Angeles Huerta: “O Corpo Aberto vai ser um filme em galego-português com coproduçom portuguesa”

A diretora continua a trabalhar no seu novo projeto, que este mês levou a Luxemburgo para participar num foro internacional de produtores



[fotografia de Lucía C. Pan]

[fotografia de Lucía C. Pan]

A fragilidade das identidades, as fronteiras linguísticas e as cosmologias das comunidades. Após o sucesso com o seu documentário ‘Esquece Monelos’ (DandaDanga Audiovisuais, 2017), Ángeles Huerta prepara o seu novo projeto ‘O corpo aberto’, que acaba de ser selecionado entre 200 candidatos para participar nos obradoiros de EAVE (European Audiovisual Entrepreneurs, organizaçom europeia para a formaçom profissional de produtores audiovisuais). Umha história gótica ambientada na serra do Gerês de 1907, com a Carbonária Portuguesa e o contrabando como pano de fundo.

– Em que fase estais agora no projeto de ‘O corpo aberto’?

Agora temos muito trabalho porque do 8 ao 15 de Março vamos para o Luxemburgo Gaspar [Broullón, produtor de ‘Esquece Monelos’ e do atual projeto] e mais eu ao obradoiro do EAVE. É um programa europeu destinado a produtores. Escolhem umha série de produtores e fam uns workshops anuais. Este ano o primeiro é no Luxemburgo, que é onde está a sua sede; o segundo é na Sérvia e o terceiro é na Alemanha. Sempre escolhem um produtor com um projeto. Normalmente som produtores de menos de 40 anos, com um primeiro ou segundo filme. Quer dizer, é Gaspar, mas é Gaspar com ‘O corpo aberto’. E claro, estamos aqui stressadíssimos. Acabo de falar com Jorge Coira porque temos que fazer apresentações…

Somos 50 participantes de 30 países e há 4 grupos. De facto, em quase todos os países é um produtor por país. De facto, de todo o Estado espanhol escolheram o Gaspar só. Em sítios como França ou Italia onde há o quádruplo de dinheiro e ajudas, há mais gente. Claro, imagina, normal, em França há 4 produtores por cada espanhol. Nom há ninguém de Portugal, isso vem-nos mal, ainda que já che contarei, porque a coproduçom está bastante encaminhada já.

E nada, em cada grupo escolhem um projeto para fazer umha apresentaçom onde ensinar umha técnica chamada world-building, que serve para apresentar o micro-universo onde é desenvolvida a história para, a partir daí, ajudar a mover o guiom. E claro, é muito trabalho fazer documentos em inglês para explicar o que é o micro-universo desta aldeia do Gerês em 1907 e o contexto sociopolítico da epoca que acontece com as personagens… Pronto, estamos supercontentes, mas é umha trabalheira [ri]. Amanhã vai-nos tocar explicar o que é um chifre de capador a umha cheia de guiris… [ri] Imos levar cousinhas para que percebam [ri].

– Podeis levar um chifre de capador…

[ri] Nom, um chifre nom temos, está na Internet e há muita cousa.

– Quantos dias e em que datas ides estar lá?

É umha semana em cada sítio. Eu volto na quarta-feira, porque tenho as minhas aulas; ele arranjou para ir até a sexta-feira. Depois,  a Sérvia é a última semana de Junho e o de Leipzig na Alemanha é entre outubro e novembro. O que se passa é que este primeiro workshop é mais centrado no guiom, ao segundo também irei porque me calham bem as datas, e ao terceiro vai só Gaspar porque é só de distribuiçom, vendas e cousas várias, cousas específicas dos produtores. E sim, é o máximo, é o máximo porque toda a gente que fai um cinema interessante na Europa e fora da Europa entra neste programa. É supercomplicado entrar, tivo 300 e algo requerimentos e escolheram só 30. Está muito bem.

“É muito complicado entrar no programa de EAVE, de todo o Estado espanhol só escolheram o nosso”

– Nom é só polo obradoiro em si mesmo, também acabas por conhecer muitas pessoas interessantes, nom?

Claro, eu acho que o workshop é muito estimulante e vai ajudar muito a desenvolver a história de ‘O corpo aberto’ porque no Luxemburgo vai haver umha série de consultores de guiom, gente especializada em diversas técnicas… Vamos ter que testar a história, o projeto de diferentes formas… Sim, o de EAVE polo que me contam depois som como ‘la famiglia’ [rir]. Há umha rede muito potente e está muito bem para fazer contactos. Da Galiza só o fijo, que eu saiba, Luisa Romeo, de Frida Films. Eu que os tenho agora no Facebook e estám, eu que sei, os Óscars, os BAFTA… sempre publicam ‘parabéns aos nossos graduados EAVE que levaram prémio’… Sempre há gente do EAVE.

– Já levavas a produçom bastante encaminhada. Em que ponto está agora o projeto?

Nós apresentamo-nos agora às ajudas do AGADIC com um acordo de coproduçom com Cinemate, umha empresa lisboeta. De facto, é umha produtora portuguesa muito grande, que move dinheiro. Por agora nom há nada, mas polo nosso lado há muita vontade e pensamos eu que achárom o nosso projeto engraçado.

Esta é umha empresa que conhecemos eu e o Gaspar no ano passado no Berlinale. Este ano voltárom o Gaspar e o Jorge [Coira]. Pelo meio já lhes mandáramos os guiões e desta vez era para ver se podíamos formalizar a relaçom [ri]. Gaspar contava que lhe ficara muito claro que o assunto linguístico é fundamental. Porque de repente a gente passa de falar em inglês a falar em galego connosco. Bom, nós em galego, eles em português… Bom, nom vou entrar no assunto [ri], mas é evidente que falamos numha língua comum para todos em que há total compreensom.

“O produtor, Gaspar Broullón, contava que na Berlinale tivera muito claro que o assunto linguístico era fundamental com a produtora portuguesa. Quando ficavam sós de repente as pessoas passávamos de falar em inglês a falar numha língua comum: nós galego, eles português”

E a história, claro…  quando tens a história precisas de coproduções, financiamento. E de onde tiras esse financiamento? Do Programa Media, procurando um sócio europeu… E esta nom, esta é umha coproduçom natural porque é umha história de fronteira, com personagens portugueses, com um fundo político português… Já estava no guiom, e é umha coproduçom natural que a eles interessa muito e que ademais lhes fai muita graça porque é trabalhar com produtores ‘espanhóis’ que falam a sua língua.

– Podes-me contar como é a história de ‘O Corpo Aberto’ e como nasceu essa ideia?

É umha adaptaçom de um relato de Méndez Ferrín que é o primeiro relato de ‘Arraianos’. É umha adaptaçom que já desde o primeiro momento inclui certas liberdades. Já pelo facto de ser umha longametragem, e pela ideia que tinha eu na cabeça. Sempre gosto de destacar que Ferrín é muito riquinho. Nom só nom pujo oposiçom senom que lhe parece maravilhoso que façamos o que for. Ele dixo ‘fai um filme bom’. É muito bom, porque também há muita gente que che parte a cabeça com a cessom de direitos…

O filme é a história de Miguel, que é um mestre nacionalista. Pertence a esta vaga de princípios de século XX, racionalista e idealista que tem como primeiro destino umha aldeia remota das montanhas do Jurês. Chega ali e encontra um mundo regido por princípios totalmente diferentes aos seus: ritos ancestrais, mitos… Ele vai viver a umha pousada e a primeira pessoa que conhece é um capador português. No relato de Ferrín é um capador de Poio mas aqui sempre o identificamos como um capador português. Se bem no relato de Ferrín é um agrarista, aqui é um tipo relacionado com a Carbonária –movimento revolucionário conducente à Primeira República Portuguesa em 1912. Isso fica como pano de fundo. Do ponto de vista da história, Miguel conhece um homem que é totalmente o contrário a ele: um homem seguro de si mesmo, com capacidade de palavra, muito carismático com as mulheres, muito varonil… É a sua antítese em todo agás numha cousa: ambos estám muito fascinados por umha certa Dorinda, que é a mulher do filho dos donos da pousada. O homem é contrabandista, mas na altura era contrabandista muita gente. Fai parte da cultura do lugar. Os donos da pousada som a gente mais poderosa da aldeia, devido a este estraperlo e ao comércio ilícito com Portugal, que faz parte do seu modo de vida…

Entom, nesta pousada vivem tanto o capador português como o mestre, e também o contrabandista com a mulher… E há também umha encamada. A encamada é umha figura muito presente no rural galego: alguém que encamou, nom se sabe bem porquê. Neste caso é umha mulher que geme pelas noites. Num momento dado, no primeiro terço do filme, aparece enforcado dumha cerdeira este capador português. No momento em que este capador aparece, a mulher encamada ergue-se da cama e começa a se comportar como se fosse o português. Toda a aldeia reconhece-o como ele, agás o próprio mestre, porque tem ferramentas de interpretaçom do mundo muito diferentes. Esta mulher começa a comportar-se como o capador até o ponto de lhe fazer as beiras à Dorinda, que é a sua própria cunhada. Pronto, a partir daí é umha viagem cara à noite do mestre. Chega como um tipo racionalista, sem fisuras, que leva a luz da razom a essa aldeia para educar as crianças… e finalmente acaba por ser vencido pelo ambiente, a dureza do inverno, as condições de vida… e acaba por entrar nessa espiral de perda da racionalidade… Poderia contar-che tudo o filme mas há que contar antes do final [ri].

Há muitas cousas que nom estám no relato de Ferrín, como por exemplo esse relato no fundo do momento de convulsom política em Portugal. Nom é algo central mas entende-se que igual que passam mercadorias, passam pessoas. Os Carbonários som estes revolucionários que passam fronteiras. De facto, nós descobrimos umha publicaçom de 1904 do ABC de Madrid em que dám a voz de alarma de que Ourense estava “infestado” de Carbonários, de conspiradores portugueses contra a monarquia. Realmente nom era algo pontual, porque já desde a imprensa de Madrid davam conta disto. Há esse contexto de homens e armas que passam.

Depois,  o relato de Ferrín é um relato epistolar. Miguel está a contar-lhe o que está a acontecer ao seu tio em várias cartas. E no cinema esse elemento desaparece totalmente. Tamém o relato finaliza mesmo no momento em que o Miguel começa a tolear e começa a sentir que ele também é um corpo aberto, que é quando a encamada aparece enforcada na mesma cerdeira onde aparecera já o capador. Nós continuamos isto e, de facto, é a parte mais gótica e expressionista do filme que principia aí. É a parte em que o Miguel já perdeu a cabeça. Isto desenvolve-se durante o Entruido. Esta festa nom é o Entruido que tivemos estes dias em muitas cidades, senom que tem mais a ver com o Entruido da montanha ourensana. Isso é um acréscimo ao filme de Ferrín, e visualmente é desenhado como algo muito potente, o Entruido tradicional tal e como poderia ser celebrado na montanha a princípios de século XX. O filme acaba aí, num momento climático do Entruido.

Miguel seria o que se chamava naquela epoca um temporeiro. Na alta montanha da Galiza e Astúrias nom havia escolas como nas vilas ou núcleos perto de vilas. O curso nom durava o mesmo tampouco. Na montanha habilitava-se umha velha corte e os mestres lecionavam ali entre Novembro e Abril porque o resto do tempo as crianças estavam a trabalhar no agro. Esse arco de tempo de Outubro ou Novembro até abril, maio… dependia também muito do dinheiro da comunidade, porque as aulas eram pagas pelos próprios vizinhos. Nom havia Junta, nom pagava o ministério [ri]. E o protagonista chega a essa aldeia por esse idealismo.

[fotografia de Lucía C. Pan]

[fotografia de Lucía C. Pan]

– Contas que o próprio protagonista sente que ele mesmo poderia ser um ‘corpo aberto’. Em que consiste isso, que lhe dá nome ao filme?

Sim. O corpo aberto é umha crença que continua a existir, sobretudo em certos sítios do sul da Galiza. Tem muito a ver com as pessoas encamadas, porque quando estás muito tempo encamado estás fraco. Nessas situações és suscetível de que che penetre dentro o espírito dum defunto. Tem muito a ver com a cultura da morte. Nós estamos a analisar muitos documentos para explicar aos guiris como é a cultura da morte na Galiza tradicional, que é muito rica em pequenos gestos relacionados com a contínua presença dos defuntos na casa. Há muitas tradições que destacam a crença de que os espíritos andam por aí, ceives. Entom os corpos abertos existem porque há pessoas que som muito mais sensíveis, por problemas de saúde ou debilidade de espírito, às quais entra a ânima dum defunto. Claro, um defunto que quer comunicar algo ou deixou algo a meio fazer. Por isso a aldeia interpreta que a encamada é agora o capador, que nom foi quem de consumar em vida o seu desejo com a Dorinda e fai-no através de outro corpo.

Afinal é umha questom muito interessante. Isto tem muito a ver com a capacidade das comunidades e culturas tradicionais para ter ferramentas para explicar comportamentos que podem considerar aberrantes –porque se desviam das suas normas– em contraste com a capacidade de cosmologias ou sistemas mais rígidos como o racionalismo do Miguel. O homem alucina, porque aí vê umha relaçom contranatura entre duas mulheres. E isto também nos leva ao discurso de até que ponto o género é umha construçom cultural….

“O corpo aberto tem muito a ver com a capacidade das comunidades tradicionais para ter ferramentas que expliquem comportamentos que podem considerar aberrantes, em contraste com as cosmologias mais rígidas como o racionalismo do protagonista”

Há umha cousa muito interessante e é que o corpo aberto está presente na tradiçom galega e  portuguesa. Ferrín contava que é muito curioso como na raia portuguesa ele encontrara um cura que repartia pasquins contra os corpos abertos. Sim, sim, isso viveu-no ele. E na tradiçom galega e portuguesa nom é simplesmente umha pessoa possuida. Isto nom é um filme de fantasmas. Nom, nom é um filme de medo. O corpo aberto é umha espécie de mediador entre o mundo dos vivos e dos mortos, entre o aqui e o além. Nesse sentido, por um lado, a comunidade pode tentar pacificá-lo e expulsar-lhe o bicho, porque para isso também há ritos, mas também há gente que se chega ao corpo aberto para aproveitar e poder falar com o seu tio avó morto… Tem muito a ver também com a cultura do mal olhado que existe na Galiza.

Isso explica-o muito bem Marcial Gondar nos seus livros. Nós utilizamo-lo muito porque tem achegas muito importantes. Romeiros do Além, Crítica da Razom Galega... Lemos também muito de etnopsiquiatria, porque também é um projeto terapêutico a questom dos corpos abertos… Porque claro, afinal que é um corpo aberto? E se a encamada era umha mulher que sentia que havia algo nela que nom encaixava nessa sociedade e a morte do capador lhe dá a oportunidade de se abrir e ser aceitada pela comunidade…? Ou é realmente que lhe entrou o espírito? É igual à ideia de Fanny e Alexander quando Alexander está a ver o fantasma do pai. Está a vê-lo ou é umha criança que conta mentiras e é muito fantasioso? Tentamos deixar esse interrogante aberto.

Tentais situar esta história de fronteiras do género, identidade, cosmologias… também entre um sistema de fronteira como é o Gerês que…

Claro, claro. Nas apresentações é umha das primeiras cousas que dizemos, que este é um filme de fronteiras, como o género em si mesmo. Que queremos dizer com isto? Neste caso, a serra do Gerês nom é simplesmente um cenário que lhe dá umha configuraçom estética muito forte ao filme, senóm que também é parte substancial da forma e do fundo. É um filme de fronteiras porque fala do ilusório que som os limites que nós mesmos desenhamos como seres humanos, porque as nossas identidades som muito mais instáveis do que queremos admitir. E há certos lugares geográficos, espirituais, ideológicos e sexuais… onde a relatividade desses limites é mais clara. Claro, qual é a achega de gravar um filme no Gerês? É um sítio que nom é nem Galiza nem Portugal, numha história onde umha pessoa nom é nem homem nem mulher, onde a gente tem umha identidade arraiana, falam umha língua que nom é nem galego nem português… Sobretudo também nesse tempo, antes de que os meios de socializaçom de massas estivessem presentes. É umha aldeia aonde nem sequer chegava a diligência. O mestre vai a Ourense, daí a Lóvios e daí deixam-no num cruzamento de caminhos onde vai alguém recolhê-lo numha mula. Evidentemente é um sítio que, no sentido positivo da palavra, está completamente hibridado, totalmente aberto.

-Além das jornadas do Luxemburgo…. qual é o ponto em que está agora o projeto?

Agora mesmo está em desenvolvimento. Estamos a trabalhar numha quarta versom de guiom e o projeto foi selecionado em EAVE. Também nos escolheram no laboratório de guiom da SGAE e temos o elenco mais importante já atado. Quanto às personagens portuguesas ainda nom sabemos. Gostaria, e tenho aí também o apoio de Jorge Coira, que houvesse também atores nom profissionais nalguns papéis. Vai ser um amálgama de cousas.

Estamos também a completar o financiamento. A coproduçom seria principalmente com Portugal e umha parte pequeninha com a Catalunya. A ideia era fazer umha curtametragem que servisse para testar cousas do ponto de vista da fotografia e os atores. Também serviria como documento de venda, claro. As expetativas da produtora seriam gravar no último trimestre do 2020, ainda que eu pense que vai ser no primeiro do 2021 porque eu quero rodar em janeiro.

Também é interessante que, agora que estamos a tratar com agentes de venda, detetamos muito interesse pelo projeto porque o filme tem umha parte de género, e isso é um nicho de mercado que pode facilitar o financiamento do filme. Há certas agências especializadas que procuram género autoral, nom procuram algo gore. De facto, fazer este teaser com os atores e com certo orçamento ajuda a tomar decisões.

– Há já ideias sobre como focar a distribuiçom dum filme de fronteiras, com coproduçom portuguesa?

[ri] Nós nom vamos entrar no debate sobre a norma do galego. Nom vou discutir com os meus amigos da AGAL [ri]. O que está claro, porém, é o que se fala no Gerês em 1907 é esse híbrido. E provavelmente é o mesmo que se fala hoje em Entrimo. E suponho que a pessoa mais purista da Real Academia é algo que também nom che pode negar. Outra cousa, depois, é o processo histórico e como se standardizam, que fora umha norma em vez de outras… Aconteceu-me também quando me entrevistaram no Sermos, que bem que eu fizesse filmes em galego…

“Está claro que o que se fala no Gerês em 1907 é um híbrido que, provavelmente seja o mesmo que se fala hoje em Entrimo. E suponho que a pessoa mais purista da Real Academia nom pode negar isso”

Eu nom vou dizer às pessoas o que vam falar. Evidentemente, em Esquece Monelos Liaño Flores vai-nos falar em castelhano. Houve gente a quem lhe tive de insistir para que me falassem em galego porque há esse auto-ódio de ‘como vou eu sair na televisom falando nesta língua?’. Mas neste caso, que é ficçom… como vam falar em castelhano nas montanhas do Gerês um filme ambientado em 1907? Ou seja, para mim já nom é umha questom ideológica, é umha questom de verosimilhança artística, porque a língua faz parte do próprio processo do filme.

Aí, claro, estamos a escrever o guiom como podemos, nom tem ainda essa pegada, mas para isso contaremos com umha pessoa para a revissom linguística do texto, para poder chegá-lo a esse modelo híbrido. Tentaremos que nom seja o galego contemporâneo nem seja o português contemporâneo, senom essa lingua da raia. Teremos também um assessor linguístico para poder trabalhar com os atores a parte fonética, porque nom se trata de dizer ‘eiquí’ em vez de ‘aqui’. O mais caraterístico dessa zona linguística som as caraterísticas fonética, penso.

– A parte artística nom só se limita ao texto, entom…

Som muitos trabalhos e é um processo muito longo. A parte artística nom se limita só ao guiom. Por exemplo, Mercedes Peón vai fazer a banda sonora. E ela nom está a produzir, mas contamos com a sorte de que ela mesma tem um arquivo enorme e pensa que esta história pode ter muitos sons que ela pode desconstruir. Com Mercedes falo muito, e ela está ao tanto dos giros do guiom, de todas as novidades… Sempre que lhe vêm cousas à cabeça… Nisso já estamos trabalhando.

– É um luxo poder contar com Mercedes Peón para este projeto.

Sim, a verdade é que sim. Eu disse-lho. Nom tenho opçom B porque nom há ninguém na Galiza que tenha esse conhecimento tam fundo do nosso património musical do ponto de vista etnográfico e à vez essa capacidade de criaçom e novos sons. Do meu ponto de vista e tendo também em conta os músicos maravilhosos que tem este país. Também está toda a questom da construçom do género, que tem parte também das suas formulações artísticas e vitais.

Claro, este projeto também vai ter música incidental e nom incidental. Quero dizer, incidental como na cena na que há mulheres num fiadeiro, entram uns homens e começa a regueifa. Aí pode ajudar-nos muito Mercedes a localizar coplas. Ela está muito entusiasmada com criar espaços sonoros, nom obrigatoriamente tonais, ruídos que contribuam a gerar por um lado esta marca de género gótico no filme, esta representaçom dos mortos e do além… e por outro lado o acompanhamento subjetivo do mestre para o coraçom da noite. No seu cérebro passam cousas, escuita cousas… e aí também está a ajuda de Mercedes.

– Que expetativas tens no projeto, que ainda tem caminho por diante?

Bom, eu penso que nom está num estádio inicial. De fora, o grande público pensa que até que nom dás a primeira claqueta, é algo inicial. É um projeto em que levamos trabalhando dous anos, em que há milhares de horas de investigaçom etnográfica, em que há trabalho de reflexom de questons ortográficas… Eu nom o sinto tam inicial, sinto que está num ponto criativo interessante. É um ponto em que sei que a participaçom nestes dous fóruns de desenvolvimento –EAVE e o laboratório da SGAE– vam ajudar-nos a dar certas voltas que nom som capaz de ver agora. Depois, pessoalmente, estou num momento em que já me apetece passar à açom. Por isso gosto da ideia da curta. Tenho vontade de trabalhar com os atores, concretizações de sítios onde pode ser a rodagem, fazer algum obradoiro com atores nom profissionais… Ir por aí polo Gerês. Tenho muita vontade de aterrar.

Levantar umha longametragem é um processo muito longo. Nom o vivo como se fosse algo prévio e o de verdade começasse depois. Nom. Depois nom sei como vai ser a distribuiçom. Sabemos que o filme vai estar em galego-português e isso pode comportar certas dificuldades de distribuiçom, e acho que a questom de género vai conseguir que o filme seja atrativo.

– Tens localizações em mente já?

Aí entra também a coproduçom com Portugal, porque há percentagens de dias de rodagem que serám em Portugal e ainda nom sabemos se vam ser exteriores, interiores… Intuitivamente diria que faremos exteriores em Portugal porque neste país há um nível de desfeita incrível. Eu entendo que o Monelos estivera desfeito, mas nom acabo de entender porque umha aldeia de Muinhos tem esse ponto de feísmo. Tu cruzas a raia e já nom é igual. E digo-o com dor de ser galega de adoçom.


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  • Paulo Gamalho

    Muita sorte, Ángeles! A história e o projecto são espectaculares!