BENTO DE JESUS CARAÇA, EXCELENTE MATEMÁTICO E TAGOREANO

Um novo texto sobre uma outra figura admiradora de Tagore, o polímata bengalí



Com o número 89 da série que estou a dedicar a grandes vultos da humanidade, que os escolares dos diferentes níveis devem conhecer, e que iniciei com Sócrates, desta vez escolhi para a minissérie de amigos, admiradores e tradutores de Tagore, a figura do que considero o principal tagoreano de Portugal, embora também existam outros importantes, chamado Bento de Jesus Caraça (1901-1948).

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OUTRO IMPORTANTE TAGOREANO DA LUSOFONIA

Filho de trabalhadores rurais, tinha nascido na localidade alentejana de Vila Viçosa. Pela sua grande capacidade e rapidez de aprendizagem teve grande sucesso nos seus estudos primários e secundários, sendo apoiado para fazer os mesmos pela família Albuquerque. Em 1923 concluiu a licenciatura em Ciências Económicas e Financeiras, terminando, pela sua grande capacidade intelectual, por ser docente de Matemática, análise infinitesimal e cálculo de probabilidades no mesmo centro superior onde estudou.

Em 1927 passou a catedrático, ocupando a cadeira até 1946, considerado por todos os seus alunos como um grande didata da matemática e como um dos mais importantes especialistas desta matéria na história de Portugal. Foi membro da Liga portuguesa contra a guerra e o fascismo e, por isto, a nível clandestino, de forma legal ou semilegal, lutou sempre contra a ditadura de Salazar, chegando a fundar com outros companheiros o Movimento de Unidade Democrática (MUD), pelo que foi objeto de represálias e preso em várias ocasiões, e expulso da sua cátedra universitária em 1946, dous anos antes de falecer em 1948. Desde a sua fundação em 1919, integrou o Conselho Administrativo da Universidade Popular Portuguesa, assumindo mesmo a sua presidência a finais de 1928. Reorganizou a biblioteca da mesma, criou o seu Conselho Pedagógico e desenhou um importantíssimo ciclo de conferências e de cursos, de temas variados e de grande interesse, relacionados com as ciências, as artes, a literatura, a educação e a formação social dos cidadãos.

Numa carta que Caraça enviou de Lisboa, em 23 de janeiro de 1933, a Armando M. Guedes, explica muito bem como quer organizar na UPP (Universidade Popular Portuguesa) um ciclo de conferências sob o tema geral de “Grandes figuras morais contemporâneas”, e o objetivo das mesmas. “A ideia-madre destas conferências – diz Caraça na sua carta – é que qualquer pessoa possa, no fim de cada uma, responder à sua própria e natural pergunta – qual foi o bem que para a sociedade resultou da ação deste Homem?, em que se enriqueceu, por essa ação, o tesouro moral da humanidade?”. Na lista elaborada para este ciclo pelo próprio Caraça, figuravam, entre outros, Tolstoi, Gorki, Zola, Anatole France, o educador catalão Ferrer, o pedagogo belga Decroly, o criador da ILE espanhola Giner de los Ríos, Gandhi, o tagoreano Romain Rolland, conferência com que se abriu o ciclo, pois Caraça era um grande admirador de Rolland, que o considerava como seu mestre, e Robindronath Tagore. Figuravam também na lista importantes vultos da cultura portuguesa.

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Não sei ainda porquê, a conferência sobre Tagore, embora tivesse sido reservada para ser pronunciada pelo grande poeta português de Amarante Teixeira de Pascoaes, alma mater do movimento da “Renascença Portuguesa” e da revista A Águia, afinal foi proferida por Caraça, que tinha 38 anos de idade, o dia 22 de janeiro de 1939, e completada por um concerto organizado por Emma Romero Santos Fonseca da Câmara Reys, de cinco formosas canções tagoreanas, interpretadas pela primeira vez em Portugal. No jornal Diário de Lisboa de 24 de janeiro, Franciene Benoit escreve uma crónica sobre a conferência de Caraça dedicada a Robindronath. No semanário cultural O Diabo, do qual por um tempo foi diretor o grande amante da Galiza Rodrigues Lapa, aparece em 28 de janeiro outra crónica sobre o concerto e a conferência, que na mesma publicação já fora anunciado este ato o mesmo dia da sua celebração. Esta interessante conferência de Caraça, com o título de “Rabindranath Tagore”, foi publicada em três partes na revista de Lisboa Seara Nova números 607, 608 e 609, de 1, 8 e 15 de abril de 1939, respetivamente. E como separata um pouco mais tarde, dentro da série “Cadernos da Seara Nova-Biografias”, num pequeno volume de 52 páginas editado em Lisboa em 1939.

O caderno da autoria de Caraça não tem desperdício e começa com as palavras de seu autor muito acertadas:

“É de todo impossível, no curto tempo de que disponho, dar uma ideia, por pouco completa que pretenda ser, da obra de Tagore, nos seus vários aspetos. O poeta, o pensador, o dramaturgo, o educador, cada um dos aspetos da personalidade riquíssima que é Tagore, exigia para se não ser demasiado imperfeito, um estudo separado. Mas, por um curioso paradoxo que só a respeito dos grandes é possível, a própria diversidade nos ajuda; a extensão da obra por diferentes campos, em vez de nos confundir pela dispersão, orienta-nos pela continuidade dos traços gerais que apresenta. Há uma unidade profunda em todas as suas produções e é de um encanto extremo, para quem mergulha neste vasto oceano, descobrir e ver afirmarem-se e prolongarem-se as suas linhas de estrutura interna”.

Estas formosas palavras de Caraça são ainda hoje acertadíssimas sobre a extraordinária figura de Tagore. No livreto que comento, Caraça vai debulhando a vida e a obra de Robindronath, comentando entre outras as suas obras que conheceu e leu publicadas em francês, A Religião da Floresta (La religion du poète), Cartas a um amigo (Lettres à un ami), O carteiro do rei (Amal et la lettre du Roi), A lua nova ou crescente (La jeune lune), A religião do homem (La Religion de l´Homme), Oferenda lírica-Gitanjali (L´Offrande lyrique), Chansons de R. Tagore por A. Bake (Canções tagoreanas), Poemas de Kabir (Poèmes de Kabir) e A Máquina (La Machine). Ao final, em apêndice, reproduz-se a carta que enviou R. Tagore ao poeta japonês Yone Noguchi de Santiniketon no dia 1 de setembro de 1938.

Em carta enviada de Amarante, a 2 de novembro de 1942, por Teixeira de Pascoaes a Caraça, depois de este lhe ter mandado várias das suas publicações, e entre elas esta sobre Tagore, o poeta saudosista e amarantino escreve:

“Admirável a sua conferência sobre o Tagore, onde ele e a Índia aparecem ao leitor, tão cheios de vida, num desenho tão geral e particular, na mais pura linguagem, assinalada pelo temperamento original do autor!”

Não posso deixar de assinalar que Caraça e Teixeira eram grandes amigos, pois, ao longo dos anos 40, o primeiro passava as suas férias do verão na formosa localidade de Amarante, ao lado do rio Tâmega, onde ainda hoje existe o paço familiar de Teixeira. Ambos passeavam juntos em demoradas caminhadas pela cidade e arredores, participando ademais na tertúlia amarantina, da qual também eram membros.

A primeira conferência com que na Universidade Popular Portuguesa se iniciara o ciclo sobre as grandes personalidades contemporâneas, que comentámos antes, estivera dedicada ao amigo mais importante de Tagore na Europa, Romain Rolland. É curioso que Caraça também admirasse este tagoreano e fosse o encarregado também de pronunciar a conferência a ele dedicada. Que foi publicada na revista Seara Nova nº 924 de 28 de abril de 1945. Depois também reproduzida no seu livro Conferências e outros escritos, publicado pela editorial Minerva de Lisboa em 1970.

Bento de Jesus Caraça, além de ser um dos grandes tagoreanos do mundo, tanto de pensamento como de obra e labor social, pelo seu grande prestígio em Portugal, foi diretor eleito do Centro de Estudos de Matemáticas Aplicadas à Economia, criado em 1938 e extinto em 1946. Em 1940 foi um dos fundadores da Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM) e presidente da mesma, participando em numerosos congressos, criando e orientando dentro dela a Comissão Pedagógica. Escreveu infinidade de artigos em diversas publicações e dirigiu desde a sua fundação, em 1941, a prestigiosa “Biblioteca Cosmos”, com mais de 114 títulos. Em Portugal a sua figura humana e científica ainda hoje é muito valorizada, e continuam a publicar-se monografias e estudos sobre ele. Mesmo foi condecorado a título póstumo em várias ocasiões pelo governo português.

FICHAS TÉCNICAS DOS DOCUMENTÁRIOS

  1. Bento de Jesus Caraça. Matemático e cidadão.

Duração: 57 minutos.

  1. Bento de Jesus Caraça.

Duração: 10 minutos. Produtora: Sapo vídeos.

  1. Bento de Jesus Caraça.

Duração: 10 minutos. Realizador: João Ponces de Carvalho (2013).

Comentários: José Magalhães Godinho.

Produtora: RTP-Série “A Data e o Feito”, dirigida por José Costa Pereira (1982).

  1. Bento de Jesus Caraça e o materialismo dialéctico.

Duração: 20 minutos. Relator: Carlos Bastien (Lisboa, maio de 2018).

Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

  1. Bento de Jesus Caraça.

Duração: 3 minutos.

  1. Bento de Jesus Caraça.

Duração: 4 minutos.

  1. Bento de Jesus Caraça. Cronologia.

Duração: 1 minuto.

Realização: Trabalho dos alunos da escola E.B.I. de Santo Onofre, Caldas da Rainha, no âmbito da disciplina de área de projeto. Pequeno vídeo sobre o matemático da liberdade.

PEQUENA BIOGRAFIA

Vários estudantes do décimo primeiro ano da Escola Profissional “Bento de Jesus Caraça” de Porto, do Curso Técnico de Gestão e Programação de Sistemas Informáticos, no ano 2008 desenharam uma formosa “Web” dedicada a Bento de Jesus. Por ser magnífica, da mesma recolhemos a biografia que a seguir reproduzimos.

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Bento de Jesus Caraça nasceu a 18 de Abril de 1901 em Vila Viçosa. Com pouco mais de dous meses, foi com os seus pais, trabalhadores agrícolas para uma aldeia no Redondo, onde o pai trabalhava como feitor da Herdade da Casa Branca. É no Redondo que passa a infância. Cedo revelou inúmeras facilidades na aprendizagem, o que desde logo captou a atenção da proprietária da herdade, D. Jerónima. Sem filhos e fascinada por esta criança, propôs-se assumir os custos da sua educação, o que foi aceite pelos pais João Caraça e Domingas Espadinha.

Bento de Jesus Caraça fez o ensino primário em Vila Viçosa, prosseguindo os seus estudos no Liceu de Sá da Bandeira, em Santarém. Partiu para Lisboa com 13 anos para estudar no muito afamado Liceu Pedro Nunes, onde concluiu com distinção o ensino secundário em 1918.

Neste mesmo ano matriculou-se no Instituto Superior de Comércio, hoje Instituto Superior de Economia e Gestão, e um ano depois é nomeado 2º assistente pelo professor Mira Fernandes. A sua carreira académica tornava-se notória. Em 1924, é assistente e em 1927 professor extraordinário. Chegou a professor catedrático em 1929. A seu cargo ficou a cadeira de “Matemáticas Superiores”, Álgebra Superior, Princípios da Análise Infinitesimal e Geometria Analítica.

“Rigoroso e exigente, conquistou os alunos que chegaram a vir de outras escolas assistir às suas aulas em salas cada vez mais pequenas para tantos discentes”

Bento de Jesus Caraça afirmou-se como professor. Rigoroso e exigente, conquistou os alunos que chegaram a vir de outras escolas assistir às suas aulas em salas cada vez mais pequenas para tantos discentes. O ensino da Matemática ganhou outra dimensão e colocou-se mais perto do concreto e mais próximo do quotidiano.

A sua atividade não se restringiu à prática letiva. Foi membro do Núcleo de Matemática, Física e Química, criou o Centro de Estudos de Matemáticas Aplicadas à Economia, fundou a Gazeta da Matemática e foi presidente da Direção da Sociedade Portuguesa de Matemática. Finalmente, em 1941 publicou a sua obra mais emblemática Os Conceitos Fundamentais da Matemática, cuja versão integral foi publicada apenas em 1951.

O seu mérito foi reconhecido internacionalmente, uma vez que foi o delegado representante da Sociedade Portuguesa de Matemática nos Congressos da Associação Luso-Espanhola para o Progresso das Ciências em 1942, 1944 e 1946. A Cultura foi uma das outras grandes paixões de Bento de Jesus Caraça, a cultura que deveria ser adquirida por todos para que se conquistasse a liberdade. Na Universidade Popular, de que também fez parte, profere a famosíssima conferência “A Cultura Integral do Indivíduo. Problema Central do Nosso tempo”. Com o mesmo objetivo em mente colaborou nas revistas Seara Nova, TécnicaVértice e em outros tantos jornais como O DiaboLiberdade e o Jornal Globo, fundado por si, mas infelizmente eliminado pela censura.

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Olhando para a cultura como um “despertar das almas”, fundou a Biblioteca Cosmos, que editou centenas de livros de divulgação científica e trabalhou na reanimação da Universidade Popular, que entretanto se tinha visto enfraquecida pela ação da sempre atenta censura, tornando-se mesmo Presidente do Conselho Administrativo. Defensor da liberdade que definitivamente não existia, Bento de Jesus Caraça foi também um interessado pela “questão feminina” e sempre incentivou a intervenção das mulheres na sociedade. Quando em 1943, onze raparigas se matricularam no ISCEF e uma vez que o sistema de coeducação era proibido pelo regime, apoiou a criação de um núcleo cultural por elas formado. Nunca faltou a uma palestra e jamais as abandonou sem trocar impressões com as oradoras.

Sempre consciente do mundo que o rodeava, empenhou-se juntamente com outros intelectuais portugueses, nas lutas pela liberdade e pela paz. Apoiou várias organizações clandestinas numa época de privações, crises internas e descontentamento latente. O protagonismo político de Bento de Jesus Caraça ganha evidência com a sua participação no Movimento de Unidade Democrática (MUD). O MUD que contou com uma enorme adesão popular reclamava “liberdade de reunião, de associação, de imprensa” e “garantia de seriedade no ato eleitoral”.

Perante tal ameaça, o governo de Salazar ordena a sua dissolução, com o pretexto de evitar a perturbação da ordem social e muitos dos membros deste movimento foram perseguidos e presos, tal como aconteceu com Bento de Jesus Caraça. Bento foi também um apaixonado pelas viagens dentro e além fronteiras, pelos grandes espaços e pelo contacto com a natureza. Muitas vezes fazia tudo isto sozinho, mas frequentemente acompanhado pelos amigos de sempre.

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Apesar de cedo ter chegado a Lisboa, Bento de Jesus Caraça sempre apoiou os pais, acabando por lhes comprar uma casa quando ao fim de larguíssimos anos deixaram de trabalhar na Herdade da Casa Branca. Tomou também a seu cargo a educação do sobrinho João que traz para Lisboa, a fim de evitar o mais que certo futuro de trabalhador rural.

Em Dezembro de 1926 casa com Maria Octávia, filha do professor de Matemática do Liceu Pedro Nunes, Adolfo Sena. O casamento durou apenas nove meses uma vez que Maria Octávia morreu em Setembro do ano seguinte.

Dezasseis anos depois, Bento de Jesus Caraça voltou a casar com uma das suas discípulas, Cândida. É desta união que nasce o seu único filho, João Caraça. É também por esta altura que Bento de Jesus Caraça se torna demasiado incomodativo para um regime tão pouco tolerante a ideias inovadoras. O Governo de Salazar instaura-lhe um processo disciplinar que o afasta de vez do ensino e traz inúmeras dificuldades económicas à sua família. Dá explicações em casa e não pára de estudar e escrever. A sua saúde debilita-se cada vez mais e as crises cardíacas surgem com alguma frequência. Morreu em 25 de Junho de 1948. Dous dias depois o seu funeral foi acompanhado por uma impressionante multidão silenciosa. Os tempos obrigavam a que assim fosse. No meio dessa multidão estavam também os temidos agentes da polícia política. Bento de Jesus Caraça foi sempre um nome incómodo para o regime salazarista e pelos vistos continuava a sê-lo.

DEPOIMENTO DE BENTO DE JESUS CARAÇA DEDICADO A TAGORE

Fragmentos da conferência pronunciada o 22 de janeiro de 1939, na Universidade Popular Portuguesa de Lisboa:

“É de todo impossível, no curto tempo de que disponho, dar uma ideia, por pouco completa que pretenda ser, da obra de Tagore, nos seus vários aspetos.

O poeta, o pensador, o dramaturgo, o educador, cada um dos aspetos da personalidade riquíssima que é Tagore, exigia, para se não ser demasiado imperfeito, um estudo separado. Mas, por um curioso paradoxo que só a respeito dos grandes é possível, a própria diversidade nos ajuda; a extensão da obra por diferentes campos, em vez de nos confundir pela dispersão, orienta-nos pela continuidade dos traços gerais que apresenta. Há uma unidade profunda em todas as suas produções e é de um encanto extremo, para quem mergulha neste vasto oceano, descobrir e ver afirmarem-se e prolongarem-se as suas linhas de estrutura interna.

Pôr em evidência tais linhas, procurando, através delas, mostrar-vos os temas fundamentais das preocupações do poeta, eis o meu intuito, modesto ou ambicioso conforme o ponto de vista de que seja encarado.

Não ficaria talvez mal, no limiar de um estudo sobre um poeta indiano, dizer que ele é a quinta-essência ou o expoente máximo, ou qualquer outra finura de igual jaez, da alma oriental. Se o não faço, é apenas por desconhecimento total, que humildemente confesso, do que sejam tais subtilezas. E se não tenho pena nenhuma da minha ignorância do que seja um expoente máximo, já o mesmo se não dá quanto à alma oriental. (…)

Mas, dir-me-ão, restrinjamos o campo; Tagore é indiano, não saiamos da Índia; temos lá vasto espaço para procurar essa unidade que podemos designar por alma oriental e de que o faremos representante. (…) Podemos apostar, sem receio, noventa e nove contra um em que, face a uma daquelas questões ardentes a que acima me referi, encontraremos unidos, na mesma resposta, os orientais Tagore e Gandhi com o ocidental Romain Rolland, por exemplo, e unidos também, na resposta contrária, o conspícuo oriental Senhor Hiranuma. (…) Disto, é Tagore um exemplo frisante, como veremos daqui a pouco, e não é este, certamente, o menor ensinamento da sua vida. (…) que toda a personalidade é resultado das suas qualidades próprias e das ações e reações que se desenvolvem entre si e o meio, no sentido lato; que um e outro, meio e homem, são mutuamente atuados e transformados e não significam mais, na permanente fluência das coisas, que um momento da vida universal. É à luz deste critério que vamos examinar a vida e a obra de Tagore. (…)

(Depois de relatar Caraça uma pequena biografia de Tagore, desde seu nascimento em Calcutá, e analisar as peculiaridades geográficas, culturais, históricas, étnicas, linguísticas, musicais, teatrais, folclóricas e de danças, etc. de Bengala, um conjunto de fatores que tiveram grande influência na formação da personalidade de Robindronath, o grande tagoreano português continua a falar sobre o poeta-educador).

Tagore, profundamente enraizado nas tradições do seu povo, não podia deixar de acusar este traço ancestral – nele também o ouvir, a música, desempenha um papel importante, e tanto, que chega a afirmar “se depois de velho tivesse que perder a vista ou o ouvido, preferia perder a vista, para poder ouvir ainda o canto das aves e das crianças”. Outro exemplo deste mesmo facto é que Tagore nunca confia à escrita musical a transcrição das melodias que compõe – canta-as e nada mais. A um sobrinho, “o tesouro de todas as minhas canções”, como lhe chama, se deve a conservação da sua obra musical mas, com a morte prematura dêsse sobrinho, é de temer que muitas melodias se tenham perdido. (…)

Antecipando sobre o que adiante será dito, notemos desde já que esta conceção vaishnavita (representada pelo poeta vaishnava Chondi Das), teve uma profunda influência sobre o espírito de Tagore. Ele próprio o reconhece, marcando ao mesmo tempo com agudeza o que o desenvolvimento religioso da Índia do Norte deve à natureza física do meio, principalmente ao seu elemento dominante – a floresta.

Numa passagem duma das suas mais belas conferências, A Religião da Floresta, depois de se referir a que os povos de beira-mar e do deserto adquirem, pela sua labuta diária, um sentimento de necessidade de luta contra o meio ambiente, o que vai refletir-se imediatamente nas suas construções metafísicas e religiosas, acrescenta:

“Nas imensas planícies da Índia setentrional, os homens não acharam barreira entre a sua existência particular e a grande vida que penetra o universo. A floresta vivia em comunhão com eles, com o seu trabalho e o seu repouso, com as suas necessidades quotidianas e as suas meditações. Eles não teriam podido imaginar um outro quadro, hostil ou distante. Assim também a verdade, tal como a concebiam estes homens, não acentuava a diferença, mas, antes, a unidade de todas as coisas. Eles professavam a sua fé nestas palavras: -“tudo o que existe vibra com a vida, porque saiu da vida”.

O poeta entrega-nos assim, num passo luminoso, a explicação dum dos traços fundamentais de toda a filosofia religiosa hindu e, ao mesmo tempo, a chave para a compreensão de muita coisa que a si próprio diz respeito.

Mas antes de utilizarmos essa chave vamos completar o quadro do meio em que se desenvolveu a vida de Tagore. Faltam-nos, para isso, dos elementos ainda. (…)

(E Caraça comenta a seguir a influência em Robindronath da ação social dos vaishnavitas, e também a de Kabir e Chaitanya, cuja corrente tem ainda hoje o seu prolongamento e é representada pelos cantores vagamundos denominados “Baüls”, que Tagore sempre apreciou e admirou).

Para terminar o bosquejo do quadro em que vai desenvolver-se a vida de Tagore, falta-nos já agora só um elemento – determinar o estado em que se encontra a expressão literária da cultura nacional. (…) O renascimento dessa literatura só se da no princípio do século XIX, e por virtude dum choque exterior. Esse choque foi provocado pela tendência imperialista da língua inglesa na sua tentativa de se tornar o único instrumento literário superior da Índia. Nesse momento crítico, surgiu um homem, Ram Moham Roy, de quem Tagore diz que “é um dos autores imortais da época moderna” e que, vendo a amplitude enorme da questão e sua influência no destino da nacionalidade, notando, por outro lado, a falta de vitalidade da sua língua, resolveu colaborar no estudo e propagação da língua britânica e, ao mesmo tempo, procurar despertar no seu povo o gosto pelos autores clássicos e pela língua própria.

Ram Moham Roy encontrou em Debendranath Tagore, pai do nosso poeta, um colaborador entusiasta e ardente. Pessoa dum alto ascendente moral, gozando duma autoridade indiscutida, tornou-se o fulcro do renascimento literário de Bengala.

Por virtude da ação destes homens, estava criado, a partir do meado do século passado, um poderoso movimento literário, animado por uma plêiade brilhante de escritores e poetas, movimento em que havia de ir integrar-se, para o transformar e o elevar a um nível ainda não atingido, o jovem Rabindranath.

Creio ter traçado sumariamente o quadro do ambiente físico e psicológico em que vai aparecer Tagore. O cenário está montado, espiemos agora a entrada do ator principal do drama e notemos com cuidado o modo como o ambiente vai atuando sobre ele e como ele lhe vai respondendo. (…)

(A seguir, Caraça, apoiando-se em lindos textos tagoreanos, vai analisando a primeira grande influência da sua vida exercida pelo pai em Robindronath, assim como o seu amor apaixonado pela Natureza, muito bem refletido na sua obra teatral Amal e a carta do rei, conhecida também com o título de O carteiro do rei).

    A existência das crianças toma uma boa parte da obra literária de Tagore. Por vezes, são poemas puramente líricos, em que o amor da criança vem ligado a qualquer coisa de misterioso no universo. (Nota: Caraça reproduz dois formosos poemas do livro A Lua crescente ou Lua Nova).

(Depois de analisar Caraça outros interessantes temas da rica personalidade de Robindronath, e entre eles o da sua influência na literatura bengali, termina por falar da famosa escola de Tagore em Santiniketon, ampliada mais tarde para universidade internacional). (…)

Quanto à segunda tarefa, tem-na ele realizado de múltiplas maneiras, mas certamente a que lhe é mais querida é a da sua Universidade de Shantiniketan. Fundada inicialmente como casa religiosa, em hindu Asram, pelo pai, Debendranath Tagore, foi transformada depois por ele em escola, com o objetivo, segundo diz, de “dar aos nossos rapazes um horizonte tão largo quanto possível, como os interesses humanos universais. Isso deve vir espontaneamente, não simplesmente pela leitura dos livros, mas pelas relações com todo o vasto mundo” (tal como lhe conta numa carta ao seu colaborador Ch. Andrews, publicada no livro Cartas a um amigo).

(A seguir, Caraça, comenta a opinião do próprio Andrews sobre como se foi desenvolvendo e crescendo o projeto da Santiniketon, a importância que lhe dava Tagore ao relacionamento entre o Oriente e o Ocidente, terminando com a reprodução de uma cena da obra teatral tagoreana A Máquina, com os diálogos entre Ranadjit, o professor, os escolares e o ministro).

(Nota importante: Esta conferência de Bento de Jesus Caraça, da qual se tiraram alguns fragmentos, que mais acima se colocam, foi publicada em Lisboa pela Seara Nova, em 1939, na coleção “Cadernos da Seara Nova”, com o título de Biografias: Rabindranath Tagore. A monografia consta de 54 páginas. Dita conferência foi publicada por partes também na revista Seara Nova, e reproduzida em 1970 no livro de Caraça editado em Lisboa pela Minerva, Conferências e outros escritos).

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

Vemos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um Cinema-fórum, para analisar tanto a forma (linguagem fílmica) quanto o fundo (conteúdos e mensagem) dos mesmos.

Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Bento de Jesus Caraça, a sua obra, as suas ideias sociais e educativas, o seu pensamento e o seu magnífico contributo para o avanço da Matemática e também o seu adequado ensino. Na mesma, além de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias.

Podemos organizar no nosso estabelecimento de ensino um Livro-fórum, lendo antes todos, estudantes e docentes, um dos livros escrito por Bento de Jesus Caraça. Dentre eles podemos escolher o intitulado Conferências e outros escritos. Foi editado em Lisboa pela editora Minerva em 1970, e existe outra edição em 1978. Seria também interessante a leitura da sua pequena monografia dedicada a Tagore, publicada em 1939 pela Seara Nova de Lisboa.

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.


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  • Ernesto V. Souza

    Bem interessante… desconhecia completamente…

    Que belíssima a caricatura.