Antón Tenreiro: “O ano Carvalho Calero vai ser vital de aqui em diante”



anton-tenreiro-1Antón Tenreiro nasceu numa aldeia de Vilalva mas depois rumou para um bairro da Corunha numa altura em que o galego era a língua social. Foi concelheiro em Oleiros e julga que os concelhos podem fazer muito pola saúde social do galego. Foi também assessor de Anxo Quintana no bipartido e na atualidade é presidente da Associação Sociocultural LAREIRA DE SONHOS dos Vilares de Guitiriz.

Antón morou até os 5 anos em Lançós, Vilalva. Que recordações linguísticas guardas desse teu aterrar na vida?

Em Lançós, Vilalva, o idioma de uso era e ainda continua a ser, o galego. Foi o deslocamento para a Corunha com 5 anos de vida o que implicou um choque linguístico para mim.

Concretamente no bairro da Gaiteira, não é? Qual era a paisagem linguística naquela altura e como se configura atualmente?

Naquela época, nos anos 60-70 do passado século ainda o idioma de uso no bairro da Gaiteira, daquela semi-periférico e hoje centro, era maioritariamente o galego, que foi perdendo uso com os anos sendo agora, não sendo em pessoas idosas, o espanhol o idioma dominante. Ainda assim, para mim, monolingue em galego, enfrentar-me a outro idioma foi traumático mesmo polas burlas e o sentimento de sentir-me num mundo alheio.

Foste concelheiro na Câmara Municipal de Oleiros. É comum ouvirem-se exigências aos governos municipais onde governam partidos nacional galegos a respeito de iniciativas de política linguística. Que margem de ação tem, na verdade, um concelho neste âmbito?

Os concelhos tenhem margem e o seu labor é fundamental quanto à proximidade à vizinhança, para mudar hábitos e normalizar o uso. Falta vontade política e falta consciência. Os concelhos, maioritariamente limitam-se a cumprir uma mínima parte do que realmente podem fazer. O uso do galego que se promove dos concelhos na sociedade é ridículo frente às verdadeiras possibilidades que estes tenhem, entre o comércio e a hotelaria, nas publicações, o turismo e no ensino, na própria entidade local e também condicionando o seu uso em certames, concursos e eventos promovendo discriminações positivas que ampara a lei, mais isso acontece apenas numa pequena parte.

Os concelhos tenhem margem e o seu labor é fundamental quanto à proximidade à vizinhança, para mudar hábitos e normalizar o uso. Falta vontade política e falta consciência. Os concelhos, maioritariamente limitam-se a cumprir uma mínima parte do que realmente podem fazer.

anton-tenreiro-3Foste assessor de Anxo Quintana durante o bipartido. De que te sentes mais orgulho dessa época e que pensas que se poderia ter feito e ficou na gaveta?

O papel do bipartido há que contextualiza-lo, primeiro em que só houvo 4 anos escassos (há meses de posicionamento após muitos anos de governos do PP) para poder mudar políticas e assentar as bases doutro tempo político. Ainda assim, nunca tanto se fijo na Galiza socialmente, na política industrial com o Plano Eólico deitado abaixo por Feijoo, na política de meio rural com o banco de terras ou numerosos projetos para dar coerência e sentido ao rural para ganhar povoamento, em bem-estar com dúzias de centros de dia, galescolas, lares de idosos, o 065, o jantar na casa, os centros Quero-te, e em muitos outros assuntos que tencionavam uma mudança das coisas. Ficaram muitas coisas na gaveta porque tudo foi um início que não se teria tempo de consolidar, o sistema não podia permitir um governo (uma parte polo menos) que trabalhasse polo interesse da gente e não polo interesse de grandes grupos económicos e financeiros. Fizemos coisas mal? Sim, também, mais fruto de ânsias de fazer as coisas às pressas ou da inexperiência que decerto hoje seriam corregidas, mas o mundo é assim… Mas também se enganárom no sindicalismo nacionalista e nalguns sectores do BNG organicamente em certas atitudes e com certeza em mostrar vergonha do realizado após a derrota eleitoral. São reflexões que dão para debater demoradamente mas estou certo de que a história dará verdadeiro valor àquele governo com o passar do tempo e da oportunidade perdida polo país para mudar um rumo que, longe de melhorar, foi muito para pior tal e como estamos a ver em qualquer dos dados que queiramos contrastar comparativamente. Aguardemos que a Galiza tenha desta volta em Abril outra oportunidade…

Trabalhamos na defesa e promoção do património local, na defensa e valorização do rural e na promoção da nossa cultura. Temos também um ativo grupo poético de base, a NPG Nova Poesia Guitirica. Fizemos um documentário: Entrar aos Vilares, de Cibrán Tenreiro, estamos com um segundo sobre um fotógrafo ambulante da comarca, O armeiro de Berulfe, e a concluir um livro de Pas Veres, arredor da história recente da paróquia.

 

Atualmente és presidente da Associação Sociocultural LAREIRA DE SONHOS dos Vilares de Guitiriz. Quais os teus sonhos?

Somos uma pequena associação da paróquia dos Vilares, lugar de nascença do poeta Díaz Castro, e foi ele o motor da nossa associação com a dedicatória das letras galegas de 2014. Trabalhamos na defesa e promoção do património local, na defensa e valorização do rural e na promoção da nossa cultura. Temos também um ativo grupo poético de base, a NPG Nova Poesia Guitirica. Fizemos um documentário mui bem valorado, Entrar aos Vilares, de Cibrán Tenreiro, estamos com um segundo sobre um fotógrafo ambulante da comarca, O armeiro de Berulfe, e estamos a concluir um livro de Pas Veres, arredor da história recente da paróquia fruto dum trabalho de cinco anos e organizamos diversos certames relacionados com o rural, com a poesia e numerosos eventos cada ano.

Há tempos que nutres simpatias com a estratégia lusobrasileira para o galego. Como foi o teu percurso neste caminhar?

As simpatias venhem de longe, quando fum concelheiro em Oleiros e organizáramos, num 17 de Maio, uma Assembleia de AGAL e uma Festa das Letras no centro de Santa Cruz de Liáns aquele mesmo dia, mas a minha vinculação é mais recente, realmente dei o passo definitivo há apenas um ano duma maneira decidida e sem retorno.

Porque te alistaste no navio agálico? Por onde julgas que devemos de rumar?

O Eduardo Maragoto, o nosso presidente, tem muita culpa, o trabalho de AGAL nos últimos tempos e a estratégia da dupla normativa tenhem obrado duma maneira mui positiva na perceção social e na soma de pessoas a este labor. Esta-se a mudar aquela velha ideia de o reintegracionismo ser coisa de radicais e/ou intelectuais independentistas e hoje começa a ser uma posição a estudar seriamente dada a realidade da língua e o desacertado da via linguística oficial com os dados em cima da mesa. O ano Carvalho Calero vai ser vital de aqui em diante e devemos saber somar para a salvação definitiva do galego e o seu posicionamento no mundo, não será fácil mas possível.

O trabalho de AGAL nos últimos tempos e a estratégia da dupla normativa tenhem obrado duma maneira mui positiva na perceção social e na soma de pessoas a este labor.

Estamos em 2040. Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza?

O galego falado por 90% da povoação, com uma escrita plenamente integrada com as variantes de Portugal, Brasil, e do resto de países que o falam no mundo e uma das línguas mais importantes do mundo abrindo portas à economia, à nossa cultura num país orgulhoso do seu.

Conhecendo Antón Tenreiro:

Um sítio web: www.nosdiario.gal

Um invento: a luz elétrica

Uma música: Alma dos Ataque Escampe

Um livro: Sempre em Galiza

Um facto histórico: A revolta Irmandinha

Um prato na mesa: A tortilha de Betanços

Um desporto: O atletismo

Um filme: A batalha de Argel

Uma maravilha: O renascimento italiano

Além de galego/a: Cidadão de qualquer país ou cultura menorizada ou agredida no mundo.

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim


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