Caminhada sobre o tapete rolante do Mercado Editorial em língua portuguesa



extraído da revista Biblos nº 100

Apesar das últimas convulsões, Portugal continuou sendo Território Champions em termos literários e a Biblos no seu percurso deu conta do mais granado da produção neste difícil período, com as inevitáveis concessões à oferta do mercado, porque hoje é quem mais ordena, mas até por cima das possibilidades de uma publicação modesta feita neste canto peninsular, onde o filolusismo tem sido demasiadamente pecado.

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Aqui apostou-se na (boa) Literatura que historicamente podemos ler no original, tentando trazer para estas páginas a qualidade na diversidade. Olhando para trás o gota a gota acumulado, não será difícil ficar impressionados pelo extraordinário contributo desta caminhada –a singularidade da janela aberta, que manteve o faro atendo para as ditas letras durante os últimos anos, parece incontestável. Até porque não só Portugal esteve presente, como também altas propostas de leitura em português procedentes do Brasil, Timor e PALOP. Janela aberta para a nossa galáxia toda.

E se tal galáctico olhar foi intermitente nos primeiros números, ganhou intensidade para se fazer progressiva presença constante, variada. E não só propostas de livros, mas mesmo se deu ao luxo de apresentar as vozes de quem escreve. Preferência lógica por proximidade da Lusitânia mas dando também cabimento, dentro do possível, aos sabores mais distantes. Os angolanos Ondjaki e Pepetela foram entrevistados nos volumes 40 e 57, repetindo aquele no 65. António Cabrita, que conta por Moçambique, no 68. O brasileiro Luiz Ruffato apareceu já no 46. O timorense Luís Cardoso no 62. O cabo-verdiano Germano Almeida (76) falou em 2015, três anos antes de ser Prémio Camões. Também despedimos Saramago com honras (45) e, por certo, mergulhar no leque de nomes que levam a sua medalha foi habitual. Valter Hugo Mãe (43), Tordo (52), Peixoto (67), Gonçalo M. Tavares (80), Paulo José Miranda (81). As grandes Maria Teresa Horta (59), Lídia Jorge (55), Teolinda Gersão (58), Ana Luísa Amaral (69). Os singulares Possidónio (50), Rui Zink (54), Mário de Carvalho (72), Pedro Rosa Mendes (47). Alienígenas como o Onésimo (27 e 63), mestres do policial como o Miguel Miranda (61). Figuras de lenda como o Urbano Tavares Rodrigues (64). E a estes foram encostando-se noutros números autores sólidos ou mais desconhecidos e quase iniciantes, de um Luís Brito (73) a um Afonso Cruz (83), de um Sérgio Luís de Carvalho (20) a um Pedro Miguel Rocha (66) com a sua insistência nos cenários galegos. E os empolgantes Marmelo (22 e 60) e Valério Romão (71), e o prolífico Miguel Real (82). E mais alguns, sempre bons e felizmente ao nosso alcance. Maiormente narrativa e crónica, eis a mais clara concessão mercadológica por causa da distribuição, mas também acredito que a porta da Poesia é para requinte. No caso levaria a assombros superiores que o pessoal iniciado já conhece. E como conhece tampouco vai exigir da Biblos uma vocação para a que não nasceu. O cânone vivo e mais visível, como nunca dantes, está determinado pesadamente pela lei da oferta e da procura. Realizei em 2005 a primeira entrevista a pedido de Tucho Calvo. A última em 2016, feliz de que a destra Carla Sofia Amado aparecesse para também nesta vertente colocar o seu talento a brilhar e abrir novo horizonte. No presente número especial, onde o espaço está no entanto igual de medido, vou consagrar os parágrafos que me restam a pintar grosso modo o convulso tapete rolante do mercado editorial recente que tivemos por baixo. Se as obras e figuras dele arrancadas procediam doutras geografias, ainda que na mesma língua, virem cá dar também dependia do rolar. E como do futuro que possa ainda ser convocado, seja qual for a pátria ou género em que escrevam, mexam ao sul do Minho ou (quem sabe) até por cima, algum entendimento será bom para a estratégia futura desta revista e proveito de quem busca esta página.

Com dados consolidados que não são logicamente os do instante, consta que em Portugal existem umas 2000 casas autorizadas a publicar. Delas, no entanto, só algo mais de 500 estariam operativas. Para que se entenda que é muito, podemos aproximar que esse “algo mais” que ultrapassa o quinhentos parece-se ao número de selos ativos na Galiza. Também valerá a pena colocar por diante que o setor editorial luso, de entre as indústrias culturais e apesar das convulsões, é o que mais contribui para o PIB. Caso bem diferente o nosso e do suposto livro “em galego” que se move em anormalidade complexa –mercado apenas do ensino, subsídios e condicionantes até de norma pelo meio, inexistência ou marginalidade de obras de ciências sociais, humanidades, técnicos, tempo livre, centrais num mercado normal.

Mas deixemos a um lado por enquanto comparativas e continuemos olhando para o sul, onde se deu uma profunda alteração que começa a pintar um panorama demasiado parecido ao doutros países talvez para pior. Os grandes retalhistas e livreiros (livrarias Bertrand, FNAC, hipermercados, centros comerciais) têm 80% do mercado e ficam com margem maior. Também parece que se lê menos, que existe uma fuga em frente, que se deriva para a perigosa procura do best-seller (basta ver as montras) e que o controlo da mídia e da tv entrou em bruto no jogo da venda dos livros. E por aí determinando a Literatura porque a visibilidade depende menos da qualidade e mais do dinheiro.

Se crise económica, pirataria e fantasma do digital também marcaram as letras lusas na última década, foi o processo concentrativo que mais alterou o mapa. Em 2008 criaram-se 2 grandes grupos editoriais que impuseram nova relação de forças entre editoras/ distribuidoras/ livrarias, entalando o escasso número de empresas médias e matando ou deixando na margem a massa de pequenas. O primeiro é LeYa, com área literária e escolar, crescendo por absorver alguns núcleos fortes (D. Quixote, Caminho, ASA, Oficina do Livro e Teorema) e outros inúmeros selos (Academia do Livro, Bis, Gailivro, Lua de Papel, Sebenta, Texto, Caderno, Casa das Letras, Estrela Polar, Livros d’Hoje, Novagaia, Quinta Essência), tendo ainda presença no Brasil onde criou a mesma marca, e em África (Ndjira para Moçambique e Nzila para Angola, via Caminho).

SELIC na Correntes d'Escritas

O segundo grande Grupo, Porto Editora, começara a apostar dois anos antes na edição literária, pois a sua fortaleza tinha estado sempre na escolar, onde continua líder. No mesmo 2008 mostrou a firme propensão de ampliação e se já tinha adquirido a Areal Editora e a Lisboa Editora (agora Raiz Editora) juntou a Sextante, a Assírio & Alvim e parte do catálogo da Livros do Brasil, assim como o estratégico Grupo Bertrand/Círculo, que inclui não só rede livreira, clube do livro Círculo de Leitores, como também as chancelas Bertrand, Quetzal, Pergaminho, Temas e Debates, Contraponto, Arteplural, Gestão Plus e 11×17. Em Angola e Moçambique criaram a Plural e no Brasil por enquanto não entraram.

Tendo abrandado a tendência à concentração e, por outro lado, consolidando-se alguns pequenos grupos já existentes que resistiram, foram-se afirmando ao tempo poucos selos independentes dentre os numerosos que nasceram, em exíguo espaço. Neste corte, talvez Presença siga no possível ranking geral após os grupos citados, cujo exemplo modestamente tomou ao comprar novas chancelas (Manuscrito, Jacarandá e Marcador). Algo parecido tentou o chamado Grupo Babel, com protagonismos no processo de convergência (reuniu Guimarães, Verbo, Ulisseia e Ática, entre outros), mas perdendo fôlego diante doutros mais ativos. Como o 20/20, que juntou pelo menos cinco marcas que vendiam: Booksmile no infantojuvenil (estrondoso sucesso de O Diário da Banana), Nascente (livros para mente, corpo e espírito), Topseller (ficção de adulto e jovem adulto), Vogais (não ficção) e finalmente Elsinor para literatura e ensaio, com forte aposta na qualidade das edições. No mesmo segundo friso apontemos já a entrada em Portugal do gigante mundial Penguin Random House, que adquiriu a área literária do grupo espanhol Santillana (referente no livro escolar, como sabemos), concretamente a Alfaguara, a Objetiva e a Suma de Letras.

Entre as médias e pequenas, vale a pena citar a Gradiva de Guilherme Valente (1981), caso exemplar de independência. Tem por exemplo uma coleção de referência, Ciência Aberta, com mais de duas centenas de títulos marcantes no domínio da cultura científica. Também conta com um dos autores que mais vende no catálogo e em Portugal, José Rodrigues dos Santos.

A Relógio d’Água de Francisco Vale, criada em 1983, também é caso singular, a caminho dos dois milhares de títulos. Realiza um trabalho claro para leitores, críticos e mundo em geral, um projeto que vive do rigor, da iniciativa e da imaginação, na escolha de um catálogo que seja referente para os mais exigentes. Com um perfil de empresa “cultural”, procura a aliança entre quem ainda lê com atenção e uma edição publicada segundo escolhas criteriosas, que carece do privilégio do livro escolar na mão dos 2 grandes grupos, que não tem o desdobramento para chancelas comerciais (como a Presença), que não publica lixo, que procura aquilo que devia ser parte importante de qualquer biblioteca de um leitor tuga, muita tradução, e várias decenas de novos títulos e 15 reedições por ano, mantendo a fidelidade aos autores escolhidos.

A Tinta-da-China de Bárbara Bulhosa talvez tentou ir pelo caminho da Relógio, alargado agora até ao Brasil, mas o seu catálogo delata outras debilidades. Assegura viver das vendas (muito provavelmente de um autor, Ricardo Araújo Pereira), ter muito cuidado com os gastos e apesar das dificuldades arriscar em novos projetos, isto último menos claro. Seja como for, edita livros belos e cuidados, com vocação de qualidade, que ambiciona vender.

A Cotovia de André Jorge, a Cavalo de Ferro de Diogo Madre Deus, a Abysmo de João Paulo Cotrim, a Parsifal de Marcelo Teixeira…, entre selos vários de pequeno porte, desenvolvem projetos com personalidade invulgar e contorno (veja-se a identificação com individualidades nominais) que pode recordar a maioria das chancelas galegas, embora espectro e tiragens destas sempre fique aquém. O trabalho desse conjunto de empresas é mais interessante, em síntese, que o dos grandes grupos, apesar das dificuldades de visibilidade e distribuição, e estou a lembrar-me dos obstáculos para oferecer livros deles na Biblos destes anos.

Enfim, há quem pense que a concentração foi inevitabilidade do mercado global, e até chegou com atraso, mas talvez se tenha ido longe de mais em Portugal. Também há quem ache tudo igual, pois em realidade os grupos estão organizados em chancelas com os seus responsáveis e até concorrem entre si. E até quem diga que se está melhor, por haver mais informação sobre o setor, que sempre foi desorganizado, que se ganhou em rigor e profissionalização. Mas no meio de tudo isto insinua-se outra mudança significativa, e é que na estratégia eucaliptal dos Grupos pode-se ouvir falar a escala de língua e não de país: não olham para Portugal mas para o português de forma integrada, buscando sinergias entre chancelas de países de língua portuguesa, por outra parte o mesmo que já aconteceu com o inglês, espanhol ou francês. A Companhia das Letras, que no Brasil se integrou à Penguin Random House, entrou por essa porta em Portugal e é um exemplo. Isto pode ser bom para ter mais perto livros antes remotos, mas é mau no sentido de esvaziar no espectro macro o espírito de editor, que não existe mais a esse nível, transformado em gestor. Editores só nas empresas médias e pequenas. Na tendência para privilegiar temas, autores, coleções e ocupar todos os canais de escoamento, a primeira vítima foi a diversidade, e novos projetos e autores que ficam de fora por os grandes não querer e os outros não ter recursos. As concentrações, como já se provou na agricultura, poucas vezes trazem vantagens, e no caso editorial a marca de água dos grandes grupos tem sido o mar de novidades de qualidade dúbia. Estas grandes empresas acabam por ser cada vez mais centrais de marketing e televendas, contribuindo para a excessiva corrida aos best-sellers e à terra erma onde se empobrece ou não se vê Literatura. O surgimento de editoras independentes e de nicho, que fazem um trabalho cultural extraordinário, são a esperança de que a Literatura portuguesa continue a ser a Maior que um pequeno povo tem produzido, que dizia há um século Aubrey F. G. Bell. O portento que assombrara antes Unamuno. Se a brutal concentração confirma o fim de ciclo, se os selos editoriais piratas (que normalizaram pedir dinheiro aos autores) passam, e se as independentes (que sustentaram a diversidade durante esta década de crise) se consolidam na cumplicidade de quem ainda quer Boas Letras, na escrita em português teremos alimento antigo e novo para muitas vidas.

E uma última nota galaica a propósito de sinergias: ontem recebia de um amigo galego WhatsApp de Lisboa com foto de estante FNAC, onde campava um livro da Através. Não é a primeira vez. Apesar desta editora sustentar a aposta de distribuir ao sul do Minho na pior altura das ditas convulsões, vem demonstrando que com qualidade e trabalho se pode jogar na primeira divisão, entre corporações e concorrência de alto nível dos pares independentes. Receber regularmente originais de autoria lusófona é outra prova de respeito. E talvez de modelo para mais selos galegos assumir o superpoder do emprego da norma lusa como própria. Está ainda a triangulação com o Brasil de Urutau, que pode ser outro exemplo de possibilidades. Não se assegura o incremento das relações com a Lusofonia, não existe até uma Lei ao efeito…? Talvez a Biblos da próxima década necessite mais páginas com canto verde para acompanhar tanto novo desafio…!

Carlos Quiroga

Carlos Quiroga

Carlos Quiroga (Escairom -Terra de Lemos-, 1961) é escritor e professor de literaturas lusófonas na Universidade de Santiago de Compostela, membro da direcçom da Associaçom de Escritores em Língua Galega, membro da Associaçom Galega da Língua (AGAL) e diretor da revista Agália durante um amplo período, também diretor da revista de arte e cultura oMáximo e fundou e dirigiu a revista galega O mono da tinta.

Publicou G.O.N.G. - Mais de vinte poemas globais e um prefácio esperançado (1999), Periferias (1999, Prémio Carvalho Calero de narrativa), A Espera Crepuscular (2002, primeira parte da trilogia Viagem ao Cabo Nom), Il Castello nello Stagno di Antela - O Castelo da Lagoa de Antela (2004, Prémio de Teatro infantil na Mostra de Ferrol-Terra em 1988, publicado na Itália em galego e italiano), O Regresso a Arder (2005, terceira parte de Viagem ao Cabo Nom), Inxalá (2006, Prémio Carvalho Calero de narrativa), Venezianas (2007). O seu mais recente cometido literário foi a coordenaçom do volume O Crânio de Castelão.

Bolseiro de investigaçom da Fundaçom Calouste Gulbenkian (1991-92), do atual Instituo Camões (1992-93), e da Universittà Italiana per Stranieri (1983), foi prémio extraordinário de doutorado, professor de Língua e Literatura Galegas, e o primeiro professor de Português em Escola Oficial de Idiomas na Galiza, antes de trabalhar na Universidade de Santiago de Compostela, onde é professor de língua e literatura lusófonas.
Carlos Quiroga


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  • Venâncio

    Caro Carlos,

    Acabo de ler no Público de hoje, a propósito dum livro de Machado de Assis:

    «O preço de “Dom Casmurro”, em edição portuguesa, oscila entre 6 e 14 euros. Mas uma edição brasileira do mesmo romance pode custar, em Portugal, 80 euros».

    A tua lírica “nossa galáxia” é torta a dar com um pau.

    Sobre o teu artigo: muito informado e informativo. Mas não seria nada de mais referires também as editoras Antígona e Guerra e Paz (que publica o Marco Neves). E falas da Cotovia de André Jorge. Como saberás, o André morreu há uns anos.