D.R. Sim, penso que a caraterística de toda arte é a subversão. A arte é subversiva de por si.

A.S. Não só isso, a nível pessoal penso que Diego mais eu sentimos a obriga de utilizá-la como ferramenta, como arma para falar precisamente do que está a passar, protestar.

D.R. É quase uma ideia brechtiana no sentido em que o artista está obrigado, ou deveria estar obrigado, a ser fiel aos tempos nos que vive. Tem as ferramentas para contar o que vive, tem os factos e tem um problema que pode ser falado com a boca pequena ou em conversas de bar… mas também para o grande público. Pode transcender das conversas privadas. Penso que os artistas estamos, em geral, obrigados a falar da realidade do nosso tempo e assinalar as problemáticas e assinalar a rebelião. Sempre o pensei. É básico. Contra o cinema de evasão temos que, se calhar, fazer um cinema de intrusão, de contato, de pegada. Obrigar-te a estar pegado ao assento e olhar o monstro cara a cara, encontrar-te com o problema.

A.S. Ou, pelo menos, deixar o pouso, remover consciências, plantar uma semente. Deixar o pouso na cabeça do espetador.

D.R. Brecht falava de que para o artista é quase uma obriga, quase como um código deontológico de ser e falar os problemas do teu momento porque tens as ferramentas para poder fazê-lo. A tua arte são as ferramentas que lograste por estudo, observação…

“Os artistas, em geral, estamos obrigados a falar da realidade e dos problemas do nosso tempo, remover consciências, porque temos as ferramentas para poder fazê-lo”

Neste projeto contais com a colaboração da AGAL.

D.R. A escolha veio de falar com Dani Salgado. Foi professor meu e também trabalhou com Amanda. Considero que todo o que sabemos da cena é graças a ele, sobre tudo com o tema de trabalhar a questão do mendigo, que utilizará um galego lusista porque aí detrás há um background. Ele não apareceu da nada, passou tempo em Portugal, não sabemos quanto… Estamos no processo de criação da personagem. E os outros dois trabalharão, acho, um galego mais dialetal. É a nossa escolha, mas ainda não é segura.

A.S. Também procuramos com isto marcar uma distancia ideológica que é trasladada também ao nível da linguagem.

D.R. Não falam o mesmo idioma, em todos os sentidos. A língua pode ser inclusiva ou pode funcionar como barreira, claro. E há algo mais, à hora de pedir ajudas a deputação, encontramos que há uma série de puntuações ao facto de gravar algum monumento galego na produção, que seja em tal sítio ou deste jeito ou doutro… Com isto nós queremos dizer que as nossas personagens falam galego do mesmo jeito que poderiam falar polaco ou guaraní.

A.S. É dizer, normalizar.

D.R. Isso é, normalizar o uso da linguagem. Não tenho que mostrar que estamos na Galiza exatamente para que seja normal que falem galego. É importantíssimo este processo. Não têm que sair icones galegas.

A.S. É uma coisa que, por exemplo, passava há anos com a homossexualidade. Quando saia um gay, saia no filme porque era gay. As nossas personagens falam galego porque falam galego, ponto. A gente pergunta por que fazemos o filme em galego, e essa é uma questão que não passa noutras línguas.

“Antes, quando saia um gay num filme, saia ali porque era gay. As nossas personsagens falam galego, e falam galego porque falam galego, ponto. Não têm que sair monumentos do país no filme. Queremos normalizar a língua”

D.R. E ligando isto com a Catalunya, eu acho que ali têm mais superado esta questão. Podem desligar o idioma, não têm que sair icones constantes e referentes constantes da cultura para que as personagens falem a sua língua.

A.S. Nessa vontade de normalizar o seu uso também pretendemos sacar a obra das canles habituais. Temos pensado legendá-lo e lança-lo por fora dos circuitos habituais, que não seja algo anedótico.

D.R. E que é terrível ter que contextualizar tanto para que a obra seja em galego.

A.S. Claro, é que tem valor cultural próprio. Não é preciso ornamentar com imagens de certos monumentos, zonas emblemáticas… Nós não vemos as coisas assim.

D.R. É o síndrome da marca Espanha, ou Galicia Calidade… [ri].

Que planos de futuro há para esta obra?

D.R. O nosso plano parte do nosso conceito, da nossa olhada sobre a obra, sobre a universalidade do problema que retrata. É uma universalidade também do uso do galego. Para nós seria muito interessante e prioritário o movimento da curta dentro da Galiza, mas também queremos coloca-la fora. Por mim como se acaba em Japão. Para nos entender que é um problema universal, migrantes somos todos. Todos podemos ser migrantes em qualquer momento como o foram os nossos antepassados ou o serão num futuro os nossos descendentes. Ainda que falemos em exclusiva da Europa, penso que é algo universal.

“Para nós seria muito interessante e prioritário o movimento da curta dentro da Galiza, mas também queremos coloca-la fora. Por mim como se acaba em Japão”

Como vai até o de agora a campanha de financiamento coletivo?

A.S. Na campanha procuramos recompensas de vários tipos, com ONGs, com associações… Um pouco de todo. Também Através Editora oferece os packs de livros, e também temos colaborações de artesãos galegos. Intentamos pôr de relevo o negócio local.

D.R. Também estamos em contato com a AIET. Mais que nada porque o texto foi premiado por eles, e estamos em contato para questões de colaboração e difusão. Todo o que seja difundir o texto premiado está bem. Logo também falamos com Marcos Abalde para fazer uma segunda tirada do livro, porque é de há anos e está esgotado. Segundo as petições do Goteo faremos outra tirada exclusiva para a gente que a solicite.

Também colaboramos com Semente, e de cada livro doaremos uma percentagem ao projeto, de acordo com a vontade do autor. Também temos colaborações com uma associação de Marrocos, outra de Málaga… Temos vontade de tirar pontes para todos e com todos os que queiram participar, e tirar o projeto para diante. Toda ajuda é bem-vinda!


PUBLICIDADE