António Cabral, escritor de trás-os-montes e grande especialista sobre jogos tradicionais



antonio-cabral-foto-0Dentro da série que estou a dedicar às mais importantes personalidades da Lusofonia, onde a nossa língua internacional tem uma presença destacada, e, por sorte, está presente em mais de doze países, sendo oficial em oito, dedico o presente depoimento, que faz o número 136 da série geral que iniciei com Sócrates, a um português grande amante da Galiza, escritor e educador das terras de Trás-os-Montes, e um dos mais importantes investigadores do mundo sobre jogos populares e tradicionais. Conhecido como António Cabral, tinha nascido em Alijó-Castedo do Douro em 1931, e falecido em Vila Real em 2007. Com este depoimento, a ele dedicado, completo o número vinte e quatro da série lusófona.

UM GRANDE AMIGO DA GALIZA

Embora não o pareça, a cidade de Ourense está geminada com a de Vila Real do Trás-os-Montes português. Nos últimos tempos a Câmara Municipal de Ourense esqueceu-se infelizmente deste facto, embora, pelo menos, mantenha vivo o Prémio de Poesia “Cidade de Ourense”, que no seu dia tinha nascido desta geminação entre duas cidades bastante similares. Em Vila Real exerceu a sua profissão de docente e realizou o seu imenso labor cultural o nosso amigo António Cabral, falecido em 23 de outubro de 2007, à idade de 76 anos. Ao cumprirem-se os dez anos do seu falecimento, em outubro de 2017, recebeu uma homenagem póstuma em Vila Real, em que colaboraram a Câmara Municipal, o Grémio Literário da cidade e o CCRVR (Centro Cultural Regional de Vila Real), que ele tanto dinamizara. Cabral era um dos maiores especialistas mundiais sobre jogos populares ou tradicionais, sobre os que publicou numerosos livros, e era convidado a participar nos congressos por vários países do mundo. Era um namorado da Galiza, e de Ourense em particular, participando desde 1981 em diversas edições das “Jornadas do Ensino de Galiza e Portugal”, celebradas em Compostela e Ourense, com temas tão interessantes e atrativos para os docentes como: “Os Jogos Populares e o Ensino”, “Teoria do Jogo”, “A perspectiva cultural dos Jogos Populares”, “O Jogo no Ensino” e “O modelo lúdico de ensino-aprendizagem”, entre outros. Também, graças à sua importante e decisiva mediação, desde 1983, se puderam celebrar várias edições dos “Encontros Galaico-Portugueses de Jogos Populares”, nas localidades de Vilar de Perdizes (com a inestimável colaboração do Padre Lourenço Fontes, felizmente ainda vivo), Amoeiro por duas vezes, Vinhais, Vilar-de-Vós, Moncorvo, Corcubião, Peso da Régua, ademais da sua Vila Real. Na organização colaboravam de forma cooperativa a Associação Sócio-Pedagógica Galaico-Portuguesa (ASPGP), a que tenho a honra de presidir, o Fato Cultural “Os Chaos” de Parada de Amoeiro, dirigido por Chema Rodrigues, o Centro Cultural Regional de Vila Real (CCRVR) e a associação cultural de Vilar de Perdizes do Padre Fontes. Nos diferentes lugares também colaboravam as associações culturais de cada localidade, como a “Penas Livres” de Vilar-de-Vós e a Universidade Popular de Corcubião. Cabral chegou a reunir mais pessoas participando na sua cidade e região nos festivais e encontros de jogos populares, que a equipa de futebol local nos seus encontros de futebol. Algo inaudito que sempre comentava com orgulho.

Era um namorado da Galiza, e de Ourense em particular, participando desde 1981 em diversas edições das “Jornadas do Ensino de Galiza e Portugal”, celebradas em Compostela e Ourense, com temas tão interessantes e atrativos para os docentes como: “Os Jogos Populares e o Ensino”, “Teoria do Jogo”, “A perspectiva cultural dos Jogos Populares”, “O Jogo no Ensino” e “O modelo lúdico de ensino-aprendizagem”, entre outros.

Em alguma edição foi também membro do júri do prémio de poesia “Cidade de Ourense”. Porque ele foi também um grande poeta e romancista. Homem de dimensão humana rara, humilde sendo grande, estimulava sempre os que queriam iniciar-se na escrita. Começou a ter problemas de saúde quando deixou de fumar. Tinha problemas cardíacos, e dois dias depois de falecer iam fazer-lhe uma intervenção cirúrgica.

UM EXCELENTE ANIMADOR CULTURAL

antonio-cabral-capa-livro-teoria-do-jogoDe nome completo António Magalhães Cabral, este homem singelo e sempre com um sorriso no seu rosto, tinha nascido a 30 de abril de 1931 na localidade de Alijó-Castedo do Douro, falecendo em 23 de outubro de 2007 em Vila Real. Frequentou o curso teológico do Seminário de Vila Real e obteve a licenciatura em Filosofia na Universidade do Porto. Exerceu a docência, sendo professor efetivo na Escola Secundária “Camilo Castelo Branco”. Foi também professor de filosofia durante vários anos na Escola de Magistério Primário de Vila Real. A partir de 2001 exerceu como professor de Cultura Geral na Universidade Sénior desta cidade transmontana.

Cabral destacou como animador sociocultural e como escritor de poesia, ficção, teatro, ensaio literário, etnografia, jogos tradicionais e teoria do jogo. Ademais foi professor de ensino secundário e de magistério. Em Vila Real moram a sua esposa Alzira e as suas duas filhas. Cabral era também muito conhecido pelas suas conferências e palestras em centros culturais, escolas de ensino básico, secundário e universitário, tanto em Portugal como, especialmente, na Galiza, Alemanha e outros lugares, falando dos temas da sua preferência, tais como a literatura, os jogos populares e a pedagogia do jogo.

Como animador sociocultural, fundou em 1979 o centro Cultural Regional de Vila Real, de que foi presidente da sua direção até 1991, ano em que passou a ser presidente da sua assembleia geral. Foi sobretudo na investigação e organização de festas e encontros de jogos populares onde a sua figura se fez mais notória e destacada. Através do CCRVR promoveu encontros de escritores e jornalistas de Trás-os-Montes e Alto Douro, em Vila Real (1981), Chaves (1983), Bragança, Mirandela e Miranda do Douro (1984), Lamego, Régua e Alijó (1985) e outra vez em Vila real (1997). Foi ademais perito do Conselho de Europa no “IIº Estágio Alternativo Europeu sobre Desportos Tradicionais e Jogos Populares transmontanos e jogos populares Galaico-Transmontanos”, com início em 1977 e 1983 respetivamente. Colaborou com a organização dos encontros de jogos tradicionais galaico-portugueses citados ao início deste depoimento.

antonio-cabral-capa-livro-antologia-dos-poemasNo “Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis”, do qual depois saiu o Instituto da Juventude português, desempenhou os postos de delegado do distrito de Vila real e de Coordenador da Zona Norte, entre 1974 e 1976. Foi também presidente da Direção e mais tarde Presidente da Assembleia Geral da ANASC (Associação Nacional de Animadores Socioculturais), fundada em 1995. Desde março de 1996 até o final de janeiro de 2004, foi Delegado do INATEL no Distrito de Vila Real, o que lhe permitiu difundir e promover a cultura popular, especialmente entre as pessoas adultas. Como sabemos, o INATEL é um instituto português para dinamizar os tempos livres das pessoas idosas.

Para as suas investigações sobre jogos tradicionais e ludo-teoria, entre 1988 e 1991, contou com uma bolsa do Ministério da Educação português. Durante esse tempo desfrutou de uma licença especial na sua docência, para poder levar a cabo as suas pesquisas etnográficas e educativas. Os livros sobre estes temas o projetaram internacionalmente e por isso o convidaram a participar em congressos e seminários internacionais na Galiza, Espanha, Brasil, Bélgica, Suíça, Noruega, Dinamarca e Canadá. À Nossa Terra, Galiza, vinha sempre muito à vontade, pois sem dúvida, Cabral foi um grande amigo da nossa terra galega. Como no seu dia o foram Teixeira de Pascoais, Manuel Rodrigues Lapa, Zeca Afonso e Joaquim Rodrigues dos Santos Júnior. E como o é o Padre Fontes, por sorte entre nós, que também sempre foi um grande amigo de Cabral.

FICHAS DOS DOCUMENTÁRIOS

1. A Senhora dos Remédios: Contos do Douro de António Cabral.
Duração: 6 minutos. Ano 2015.

2. Homenagem a António Cabral (pelo Coral da Cidade de Vila Real).
Duração: 2 minutos. Ano 2018.

3. Clube dos Poetas Imortais: António Cabral (1931-2007).
Duração: 5 minutos. Ano 2009.

4. Aqui Douro, por António Cabral.
Duração: 10 minutos. Ano 2012.

A AMPLA BIBLIOGRAFIA DE CABRAL

Poesia

Sonhos do meu Anjo, edição do autor. Vila Real,1951.
O Mar e as Águias, Marânus. Porto, 1956.
Falo-vos da Montanha, edição do autor. Vila Real, 1958.
A Flor e as Palavras, Panorama. Lisboa, 1960. (1º Prémio de Manuscritos do SNI).
Poemas Durienses, Setentrião. Vila Real, 1965.
Os Homens Cantam a Nordeste, Nova Realidade. Tomar, 1967.
Quando o Silêncio Reverdece, Razão Actual. Porto, 1971.
Emigração Clandestina, Centelha. Coimbra,1977.
Aqui, Douro, Direcção-Geral da Divulgação. Ministério da Comunicação Social. Lisboa, 1979.
Entre o Azul e a Circunstância. Livros do Nordeste. Vila Real, 1983.
Bodas Selvagens, Tartaruga. Porto e Chaves, 1997.
Antologia dos Poemas Durienses, Tartaruga. Porto e Chaves, 1999.
O Peso da Luz nas Coisas, INATEL. Vila Real, 2000.
Ouve-se um Rumor e Entre Quem É, Livros do Nordeste. Vila Real, 2003.
Contos de Natal para Crianças. INATEL. Vila Real, 2003.

Ficção

Festa em Setembro (contos), Comissão Regional de Turismo da Serra do Marão. Vila Real, l983.
Memória Delta (romance), Editorial Notícias. Lisboa, 1990.
A Noiva de Caná (romance,) Editorial Notícias. Lisboa, 1995.
O Prometeu Agrilhoado Hoje, Campo das Letras. Porto, 2005.

Ficção/Poesia

O Rio Que Perdeu as Margens, Tartaruga. Porto (a sair em 2006)

Teatro

O Herói, Livraria Paisagem. Porto, 1975 (2º prémio da Academia Teresopolitana de Letras, Teresópolis, Brasil, em 1964)
Temos Tempo, Matilde, FAOJ. Vila Real, 1976.
A Linha e o Nó, Centelha. Coimbra, 1977.
7 Peças em um Acto (4 delas: Temos Tempo, Matilde, Os Muros de Verona, Ouve-se uma Flauta; Virá um Dia, Virá, Centelha. Coimbra, 1977.)
Semires, Boletim Cultural da Escola Secundária de Camilo Castelo Branco. Vila Real, 1994.
A Moura Encantada, Urze. Vila Real, 2005.
A Fraga das Dunas, Douro – Estudos & Documentos, GEHVID. Porto, 2006.

A peça Os Muros de Verona foi estreada na RTP, em 30.3.1977. Dentre as peças ainda inéditas, destaque para História do Talvez Tristemente Célebre Zé do Telhado para a qual chegou a ser pedido um guião televisivo.

Ensaio

1. Literatura
História da Literatura Portuguesa – Época Medieval, Edições Asa. Porto, 1965.
Morfologia Literária, Porto Editora. Porto, 1971.
Miguel Torga, o Orfeu Rebelde, Núcleo Cultural Municipal de Vila Real, cadernos culturais -1, Maio de
1977.

2. Etnografia e Antropologia
Cancioneiro Popular Duriense, Direcção-Geral da Divulgação e Centro Cultural Regional de Vila Real. Lisboa, 1985.
Jogos Populares Portugueses, Editorial Domingos Barreira. Porto, 1986.
Os Jogos Populares – Onze Anos de História: 1977-1988, Colecção Nordeste Cultural, Centro Cultural Regional de Vila Real, 1988.
Jogos Populares Infantis, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1991; 2ª edição, Editorial Notícias, Lisboa, 1998.
Jogos Populares Portugueses de Jovens e Adultos, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1991; 3ª edição, Editorial Notícias, Lisboa, 1998.
Jogos Populares e Provérbios da Vinha e do Vinho, Casa do Douro. Régua, 1991. (Este livrinho foi reeditado, com acrescentos, em 2001, na revista Douro – Estudos & Documentos -11)
A Cantiga e o Romance Popular no Alto Douro, Douro – Estudos & Documentos – 12, Porto, 2001 (com separata, como a publicação anterior)

3. Ludoteoria
Os Jogos Populares e o Ensino, Centro Cultural Regional de Vila Real, 1981.
Teoria do Jogo, Editorial Notícias. Lisboa, 1990.
A Imitação e a Competição no Jogo Infantil, Escola Superior de Educação de Santarém, 1992.
O Modelo Lúdico do Ensino-Aprendizagem, Escola Superior de Educação de Santarém, 1995.
Tradições Populares – I, INATEL. Lisboa, 1999.
Tradições Populares – II, INATEL. Lisboa, 1999.
O Jogo no Ensino, Editorial Notícias. Lisboa, 2001.
O Mundo Fascinante do Jogo. Editorial Notícias. Lisboa, 2002.
Brinquedos Infantis, netbila.net – 2006

Nota- As editoriais Domingos Barreira e Notícias pertencem atualmente à Casa das Letras (Lisboa).

UM POEMA DE CABRAL

A Solidão
Quando voltares, põe na tua voz
aquela flor azul que te ofereci.
Talvez, assim, eu julgue reencontrar-te
e os olhos se encham, outra vez.
Ainda tens no gesto aquele susto
que se enrolava todo nos meus dedos
e punha à nossa volta
um colar de silêncios ardendo?
Tudo mudou, bem sei. Naquela tília
o Outono já começou;
e nas tuas palavras
algumas folhas devem ter caído.
Mas, se voltares, põe a flor azul,
põe o passado no gesto e na voz.
Talvez, assim, eu julgue reencontrar-te
e os olhos se encham. É tão fácil!

 

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

antonio-cabral-foto-1Vemos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um cinema-fórum, para analisar o fundo (mensagem) dos mesmos, assim como os seus conteúdos.
Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a António Cabral, um escritor e educador transmontano, dinamizador cultural e social e grande especialista em jogos tradicionais, sobre os quais publicou numerosos e interessantes trabalhos e livros. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias.
Podemos realizar no nosso estabelecimento de ensino um Encontro de Jogos Tradicionais, em que participem todos os escolares. Seria interessante dedicar uma jornada inteira a este encontro lúdico e convidar o estabelecimento de ensino, público ou convencionado, mais próximo ao nosso, para participar no mesmo. O programa de jogos que desenvolveríamos seria tomado dos que Cabral propõe nos seus interessantes livros: a bilharda, os bilros, a chave, a turra-soga ou tração à corda, a rã ou sapo, a corrida de sacos, o pano, o marro, o pião, quebrar as panelas, a viola corrida, as andas e os bugalhos ou berlindes, entre outros.

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    Bem interessante.
    Necessitavamos as nossas olimpíadas de jogos tradicionais