UM QUEIPO NO LAR

Cabelos de prata. Na defessa do nosso Planeta



Vejo-as todos os dias. Tomando banho, falando, rindo, participando nas mobilizações de repulsa a isto ou outro. São as da geração que tirou a faixa , que começou a tomar a pílula que estudou na universidade, que protagonizou os primeiros divórcios da Espanha. Que viajou polo mundo olhando outros países e outros costumes. De facto, é possível que muitas mulheres mais novas ( de 50 ou mais) nem saibam que era aquilo da faixa.

São -somos- as filhas da geração da guerra. Quer seja a guerra mundial ou a guerra da Espanha. Somos as que corríamos diante dos “grises” as que arrincaram os “paves” das ruas e praças de París, ou as que saíram às ruas a celebrarem a revolução dos cravos em Portugal.

Somos a geração que conheceu a segurança social universal, o voto e a emancipação legal dos maridos. Encontramos um mundo cativo ruim, cheio de preconceitos culturais e deixamos as nossas filhas uma sociedade muito mais igualitária, mais letrada menos “pacata” que aquela em que nos criaram. Nossos pobres pais e mães que conseguiram superar o drama duma guerra civil em Espanha ou uma guerra Mundial em Europa fizeram o que puderam.

Ontem mergulhavam no Atlântico como cada dia na praia de Pleuviam em Bretanha desvestindo os seus albornozes antes de ir nadar no mesmo oceano que banha o meu país, a Galiza.

Adoro este mar. Enorme, verde, viçoso,.Que une os maiores continentes e que me possui como um amante ciumento.

As beiras deste oceano, Atlântidas, como as mulheres da nossa geração , celebramos a vida e aprendemos a viver com costumes e morais diferentes as de nossas mães. A nossa capacidade de tomar decisões multiplicou-se por mil a respeito da geração anterior. Aprendemos tanta cousa nova! Inclusivamente fizemos-nos espertas em informática e lutamos pola defesa do bem comum. Aquele de maior importância: O nosso ambiente que nos fornece de ar para respirar de água para beber, de terra para cultivar o alimento. Junto às nossas companheiras de gerações mais novas saímos às praias para limpar as desfeitas do Prestige provocadas por um governo insensato e insensível. E continuamos a lutar para defender-mos o património cultural e ambiental ameaçado. Certamente, encontramos um mundo mais pobre do que aquele que deixamos. As mulheres conseguimos melhorar nosso status a respeito das gerações das nossas mães. Mas, nem todas as mulheres melhoraram. Há, no mundo, grandes massas de populações em que ser mulher é um castigo. O lema é que não seremos livres se uma das nossas irmãs não o for. E, falta ainda muito para lograrmos este objetivo.

Conseguimos muita cousa:liberdade, comodidades, bens de consumo, longevidade, etc. Mas, será que não deixamos nada polo nosso caminhar através da vida? Deixamos sim. Um ambiente muito degradado. Um património comum destruído, um planeta doente que está a sofrer à maior crise global desde que o ser humano tem aparecido e ocupado quer a terra o ar e os oceanos.

Nesta encruzilhada em  que nos encontramos não fica outra possibilidade, se formos responsáveis, que tomar conta do nosso bem comum. Nosso ar, águas ou terras. Nossos rios e nossos montes. Recebemos uma Terra produtiva em que a circulação de matéria e energia através de seus ecossistemas realizava-se de maneira equilibrada. Esquecemos um lei fundamental: Não se pode consumir mais do que se tem.

O planeta Terra funcionou até agora como uma máquina bem ajustada.

Os recursos do planeta compõem o que se chama seu caudal ecológico.

Acontece que em certas regiões da Terra este caudal ecológico é consumido muito antes de que se puder restaurar. De maneira que entramos em deficit planetário.

Esta situação tem de ser corrigida. Não podemos deitar na atmosfera mais CO2 do que está poda reciclar mediante a função fotossíntese das plantas verdes. Não podemos consumir mais água da que a natureza pode depurar. Não podemos degradar mais solo do que o ecossistema poda recuperar. E Assim vale com tudo. Não podemos deitar mais lixo do que o planeta pode reciclar .

Mas isso não está a acontecer. O sistema capitalista que controla as sociedades baseia-se num crescimento indefinido e na acumulação de capitais. O comum é abandonado em favor de grandes empresas que têm por objetivo produzir para vender por cima de seu custo. Sem ter em conta que o lugar para onde deitam seus produtos é limitado. É um planeta, grande, sim, com certa capacidade de regeneração, mas nem esta é infinita nem seu tamanho tampouco.

Chegados a este ponto, compre parar. Devolver ao comum o que é deste. Recuperar a gestão da produção pola comunidade. Garantir a preservação do património comum, cultural e ambiental. Recuperar as águas a atmosfera as florestas os montes para as comunidades. E também a geração da energia, os transportes a educação e a sanidade, como bens comuns.

O sistema capitalista é, na atualidade, um monstro que tudo engole e tudo destruir. Para poder produzir mais seja isto o que for. Não importa a destruição que ele provoca. Só busca ganho económico para o grupo humano privilegiado que controla os médios de produção.

Deita fora deste mundo a uma imensa parte da população . São os milhares de despossuídos que navegam à valga por todos os mares do mundo fugindo da morte e na procura duma esperança quase sempre inalcançável. Põe em situação de proscritos as minorias indígenas que defendem o bem comum, florestas, rios, ar…

As mulheres , aquelas dos cabelos de prata, que lutamos e conquistamos uma sociedade mais justa para as nossas filhas e filhos, não podemos permanecer impassíveis diante da emergência climática. Nem face a destruição dos nossos montes como o Iribio. O capitalismo não pode apoderar-se do nosso património ambiental e cultural. Temos que exigir respeito pola terra que nos criou e temos a obrigação de deixarmos um mundo vivo e saudável para nossos descendentes e para a vida que na Terra se criou. As empresas mineiras, as que extraem tudo quanto a Terra guarda, tem que parar. E não podem seguir ao serviço das companhias privadas. O que é de todos tem que ser gerido por todos. O comum pertence ao comum. Nunca devemos superar a capacidade ecológica do caudal da terra. Temos uma obriga moral e temos o direito de o fazer.

No dia 20 de setembro os estudantes irão a folga geral polo clima. No dia 27 de setembro está marcada da folga mundial polo clima. É uma mobilização por nossa atmosfera. Por nosso Planeta. Porque o sistema capitalista predador insaciável pare de fazer dano ao comum.

Nós, as dos  cabelos prateados, vamos  ir. Como fomos correndo diante da polícia franquista, como fomos limpar as praias do chapapote, como seguimos defendendo os nossos montes rios e florestas. Como denunciamos a insolidariedade com os refugiados. Em união das nossas descendentes e dos nossos companheiros.

Deixemos para as gerações futuras um mundo melhor.

Adela Figueroa Panisse

Adela Figueroa Panisse

Adela Clorinda Figueroa Panisse é de Lugo (Galiza), fazedora de versos, observadora do mundo e cuidadora de amizades. Trabalhadora no ambientalismo e na criatividade da palavra. Foi professora e lutadora pela recuperação da dignidade da Galiza e, ainda, pela solidariedade entre os seres humanos e a sua reconciliação com a terra. Gosta de rir, cantar e de contar contos. Também de escutar histórias, de preferência ternas e de humor.
Adela Figueroa Panisse

Latest posts by Adela Figueroa Panisse (see all)


PUBLICIDADE

  • Paulo Soriano

    Cativante, Curra!