Carlos Lixó: “Da associação espero que continue a trabalhar na linha atual e que se esforce o máximo possível (sabendo que não é fácil) em se mostrar como um projeto de futuro para o galego, inclusivo e positivo para o conjunto da sociedade.”



img_20160403_025352Carlos Lixó está a estudar os castelos da Galiza e quer criar uma escola (em sentido amplo) de bailado galega. Tornou-se monolíngue em galego em 6º de primária, acha que se deve incidir no ensino de português e que um dos focos de ação deve ser lutar contra a lusofobia.

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Carlos criou-se num ambiente galego-falante mas sendo criança falava em espanhol. Qual a causa?

Pois acho que foi sobretudo por influência do colégio religioso (o meu irmão mais velho foi à escola pública da paróquia e sempre falou galego). Era um centro um bocadinho classista e eu percebi já sendo muito novo burlas, mesmo por parte do professorado, a companheiros que sim mantinham o galego. Também lembro o paradoxo de algum familiar galego-falante que se dirigia a mim em espanhol perguntar-me alguma vez: por que é que tu não falas galego nunca? E eu pensava: e por que não mo falas tu a mim? Eu não tenho prática e não me sai!

Quando e por quê decides tornar-te galego-falante, mesmo um galego-falante ativista?

Na altura de 6º de primária dei o passo de mudar de língua e fiz-me monolíngue em galego, penso que por duas razões: a primeira que eu queria ser como os meus vizinhos com os quais jogava às tardes, que falavam todos galego, e não como os do colégio com os quais (com um par de exceções) não tinha muito boa relação; e a segunda é que achava o galego uma língua mais adulta e, como disse, não gostava de que adultos que falassem galego se dirigissem a mim em espanhol como faziam com as crianças, fazia-me sentir um bebezinho. Esta mudança que eu não percebi como nada político, um tempo depois já virou mais militante, e em 2º da ESO ganhei o concurso literário do liceu com um relato sobre uma Galiza independente e após-apocalíptica xD. Em bacharelato associei-me à Mesa. E assim até hoje 🙂

 

Depois de te tornares galego-falante, o passo seguinte é o reintegracionismo. Como foi o processo?

A pergunta do milhão! Eu conheci o reintegracionismo no liceu, pois dois professores do centro utilizavam essa ortografia. O ambiente do instituto foi uma grande mudança: era um centro de alunado galego-falante e com um corpo de professorado de maioria galeguista, muito implicados em atividades culturais, etc. Algum docente tinha comentado que aquilo era uma miragem, mas eu cria que todos os liceus eram assim 😛

A ortografia comum sempre me pareceu uma escolha interessante, no entanto nunca me acheguei a ela de maneira definitiva. Num primeiro momento não gostava de posturas hostis de algumas pessoas na defesa do reintegracionismo assim como a sua vinculação a uns grupinhos muito reduzidos e endogámicos também a respeito doutros assuntos alheios à língua, e a um tempo também me preocupava a ainda maior hostilidade que um amplo espectro social galego mostrava contra os reintegracionistas. Pesavam estas duas idéias: “já sou estigmatizado por tantas coisas, que duro botar-me a mim mesmo por própria vontade a uma margem de contínuo conflito!” e “haverá algum outro lugar no mundo em que o debate sobre como escrever uma língua chegue a tal nível de encarniçamento? ou será que os galegos temos de pelejar sempre por tudo?”.

Agora acho que isso mudou e/ou eu estou noutro momento, e vejo as coisas da seguinte maneira:

  1. Arredor da norma ILG-RAG criou-se um mundo cultural galego que não é um completo desastre; temos, a pesar de todas as dificuldades, uma riqueza cultural invejável e que está produzida nesta norma. Também é a escrita que nos dá a possibilidade de usarmos o galego nalguns espaços públicos e a maior parte dos galegos identificam-se com ela. Acho que é fundamental aproveitarmos isso.
  2. No entanto, ao mesmo tempo, acho que a escolha escrita não é a melhor, e creio que o desejável para a cultura galega seria que a norma utilizada fosse a reintegracionista. E há pessoas muito valentes que estão a tentar construir mais cultura galega, sozinhas, usando a norma que acham mais adequada. É difícil promover assim o uso duma escrita que quase ninguém conhece e cuja principal via de aprendizagem é olhar e repetir o que se vê nas redes sociais. Admiro muito e têm todo o meu apoio.
  3. Perante isto, a minha posição pessoal é aproveitar o universo cultural galego que temos, porém ampliando a sua diversidade e procurando o objetivo da progressiva conversão da nossa escrita cara à norma reintegrada. Eu começarei a escrever reintegrado nalguns espaços em que me sinta cômodo, pouquinho a pouco, e começarei a colaborar com aqueles coletivos que trabalham nisso, como estou a fazer tornando-me, com muito orgulho, sócio da AGAL. E a um tempo fugirei de batalhas que acho fratricidas e continuarei a aproveitar os espaços que a cultura galega seja capaz de criar em todas as suas formas.

Suponho que o futuro imediato desejável para a cultura galega será que esse mundo cultural que temos criado dê o passo de se transformar num espaço misto onde caibam as duas escolhas ortográficas (mesmo que isto, a ausência de uma norma clara como têm a maior parte dos idiomas –pelo menos os que gozam de melhor saúde–, possa ser também em certa medida um passo atrás).

Enfim, é muito difícil para mim chegar a análises absolutas! Mas, em resumo, que me enleei: o futuro passa por romper barreiras e abrir espaços ao reintegracionismo e desejo, ao menos, que as reintegracionistas tenham espaço real na cultura galega desde já.

Assistir um ano a aulas de português fez-me ver o mundo doutra maneira. Após um número muito pequeno de aulas eu senti-me preparado para me comunicar com soltura com milhões de pessoas no mundo, como por arte de magia. Isso foi muito forte

 

Um facto importante no teu processo linguístico foi estudares na Escola Oficial de Idiomas. Em que medida?

Assistir um ano a aulas de português fez-me ver o mundo, assim em geral, doutra maneira. Após um número muito pequeno de aulas eu senti-me preparado para me comunicar com soltura com milhões de pessoas no mundo, como por arte de magia. Isso foi muito forte. Estar na aula vendo como expressões que eu achava um jeito particular de falar da minha mãe, localismos, são o normal em amplos espaços do mundo… A lusofonia teve e tem muito que dizer para mim sobre mim mesmo. Desejo a todo o mundo essa experiência, e por isso estou contente de começar a apoiar o trabalho que faz a AGAL, junto a outros coletivos, por aumentar a presença do português no ensino a todos os níveis.

Aliás, graças ao português melhorei a minha qualidade linguística mesmo quando falo galego ou quando escrevo em ILG-RAG.

Carlos é historiador e o seu doutorado está focado no estudo dos castelos na Alta Idade Média galega a partir das fontes documentais. Que vai oferecer a tua pesquisa?

O meu trabalho busca pôr o seu grão sobre um aspecto da sociedade medieval que não foi muito estudado na Galiza: quando é que se começam a construir castelos, quem os constrói e para quê. Parto da hipótese de que a aristocracia alto-medieval não fazia especial uso de castelos, eles viviam em “villae”, ora sozinhos, ora rodeados da comunidade campesina mas numa vivenda melhor. Acho então que os castelos começam a se levantar a partir do século XI (havendo, no entanto, alguns anteriores), talvez por iniciativa real, apenas nos altos dos montes e com uma função não habitacional mas militar, e sobretudo de controle do território, recaindo sobre eles boa parte das tensões e enfrentamentos tão habituais entre os poderosos. Tal como hoje as estruturas de poder são sustidas pelo discurso da democracia, daquela só se mantinham em pé bem pela graça de Deus, bem pela força da violência. Isso é um fenômeno próprio e específico da plenitude feudal, com o seu ponto álgido no século XII.

Em qualquer caso ainda estou numa fase inicial e estou a me debruçar no tema, tenho-o tudo por aprender e repensar. De tudo isto, o que me faz sentir melhor é o facto de saber que é uma fase para pôr em prática os conhecimentos e destrezas adquiridas como estudante e formar-me um bocadinho mais como historiador, deixando feita o que vai ser a minha primeira criação.

Fazes parte do grupo Aires de Dorna, fusão de bailado contemporâneo com dança tradicional galega. Consideras que está a haver “transmissão intergeracional” na dança tradicional?

Eu vejo a dança tradicional como algo muito vivo nos últimos tempos, mas também não me fica claro se será assim ou será como o percebo pelo facto de ser um tema que me interessa e conhecer pessoas que se dedicam a isso. Para mim agora a grande meta é a popularização da dança como uma forma de lezer moderna. Quero dizer, há um patrimônio riquíssimo, muito material recolhido, grupos que fazem espetáculos e muita gente que continua e continuará nisso, e isso está muito bem. No entanto, onde eu acho que cumpre focar os esforços agora é na democratização, em que todo o mundo se atreva a dançar na verbena, no bar ou na festa familiar, mesmo que nunca aprendessem em nenhum grupo ou academia. Aí também a garantia da sobrevivência, não simplesmente como ritual mas também como algo vivo. E pronto, isto não é uma idéia que me ocorra a mim, muitas pessoas estão já a trabalhar nisso.

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Por outro lado, “Aires de Dorna” está numa órbita um bocadinho distinta. Nós sim estamos a criar um espetáculo de cenário, mas em vez de repetir um saber aprendido tentamos construir algo de novo, em diálogo com a expressão corporal e com as tendências do bailado contemporâneo pelo mundo. Sermos capazes de criar uma escola (em sentido amplo) de bailado galega não é um objetivo menor! Nisto estão alguns projetos grandes, como Nova Galega de Danza, mas nós também, em Ribeira, fazemos a nossa parte.

Regressando ao âmbito linguístico, por onde deve transitar a estratégia reintegracionista para ser mais eficaz?

Para mim é dificílimo dizer como se têm de fazer as coisas, sobretudo porque numa situação tão desigual como a do reintegracionismo tudo o que se fizer é um grande avanço. Acho que pelo geral se está trabalhar bem. É importante continuar a focar no combate à lusofobia na sociedade, abrindo espaços aos aspectos mais populares e acessíveis da cultura portuguesa e brasileira, não apenas à cultura de alto nível. Penso que a opinião que se tem na Galiza de Portugal é resultado do desconhecimento, duma imagem que nos chega distorcida. Ao mesmo tempo, acho muito complexo, porém necessário, o labor de explicar como é que adoção das normas escritas portuguesas frente às espanholas não significa o galego perder a sua personalidade própria. Também é preciso insistir na procura de apoios no âmbito institucional, pois mesmo os avanços que ficam no simbólico são muito importantes na hora da difusão e da receptividade das propostas. O trabalho a prol do aumento do ensino formal de português pode ser muito útil para as três linhas que venho de enumerar.

Que visão tinhas da AGAL, que te motivou a te associares e que esperas da associação?

Já conhecia a AGAL, ainda que não muito de perto, e valorizava positivamente a ideia do reintegracionismo. Mas como disse tinha certos reparos em relação ao movimento reintegracionista.

Decidi associar-me acho que por dois motivos. O primeiro é uma mudança pessoal: eu insistia em determinados aspetos do ativismo pensando no que podia ser mais facilmente assumido socialmente, e agora prefiro defender simplesmente aquilo em que acredito e que me apetece. O segundo é que, do meu ponto de vista, nos últimos tempos houve uma mudança também no próprio movimento, com umas campanhas em positivo, bom humor, e uma aposta por avançar cara a objetivos comuns respeitando a diversidade e as opções pessoais.

Da associação espero que continue a trabalhar na linha atual e que se esforce o máximo possível (sabendo que não é fácil) em se mostrar como um projeto de futuro para o galego, inclusivo e positivo para o conjunto da sociedade.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2030?

Em menos de quinze anos não dá tempo a quase nada! Mas bom, o mínimo desejável seria que deixasse de haver governos continuados do PP atuando em contra do galego, e que se aplicassem com tempo e decisão as leis que já estão aprovadas. A partir de aí, muitas coisas: talvez um sistema educativo de inspiração basca que permitisse um ensino plenamente em galego pelo menos a aquelas pessoas que o escolherem, obviamente estaria ótimo que se abrissem laços com a lusofonia que ficam incompreensivelmente fechados e que são fáceis de abrir (TVs, rádios, ensino…), umas TVs e rádios públicas galegas de qualidade e com investimento, se me ponho a imaginar… 🙂

314785_2178839323097_3016002_nConhecendo Carlos Lixó…

Um sítio web: onosopatrimonio.blogspot.com.es do Xabier Moure.

Um invento: Os calmantes quando se tem dor.

Uma música: Não posso decidir entre Littlest Things da Lily Allen e Benvolgut de Manel.

Um livro: Memórias de Adriano da Marguerite Yourcenar.

Um facto histórico: Acho a batalha de Hastings muito épica.

Um prato na mesa: Guiso de paspalhás com fideus, o prato top da minha mãe.

Um desporto: Ando muito de bicla e passeio sempre que puder com o meu cãozinho Bárbaro.

Um filme: Na atualidade tenho um grupinho no top e não vou fazer aqui a lista, então escolho a que foi a minha favorita com claridade durante a adolescência e que mais vezes tenho visto, Coração de Cavaleiro (A King’s Tale).

Uma maravilha: As praias de água morninha.

Além de galego: De Carreira.

 


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  • abanhos

    Mais uma boa e bela entrevista inçada de ideias e sugestões e …..esperanças

    • Ernesto V. Souza

      É, toda ela, e muito interessante a resposta a:

      – Depois de te tornares galego-falante, o passo seguinte é o reintegracionismo. Como foi o processo?

      Com tudo o que leva chovido… e mudam os tempos

  • http://www.notas.gal Eliseu Mera

    Magnífica entrevista, cheia de clareza e de sinceridade. Bem-vindo, Carlos!

  • Bonmatuit

    Isto matoume ♥: “Achava o galego uma língua mais adulta e, como disse, não gostava de que adultos que falassem galego se dirigissem a mim em espanhol como faziam com as crianças, fazia-me sentir um bebezinho”

  • José Ramom Pichel

    Bem-vindo Carlos! Muito boa entrevista