Alexandre Garrido: “Falar galego na universidade tornou-se num ato de resistência”



alexandre garrido 02Alexandre Garrido é um paleo falante da Estrada onde a fotografia linguística mudou de tonalidade com as últimas gerações. A universidade para ele representou um choque linguístico. Ativista juvenil bem como no movimento LGTB que por volta do presente ano volta a se expressar em galego. Gostava que se institucionalizasse o binormativismo, partilhando o espaço público as normas ILG e o nosso padrão.

Alexandre é um paleofalante da Estrada. Nascem muitos paleofalantes na atualidade no teu Concelho?

Na atualidade não estou certo, já que há más de dez anos que não moro lá. Quando eu era cativo éramos maioria galegofalantes nas aulas, e também o era o professorado, mas quase toda a gente nova que conheço da vila de menos de 20 anos fala espanhol. Biologia-antropologia-educação é a sua tríade formativa.

Lembra agora a tua passagem polo ensino secundário. Como era a fotografia linguística das turmas e dos docentes? Que importância ou valor tinha falar uma ou outra língua?

Como dizia, entre o alunado éramos maioria galegofalantes, e o professorado tinha consciência na defesa da língua, nesse senso tivem muita sorte e foi quando cheguei ao ensino universitário quando levei o choque linguístico, sendo apenas 5 alunas em 90 as que falávamos galego e tendo dois professores em todo o grau que dessem aulas em galego.
Quando estava no escola falar em galego era apenas o normal, mas na universidade tornou-se num ato de resistência.

Somas dez anos de trabalho a favor da língua em Galiza Nova. Que ações se podem empreender a partir de uma associação de âmbito juvenil? Qual a receção?

Pois desde atos de denúncia da vulneração dos direitos linguísticos, denúncia de sinalética pública em espanhol, atividades de promoção da cultura em galego como certames de poesia ou de relato curto… mas para mim o trabalho mais fundamental que organizações como Galiza Nova fazem em defesa da língua é fomentar um ambiente político no qual defender qualquer causa justa em espanhol é impensável, do mesmo jeito que se olharia como uma contradição evidente defender o meio-ambiente com uma campanha machista.

Defender qualquer causa justa em espanhol é impensável, do mesmo jeito que se olharia como uma contradição evidente defender o meio-ambiente com uma campanha machista.”

És também ativista do movimento LGBT na organização Avante LGBT. O galego costuma fazer parte dos movimentos sociais periféricos. Acontece o mesmo com o ativismo LGBT?

O movimento LGBT galego, tal como em muitos outros lugares, é difícil de analisar como um bloco monolítico do ponto de vista histórico, já que de jeito similar ao feminista decorre em ondas e quando se conquistam uma serie de objetivos estratégicos esmorece até receber outra influência que fai com que reviva. Se olharmos o movimento LGBT galego nos anos 90, é um movimento 100% em galego, e inclusive a maior parte dos cartazes que vemos nas fotos das manifestações ou os grafítis nas ruas estavam em reintegrado.

“No ano 2017 nasce Avante LGBT+ nesse caldo de cultura e tendo como objetivo re-galegizar o movimento e servir de espaço de organização para as pessoas LGBT galeguistas e anticapitalistas de todo o país”.

Nos inícios dos anos 2000 chegam dinâmicas espanholas arredor da luta polo matrimonio igualitário e a lei de mudança de nome e sexo no registo, aparecendo núcleos ativistas que não sempre empregam a língua galega. Obtidas essas reformas legislativas a maior parte desses grupos desaparecem, restando apenas as organizações conformadas por pessoas nacionalistas de corte mais radical (não interessadas em instituições burguesas como o matrimónio), e a organização Nós Mesmas em Vigo, que passa a ser a única organização “institucional” do país e oferecendo uns serviços como o apoio legal e psicológico que organizações mais de base não podem oferecer. Não sendo de corte galeguista e formando parte da FELGTB, Nós Mesmas sempre defendeu o uso do galego.

alexandre garrido 03Já na década de 2010 começa um novo florescimento do movimento LGBT+, desta volta já mui espanholizado com organizações como A.L.A.S. ou Chrysallis com uma atividade totalmente em espanhol e seguindo dinâmicas espanholas impostas pola FELGTB. No ano 2017 nasce Avante LGBT+ nesse caldo de cultura e tendo como objetivo re-galegizar o movimento e servir de espaço de organização para as pessoas LGBT galeguistas e anticapitalistas de todo o país.

Assim sendo, tanto por servir de referente positivo, como por factos como exigir às outras organizações que as suas publicações estejam em galego como requisito para partilhá-las ou para qualquer colaboração entre organizações, ou com a aparição de organizações novas como Amizando e Arelas, lideradas por companheiras galeguistas, podemos dizer que o movimento LGBT galego pola altura de 2020 volta a falar galego.

És biólogo mas agora estudas Antropologia na UNED e estás a começar um doutoramento em educação. São muitas vias mas qual te seduz mais e porquê?

Sem dúvida o doutoramento porque vou a trabalhar em temática LGBT (incorporando uma perspetiva e metodologia antropológica) e porque acho que vai ter um impacto real na sociedade.

Como é a tua relação com a estratégia reintegracionista? Que te dá ou que esperas dela?

Levo uns 5 anos escrevendo na minha própria forma da normativa de mínimos ortográficos (com nh, lh, e separando os pronomes com traço) e a partir de um ateliê que organizamos no passado verão com Eduardo Maragoto quero aprofundar no conhecimento do padrão português e escrevê-lo em todos os âmbitos. Espero difundir o seu uso e conscientizar a sociedade galega de que temos uma história e uma cultura comum com outro povo ao sul do Minho, e sobretudo de que não somos espanhóis.

Que te motivou a te tornares sócio da Agal e que esperas do trabalho da associação?

Quero pôr o meu grau de areia a apoiar a opção reintegracionista e espero ser de ajuda apesar do meu pouco tempo livre.

Imagina estarmos em 2040. Dás um passeio na rua, visitas uma loja, entras num café, conversas com os amigos polo whatsapp da altura… como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza nessa data?

Gostaria que o uso do galego estivesse completamente normalizado e desaparecesse a diglossia. Poder usar o galego em qualquer âmbito e espaço sem que implique nenhum problema. Também gostaria de que se institucionalizasse o binormativismo, partilhando o espaço público as normas ILG e o nosso padrão.

Conhecendo Alexandre Garrido:

Um sítio web: estraviz.org

Um invento: o micro-ondas

Uma música: O meu amor de Leilía

Um livro: Ética Marica de Paco Vidarte

Um facto histórico: o próximo 5 de abril quando fizermos presidenta Ana Pontón

Um prato na mesa: a tortilha de pataca

Um desporto: as caminhadas

Um filme: O Atlas das Nuvens

Uma maravilha: Ortigueira

Além de galego/a: se a pergunta faz referência à minha identidade, além de galego sou marica. Se faz referência às línguas que falo, também falo inglês quase nativo, um bocadinho de alemão e dinamarquês (morei em Dinamarca 2 anos e estudei alemão 3), e percebo o francês e o catalão, mas não os falo bem.

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim


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