O Brasil arauto do futuro (I)



Ancedentes

O Brasil sempre esteve lá, mesmo antes do da Beira (da Galiza) Pedro Alvares Cabral, pôr pé na Terra de Santa Cruz; porém essa terra, mesmo antes do pau-brasil ser a principal exportação do território, já figurava nos mapas europeus, sob influência irlandesa, tratava-se duma ilha mágica no meio do oceano Atlântico de nome Brasil. E o Brasil segue a ter a sua magia, a sua capacidade de nos anunciar que é o que nos vem pela frente, no nosso rumo ao futuro. Como diz Stefan Zweig, Brasil, O País do Futuro (mas o futuro sempre está à frente, pode-se acrescentar).

Se um reparar na composição demográfica do Portugal dos descobrimentos, rapidamente percebe que o Portugal da altura só estava densamente povoado no norte, no território da velha Galiza, do cerne da Galiza, que constituiu Portugal.  Eram logo os galegos, os que assim próprio se seguiam a chamar de galegos, os que chegavam nas naus surfando as ondas do mar.

Galego é palavra bem polissêmica no Brasil, entre os seus significados segue a conservar o de habitante do norte de Portugal. Em janeiro de 2011, chegados a  Margarida e eu próprio a Guarulhos, ao ouvir-nos falar, perguntaram de onde vinhamos, e ao dizer da Galiza, o interlocutor rapidamente esclareceu… A Galiza, sim, Braga, Porto terra maravilhosa, mas isto se repetiu mais vezes em diversos locais do Brasil, Em Minas Gerais, e em Pernambuco, por exemplo. A Galiza no Brasil segue a ser a Galiza cujo cerne é Braga, e que se confunde com a terra dos bons portugueses de Eça de Queiros, pois por todo o lado assim és esclarecido no Brasil. O norte de Portugal, construiu a nacionalidade portuguesa, e colocou os nomes dos territórios de norte a sul, e construiu também o Brasil, como bem se tira do melhor estudo que há sobre a formação social brasileira O Povo Brasileiro de Darcy Ribeiro.

A grande historiadora cultural do Brasil, uma mestra no gênero, a professora Lilia Moritz Schwarcz, autora de dous livros imensos e muito recomendáveis, de documentação e fatos, A Longa Viagem da  Biblioteca dos Reis,  e As Barbas do Imperador, e como coautora no Brasil, uma biografia, expõe muito claramente que a gaita de foles, é o instrumento que chegou ao Brasil com Alvares Cabral, e o mais popular instrumento musical em todo o território, não havia fazenda ou lugarejo no Brasil onde não se tocar a gaita. Todo fazendeiro fazia apreender a escravos a tocarem a gaita, e a gaita passou a ser ao lado da batucada africana, o instrumento com o que se sentiam identificados os escravos, e de todos os elementos mais populares da população. Era isso de tal jeito, que a monarquia, no processo de embranquecimento e europeização do Brasil, começou a incutir o desapreço a esse instrumento…de escravos, até o acabar banindo do Brasil (e praticamente também de Portugal, num processo paralelo), num processo de desgaleguização do Brasil.

A outra cousa bem galega, e por tanto bem comum a Galiza (sob Castela/espanha), e a Portugal, -e de jeito principal ao seu norte galego-, foi o entrudo. O entrudo é uma festa popular que tem os seus alicerces nas festas da fim do inverno céltico [1] na Europa. No entrudo dá-se um período de alegria desbordante, que ia junto com a principal caraterística do entrudo, que é, que os roles sociais eram mudados, e toda palavra toda ação era permitida. Era o período onde se podiam dizer as verdades mais verdadeiras aos poderosos, e príncipes, sem que estes pudessem exercer o seu poder, pois o entrudo era a subversão alegre da realidade cotiã, e durante a sua duração as normas estavam banidas, e isto era assim por toda a Europa medieval. Quando havia regimes violentos e  ditatoriais, as suas primeiras medidas eram de limitar o entrudo, ou proibi-lo direitamente. Quando as classes altas se faziam com o controle dele, tínhamos o carnaval, a festa de disfarces sob o controle dos poderosos, e a sua imagem e remedo.

O primeiro lugar da Europa onde esse modelo triunfou foi a Veneza dos Dogos, que logo todas as cortes quiseram levar aos seus territórios.

O outro grande ataque ao entrudo, foi a reforma protestante e as ideias calvinistas do controle social. O trunfo do sistema -económico mundo- do capitalismo, e a sua moral “calvinista”, deram outro golpe mortal ao entrudo; ele só fica na Europa como facto etnográfico, e como facto cheio de vida e popular, reduzido a umas poucas aldeias espalhadas, das que um bom escol delas está ainda na velha Galiza, tanto ao norte com o ao sul do Minho, e onde os entrudos se espelham os uns nos outros, ainda que sob um novo ataque, a da comercialização turística, que rapidamente converte o sentir dos povos em espetáculo a ser vivido, entendendo o vivido por visto, (eu esteve lá).

O entrudo [2] era a festa mais popular do Brasil, como muito bem exprime Lília Moritz. Era festa na que os escravos (e todos os submetidos) tomavam os roles dos amos e nada faziam, e onde a ordem social era posta de cabeça abaixo, nuns dias onde os poderosos ouviam verdades como punhadas, e nada podiam fazer.

No seu livro As Barbas do Imperador, Moritz narra o desconforto que o entrudo produzia no imperador, e que era compartido por todo o governo. Temos que trazer ao Brasil, dizia, um carnaval como o de Veneza. Isso foi palavra de ordem dos governos todos, um carnaval de carroças num desfile controlado e em espaços controlados, e como a isso se dedicaram os governos brasileiros.

A própria palavra entrudo foi banida do português do Brasil, podem ficar remorsos em lugares como Olinda ou no interior pernambucano, mas o sucesso de civilizar o entrudo convertendo-o em Carnaval foi conseguido, ficam os blocos e as suas marchas e foliões, mas a eles foi banido todo o que de verdadeiramente subversivo tinha o entrudo. O processo de desgaleguização teve mais um sucesso.

Uma das caraterísticas das classes dominantes brasileiras, e portuguesas, e também galegas, é o constante desconforto que sentem com o povo ao que pertencem; o seu é sempre o de se olharem noutros espelhos, e serem ingleses, franceses, castelhanos, ou americanos, segundo for o momento da história, e projetar os seus problemas e incapacidades, como se não forem deles, forem de outrem, do Zé povo. O seu patriotismo escorre-se como água entre os bímbios dum canastro, quando há que se apresentar ante os pares dos seus espelhos. O jeito doido e desnecessário de como se incorporaram termos estrangeiros na sua linguagem é todo um espelho.

O século XIX chegou ainda com os nomes das tradicionais das refeições, que eram os próprios da língua de sempre, a primeira comida do dia era o almoço, a comida forte era o jantar, e a comida a noite era a ceia. Tenha-se em conta que na Europa frente ao Brasil os dias variam muito na duração das horas de luz ao longo do ano. O dia, a luz, marca as horas de trabalho e a noite, as trevas, o de descanso, e a chegada da refeição da ceia. Lília Moritz, explica como a monarquia portuguesa chegada ao Brasil, ainda usava essa mesma denominação para as refeições. Dom Pedro I e II, ainda faziam essas comidas porém a corte portuguesa já tinha incorporado sob influência francesa, o pequeno almoço. O pequeno almoço passou a ser algo ligeiro a tomar ao se levantar, que os brasileiros na sua praticidade acabaram por chamar café da manhã. E o almoço foi-se demorando até a meia manha, sendo um café da manhã mais consistente. Continuava como refeição principal o jantar que variava entre as 15 e as 18 horas, segundo houvesse sido o almoço. E  fazia-se a ceia que seguindo está notação cada vez era mais tarde, acabando por ficar para uma comida excepcional que se fazia já bem entrada a noite.

Hoje o jantar ocupou o espaço da antiga ceia, e o almoço ocupou o espaço do jantar. Mas isso sim a sala de refeições na casa é a sala de jantar, e leva como é óbvio o nome da que era a comida principal do dia, e a ceia, isso ficou para a Bíblia, Jesus Cristo faz com seus apóstolos a ceia, não o jantar. Brasil e também Portugal continuaram a se desgaleguizar. E na Galiza, nós, a cada passo, mais somos, um satélite fardado de castelhano.

O Brasil arauto do futuro

O Brasil foi sempre o adiantado mor de Portugal, ele marcou as linhas da ação e da importância de cada um dos períodos económicos portugueses.

É o Brasil, o que determina a vida portuguesa e não ao revés, é o Brasil, o que antes da sua independência marcara o território da Angola de jeito bem profundo. É o Brasil da casa-grande, que também soube descrever Gilberto Freyre, quem desde os primórdios, determinou os sucessos das etapas económicas brasileiras, que na realidade  foram de Portugal. A do pau-brasil (1500-1540), a do açucre (1540-1810), a do ouro e pedras preciosas (1690-1800), a do algodão (1790-1920), a do café (1880-1925), a da borracha (1880-1915, e de novo na segunda guerra mundial);  a da industrialização substituidora de importações e ligada vastamente aos novos imigrantes que se alarga das crises de começo dos anos 20 até a ditadura militar).

 A Globalização

A chamada globalização foi um processo de grande sucesso no Brasil, entra nesse período após fim da ditadura militar e sai dele com o impedimento da presidenta Dilma Rousseff. Foi época de exportações de minérios e matérias-primas e criação de empresas poderosas e dinâmicas no Brasil, verdadeiras multinacionais ao que se somam umas novas exportações agrícolas, a soja e a carne. É o Brasil dos Brics. É um período de crescimento que se estende a todas as classes sociais, e no que se cria uma base que parecia  anunciar um futuro diferente.

Mas isso sim, no Brasil a casa-grande e os seus herdeiros nunca deixaram de estar no comando. É tal o controle de este sector sobre o país que faz que o Brasil tenha um sistema fiscal, muito pouco distribuidor da riqueza, nem sequer sob governos de esquerda do PT, foi isso mudado.  O sistema  fiscal brasileiro, é dos raros no mundo que tem ausência de pressão fiscal direta sobre as rendas de capital, como muito bem explicou o participante no XXX Colóquio da Lusofonia, na Madalena do Pico João Carlos Loebens, Auditor-Fiscal da Receita Estadual do Estado do Rio Grande do Sul.

Que foi a globalização

Um dos economistas mais brilhantes do século XX, foi Nicolai Kondratiev, o teórico da NEP soviética desenvolvida nos anos 20 do século passado, ela foi um grande sucesso económico real na altura. Kondratiev com o passar dos anos ganha em consideração, sendo cada vez mais citado e comentado e trazido a tona por todo tipo de economistas, inclusos vários prêmios nobel.  Todavia que desenvolveu a sua obra na União soviética, não era um economista da escola marxista, e foi afuzilado pelo estalinismo no ano 1938. Dentro da esquerda económica  são muito escassos os seguidores comentadores, quiçá com a excepção do belga Ernest Mandel.

A sua teoria das ondas longas económicas, hoje forma parte do acerbo da teoria económica e converteu-se num bom instrumento para fazer planejamento e prospectiva.

Kondratriev se enfrentou com os problemas das crises recorrentes no sistema económico-mundo capitalista, montado sobre os ombros, que diria Einstein, dos seus predecessores no estudo desses problemas, tratando o assunto desde um ponto de vista basicamente matemático, e radicalmente oposto ao exame da questão feita desde o marxismo, ou do keynesianismo mais tarde, ainda que em Keynes havia conhecimento de Condrodonte.

Estudiosos como o austriáco-americano Schumpeter, vinherom a achar nessa teoria uma grande ferramenta de apoio; e economistas atuais, baseados na analise estatística como Thomas Piketty, seguem a confirmar a força da teoria desenvolvida por Kondratiev.

A grande onda de kondratiev, vem estando estabelecida num período de uns trinta e cinco ou quarenta anos, e marca os ciclos económicos.  Quando a onda é deslocada para examinar a realidade é um instrumento de grande ajuda. E no exame das ondas de kondratiev, não se deve confundir com as crises cíclicas, ligadas a queda do rendimento marginal do capital investido, e bem frequentes, sobre uma dezena de anos. Mais ou menos. Porém elas náo modificam a grande onda.

No mundo essas grandes ondas, tenhem perfeito reflexo e eco no Brasil, ainda que com particularidades próprias -pois a -casa-grande- é quem manda.

No Brasil no período 1840-1855 houve um interessante processo de industrialização e de projeto nacional centrado económicamente, impulsionado por esse brilhante banqueiro que foi o Barão de Mauã, Irineu Evangelista de Sousa, pessoa de uma luminosa inteligência, e uma capacidade de enxergar o que se vinha a cada passo, que parecia que esse futuro se ia fazer presente. Mauã sem ser um teórico economista, pois como tal não é reconhecido, desenvolveu uma teoria do valor, que só foi ultrapassada por brilhantes economistas na segunda metade do século XX.

A ação de Mauã teve um inimigo, o grande capital inglês, que contaram com muito bons aliados em ministros dos governos da monarquia e sobre todo no mundo dos juízes brasileiros, eles sempre independentes ao serviço do país.

Desde fins do terceiro quartel do século XIX, estas foram as grandes ondas de Kondratiev.

  • 1876 –  1912.  É um período marcado pola expansão colonial do capital europeu e de concentração de riqueza em poucas mãos, menos do 1% da população tem mais do 90 por cento da riqueza, No período, -a área principal de investimento são as ferrovias-. O estado cobre as suas deficiências arrecadatórias com empréstimos dos possuidores do capital, que recebem uma transferência constante  de renda do estado. Ao longo do período são constantes os diferendos e roces entre o capital britânico e o renano, na expansão colonial.
  •  1912- 1945.  É o período da revolução russa e a sua influência, os partidos socialistas e socialdemocráticos entram no jogo político. Está marcada a onda, polo frontispício das duas guerras mundiais. As duas são um ajuste brutal da taxa de ganho marginal do capital, ao longo deste período moderniza-se a fiscalidade e aparece a previdência social. O 80 por cento de todos os ricos e possuidores de capital que havia antes do começo da primeira guerra mundial, desaparece (nos estados centrais), ou afundiu-se economicamente, especialmente todas as camadas de possuidores latifundiários de terras, que se enfrentaram as reformas agrárias e ao desaparecimento do seu papel de prestamistas privilegiados ao estado, que agora conseguia os recursos com a via coactiva fiscal.
  • 1945-1981, é um período de crescimento nos estados centrais do sistema capitalista (e também nos do mundo socialista), sem equivalência em nenhum momento da história, constrói-se o estado de bem-estar, a qualidade de vida chega a todas as classes sociais, e como resultado temos nos estados centrais a distribuição da riqueza mais igualitária que houve nunca, a fiscalidade mais progressiva, redistribuindo o estado muita riqueza. Estavamos com as menores diferenças nas receitas entre os grupos de cima e de baixo. São os 30/35 anos magníficos que define Piketty [4] e outros muitos economistas.  Projeta-se o sucesso do estado de bem-estar como contraposto ao projeto comunista inçado de sombras. A taxa marginal de ganho consegue-se de se manter alta, graças ao paralelo e constante avanço científico e técnico e da incorporação das grandes massas ao consumo massivo. Constroi-se o moderno sistema internacional de direito. Em 1975 os USA davam mostras de agotamento, começavam a ficar ultrapassados em muitos sectores polos seus competidores, em grande medida os derrotados da segunda guerra mundial. Os acordos de Bretton Woods, estavam drenando os USA. Nixon no 1975, tirou aos Estados Unidos de América desses acordos, e novos teóricos apareceram, os neoconservadores e os neoliberais [5], -em realidade muito pouco tinham a ver com os conservadores e com os liberais de sempre-.  A queda constante do ganho marginal do capital, foi enfrentado de uma nova maneira, polo role fundamental do capital financeiro, que passou a ocupar um papel que até esse momento lhe estivera vedado.  Parece algo mágico, pois entanto a produção só poderia crescer aritmeticamente, o resultado do capital financeiro o faz de jeito exponencial. Mas se não há bens, é ar. Por outra banda no chamado mundo do socialismo real, produzia-se uma contradição nunca tratada pelos teóricos da economia marxista, entre o desenvolvimento das forças produtivas e o sistema de produção, com o que a sua economia caíra de facto num beco sem saída, sendo bem visível o seu estado de estagnação.
  • 1982- 2011 A globalização.  O neoliberalismo, quer-se dizer a City e Wall Street, estabeleceram qual era o pensamento trunfante, e se há alguém no mundo, onde quer que for, que ele possa fazer os produtos pelo mínimo de sustentabilidade, porque não aproveitá-lo. Estavamos com isso ante a globalização. Que se alicerçava em duas questões:
  1. O desregulamento dos mercados financeiros; as finanças passavam a ocupar o comando da economia, a produção era um aspeito marginal deslocável.
  2. Desaparecimento das barreiras alfandegárias à livre circulação de capitais e produtos. Nunca se falara tanto do Organismo Internacional do Comércio, a OMC, e as suas regulações -chamadas rondas- e referidas estas, sempre a alguma cidade na que se produzia a lotaria das reuniões, e davam-se as assinaturas e acordos sob o guarda-chuvas da ONU

Isso, além de significar isso, que era muito, pois revirava-se o casaco que até daquela regulava o comércio e os movimentos internacionais de capital: a vez significou a construção duma poderosa alavanca contra quem não seguisse a doutrina, como de seguida vieram a saber mais dum governo progressista. Os inocentes não perceberam que com esse campo de jogo, jogar outro jogo não vai dar, pois funciona o seu revolucionário imposto, o da rápida descapitalização. A deslocação de capitais, antes chamada fuga de capitais e delito, passou a ser o normal.  Mas a novidade da globalização é que se deslocava a produção com os seus investimentos e por primeira vez com o Know How, o saber como.  Isso foi uma revolução verdadeira,.

A cousa funcionava, os mercados de ações e derivativos financeiros permitiam obter rendas complementares às classes médias; e o mercado começava a inundar-se de produtos a baixo custe que os Walmart de cada lado, punham no, mercado. Nas metrópoles centrais industrializadas, a desfeita dos sindicatos foi paralela a desfeita da industria, da sua desindustrialização, e a transferência, deslocação da produção, significou uma queda real dos salários industriais (e colaterais).

Um desfazer bem desfeito um tradicional movimento operário, a que agora se lhe tiraram os seus peões mais aguerridos. Porém, a miragem dos produtos baratos e o crédito muito fácil, fazia que todos os novos white collars da superpotente terciarização dos estados centrais do sistema, especialmente os dous anglo-saxónicos, andassem contentes. E os ideólogos da City mais que contentes, pois nunca tão central foram ao capitalismo e as suas instituições, as entidades financeiras. A produção deixara de ser a rainha.

O chamado neoliberalismo impulsionava essa revolução, que acabou indo muito mais longe do que nem o mais afamado experto em prospetiva e antecipação pudesse imaginar. A esquerda radical berrava contra a alcateia do neoliberalismo, mas ele o neoliberalismo iria fazer real um sonho que os governos mais progressistas nunca houvessem posto a caminhar, ainda se enchendo a boca de boas palavras

Desde que Adam Smith escreveu  A Riqueza das Nações, e se debruçou sobre o comércio internacional, pondo o exemplo das trocas comerciais entre a Inglaterra e Portugal, e as vantagens da especialização naquilo que sabiam fazer; a cousa pouco mudou no mundo, ainda que foram muitos os economistas que explicaram muito bem que as trocas com valor acrescido desigual, acrescentam a desigualdade.

A Globalização pela primeira vez vai significar no planeta, a transferência de tecnologia e produção e capitais dos estados centrais do sistema às suas periferias. 

Não eram já as transferências para procurarem matérias-primas e mercados, era muito mais que isso. A deslocação da produção e a sua exportação fora dos estados centrais vai significar a acumulação de capital em proporções gigantescas na periferia. Os brics, o crescimento industrial de muitos países não centrais do sistema, não houvesse tido lugar sem a globalização. A globalização ia unida com baixos preços relativos da energia e portanto com muitas facilidades para o transporte a baixo custo de mercadorias. 

Nos estados centrais o balanço eram contínuas exportações de capital para pagarem o que já não produziam, e crescimento do crédito às pessoas para comprarem o que o seu poder de compra real, os seus salários diminuídos, não permitia. Aí está a primeira base do crescimento dos défices públicos e do défice bancário – os buracos bancários –, o crédito desboca-se desligado da produção no espaço central, e tudo acaba parecendo um esquema de Ponzi.  A globalização distribuíra a riqueza mundial dum novo jeito. Diminuíra o peso dos estados centrais, criando novos atores poderosos na cena internacional. A china “comunista” converteram-na em firme candidata a ser primeira potência mundial. Com a globalizaçáo, como mais uma vez tem acontecido na história, o tiro certo saiu pela culatra. Essa revolução fez que o futuro vá ser muito diferente do que os neocons imaginavam… isso é que foi revolução!

A Globalizaçáo entra em crise, com a crise da dívida, na realidade era o ajuste entre um crescimento do bancário exponencial, desprendido totalmente da produção e onde o factor principal de produçáo eram os derivados financeiros de todo tipo, a qual mais bizarro. Os Francis Fukuyama de todo lado e o seu Fim da História não deram certo.

Chegou Trump e os USA racharam com todo anterior, numa luita deseserada por sobreviverem por voltarem a ser o América first again, A globalização, acabou. O mundo está-se dividindo em blocos com interesses muito específicos. Espaços centrais estão ruindo, e o planeta Terra em termos globais convertera-se em mais igualitário. A tecnologia industrial e a capacidade de criar produtos que se trocavam com muito valor acrescido, já não é monopólio dos velhos poderes centrais, que têm que enfrentar a concorrências que para Adam Smith e outros seriam de pasmar. Mas isso não vai ser assim de simples, e o Brasil, mais uma vez como anunciador de futuro no-lo faz presente,

Entramos numa onda longa de Kondratiev, e segundo o seu esquema durará até o ano 50 deste século, e essa nova era, mais uma vez o Brasil  vai servir de referência. A essa nova vaga eu chamo o caminho para a neofeudalização.

Caraterística deste período no que entramos

 O capital bancário mantem-se no comando, nos estados anglosaxónicos.

Os USA estão fazendo uma desmontagem de todo o direito internacional, construído ao longo dos últimos 80 anos. O perigo de guerra onde as potências estabeleçam a sua hegemonia está a cada paso mais presente.

Com a instabilidade, aparecem respostas simples e demagogas a questões complexas, e vão pairar por todo lado um novo fascismo que tenta dar resposta aos problemas. A fracturação das analises nas esquerdas, sem resposta certa aos problemas da gentes, por esse novo jeito de enfrentar as questões, muito inseridas nos sistema, tambem ajuda à rolada e avanço dos novos fascismos. As novas tecnologias da comunicação e interação social e os seus algaritmos, fazem muito efectiva as novas apostas dum certo capital.

Os Estados Unidos de América, desenvolvem a estratégia Rumsfeld-Cebrowski, teorizada  por este general na virada de século, onde se define a geração do caos político e económico em muitas áreas de mundo, com guerras que visam em primeiro lugar destruir estados e fazê-los não viábeis, o caos e a bagunça de todo tipo como médio de surfar o declive; pense-se que os USA ao fim da segunda guerra mundial representavam o 50% do PIB de todo o planeta, e hoje esse número é o 9%. Neste ano de 1919, segundo o Banco Mundial, a China vai ultrapassar o PIB dos USA.

 Acrescenta-se a desilgualdade nas sociedades alcançando de novo os patamares que havia no ano 1900, (Piketty)

Além disso, desenvolverom-se instrumentos informàticos e de controle social, ad personam.

Nesta nova vaga, quando as direções políticas dos estados não entendem, que a globalização acabou, inserem os seus estados em crises enormemente profundas e fazem-nos retroceder em todos os âmbitos, o caso da Argentina e um verdadeiro paradigma nesse aspeito.


[1]O inverno céltico começava com Novembro, o Samaim, a entrada do período da morte e o do recolhimento e meditação, ao lado do lume sempre, cristianizado com o 1 de novembro dia dos defuntos, e acabava com os alvores da primavera no fevereiro, a alegria do entrudo e de todas as festas de acabar com os dias mais curtos escuros e frios do ano

[2]Entrudo vem de entruido, forma do português medieval e ainda comum na língua portuguesa da Galiza (sob Castela/espanha). E entruido vem do latim introitos, a entrada da quaresma, a Quarta-Feira da cinzas.

[3] Nesta carta aberta de Alecxandre Banhos a Margareth Thatcher, explica-se isso muito bem:

[4]Thomas Piketty, Le capital au XXI siècle

[5] Para olharmos o pouco que tem de liberal (clássico) o neoliberalismo, é,  que para todas as demandas de liberdade e de democracia e de direitos, que váo unidas às revoluçóes liberais, eles inventaram o terno marxismo-cultural, (e que não vigoraram nem cresceram lá onde o marxismo trunfou), para desse jeito amossar que o das liberdades não é o deles. De facto o neoliberalismo teve sucesso de implantaçáo só sob regimes autoritários e ditatoriais.

Alexandre Banhos Campo

Alexandre Banhos Campo

Alexandre Banhos Campo (Crunha 1954) é Licenciado em Ciências Políticas e em Sociologia (especialidade de demografia e população) pela Universidade Complutense. Em Madrid foi membro fundador do grupo LOSTREGO.

Post-grau em gerimento de formação e processos formativos pela UNED, e tributários pola USC. Tendo desenvolvido alargadas atividades no campo da formação, em todos os ramos, e também na sua condição de formador.

Tem sido colaborador jornalístico, e publicado inúmeros artigos sobre os temas da sua atividade.

Ligado ao ativismo galeguista na Galiza desde há 40 anos, tendo ocupado diversos postos de responsabilidade em diversas instituições e entidades. Neste momento é do conselho consultivo do MIL, dos Colóquio da Lusofonia e o atualPresidente da Fundação Meendinho.
Alexandre Banhos Campo

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