O brexit e novo processo civilizacional



“Lembrem-se que vocês vivem um tempo excepcional em uma época única, e que têm essa grande felicidade, esse incalculável privilégio, de estarem presentes ao nascimento de um novo mundo”

(Sri Aurobindo)

brexit-4 Para compreender o que está acontecer com o Brexit, e a situação internacional – perfilhada, desde a queda do sistema financeiro de 2007-2008, além do já comentando em outros artigos, séria bom ter muito em conta, o processo aparente de luta – que está sendo travado em Ocidente – De uma lado os partidários de confrontar o ascenso imparável chinês, com a quebra da globalização financeira privada e, pelo outro, os partidários de continuar a mesma. Sendo estes primeiros, representados por Trump e Boris Johnson, o vencedores momentâneos.

Resultando dai o fim do ciclo financeiro privado, que em aparência fica rematado.

O modelo chinês de estado mercantil totalitário, parece ser o grande triunfador, sendo que o poder ocidental “antiglobalização”, que está a travar os mercados mundiais, para evitar a expansão chinesa, optou por adaptar esta versão oriental a seu acomodo cultural de base judeu cristão.

A cada dia Trump, ganha mais apoios – aos já conhecidos da família Rockefeller, se une agora do presidente do JP Morgan Chase, Jaime Dimon.

O fim da paródia democrata dum Impeachment a Trump, impossível de ganhar, ao invés de debilitar ao presidente, tende a fortalece-lo.

Nova Acomodo Civilizatório

A nova Força Espacial criada em Dezembro de 2019, um projecto, estimado em 738 bilhões de dólares, que aumenta num 2.8% o orçamento militar dos EEUU (e um incremento nos salários dos militares num 3.1%), simula afiançar o complexo militar industrial (pró globalização), que teria definitivamente apostando por Trump?. No entanto, a reconfiguração da FED – Reserva Federal Norte-americana, a partir de Setembro de 2017 – tem tirado mais poder dos globalistas, permitindo maior autonomia da Presidência.
Assim agora a administração Trump e seus aliados, podem controlar melhor o poder económico, e sustendo o poder do comando militar central, agora pode tentar dar um golpe ao programa espacial chinês, muito apoiado pelo desenvolvimento da inteligência artificial.
Além de em estes momentos o problema do corona vírus, pode obrigar a Chinar, a um certo voltar sobre suas fronteiras – permitindo algumas empresas regressar aos Estados Unidos, tal como afirmou o Secretário de Comércio norte-americano, Wilbur Ross.

É em este cenário que o Brexit, se implementa, deixando a Europa um bocadinho mais sozinha entre o novo Poder Norte-americano, que na prática está a dividir o Império Ocidental – com a União Europeia ainda apostando pelo poder bancário privado, hoje em retrocesso e os EEUU, combatendo com o crescente poder Chinês e Euro-Asiático da Rússia, idealizado como tantas vezes falamos, entre outros, por Alexander Dugin…

Inglaterra abandona Europa, e aqueles contrários a permaneceria na União Europeia, celebram esta data, de 31 de Janeiro de 2020, como um verdadeiro ato de libertação.

Tudo indica que o executivo britânico vai apostar na Commonwealth, tentando encumear Londres como o grande centro financeiro da mesma. Isto significaria apostar num contesto civilizador, para realizar o qual, Inglaterra teria de abrir mão do controlo branco, em favor dum controlo multiétnico. Facilitar o acomodo Índia Paquistão entre outros (fricção criada precisamente pelo Império britânico, para impedir a Índia sua expansão exterior). Assim com um acomodo no sul da África, com poder central da Republica Sul-Africana em Conexão com o Indico e Atlântico.

Inglaterra teria de abrir mão do controlo branco, em favor dum controlo multiétnico. Facilitar o acomodo Índia Paquistão entre outros (fricção criada precisamente pelo Império britânico, para impedir a Índia sua expansão exterior). Assim com um acomodo no sul da África, com poder central da Republica Sul-Africana em Conexão com o Indico e Atlântico.

Rússia já ativa na criação do poder Euro-Asiático, em conexão com o desenvolvimento Oriental do Poder Chinês, desenvolve já, desde a chegada de Putin ao poder, um plano civilizacional que olhando Europa contrair-se aproveitaria para voltar a ter comando, direto ou indireto sobre o leste europeu, perdido na derrota e queda da URSS, ao final da guerra fria… Por acaso o novo presidente de Ucrânia, se monstra menos belicista e pragmático com Moscovo.

Em esta reconfiguração do poder russo, Dugin, acaba de fazer público seu apoio a Irão, na sua luta contra EEUU – Israel.

Afirmando no nível já da escatologia do fim mundo, que o Mahdi aguardado pelos persas, para sinal do fim dos tempos de guerra, seria o Verdadeiro Messias de Luz, enquanto o esperado pelo poder Israeliano, seria o Senhor das Trevas…

No Extremo Oriente a nova civilização comandada por Pequim, consolida sua logística e fortes ligações, já praticamente imparáveis, numa complementaridade, a tal ponto vital, que uma crise prolongada na China, afetaria de forma muito negativa toda a região. Deste modo se o coronavirus criar problemas, Extremo Oriente, pode perder fôlego na sua inercia por substituir o Atlântico Norte, como centro do mundo.

Outro 4 pólo seria A Nova Norte-américa, que abandonando já o velho desenho dominador, feito pelo Coronel Edward Mandell House, a inícios do século XX, em favor da globalização bancária; aposta agora num novo modelo dominador, apoiado pelo sector evangélico sionista, que está a tomar pose de governos vitais em toda o continente Americano, a favor do centro geográfico material do EEUU, e espiritual de Israel.
Criando ai um novo modelo civilizacional judeu cristão, conservador e mercantilista – com um poder estatal forte, em aliança com o poder bancário, mas que não permita a este poder controlar por trás da plateia, impedindo o Estado exercer o controle real.

A Quinto Ramo da Árvore

Brasil poderia criar um quinto poder Oceânico, com um centro material e espiritual, herdeiro da velha civilização celtibérica e tartéssia, assim como das viagens de circum-navegação portuguesas e castelhanas… Mas, esse poder teria que entrar em confronto com a nova planificação norte-americana, e de momento, Brasil, ainda não foi capaz de criar um centro económico independente na América do Sul, vital para afiançar este quinto pólo civilizador. Que entroncaria no Sul da África e Oceânia, com um mundo marítimo, cujo eixo principal seria uma CPLP, ampliada. E, em caso de uma futura quebra da União Europeia, este centro civilizador, encontraria o Estado Espanhol e Português, tornar-se de aliado a membro integral. Mas nem Espanha e Portugal, a dia de hoje poderiam fazer uma aposta de rutura com o poder bancário privado Europeu, que no entanto, aparenta ser o grande perdedor de esta nova aposta, se Brexit, finalmente funcionar…

Brasil, ainda não foi capaz de criar um centro económico independente na América do Sul, vital para afiançar este quinto pólo civilizador. Que entroncaria no Sul da África e Oceânia, com um mundo marítimo, cujo eixo principal seria uma CPLP, ampliada.

Esta civilização Oceânica, dos povos de fala galego – portuguesa e castelhana, finalmente, pode ser formada, pois a inícios de este século, já foi ativado o processo de emancipação da América do Sul, que de algum modo será feito, ainda que tarde um bocadinho mais.

Na Espanha uma reforma constitucional em favor de uma Federação, pode ajudar no longo prazo, dado essa nova civilização oceânica somente poderá formar-se, numa confederação de povos e línguas, em pé de igualdade. Junto a uma unidade esquerda – direita, muito longe das dinâmicas de hoje, todavia muito herdeiras dos processos de Guerra Fria. Dinâmicas já extintas no nível geopolítico.

Toda esta remodelação, vai trazer também muitas e diversas fricções, por isso é realmente importante, que o sector menos belicista – que pelo de agora – parece manter-se a frente destes diversos pólos regionais, siga comandando seus respetivos governos. Pois difícil será encontrar acomodo, em regiões como Oriente Meio, entre sunitas e xiitas.

Mesmo o novo plano Trump, de criação de dous Estados, entre Palestina e Israel, parece de difícil implementação, dado como afirmou o Ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, Árabes e Palestinos, não tem muita confiança em ele.

Em este mundo ainda muito apegado as velhas dinâmicas guerreiras, temos de entender que realmente a tendência de Adharma (contra a lei universal) é dominante, frente as tendências em favor do Dharma (Lei Universal). Assim realmente vivemos em um anti-sistema que caminha sempre à autodestruição. Mas esta destruição é impedida, ciclicamente, pela criação de centros geográficos materiais e espirituais, que durante certo período servem a humanidade de refúgios sistémicos, onde durante um certo tempo a lei evolutiva avança.

Quando entram em contração, esse centro civilizacional, entra em queda e outro novo deve ser construído.

Período de Remodelação

Em esse período é que estamos imersos, e o ciclo de poder Europeu, iniciado na globalização comercial bancária (permitida pelas vias abertas por Portugal e Espanha e, aproveitada pela poder financeiro Holandês e a seguir Britânico, que desembocou no Poder Financeiro Ocidental Globalista, a partir da II Guerra Mundial), entrou em desintegração, a partir de 2007-2008, e a cultura dele emanada também virou no ocaso. O ciclo mercantil ocidental – terá de deixar passo a um novo ciclo dos Cidadãos, que tal vez se consolide no Hemisfério Sul, chegado seu momento.

Mas pelo de agora, o poder Russo-Chinês e Britânico-Norteamericano, serão os novos lutadores pela hegemonia planetária, que sabendo equilibrar-se podem ate coexistir. Deixando Europa numa delicada situação. Talvez em segundo plano.

O medo a uma guerra total, que pudera derivar em confronto atómico, pode e deve ajudar a esta distensão, entre os dous grandes blocos e, em franjas de fricção como na Síria ou Líbia, guerras convencionais, podem ser inevitáveis, ate a humanidade atinja um grau de consciência superior, que lhe permitir resolver problemas hoje enquistados. Estes problemas, na atualidade, são dominados pelo medo desconfiança. Mas num futuro, com um olhar mais abrangente, fomentado no dialogo aberto, flexibilidade maior e capacidades de acomodo, nesta altura fora de nosso alcance, podem tomar outras dinâmicas mais pacíficas.

A proposta de Trump, de retirar tropas do Oriente, necessária para seu acomodo económico, tropeça com os sectores globalistas, dentro do Poder dos EEUU, que ainda se resignam a ceder o comando, assim como também com um possível vazio que poderiam aproveitar tanto russos como iranianos. De conversas, futuras, vai depender esta paz no Meio Oriente. Confronto primordial pela hegemonia atual dentro, duma demolição controlada do velho sistema de dominação, baseado no dólar; da carreira pelas novas tecnologias – do impulso chinês por criar uma estrutura académica – universitária, que possa concorrer com a Ocidental… Pois esse assente académico – universitário, de séculos, ainda lhe dá a vantagem ao Ocidente, na carreira da sustentabilidade científico – tecnológica (somente nos EEUU, existem 350 mil estudantes universitários chineses)

O legado europeu prevalecerá, acomodado e modelado em novos centros civilizacionais.

O poder Russo-Chinês e Britânico-Norteamericano, serão os novos lutadores pela hegemonia planetária, que sabendo equilibrar-se podem ate coexistir. Deixando Europa numa delicada situação. Talvez em segundo plano.

Os direitos humanos, seguirão a ser uma referencia, mas acrescentados com o trabalho interior dos seres humanos para ser merecedores desses direitos.

O feminismo seguirá a ser necessário (somente no exercito americano, calcula-se que sobre 500 mil mulheres militares, tem sido violadas sistematicamente, com 200 mil denuncias confirmadas, desde o acesso destas ao exercito. Enquanto se impõe um silêncio de cúmplice de camaradagem masculino). Mas esse feminismo, terá que ser reformulado, acrescentado o conhecimento real da soberania feminina e o papel real da mulher, como ser equilibrador com a polaridade masculina, evitando um machismo a inversa.

A agenda 2030 da ONU, apoiada pela encíclica laudato si, do Papa Francisco, de 24 de maio de 2015, em favor dum modelo de ecologia integral, não vai poder continuar sua caminhada, a não ser, que seja de novo reformulada, a favor dum poder multilateral e não unilateral do globalismo bancário privado, agora em queda.

A caminho do Governo Mundial

No entanto, finalmente, se chegará a um governo mundial, do que hoje estamos muito distantes, a uma sociedade mais ecológica, mas já não aquela sociedade tecnotrónica idealizada por Brzezinski, nos anos 70 do século passado, em favor dum poder único ocidental financeiro, hoje em decadência.

Novos poderes como Índia, Rússia, China, não podem ser apagados, podem ser travados momentaneamente, mas já não subjugados.

Brasil, acordará também, e na América do Sul, confrontos continuaram, ate esta atingir sua sonhada independência, que como bem falamos em outro artigo, foi já idealizada no século XIX, trabalhada durante todo o século XX, e em este XXI, terá de dar a luz, efetivada… Dai as dores de parto.

Assim, que o grande trabalho, está de novo em essa tripla libertação ou pacificação que tanto defendemos, para em próximos séculos, à humanidade seguir evoluindo em favor da justiça e a paz: pacificação interior do ser, pacificação sociedade natureza e pacificação dos povos.

Finalmente, esse governo mundial, para bem da humanidade terá que formar-se e formalizar-se, em amplos acordos, por uma confederação de povos e não pela imposição dum poder determinado.

As elites destes povos devem entender que não podem negar a estes o progresso, nem empregar os mesmos como escravos, para sustentar seus palácios. Isso foi banido da terra, com a mensagem do Cristo, que decreta a igualdade entre todos os povos da terra – inaugurando o caminho para a fraternidade no nosso planeta…

Transição

Agora estamos num período de maior conservadorismo, formalismo e trunfo dum modelo mais totalitário, escolha lógica de transição numa sociedade ainda dominada, por desgraça, pelos impulsos belicistas. Mas assentada a nova aposta civilizacional, outro ciclo de maior democracia, mais relaxação nas formas e maior progressismo chegará. E a humanidade terá de entender que progresso e conservação não são contraditórios, senão complementares, pois no plano da natureza, onde estamos inseridos, não existe progresso sem conservação, nem conservação sem progresso.

Tanto na direita como na esquerda, as alas conservadoras se imporão, nos dias de hoje identificadas como mais nacionalistas ou tradicionalistas. Enquanto, se assentem as novas apostas civilizacionais, esses nações se diluirão em estas novas regiões, distintas das previstas pelo poder globalizador, hoje quase derrotado, recuando.

Trabalhar em favor da paz, supõe entender estas tendências, e cada quem dentro do seu núcleo civilizador (que no caso da Península Celtibérica é a nova civilização oceânica, ainda por criar) significa afiançar seu compromisso com o diálogo, o rigor feito com amor e o amor realizado com rigor, em favor dum avanço ético e uma limpeza no relacionamento social, de parelha, familiar…

A defesa da terra, as gentes, a paisagem.

Seja nosso logo esse caminho, feito em colaboração dos bons e generosos, que de novo o hino iniciático galego, que prevê essa aliança, tenha sua profética luz. Assim podamos assistir à chegada dos tempos de luz, paz e harmonia, para os quais, muitos decénios, serão precisos de forte trabalho, pesado realizar, imenso ultrapassar provas e enganos.

O Futuro do Sul

Esquerda e direita seguirão confrontando na América do Sul, com maior ou menor virulência. Deste desgaste, surgirá uma terceira via nacionalista, em favor da independência do domínio norte-americano, ao certificar que nenhum campo pode obter supremacia sobre o outro. Essa terceira via, abrirá um dialogo mais amplo, entre diversos sectores de poder, que segundo o Império Norte-americano, se veja obrigado geopoliticamente a facilitar mais autonomia ao Sul do Continente, crescerá, para formar os alicerces do futuro poder Sul Americano livre. Aquele que tendo consciência do seu novo papel na história, procurará as alianças Sul-Sul, com a África, Índia e Oceânia, criando a nova civilização oceânica, da que já temos falado em outros artigos.

Neste sentido, os povos da península celtibérica que abriram as rotas de navegação global, verão como seus herdeiros, afiançaram o fim do ciclo do poder europeu, iniciando o novo ciclo dos cidadãos – com um novo centro geográfico, sediado no hemisfério sul, com Brasil como lógico centro – pois ocupa a metade a América do Sul, e contêm a metade dos seus habitantes e PIB.

Essa nova civilização terá a mistura espiritual indígena, africana, europeia, hebraica e oriental – com predomínio dum novo ecumenismo, no religioso, mas não de imposição dum poder especifico e sim, duma confederação cultural de povos, com um comum destino universal.

A Paz baseada na Ajuda Mútua, será seu modelo referencial social. O caminho da Lei do Dharma, seu assente espiritual. Seu modelo económico: Circular e Ecológico. Assim Seja!

“Toda a grande obra supõe um sacrifício; e no próprio sacrifício se encontra a mais bela e a mais valiosa das recompensas”

(Agostinho da Silva)

Artur Alonso Novelhe

Artur Alonso Novelhe

Galego, mas nascido no México, é diplomado pela Escola Pericial de Comércio de Ourense. Exerce como funcionário do Serviço Galego de Saúde do Governo da Galiza. Publicou várias obras de poesia e colabora habitualmente com diferentes publicações, entre as quais o PGL. É sócio da Associaçom Galega da Língua (AGAL) desde os meados dos anos 80 e académico da AGLP.
Artur Alonso Novelhe

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