TENTATIVAS

Amores fugazes de marinheiro



Que terám de especial os amores fugazes de marinheiro para tanto ser cantados? Será porventura o poder hipnótico da inconstáncia do mar, sempre recomeçado? Será a nostalgia que o mar suscita, ritmo e horizonte irredutivelmente indiferentes ao pesadume do coraçom? Será, talvez, a imagem arquetípica da vagabundagem sem raiz nem destino que o jovem marinheiro encarna?

A fugacidade do encontro amoroso, que o mar trouxe e o mar levou, desde o pequeno quarto de qualquer Berbés portuário, entre dous seres desejantes, alheios dantes e irremediavelmente alheios depois, é o fio da história. Metáfora exata dos extravios do destino.

A nostalgia da separaçom foi cantada entre nós na maravilhosa melopeia da amada que atendia o seu amigo na ermida de Sam Simom, cercada das ondas incessantes do poeta Meendinho ou no canto da amada de Martim Codax que interrogava as ondas do mar de Vigo polo amigo perdido, ai Deus, se vier cedo! Mar, amor e demora, cantadas em maravilhoso galego germinal que soube rimar amor com mar e com separaçom.

Flutuam no recordo coletivo da Espanha e Portugal as saudades de amores marinheiros inesperados e irremissivelmente perdidos: Tatuajena Espanha, Barco Negroem Portugal som as cançons que consagram a lembrança dos amores inconstantes sem retorno possível. Letra e música e, por cima de todo, a pátina da voz que lhe deu vida perdurável.

Querem os poetas que seja a voz feminina a única legitimada para cantar a dolorosa intensidade do amor sem esperança. Conchita Piquer (Valência, 1906-1990) e Amália Rodrigues (Lisboa, 1920-1999) encarnárom na memória coletiva as amadas abandonadas de todos os mares que no mundo há. O poder da palavra poética masculina transmutada em voz feminina alcança foi a eleita por Meendinho e Martim Codax, Xandro Valerio e David Mourão Ferreira. Que a lux perpétua e meridional de Paul Valéry os tenha a todos na sua glória.

Os Xandros e os Davides nada seriam sem as Conchas e as Amálias. A voz que clama no deserto salgado polo amigo irrecuperável só pode ser de mulher. Só ela sabe cantar a perda irreparável depois de Orfeu ter perdido Euridice sem remédio. Cada mulher com a sua voz própria. A delicadeza tonadilheira de velho disco de vinilo na voz de Concha, a insondável tristeza do fado na da Amália. Concha é memória insistente, Amália, eterna. Talvez por isso sentimos a obrigaçom a lhe render tributo de gratidom ante o cenotáfio que a comemora na Basílica lisboeta de Santa Engrácia; essa que nunca se dava acabado. Conchita merece, polo contrário, um delicado lifting modernaço como o dessas pinturas enegrecidas polo fume dos cigarros dos devotos do cabaret. Graça que lhe foi concedida polo lápis viperino e grafiteiro do Nazário. O mesmo com que Robert Crumb retratou á Onipotência Paternal do Génese e a soidade irremediável de Kafka.

Como Tristám, que agonizava olhando o mar enigmático que nom lhe devolvia Isolda antes de morrer, as amantes fugazes nada mais guardarám na memória dolorida que a imagem sonhada de um barco negro dançando na luz ou dum debuxo, já apagado polos anos, de umha tatuagem imprecisa presa num peito que foi, por um momento, refúgio companheiro.

 

 

 

Joám Lopes Facal

Joám Lopes Facal

Nascim e vivim na aldeia até os quinze anos, Toba, ao pé da ria de Corcubiom, frente ao Pindo. Figem-me economista despois de engenheiro e aí desenvolvim a minha atividade profissional até o momento de me reformar. A economia é ademais um vício particular: ler atentamente e tentar compreender a informaçom económica cotidiana, ter sempre sobre a mesa um livro de economia.
Joám Lopes Facal

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