Alberto Paz Félix: “Nunca ouvi tanto galego como num autocarro universitário”



fotoentrAlberto Paz Félix, é um novo sócio da AGAL e colaborador do PGL, nasceu galego-falante em Carnota, castelhanizou-se na Corunha e nesta mesma cidade, na universidade, regressou às origens. A isca filológica é a literatura galega embora profissionalmente está-se convencendo para ser docente de português. Gosta do polimorfismo político da AGAL e na sua faculdade respira-se reintegracionismo.

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Alberto tivo um movimento pendular com a cidade da Corunha. Nasceu na Corunha, mas até os sete anos viveu em Carnota, onde cresceu galego-falante. Ao mudar-se com a família para Corunha, o castelhano instalou-se como 1ª língua. Lembras o processo?

Eu era pequeno demais para lembrar agora o processo exato de castelhanização, mas sim que sei que quando entrei no Instituto já falava apenas castelhano, e que ademais tive problemas para “recuperar” a língua galega. Ainda hoje continuo a ter numerosos castelhanismos na fala, como a má colocação dos pronomes e a pronunciação do n alveolar quando é n velar.

O regresso à língua materna decorreu ao entrar na Faculdade de Filologia, no ano passado. Havia um ambiente propício para regressares às origens?

Na Universidade, conheci muita gente galego-falante, o que me ajudou a conseguir falar o galego fora dos âmbitos familiares. Já não só no curso de galego-português, é em toda a Universidade que parece haver um maior número de galego-falantes que no Instituto. Nunca ouvi tanto galego como num autocarro universitário.

alberto-pazFilologia galego-portuguesa está longe de apresentar os números de inscrições que em décadas anteriores. Que te motiva a fazer este curso?

Eu sempre gostei de literatura, mas estes últimos anos os meus interesses foram-se dirigindo cara a literatura galega, pelo que gostei de aprender mais da nossa literatura e, com certeza, também da nossa língua.

A respeito da estratégia internacional da nossa língua, achas que na tua faculdade esse debate está presente? Os teus colegas poderiam argumentar ao respeito?

Este debate está muito pressente na minha faculdade, sendo muitos dos professores de galego-português reintegracionistas, e este debate transitou das aulas aos próprios estudantes. Muitos dos meus companheiros simpatizaram, em parte, com as ideias reintegracionistas. Se bem muitos deles ainda não escrevam em galego internacional, já muitos começam a pôr os seus telefones em português se não houver galego como opção.

Como bateste com o galego internacional? Antes ou depois de começar os teus estudos?

Antes de começar o curso já conhecia a estratégia internacional para a língua galega, mas foi no primeiro ano quando já entrei em contacto com esta maneira de compreender e de escrever a nossa língua.

Por onde gostarias de enveredar profissionalmente logo que tenhas concluído os teus estudos?

Por agora não tenho um rumo de vida decidido, mas estou cada vez mais interessado na língua e cultura portuguesas, assim que estou convencendo-me de ser professor de português.

Por onde julgas que deve transitar o reintegracionismo para avançar socialmente?

O principal objetivo do reintegracionismo, a meu entender, é conseguir ser conhecido pela maioria da sociedade. A divulgação do movimento reintegracionista, por agora, parece ser minoritária, e isso é um facto que há que mudar. Um movimento não pode triunfar se não for conhecido pela gente.

Que visão tinhas da AGAL, que te motivou a te associares e que esperas da associação?

Eu, quando me associei, tinha a visão de que a AGAL é o principal coletivo detrás do reintegracionismo, com gente de todas as ideologias políticas que têm em comum a maneira de escrever e de compreender o nosso idioma. Associei-me já que quero continuar a aprender sobre o galego internacional e a cultura lusófona.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2030?

Eu gostaria que no ano 2030 já pudéssemos começar a falar do início da recuperação da nossa língua, mas parece que o processo vai tardar mais do que muita gente gostaria, e cada vez aumentam as probabilidades de que não suceda nunca. Por agora, continuará o ascenso do espanhol, ao ser o galego reintegracionista minoritário, e o galego autonomista estar unicamente ajudado por umas autoridades pedagógicas e políticas que cada vez se interessam menos por ele. Espero que nas seguintes décadas a situação mude, mas é já um facto que no seguinte censo o castelhano já superará em falantes ao galego.

Conhecendo Alberto Paz Félix:

fotoentr2Um sítio web: http://www.rtp.pt/

Um invento: A máquina de vapor

Uma música: Peregrinações de Fausto

Um livro: Arraianos de Mendez Ferrín

Um facto histórico: 1917, Revolução Russa

Um prato na mesa: Arroz com fígado

Um desporto: Natação

Um filme: Capitães de Abril

Uma maravilha: Ria de Arousa

Além de galego/a: leitor

 

 

 


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  • Heitor Rodal

    Minha nai, a chama não se extingue.

    Parabéns e muito bem-vindo, Alberto!

  • Ernesto V. Souza

    Uma magnífica entrevista… com gente assim há futuro…

    Recordações ao Carlos Paulo, Ferreiro, Freixeiro & cia… https://youtu.be/8rTq_AEdCo8

  • José Ramom Pichel

    Bem-vindo Alberto! Muito temos de aprender da gente que vem trás de nós. Obrigado

  • http://www.notas.gal Eliseu Mera

    Bem-vindo, Alberto!

  • jot

    O roteiro dos paleo-neo-falantes está pouco divulgado e porém, esperemos, necessariamente terá de ser frequente, quase tanto como o dos neofalantes. Parabés pela entrevista!

  • Raimundo Serantes

    Grande verdade: “Nunca ouvi tanto galego como num autocarro universitário”. Eu também tivem essa sensaçom viajando de Compostela a Padrom de autocarro. É umha prova de que o galego resiste bastante bem no ambiente universitário de quem vem de fora da cidade e de que as políticas dignificadoras da língua em certo modo nom fracassárom completamente. Aplicando as políticas certas, há futuro para a nossa língua.