AS AULAS NO CINEMA

AGOSTINHO NETO, POETA, MÉDICO E IMPORTANTE POLÍTICO ANGOLANO



Dentro da série que estou a dedicar às mais importantes personalidades da Lusofonia, onde a nossa língua internacional tem uma presença destacada, e, por sorte, está presente em mais de doze países, sendo oficial em oito, dedico o presente depoimento, que faz o número 133 da série geral, a um importante médico, poeta e político angolano, que, após a independência do país, chegou a ser presidente de Angola de 1975 a 1979. Em 1922 nascia na localidade de Ícolo e Bengo (Angola) António Agostinho Neto. Médico, poeta e político angolano, considerado como o principal vulto do país no século XX. Foi o presidente do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e em 1975-76 foi-lhe atribuído o Prémio Lenine da Paz. Com este depoimento, a ele dedicado, completo o número vinte e um da série lusófona.

PEQUENA BIOGRAFIA

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António Agostinho Neto (1922-1979) foi o primeiro presidente da República de Angola. Era médico de profissão, poeta por vocação e um líder por natureza. Nascido a 17 de Setembro de 1922, na aldeia de Kaxicane, freguesia de São José, no município de Ícolo e Bengo, na província de Luanda, era filho do pastor metodista, Agostinho Neto, catequista da missão metodista americana em Luanda (sendo mais tarde pastor e professor nos Dembos), e da professora Maria da Silva Neto. Após concluir o ensino primário, entrou para o Liceu “Salvador Correia”, em Luanda, onde terminou o 7º ano em 1944. Depois, partiu para Portugal para frequentar a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.

Uma bolsa de estudo da igreja de metodistas dos USA para o filho do pastor, ajudou a Neto, a partir do seu segundo ano de residência em Portugal, a sobreviver na metrópole e perseverar no sonho de ser médico, continuando os seus estudos de medicina na Universidade de Lisboa, onde se licenciou. Foi em Portugal onde Agostinho Neto iniciou a sua ação política, fazendo parte da geração de estudantes africanos que viria a desempenhar um papel decisivo na independência dos seus países naquela altura, que ficou designada como Guerra Colonial Portuguesa. Em 1947, integrou o Movimento dos Jovens Intelectuais de Angola sob o lema “Vamos Descobrir Angola”. Em Coimbra, com Lúcio Lara e Orlando de Albuquerque, colaborou nas revistas “Momento” e “Mensagem”, órgãos da Associação dos Naturais de Angola. Em outubro de 1958 casou com a escritora, poetisa e jornalista portuguesa Maria Eugenia Neto, que conheceu num círculo de escritores em Lisboa em 1948. Com ela teve um filho, Mário Jorge Neto, e em 1961 uma filha chamada Irene Alexandra Neto. Que, aliás, em janeiro de 2017, passou a ser académica da AGLP. Ainda tiveram outra filha mais nova chamada Leda Neto.

Os seus poemas e artigos, aliados ao seu engajamento político fizeram com que fosse perseguido e preso pela PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado), órgão repressor da ditadura Salazarista que combatia os movimentos nacionalistas das colónias portuguesas de então. Foi deportado para o Tarrafal, uma prisão política em Cabo Verde. Posto em liberdade, retoma a atividade política e intelectual, fundando em Lisboa, em parceria com Amilcar Cabral, Mário de Andrade, Marcelino dos Santos e Francisco José Tenreiro, o Centro de Estudos Africanos, orientado para a afirmação da nacionalidade africana. Em 1951, é indicado como representante da Juventude das colónias portuguesas junto do MUD-Juvenil (Movimento de unidade democrática-Juvenil) português.

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Pela sua participação em atividades anticoloniais é novamente preso pela PIDE, em Fevereiro de 1955, e condenado a dezoito meses de prisão. Preso em Lisboa, Agostinho Neto não participa, em 10 de Dezembro de 1956, no ato de fundação do MPLA – Movimento Popular de Libertação de Angola.

Em 1957, é libertado pela PIDE e, um ano depois, licencia-se em Medicina pela Universidade de Lisboa e casa-se com Maria Eugénia Neto, como já comentámos, que era natural de Tras-Os-Montes.

Participa da fundação do Movimento Anticolonialista (MAC). Que congregava patriotas das diversas colónias portuguesas para uma ação revolucionária conjunta nas cinco colónias portuguesas: Angola, Guiné, Cabo Verde, Moçambique e S. Tomé e Príncipe. Pouco antes do Natal de 1959, Agostinho Neto, acompanhado da mulher e do filho, deixa Lisboa de regresso à Luanda, onde abre um consultório médico. Em paralelo com a sua atividade clínica, continua a sua militância a favor da independência e é eleito, em 1960, Presidente Honorário do MPLA. Preso pela terceira vez, em Luanda, Agostinho Neto é transferido para diversas prisões em Portugal e Cabo Verde.

O assalto às cadeias de Luanda, em Fevereiro de 1961, desencadeia a luita armada pelo MPLA, seguindo-se uma forte repressão colonial. Preso na cidade da Praia, em Cabo Verde, Agostinho Neto é transferido para a prisão de Aljube, em Portugal, onde permanece até Março de 1963. Libertado, em 1963, foge clandestinamente para Léopoldville (Kinshasa), e junta-se ao MPLA. Neste mesmo ano é eleito presidente do MPLA durante a Conferência Nacional do Movimento. A luita armada contra o domínio colonial intensifica-se até que, em Fevereiro de 1975, regressa a Luanda. Em representação do MPLA, Agostinho Neto participa em Alvor, Portugal, na assinatura do acordo para a constituição do “governo de transição”. A 11 de Novembro de 1975, Agostinho Neto proclama a independência de Angola. Dirige o MPLA e Angola durante os primeiros anos de independência, mas, doente, morre com 56 anos a 10 de Setembro de 1979, em Moscovo, capital da Rússia. Agostinho Neto deixou como legados, a independência e a liberdade do povo angolano. No dia 17 de setembro, Angola celebra o Dia do Herói Nacional, comemorando o dia em que Agostinho Neto nasceu.

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Neto na Academia Angolana de Letras.

Colaborou em várias revistas, jornais e publicações culturais e publicou diversos livros, dos quais se destacam o seu primeiro livro, Náusea (1952), Quatro Poemas de Agostinho Neto (1957), Com os Olhos Secos (1963), Sagrada Esperança (1974), A Renúncia Impossível (1982) e a sua Obra poética completa (2016, Fundação Agostinho Neto de Lisboa). Recebeu o prémio Lótus (1970) na 4ª Conferência dos Escritores Afro-Asiáticos e o Prémio Nacional de Literatura (1975). Entre as suas obras de tipo político e social destacam: Quem é o inimigo…qual é o nosso objectivo? (1974), Destruir o velho para construir o novo (1976) e Ainda o meu sonho (1980).

FICHAS DOS DOCUMENTÁRIOS

  1. Crianças falam sobre Dr. António Agostinho Neto.

     Duração: 3 minutos. Ano 2019.

     

  1. Presidente Doutor António Agostinho Neto.

     Duração: 4 minutos. Ano 2015.

     

  1. Exposição fotográfica sobre Agostinho Neto em Luanda.

     Duração: 2 minutos. Ano 2019.

     

  1. Agostinho Neto.

     Duração. 17 minutos. Ano 2017.

     

  1. Discurso do Presidente Agostinho Neto na proclamação da independência de Angola.

     Duração: 29 minutos. Ano 1975 (vídeo de 2013).

     Ver aqui.

ESTUDOS, FORMAÇÃO POLÍTICA E LUITA ANTICOLONIAL

Em Luanda obtém em 1934 o título de estudos primários, e em 1937, no Liceu Salvador Correia, inicia os estudos secundários, que termina em 1944. Após concluir o liceu, foi contratado pelos serviços administrativos da África Ocidental Portuguesa, para servir como funcionário dos serviços de saúde, neste tempo ampliando a sua visão do problema colonial. Para estudar medicina em Coimbra, deixa Angola e embarca para Portugal. Nesta cidade funda com outros companheiros a seção da Casa dos Estudantes do Império (CEI), onde, em colaboração com Lúcio Lara e Orlando de Albuquerque, e o grupo “Vamos Descobrir Angola”, cria a revista desta entidade, que deu origem ao “Movimento dos Jovens Intelectuais de Angola”.

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Depois de conseguir em 1948 uma bolsa americana de estudos, ingressa na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, transferindo-se desde a de Coimbra, e continua a sua atividade na CEI. No mesmo ano é preso pela PIDE em Lisboa, quando recolhia assinaturas para a Conferência Mundial da Paz, ficando três meses no cárcere. Uma vez solto, com outros companheiros, funda clandestinamente o Centro de Estudos Africanos, que em 1951 foi fechado pela polícia política portuguesa. Também neste mesmo ano, ao ser eleito para formar parte de diferentes movimentos juvenis, é de novo preso na cidade lisboeta. Prisão que se repete em 1955 pelas suas atividades políticas dentro destes grupos juvenis, sendo condenado a 18 meses de encarceramento. Motivo pelo qual numerosos intelectuais o apoiaram fazendo uma petição internacional a favor da sua libertação, como foi o caso de Simone de Beauvior, François Mauriac, Jean-Paul Sartre e o poeta cubano Nicolás Guillén. Ainda dentro do cárcere, em 10 de dezembro de 1956 é fundado o MPLA, a partir da fusão de vários grupos nacionalistas, como o Partido da Luita Unida dos Africanos de Angola e o Partido Comunista Angolano, além de outros grupos menores. Libertado em julho de 1957, dedicou-se em finalizar os seus estudos superiores, licenciando-se em medicina pela Universidade de Lisboa, em 27 de outubro de 1958.

Foi preso pela PIDE em Lisboa e voltou ser fechado duas vezes mais pelas suas atividades políticas dentro destes grupos juvenís. Ainda dentro do cárcere, em 1956 co-funda o MPLA

Em 1959 integra-se no Movimento Anticolonial (MAC), do qual desde 1957 já fazia parte sem filiação formal para não ser preso de novo, embora organizasse dentro do mesmo atividades de forma anónima e clandestina. Em 22 de dezembro de 1959, junto com a sua família, parte para a cidade de Luanda, onde abre um consultório médico, e paralelamente organiza atividades políticas do MPLA, assumindo a liderança do movimento neste mesmo ano. Em 8 de junho de 1960 é preso em Luanda, gerando grandes manifestações de solidariedade diante da sua clínica. Operações policiais são levadas a cabo contra os seus apoiantes e a aldeia onde nasceu é invadida pelas forças oficiais. É levado para a cadeia portuguesa do Algarve, e pouco depois deportado a Cabo Verde, ficando na prisão de Ponta do Sol (ilha de Santo Antão), sendo transferido à do Campo do Tarrafal, onde fica até outubro de 1962.

No cárcere aproveita para escrever interessantes poemas, e, pela sua prisão há uma grande repercussão internacional, desenvolvida contra Portugal em diversos jornais. Em março de 1963 é liberto da prisão, permanecendo em Lisboa até junho desse ano, quando foge de Portugal com a sua família, e se instala em Quinxassa, onde o MPLA tinha a sua sede no exílio, reassumindo as funções de presidente efetivo durante a Conferência Nacional do Movimento. No mesmo ano, junto com a sede do movimento, tem que apanhar rumo para Brazzaville, ao ser expulso do Zaire, que passou a dar o apoio total à Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA). Toda uma odisseia para Neto, que se complicou também porque dentro do movimento anticolonial nunca existiu unanimidade, e em 1963 teve fortes divergências com Viriato da Cruz, sendo Neto torturado e humilhado diariamente numa prisão, somente saindo quase morto, por intervenção de aliados externos da Argélia e da China. Outra figura que questionou fortemente Neto foi Matias Miguéis, sendo que este acabou morto após humilhantes torturas ordenadas por Neto em 1965. Em 1963 passa ele a coordenar totalmente o núcleo militar do movimento, abrindo as frentes de Cabinda e, em 1966, o do leste de Angola. Em 1968 transfere a sua família para Dá es Salã, onde vai continuar até 4 de fevereiro de 1975.

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Com a Revolução dos Cravos portuguesa, do 25 de abril de 1974, cessam as hostilidades, ao reconhecer Portugal o direito das colónias à independência, e, em outubro deste ano o MPLA assina o cessar-fogo pela independência angolana. Em 1975, através do Acordo de Alvor, decide-se estabelecer um “governo de transição”, em que se inclui Portugal, o MPLA, a FNLA e UNITA. Porém, no mês de março a FNLA declara a guerra ao movimento de Neto e iniciam-se os conflitos. Agostinho Neto lidera o MPLA na proclamação da independência contra as forças portuguesas e os outros dous grupos, sendo assim o prelúdio da guerra civil angolana. Coordenando a campanha de Luanda, entre julho e novembro de 1975, durante a batalha de Quifangondo, Neto expulsa as forças rivais presentes na capital, e o MPLA faz-se com o controlo, pelo que em 11 de novembro de 1975 Angola é declarada independente e Neto proclamado o primeiro presidente de Angola, continuando comandando as forças armadas populares de libertação angolanas, e presidindo o movimento. Ademais alinha o MPLA com o bloco socialista e estabelece um regime similar ao dos países do Leste europeu. Neto assume também a função de reitor da Universidade de Angola (hoje chamada “Agostinho Neto”), embora o vice-reitor João Gacia Bires, na prática seja quem dirija a instituição. Também se tornou neste ano presidente da União dos Escritores Angolanos, cargo que desempenhou até a data do seu falecimento.

Durante a guerra civil angolana comandou o exército e, com o apoio de Cuba, militar, médico e de professores, conseguiu expulsar em 1976 o exército da África do Sul. No congresso de 1977 o MPLA converteu-se em Partido do Trabalho. Em todo este período de tempo houve muitos conflitos internos no movimento independentista, nos quais se chegou a pôr em causa a liderança de Neto, dando lugar às revoltas denominadas “Ativa” e “do Leste”, levadas a cabo por guerrilhas locais, que por intrincadas discussões e negociações, foram superadas e se reafirmou a liderança de Neto, que, em 1977, também superou um levantamento contra o seu poder e linha ideológica. Antes da morte de Neto, em 1979, o MPLA já se tinha consolidado em Angola, reduzindo os outros grupos a muito poucos efetivos, localizados no Zaire e na África do Sul. Ao falecer Neto, numa operação contra um cancro de fígado, foi substituído interinamente na presidência por Lúcio Lara, até a tomada de posse do definitivo José Eduardo dos Santos.

FRASES E POEMAS DE AGOSTINHO NETO

Apresento a seguir uma antologia das suas mais famosas frases e também de significados poemas seus. Através dos mesmos podemos refletir sobre o seu pensamento de tipo social.

  1. “O mais importante é resolver o problema do povo”.
  2. “Angola é e sempre será por vontade própria, a trincheira firme da revolução em África”.
  3. “Os musseques são bairros humildes de gente humilde”.
  4. “Na minha história existe o paradoxo do homem disperso”.
  5. “Eu vivo nos bairros escuros do mundo sem luz nem vida”.
  6. “A menos que o sol brilhe não pode haver a luz do dia”.
  7. “Não basta que seja pura e justa a nossa causa, é necessário que a pureza e a justiça existam dentro de nós ”.

     Antologia poética: Cinco poemas.

Partida para o contrato

    O rosto retrata a alma
amarfanhada pelo sofrimento
Nesta hora de pranto
vespertina e ensanguentada
Manuel
o seu amor
partiu para S. Tomé
para lá do mar
Até quando?
Além no horizonte repentinos
o sol e o barco
se afogam
no mar
escurecendo a terra
e a alma da mulher
Não há luz
não há estrelas no céu escuro
Tudo na terra é sombra
Não há luz
não há norte na alma da mulher
Negrura
Só negrura…

Não me peças sorrisos

    Não me exijas glórias
que ainda transpiro
os ais
dos feridos nas batalhas
Não me exijas glórias
que sou eu o soldado desconhecido
da humanidade
As honras cabem aos generais
A minha glória
é tudo o que padeço
e que sofri
Os meus sorrisos
tudo o que chorei
Nem sorrisos nem glória
Apenas um rosto duro
de quem constrói a estrada
pedra após pedra
em terreno difícil
Um rosto triste
pelo tanto esforço perdido
– o esforço dos tenazes que se cansam
á tarde
depois do trabalho
Uma cabeça sem louros
porque não me encontro por ora
no catálogo das glórias humanas
Não me descobri na vida
e selvas desbravadas
escondem os caminhos
por que hei de passar
Mas hei de encontrá-los
e segui-los
seja qual for o preço
Então
num novo catálogo
mostrar-te-ei o meu rosto
coroado de ramos de palmeira
E terei para ti
os sorrisos que me pedes.

Noite

    Eu vivo
nos bairros escuros do mundo
sem luz nem vida.
Vou pelas ruas
às apalpadelas
encostado aos meus informes sonhos
tropeçando na escravidão
ao meu desejo de ser.
São bairros de escravos
mundos de miséria
bairros escuros.

    Onde as vontades se diluíram
e os homens se confundiram
com as coisas.
Ando aos trambulhões
pelas ruas sem luz
desconhecidas
pejadas de mística e terror
de braço dado com fantasmas.
Também a noite é escura.

Civilização ocidental

    Latas pregadas em paus
fixados na terra
fazem a casa
Os farrapos completam
a paisagem íntima
O sol atravessando as frestas
acorda o seu habitante
Depois as doze horas de trabalho escravo
Britar pedra
acarretar pedra
britar pedra
acarretar pedra
ao sol
à chuva
britar pedra
acarretar pedra
A velhice vem cedo
Uma esteira nas noites escuras
basta para ele morrer
grato
e de fome.

O choro de África

    O choro durante séculos
nos seus olhos traidores pela servidão dos
homens
no desejo alimentado entre ambições de
lufadas românticas
nos batuques choro de África
nos sorrisos choro de África
nos sarcasmos no trabalho choro de África
Sempre o choro mesmo na vossa alegria
imortal
meu irmão Nguxi e amigo Mussunda
no círculo das violências
mesmo na magia poderosa da terra
e da vida jorrante das fontes e de toda a
parte e de todas as almas
e das hemorragias dos ritmos das feridas
de África
e mesmo na morte do sangue ao contato
com o chão
mesmo no florir aromatizado da floresta
mesmo na folha
no fruto
na agilidade da zebra
na secura do deserto
na harmonia das correntes ou no sossego
dos lagos
mesmo na beleza do trabalho construtivo
dos homens
o choro de séculos
inventado na servidão
em historias de dramas negros almas
brancas preguiças
e espíritos infantis de África
as mentiras choros verdadeiros nas suas
bocas
o choro de séculos
onde a verdade violentada se estiola no
círculo de ferro
da desonesta força
sacrificadora dos corpos cadaverizados
inimiga da vida
fechada em estreitos cérebros de máquinas
de contar
na violência
na violência
na violência
O choro de África é um sintoma
Nós temos em nossas mãos outras vidas e
alegrias
desmentidas nos lamentos falsos de suas
bocas – por nós!
E amor
e os olhos secos.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

Vemos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um cinema-fórum, para analisar o fundo (mensagem) dos mesmos, assim como os seus conteúdos.

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Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Agostinho Neto, um político angolano considerado como o vulto mais importante de Angola no século XX, que também foi poeta e médico. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias.

Podemos realizar no nosso estabelecimento de ensino um Livro-fórum, em que participem estudantes e docentes. Podemos escolher para a sua leitura o seu poemário Sagrada Esperança, editado pela Sá da Costa de Lisboa em 1974, e que recolhe poemas dos seus dous primeiros livros de poesia. Em 2016, a Fundação Dr. Agostinho Neto de Lisboa publicou a sua Obra poética completa. Outro livro interessante que poderíamos escolher para ler seria o escrito por Iko Carreira com o título de O pensamento estratégico de Agostinho Neto, que foi publicado pela Dom Quixote de Lisboa em 1996.

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.


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  • António Gil Hdez

    Interessante artigo com informação precisa. Penso que os poemários do Agostinho Neto, particularmente Sagrada esperança, podem iluminar bem os labores e atividades dos galeguistas em geral e os dos nacionalistas em particular.
    Não em vão o seu foi conduzir Angola (aliás, estado marcado pelo colonialismo europeu e não só por Portugal) até à emancipação completa … com a ajuda cubana do Fidel contra os “aparteithistas” da África do Sul,