ALDEIAS DE ORDES

As armas das débeis



Além da aldeia das Raposeiras em Ardemil, há muitos outros zootopónimos referidos à vulpes vulpes por toda a geografia ordense, dando lugar a microtopónimos como: um outro as Raposeiras, no linde entre Pereira e Marçoa, ao Sul do Coto do Lobo; as Raposas em Parada; Fonte Raposeira em Campo; os Montes da Zorra em Messia, no linde com Filgueira de Traba; o Monte da Raposa, um em Ardemil e o outro em Papucim; ou o Monte Raposeira, na Garabanja, lindando com Baraçom. Nom encontrei na comarca, porém, nengum topónimo baseado no outro nome popular do raposo: o golpe, como si há em outras partes da Galiza. Etimologicamente, ‘raposa’ apresenta a mesma raíz rap- que o latim rapere, também presente na palabra rapina.

mapa-raposeiras

Animal considerado danino polos labregos, a causa da devastaçom que causa nos galinheiros, é, contudo, menos feroz que o lobo, e no folklore costume fazer de alter ego do campesinho espabilado, pois com a astúcia e outras “armas dos débeis” é capaz de burlar o mais forte e bruto lobo. Assim é que Cunqueiro lembrava – a propósito da filologia dos animais – o que lhe contaram os velhos: que o temível lobo é estrangeiro, mas o raposo fala o galego1. A raposa do Morraço, terrorífico ser mitológico, botava uns ladridos que deixavam tremendo à gente, pois prognosticavam mortes e outras desgraças. Cria-se que esta raposa era umha alma em pena, e que podia aparecer em qualquer canto dando uns berros tristíssimos à vez que botava labaradas pola boca2. O etnógrafo Xaquín Lorenzo, por sua parte, achou que em Sam Vicente da Lobeira lhe chamavam “raposa” à última gabela da sega, cujo grao misturavam com a semente para o ano próximo. Nela refugiava-se o chamado espírito do grao na forma deste animal, crença que deveu existir noutras partes, como em Muros, onde se cantava:

“A raposa do Morraço

vê-l’aí vai entre o milho;

ela di que nom o come,

pero vai-no chacudindo”3.

raposa

Quanto aos Montes da Zorra, convém recordar que a palabra ‘zorra’ é tam galego-portuguesa como castelhana, ainda que menos popular que ‘raposa’. Zorro foi, de facto, o apelido (ou mais bem alcunha) do famoso trovador medieval Johan Zorro, autor de conhecidos versos erótico-festivos, como o de “Pola ribeira do rio salido / Trebelhei, madre, com meu amigo”.

Raposo deu também pé ao apelido que levárom, entre outros, Jesús Louro Raposo e Lorenzo Louro Raposo – que deviam ser irmaos – de Ardemil, presos políticos durante o franquismo após participarem dumha espetacular sabotagem do Exército Guerrilheiro da Galiza polo aniversário da República no ano 19464.

1 Álvaro Cunqueiro, “Los lobos”, El Correo Gallego, 30/10/1954.

2 Antonio Fraguas Fraguas, “Algunos seres fantásticos de nuestra tierra”, Revista de Etnografía, Porto, vol. XII, t. 2, 1969, pp. 371-377, p. 372.

3 Xaquín Lorenzo Fernández, “O esprito da mes em Lobeira. Ourense”, Cadernos de Estudios Gallegos, vol. XXVIII, n.º 86, 1973, pp. 345-351.

4 Causa 128/52, Corunha.

Carlos C. Varela

Carlos C. Varela

Carlos Calvo Varela (Ordes, 1988) colaborou e colabora com diveros meios de comunicaçom, entre os quais Novas da Galiza, Praza Pública e o Portal Galego da Língua. Estudante de Antropologia e investigador, tem publicado numerosos artigos em portais web, revistas e livros, além de realizar um reconhecido labor como dinamizador social e cultural em coletivos de Compostela e Ordes.
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