ALDEIAS DE ORDES

O apelido SILVEIRA



“É longa, longa como a soga;

e tem dentes, dentes como a loba”

Adivinha popular

De Lope de Vega a Góngora, os escritores castelhanos do Século de Ouro, carregados de galegofobia, descrevêrom umha e outra vez o Reyno de Galicia com metáforas político-vegetais que jogavam com as palavras “maleza e malícia”, para ridiculizar um país inçado de silveiras e de gente ruim. Ainda hoje o discurso urbanita costuma expressar o seu desprezo ao rural com o símbolo da silveira, equivalente ao inculto. No entanto, o popular codificou esta planta (Robus fruticosus) num sentido favorável, como expressom disso que James C. Scott chama “a arte de nom ser governadas”. Xosé L. Rivas Cruz ‘Mini’ lembra como um dia, roçando numha silveira, lhe explicaram o mito das silvas: Na fugida de Maria, José e o meninho Jesus a Egipto, as silveiras iam pechando-se ao seu passo, cerrando o caminho aos soldados do rei Herodes que os perseguiam. Formosa metáfora anti-repressiva que se conta aos que se queijam de que, por muito que rocem, as silveiras aginha recobrem de vegetaçom a terra.

Etimologicamente, se silva era umha selva, um bosque, como pudo passar a palabra a dar nome à planta? O caso ainda nom está bem resolto, mas Leite de Vasconcellos propujo a hipótese *(spinna) silvea ‘espinha silvestre’ como origem. Umha espécie distinta é a Morus nigra (e Morus alba), árvore que dá um fruto que se chama igual que o da silva: amora. Em ediçons anteriores dos mapas do IGN aparecia na freguesia de Marçoa o microtopónimo castelhanizado Moraleda, abundancial da árvore amoreira. As amoras das silvas, menos aprezadas, som em todo caso umha delícia selvagem à que Zeca Afonso dedicou umha das suas cançons mais tenras.

Silveira com amoras.

Silveira com amoras.

As Silveiras abundam na microtoponímia, mas nom se regista nengumha na toponímia maior da comarca. Nom assim em Portugal, onde som frequentíssimos os nomes de lugar como a Silveira de Lisboa, ao pé da praia Azul. Mas com topónimo ou sem ele, o apelido Silveira é mui frequente em freguesias de Mercurim, onde na aldeia de Pepim está a Casa de Silveira, cujas vizinhas já nos visitárom em Aldeis de Ordes. Também era de Mercurim a bisavoa Estrella Silveira, quem cavava no monte com mais força que os homens e que com as outras mulheres da paróquia foi ao monte comunal do Engério a “tornar da forestal” e defender o que era de todos.

Apelido de origens humildes, andou sem embargo por todo o mundo. Gonçalo da Silveira levou-no até à corte do Império de Monomotapa (Mwene Mutapa) no século XVI, onde nengum europeu chegara. Antes passara por Coimbra, Goa e Moçambique. Benito Silveira foi um escultor galego do século XVIII e, nisto da toponímia, investigou muito J. Albino da Silveira.

Escultura de Benito Silveira – San Antonio Abad com brazos articulados.

Escultura de Benito Silveira – San Antonio Abad com brazos articulados.

Um outro português, Inácio Francisco da Silveira da Mota, jornalista e presidente do Parlamento, visitou a Galiza em 1886, recolhendo as suas impressons no livro Viagens pela Galiza (Lisboa, 1889). Silveira topou com um país de labregos completamente afogados polo Estado, suportando tributos próprios dum regime colonial: “na atual conjuntura a penúria da Galiza pode equiparar-se, em certo sentido e sem temor a exagerar, com as desastrosas condiçons da Irlanda”. Nom é de estranhar, pois, que o povo fosse completamente indiferente ao nascimento do filho póstumo do rei Afonso XII (“nom ocasionou nestas terras nem pena nem glória”, apontou); ou que a gente botasse um “cousas da Espanha!”, quando se fazia referência ao absurdo de algumhas políticas do Estado. Mas de todo quanto viu Silveira, o certo é que nada o entristeceu tanto como atravessar a comarca de Ordes:

“Em poucos sítios se encontram tantas mostras de indigência como nas primeiras léguas do caminho entre Santiago e a Corunha. De aí que a jornada, ainda que rápida, sugira amargas reflexons. Apenas se encontram árvores, nem regatos, nem aldeias e só muito de longe em longe aparece algumha choupana de onde saem meninos esfarrapados ou despidos pedindo esmola. Dum e doutros lado do caminho, excetuando o vale do Bárcia, com arvoredas fechadas que já se enjergam à distância, é todo monótono e triste, tosco, montanhoso, árido e ermo. De tempo em tempo vem-se cruzes na memória de homicídios. Em outros lugares sinalam-se alguns importantes, terríveis episódios das guerras civis da Espanha: a emboscada urdida em Ordes contra o general Porlier, a morte do crédulo Solís e dos seus quatorze companheiros nas imediaçons de Carral.

Ao passo que a cuba em que vam premidos os viajantes, serpenteia por entre barrancos e se achega ao aceano, a paisagem vai perdendo aspereza, a gândara selvagem, vestida apenas de tojos e jaras, transforma-se em ondulantes searas, os soutos e vinhedos cobrem os vales e outeiros. Enfim, a pouca distância da Corunha, surgem variadas culturas, panoramas inesperados, contrastes feiticeiros, metamorfoses súbitas e formosas”1.

 1 Inácio Francisco da Silveira da Mota, Viaxes por Galicia, Vigo, Galaxia, 1994, p. 55. Otografia (ré-)adaptada.

Carlos C. Varela

Carlos C. Varela

Carlos Calvo Varela (Ordes, 1988) colaborou e colabora com diveros meios de comunicaçom, entre os quais Novas da Galiza, Praza Pública e o Portal Galego da Língua. Estudante de Antropologia e investigador, tem publicado numerosos artigos em portais web, revistas e livros, além de realizar um reconhecido labor como dinamizador social e cultural em coletivos de Compostela e Ordes.
Carlos C. Varela

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