Alexandre Rodríguez: “Após um período considerável de ensino de português nas escolas da Galiza os resultados iriam ser bem visíveis”



Alexandre Rodríguez Guisantes é guardês de 18 anos, e apesar da proximidade de Portugal, a sociedade do seu concelho está muito castelhanizada. Ora, a ele, essa proximidade permitiu-lhe ter uma visão internacional da sua língua, num primeiro momento através da columbofilia. Estudou português no IES A Sangriña. O ano Carvalho Calero foi fulcral para o seu reintegracionismo. No próximo ano letivo vai começar Filologia.

Alexandre é da Guarda. A proximidade de Portugal tem alguma influência na saúde social do galego no teu concelho?

A situação do galego na Guarda acho que é muito complexa. Do meu ponto de vista, a sociedade guardesa está muito castelhanizada. Acredito que o castelhano seja a primeira língua de uso público pela população. Embora nos âmbitos domésticos o galego possa melhorar um pouco a sua situação. Apesar disso, o castelhano deve ser, sem dúvida, a língua mais utilizada na minha vila.

No que diz respeito à proximidade com Portugal, acho que muito poucas são as influências para a situação do galego na Guarda. O evidente afastamento do galego na sociedade faz com que as interferências sejam mínimas e, na maioria das vezes, impercetíveis. Pois, elas produzem-se, em geral, na área individual e isto, ainda que necessário, não é suficiente. Considero que essas influências deveriam ser sistemáticas e não eventuais.

O teu contacto com o reintegracionismo está ligado à columbofilia.

No ano 2015 iniciei-me na prática da columbofilia. Nesse ano associei-me na União Columbófila Valenciana, de Valença do Minho. Fazer parte de uma coletividade portuguesa foi importante já que passei de ser um simples visitante em Portugal, como fazia normalmente para ir às compras, para dar um passeio, para ir a uma festa; a ser um indivíduo mais do grupo. Isto fez com que mudasse muito tanto a minha visão dos portugueses em geral como a visão dos portugueses que eu ia conhecendo sobre mim. A partir dessa altura comecei a relacionar-me com bastantes pessoas portuguesas, e a consumir muitos conteúdos em português que tinham a ver com a columbofilia. Isto levou para também começar a consumir conteúdos culturais portugueses e de países lusófonos de todo o tipo. Foram estes os alicerces para a minha posterior afirmação como reintegracionista.

Entras na escola secundária, na Sangrinha, em 2016. No liceu ensina-se português. Em que medida é importante, para a saúde do galego entre os adolescentes, que exista uma matéria de português no ensino obrigatório?

Na minha opinião, ter a oportunidade de estudar português na escola secundária é ótimo. A maior parte dos estudantes tem como língua de uso normal o castelhano. As aulas de português servem muito para reforçar o seu desenvolvimento com o galego. Pois, para um estudante de português, torna-se evidente que aquilo que está a estudar não é assim tão diferente do nosso galego. Isto ajuda no prestígio da língua, é fácil aperceber-se da dimensão do galego-português no mundo nestas aulas. Aliás, nessas aulas de português consegue-se recuperar para o galego estruturas sintáticas, fonéticas e léxico tradicionais que se tinham perdido por influência do castelhano.

É por isso que acredito que seja fundamental que se ofereça a oportunidade de ter aulas de português nas escolas do ensino obrigatório galego. No IES A Sangrinha já há bastantes anos que se oferece esta possibilidade e é um sucesso, tanto para a formação linguística e cultural dos alunos e alunas como para a divulgação da lusofonia entre o corpo docente e a sociedade guardesa no seu geral.

Numa primeira fase escrevias em português mas não te julgavas reintegracionista.

Eu, desde 2016, já ia fazendo os meus apontamentos pessoais em português porque estava o dia todo a me relacionar com gente portuguesa, por causa da prática da columbofilia, e sentia-me muito cómodo escrevendo nessa língua. Depois também passei a fazer pequenas alterações ortográficas nas conversas pelo WhatsApp com as minhas amizades e coisas do género. Eu, nesses tempos, não me considerava reintegracionista, simplesmente escrevia em português, não relacionava aquilo pouco que eu conhecia do reintegracionismo com o que eu estava a fazer.

O ano Carvalho Calero, em 2020, foi importante neste processo de te tornares reintegracionista?

Foi, foi mesmo decisivo. Foi em 2020, com o ano Carvalho Calero, graças às iniciativas de divulgação do reintegracionismo que se desenvolveram, que conheci mais este movimento e apercebi-me que, por acaso, eu já era reintegracionista, que já estava nesse caminho de reintegração linguística e cultural.

Foi em 2020, com o ano Carvalho Calero, graças às iniciativas de divulgação do reintegracionismo que se desenvolveram, que conheci mais este movimento e apercebi-me que, por acaso, eu já era reintegracionista, que já estava nesse caminho de reintegração linguística e cultural.

Alexandre vai começar a sua carreira universitária e o seu foco é a filologia galega, gostando de fazer, como minor, a portuguesa. Quais as tuas expetativas?

As minhas expetativas são continuar a conhecer a realidade e a me desenvolver nela. Como campo principal aparecem a filologia galega e portuguesa, pois são as suas características nas quais eu gostava de aprofundar ainda mais e me dedicar profissionalmente num futuro. Acho que este deve ser o âmbito em que eu possa progredir de melhor maneira e em que possa aproveitar de maneira correta as minhas aptidões. Além disso, estou com muitas vontades de começar o meu curso universitário em relação às mudanças e aprendizagens que isso supõe para o meu percurso vital.

Recentemente fizeste 18 anos e decidiste fazer parte da tripulação da Agal. Que te motivou a te tornar sócio da Agal e que esperas do trabalho da associação?

Já há algum tempo que tenho vontades de integrar a AGAL, desde que me reconheci como reintegracionista. Portanto, pus como objetivo associar-me ao fazer os dezoito anos, e assim foi. As iniciativas que esta associação desenvolve são muito conhecidas e atraentes, eu gostava de ajudar no que pudesse e contribuir para a sua difusão e reconhecimento. Aguardo, também, estabelecer um contato direto com mais integrantes da associação e assim poder avançar nos meus conhecimentos, e na minha perceção, sobre o reintegracionismo.

Pensando nas pessoas da tua idade, quais seriam as melhores iniciativas para lhes mostrar que a nossa língua é extensa e útil?

Como antes referi, acredito que o essencial seja estabelecer o ensino de português em todas as escolas da Galiza. Creio que após um período considerável de ensino de português nas escolas da Galiza os resultados iriam ser bem visíveis. Ademais, também estaria bem aproximar a Galiza e Portugal nos âmbitos culturais, linguísticos, económicos… Com a Lei Paz-Andrade foram criados esses alicerces para a cooperação e a convergência, mas acredito que ainda falte muito para os desenvolver de maneira total. Cumpre aos governos, tanto ao autonómico como aos municipais, explorar esses caminhos previstos para a relação com a lusofonia procurando aquilo que nos liga e não o que nos diferencia, para assim valorizar verdadeiramente o status internacional da nossa língua.

Acredito que o essencial seja estabelecer o ensino de português em todas as escolas da Galiza. Creio que após um período considerável de ensino de português nas escolas da Galiza os resultados iriam ser bem visíveis.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2050?

Eu gostaria que no ano 2050 a situação do galego na Galiza fosse de total normalidade. Gostaria que o galego estivesse fora de perigo, normalizado e fosse usado em todos os âmbitos de comunicação pela completa maioria da população local.

Para chegarmos ao ano 2050 somente restam vinte e oito anos. Por isso, acredito que seja bastante difícil que estas minhas expetativas se possam tornar realidade. Seria indispensável que fossem desenvolvidas medidas importantes e efetivas pelos governos galegos para a consecução destas metas. Estamos perante um momento decisivo, é agora que há que agir para reverter a situação linguística. Caso contrário, pode ser que em 2050 a situação seja totalmente diferente e o galego só resista como língua ritual.

Conhecendo Alexandre Rodríguez Guisantes

Um sítio web: Site da União Columbófila Valenciana.

Um invento: Telemóvel.

Uma música: Para che falar de amor, Andrés do Barro.

Um livro: Carrusel, Berta Dávila.

Um facto histórico: Proclamação da I República Galega no dia 27 de junho de 1931.

Um prato na mesa: Polvo à feira.

Um desporto: Petanca.

Um filme: Sempre Xonxa.

Uma maravilha: Rio Minho.

Além de galego/a: Columbófilo.

Valentim Fagim

 


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