FILMES DE BONAVAL

Entre Línguas: “Os outros galegos”



  1. Prefácio

No décimo aniversário da publicação do Entre Línguas, um dos primeiros produtos audiovisuais realizados polo movimento reintegracionista, vem a lume esta série de artigos em que pretendemos estudar do ponto de vista linguístico os cinco territórios raianos em que foi gravado este documentário. Acrescentam-se ainda mais duas localidades; uma salamanquina, a Bouça[1], onde o português já tinha desaparecido em 2009 e outra no Baixo Alentejo, Barrancos,  em que se dá um fenómeno idiomático semelhante ainda que de signo contrário, pois nele o castelhano é a língua menorizada e hibridada com a estatal, o português.

xalma entre linguas

Foi na Ascensão de 2007, numa dessas noites compostelanas de pub em pub, quando a ideia veio à cabeça do Eduardo Maragoto: vamos para o Xalma já! A mim não me deu convencido, no entanto à Vanessa Vilaverde sim. E cedinho, quase sem dormirem, partiram os dous armados de uma singela gravadora para aquele recanto raiano da Estremadura espanhola. Nesta viagem relâmpago apenas fizeram umas poucas entrevistas, mas já estabeleceram algum contacto, como o de Tonho Corredera, um intelectual valverdeiro.

Durante anos tínhamos escutado a teoria de que no norte da província de Cáceres havia três lugares que ainda falavam galego, como consequência de uma repovoação medieval. Lembro a minha surpresa, quando em 1991 no programa “Sitio Distinto” da TVG, o Reixa entrevistou um camionista valverdeiro. Certamente, o dele era um dialeto que parecia muito semelhante às nossas falas populares.

Eu já tinha visitado as três vilas em 2002, percebendo a proximidade linguística e ainda a simpatia que subitamente surgira entre aquelas gentes e o povo galego. Nessa altura, na Universidade de Vigo, Henrique Costas já levava anos organizando expedições para conhecer e investigar os “irmãos” perdidos…

Discentes ingénuos, docentes que viam aqui uma desejada internacionalização do idioma, nacionalistas à procura de colónias ultramontanas ou simples curiosos peregrinavam e peregrinam ao vale do rio das Elhas e os seus moradores, valverdeiros, manhegos e lagarteiros, correspondiam, e correspondem, hospitaleiros, felizes de que alguém se lembre de umas terras tão belas, quão esquecidas.

E foi assim que o Xalma apareceu nos mapas do galego (oficial), como as Ilhas Canárias aparecem nos do Reino Bourbónico, lá num cantinho.

Galego em Cáceres? O Eduardo não acreditava em repovoações medievais para explicar que naquela parte da Raia falassem, finalmente, umas formas de galego-português mais ou menos arcaicas, mais ou menos castelhanizadas, e convenceu-nos. Ai! como ajuda o reintegracionismo para compreendermos e conhecermos o galego.

Outro precedente deste documentário encontramo-lo na recolha que, em janeiro de 2008, fizéramos eu e o Eduardo polos concelhos de Negreira e Avanha. Neste caso usamos apenas um aparelho gravador de som antigo… ainda daqueles de cassetes! Incrível o que ali encontramos: Futuros do conjuntivo, dias da semana ditos à portuguesa, expressões como “por acaso”, lusismos raivosos, uma fonética… Meu Deus! Aqueles velhotes tinham data de caducidade, andavam na casa dos oitenta, noventa… Era preciso registá-los antes de perderem a vida ou a cabeça, pois como já sabemos a biologia é inexorável desde que na sopa primordial oceânica a instrução da morte foi marcada no DNA celular.

“Incrível o que ali encontramos: Futuros do conjuntivo, dias da semana ditos à portuguesa, expressões como “por acaso”, lusismos raivosos, uma fonética…”

E, por outra parte, no seio do movimento reintegracionista eram muitos os que vinham advertindo da necessidade de entrar no mundo audiovisual, mas a primeira peça demorava a aparecer…

Sabíamos da sobrevivência de mais quatro enclaves com dialetos raianos portugueses nas províncias espanholas de Samora, Salamanca, Cáceres e Badajoz, para além do Xalma. A hipótese de partida foi que os fenómenos linguísticos que se deram nestes territórios, onde o português esteve submetido durante séculos à pressão do castelhano, a língua oficial, deveriam guardar muitas semelhanças entre si, similitudes que se alargariam ao Xalma e mesmo às falas galegas submetidas, também, a um processo semelhante.

Assim foi que, para fazermos o documentário, escolhemos estes cinco territórios:

  1. Calabor, no concelho de Pedralba de la Pradería, no leste da província de Samora e sem contacto territorial com a Galiza.
  2. Almedilha, concelho do sul da província de Salamanca.
  3. Região do Xalma, no norte da província de Cáceres, que compreende os concelhos de Valverde, São Martinho de Trevelho e as Elhas.
  4. Ocidente da região de Alcântara, abrangendo os concelhos de Ferreira de Alcântara, o Casalinho e Valença de Alcântara, no sul da província de Cáceres, e o concelho da Codosseira[2], no norte da província de Badajoz.
  5. Região de Olivença, próxima da cidade de Badajoz, que se estende polos concelhos de Olivença e Talega (este já sem falantes nativos).

Por fim, em outubro de 2008, lançamo-nos à aventura, uma pesquisa in situ (complementada previamente de uma ampla documentação bibliográfica). Compramos uma câmara de vídeo doméstica, um microfone de gravata e aos poucos dias estávamos a gravar em Calabor. Logo viriam Almedilha (já compráramos uma segunda câmara), Alcântara, Xalma e Olivença. Na realização das entrevistas tentamos abranger, no possível[3], todas as faixas etárias e ainda falantes espontâneos e neofalantes.

Em dezembro de 2009 foi editado este trabalho audiovisual com o nome de Entre Línguas [4], constando de dous DVDs, um DVD com o próprio filme, uma curtametragem de meia hora de duração, e outro DVD de extras intitulado Documentos, com duas horas de entrevistas.

O coletivo formado por Eduardo Maragoto, Vanessa Vilaverde e por mim próprio foi batiçado por J. R. Pichel como “GLU-GLU” (siglas que significam galego língua útil, galego língua universal). O nome era simpático e ainda perdura entre nós, mesmo que no nosso segundo trabalho o trocássemos polo de “Filmes de Bonaval”, de ar mais sério e remetendo para o grupo reintegracionista de base onde o nosso trio se formou, a Assembleia Reintegracionista “Bonaval”. Aquela Assembleia, nascida entre as veneráveis pedras que hoje albergam o Museu do Povo Galego, antes mosteiro de S. Domingos de Bonaval, foi berço da nossa amizade e escola de ativismo cultural.

Entre Línguas converteu-se na primeira parte de uma trilogia audiovisual. Na seguinte curtametragem  Em Companhia da Morte[5], deslocar-nos-íamos à freguesia portuguesa de Castro Laboreiro[6] com a desculpa de nos encontrar com o Acompanhamento (a Santa Companha da literatura galega), para mostrarmos ao público galego uma língua cem por cento galega e quase pura, quer dizer, para mostrarmosportugueses que ainda falam à galega. A trilogia concluiria com a gravação d’A Fronteira Será Escrita[7], protagonizada por limiãos dos concelhos de Lóvios e Entrimo, onde ainda se conserva a antiga fonética galego-portuguesa, a que explica a ortografia atual do português.

Devo esclarecer que a nossa vocação não era tanto audiovisual, mas reintegracionista. A nossa pesquisa, é claro, não pretendia apenas questionar uma teoria particular sobre um território concreto, mas a identidade das falas galegas. A causa particular tornava-se assim em causa geral.

Enfim, com Entre Línguas quisemos deixar memória de umas falas peculiares, em grave perigo de extinção e quase desconhecidas, que pola sua convivência secular com o castelhano podem, do nosso ponto de vista, ajudar a esclarecer a tão debatida questione della lingua na Galiza, o debate que desde há décadas mantêm os defensores de que o galego é o português da Galiza (ou o português o galego de Portugal!) e aqueles outros que defendem o galego como idioma separado e diferenciado do português.

Dito por outras palavras, o que pretendemos demonstrar poderia resumir-se de forma simplista na seguinte equação:

falas galegas (atuais)= português + castelhano + dialetalização

Permita-se-nos em consequência (e apesar de não haver mais contínuo linguístico que o que passa por Portugal!) batizarmos estas falas como “os outros galegos”.

Em sucessivos capítulos iremos descrevendo de norte a sul cada uma destas variedades dialetais e a sua possível origem.

(Continuará)

[1] O concelho da Bouça fica no norte da província de Salamanca. Foi historicamente lusófono, mas na atualidade já não conta com falantes espontâneos, quer dizer, pessoas nascidas nele que aprendessem o português como língua materna. Segundo as informações de que dispomos os últimos faleceram na década de 70′ do século XX.

[2] Talvez, Codesseira em origem.

[3] Estas variedades dialetais estão em grave perigo de extinção e na maior parte destes territórios só se conservam vivas entre pessoas anciãs.

[4] Varela Aveledo, J.J. /  Sanches Maragoto, E. / Vila Verde Lamas, V. (2009): Entre Línguas (Compostela).

[5] Sanches Maragoto, E. / Varela Aveledo, J.J. / Vilaverde Lamas, V. (2011): Em Companhia da Morte (Compostela).

[6] Crasto Leboreiro nos documentos medievais e Crasto ainda na boca do povo.

[7] Vilaverde Lamas, V. / Sanches Maragoto, E. / Varela Aveledo, J.J. (2016): A Fronteira Será Escrita (Compostela).

João Aveledo

João Aveledo

João José Varela Aveledo é "bichólogo", "boticário sem botica" e professor de Laboratório Clínico e Biomédico. Membro da Associaçom Galega da Língua (AGAL), na década de '90 da centúria passada foi um dos mais destacados membros da Assembleia Reintegracionista Bonaval. Daquela época procede a sua alcunha, João de Bonaval, anos mais tarde levada para o âmbito audiovisual no projeto coletivo Documentários de Bonaval, sob cuja autoria se publicaram obras como Entre Línguas ou Em Companhia da Morte. Na sua faceta literária, João Aveledo reuniu no poemário Arceia um fruto madurado durante duas décadas.
João Aveledo

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  • Ernesto V. Souza

    Muito bom. Que grande trabalho foi esse e pioneiro. Cumpre lembrar.

    Apertas,

  • https://pgl.gal Valentim R. Fagim

    As noites compostelanas quantos bons produtos emanam…

  • António Gil Hdez

    Ah, o João persistente e mesmo pertinaz. Ah, o Eduardo (Duarte?) companheiro do Joáo em persistências pertinazes até.

    FELICITO-VOS!
    Eu confirmo, na teorização, tudo o que bem recolhestes e assinalastes. Foi através do artigo do Fernández Rei publicado em A fala, compilacação de textos apresentados (acho) no primeiro Congresso sobre A Fala. Achei, seguindo os dados e mesmo as explicações do F. Rei, que todas essas falas e não só as do vale de Xalma são “produto” da “geografia” e da “história”, da situação, das comunicações (ou, antes, incomunicações) das invasões bourbónicas e anteriores, do irem e virem das pessoas sem se moverem da sua terra, segundo fossem súbditos do rei de Portugal ou do rei de Castela (depois, Spain).
    Felizmente vós, caros Eduardo e Joáo e todos os colaboradores vossos, não sois cegos que conduzem outros cegos (como … enfim). Felicidades! (E bom ano 2020.)

    Há uma observação última que tenho já publicado: Os ILGaeiros (agora também Ragaeiros) procuravam nessas falas a demonstração experimental das suas “teses” anti-reintegracionistas ou, antes, das suas hipóteses isoladoras: essas falas demonstrariam que o “galego”, o seu “galego-lingua-de-seu” ou ilgarragaeiro era diverso e até divergente do Português formalizado ou acordado já no séc. XI … XII, em que, segundo eles, se acham hoje os valverdeiros.
    Curiosa e mitificante “teoria” muito própria dos “filóloXos” argalhadores dessa ciência profunda que é a “filoloXía ilgarragaeira” sob a sombra do “reino del bourbon”, descendente (ou quase) de aquele ilustre político, Godoy, o conquistador de Olivença na “Guerra de las naranjas” e amante satisfatório da rainha Maria Luisa de Parma.
    (https://www.lavanguardia.com/historiayvida/historia-contemporanea/20180207/47314334088/las-tres-mujeres-de-godoy.html)