Antón Fraguas, Dia das letras 2019

Recuperamos a achega de Marcos Saavedra para o último número do Fest-AGAL



A explosão de júbilo derivada da eleição pola RAG de Ricardo Carvalho Calero para o Dia das Letras Galegas do ano 2020 não devera ser óbice, mas acicate, para celebrarmos a fi gura do ano em curso: dom Antón Fraguas Fraguas.

Membro das Irmandades da fala, do Seminario de Estudos Galegos e do Partido Galeguista

Nado em Cotobade em 1905, foi aluno de Castelao e Lousada Diéguez no liceu de Ponte Vedra, onde abraçaria para sempre a causa galeguista. Licenciado em 1928, a sua carreira profissional começou de professor auxiliar na USC e ganhou vaga de ensino médio na Estrada em 1933. Ser membro das Irmandades da Fala, do Seminário de Estudos Galegos e do Partido Galeguista truncou a sua carreira: foi suspenso de emprego e salário e passou depois da guerra ao ensino privado. Segundo as suas palavras, salvou a vida «de milagre» e não recuperou a cátedra, que o habilitava para o doutoramento e a docência, até a década de cinquenta.

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Dissoluto polos franquistas o Seminário de Estudos Galegos, incorporou-se na década de quarenta à versão deste criada e controlada desde o regime: o Instituto de Estudios Gallegos Padre Sarmiento. Desde a mesma secção que ocupava no SEG, de Etnografia e Folclore, continuou em parte o labor encetado antes da guerra. Pola sua humildade mostrou-se ser reticente a ocupar a cadeira que Castelao deixara vacante na RAG à sua morte. No seu discurso de ingresso agradece «o imerecido honor que se me fez, nomeando- -me para um posto que não mereço. […] Quiçá fosse melhor deixar vacante o seu posto deica que outro artista como el ou Rosalia, […], vinhera ocupar esta cadeira». Morto o ditador, com o aggiornamento do regime e umas novas instituições à procura de se legitimar democraticamente, chegarão muitos reconhecimentos: Pedrão de Ouro, Prémio Trasalba, Medalha Castelao e Cronista Geral da Galiza.

Se bem que seja autor duma copiosa obra escrita — mais de vinte monografias, centos de trabalhos especializados individuais e coletivos em publicações periódicas e revistas, assim como milhares de artigos em jornais— não achamos arriscado considerar o Antón Fraguas um homem mais de Cultura do que de letras. Foi um erudito ao jeito clássico que cultivou grande variedade de disciplinas: da antropologia à etnografia, passando pola geografia, a arqueologia, a arte ou a história.

Contudo, a nosso ver, no que se destacará é na obsessão por registar e conservar a Galiza toda, quer a que esmorecia (a Galiza tradicional), quer a que fizeram desaparecer (a do projeto galeguista). Eis uma possível leitura que podemos tirar da sua monumental obra. Lendo-o assim é como cobra sentido a sua magnífica biblioteca, doada ao Museu do Povo Galego, ponto fulcral do seu legado e síntese perfeita da Galiza que foi e da que é, e que nos dá para imaginar tanto a que poderá ser como a que pudera ter sido.

Celebremos e divulguemos pois a obra de dom Antón Fraguas. Há e haverá muito a festejar.

Destaca a sua obsessão por registrar a Galiza toda, quer a que esmorecia, quer a que fizeram desaparecer

Seleção da sua obra

O culto ós mortos, Nós, Santiago. (1931)

Terra de Melide, Seminario de Estudos Galegos, Santiago. (1933)

Dous romances de Galicia”, Revista de Guimarães. (1946)

Geografía de Galicia, Porto y Cía, Santiago. (1953)

Historia del Colegio de Fonseca, Cuadernos de Estudios Gallegos, Santiago. (1956)

Paisaxe e historia nas conversas de D. Ramón Otero Pedrayo”, Ramón Otero Pedrayo: a súa vida e a súa obra, Caracas. (1958)

Influencia de la emigración al Brasil en tierras de Galicia”, V Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, Coimbra. (1965)

Algunos seres fantásticos de nuestra Tierra”, Revista de Etnografi a, Porto. (1969)

Lembranza de unha xeneración”, Cincuentenario Nós. Boletín Mensual de Cultura Galega. (1970)

La Galicia insólita. Tradiciones gallegas, Librigal, Crunha. (1973)

Lugo, Bibliófi los Gallegos, Santiago. (1974)

Murguía. O patriarca, Banco del Noroeste, Vigo. (1979)

El traje gallego, Fundación Barrié de la Maza, Crunha. (1985)

Romarías e santuarios, Galaxia, Vigo. (1988)

Do Entroido, Museo do Pobo Galego, Alicerces 6, Santiago. (1994)

Eduardo S. Maragoto

Eduardo S. Maragoto

(Barqueiro, Galiza, 1976) Estudou Filologia Portuguesa em Santiago de Compostela, cidade onde participou no sindicalismo estudantil e na fundaçom do Movimento de Defesa da Língua (MDL) através da Assembleia Reintegracionista Bonaval. Entre 2001 e 2006 trabalhou na Escola Oficial de Idiomas (EOI) de Valência, onde participou na constituição de Veu Pròpria (associaçom de novos e novas falantes de catalám) e da plataforma Nunca Mais. Na atualidade trabalha como professor de português na EOI de Compostela. Desde 2006 até 2010 pertenceu ao conselho de redaçom do jornal Novas da Galiza, jornal onde coordenou os trabalhos de correçom e a secçom de Além Minho. Também pertence à Gentalha do Pichel e à AGAL, associaçom que preside na atualidade. É autor do livro Como Ser Reintegracionista sem que a Familia Saiba e co-autor do Manual Galego de Língua e Estilo e dos documentários Entre Línguas, Em Companhia da Morte e A Fronteira Será Escrita.
Eduardo S. Maragoto

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