AFONSO O SÁBIO, ESCRITOR NA NOSSA LÍNGUA INTERNACIONAL

O pedagogo José Paz analisa a figura do rei Afonso O Sábio, autor dum dos documentos literários mais importante da Idade-Média na nossa língua.



O dia 21 de fevereiro comemora-se em muito lugares do mundo o “Dia Internacional da Língua Materna”, que promoveu a Unesco no ano 1999, por especial petição dos cidadãos das Bengala oriental (o país do Bangladesh) e a ocidental (estado da República federal indiana). Com o número 88 da série que estou a dedicar a grandes vultos da humanidade, que os escolares dos diferentes níveis devem conhecer, e que iniciei com Sócrates, desta vez escolhi, também para comemorar a data citada antes, a surpreendente figura de Afonso X o Sábio (1221-1284). Em 1980 foi a ele dedicado o Dia das Letras Galegas pela RAG.

PEQUENA BIOGRAFIA

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Soberano castelhano nascido em Toledo a 23 de novembro de 1221, notabilizado por seu papel decisivo dentro da evolução cultural europeia. Primogênito de Fernando III e da princesa germânica Beatriz de Suábia, aos 23 anos, obedecendo a motivações políticas, contraiu matrimônio com Violante de Aragão, e subiu ao trono após a morte do pai (1252). Embora de formação militar, as únicas contribuições bélicas de importância que seu reinado deu à Reconquista foram a campanha de Niebla, cidade tomada pelo monarca (1262), e as de Xerez, Medina-Sidónia, Lebrija e Cádis. Politicamente também foi de pouca notoriedade seu reinado, inclusive para sufocar o levante mudéjar em Múrcia e na zona cristã da Andaluzia, viu-se forçado a pedir ajuda ao seu sogro, o rei aragonês Jaime I.

Na realidade, grande parte das dificuldades do seu reinado deveu-se a seu intento de reforçar a autoridade real, o que lhe acarretou numerosos choques com os nobres, além do tempo perdido com suas pretensões frustradas ao trono imperial germânico, aspiração pela linha materna. Eminentemente voltado para o desenvolvimento da cultura e ciências, trouxe para Toledo, Sevilha e Múrcia, os mais destacados cientistas árabes, judeus e cristãos da época, e impulsionou a célebre escola de tradutores na primeira dessas cidades e integrou ativamente a produção dessas equipes. Ali foram produzidos com a assinatura do soberano principalmente importantes livros de história, jurídicos, científicos, astronomia, de fábulas e de poesias.

Essa extraordinária obra cultural e científica, teve três consequências transcendentais: com ela se estabeleceram os alicerces da língua castelhana, criou-se um vínculo entre a Europa medieval e a cultura árabe, e pela primeira vez se considerou a história de uma perspectiva moderna. Os últimos anos do rei foram dedicados a resolver a questão sucessória. Entre seus dez filhos, tiveram particular importância histórica o primeiro, Fernando, cuja morte ocasionou luitas armadas por questões sucessórias.

Afonso de la Cerda, filho do primogênito falecido e, portanto neto do rei, e o infante Sancho, partiram para disputar o trono. O filho do rei levou a melhor e conseguiu ser declarado herdeiro da coroa, com o nome de Sancho IV, opondo-se além disso a estabelecer um reino em Jaén para seu sobrinho e oponente, como desejava o rei. Isso provocou a guerra entre pai e filho, mas o monarca só contou com o apoio de Múrcia e Sevilha, cidade onde morreu o 4 de abril de 1284.

Manuel Rodrigues Lapa comentou no seu dia a vida de Afonso o Sábio, assinalando que era filho dum grande rei chamado Fernando III, embora não tenha herdado dele, quando em 1252 tomou conta do reino, nem a férrea energia, nem a diplomacia avisada. E a falta destas qualidades políticas contribuiu enormemente para fazer do seu reinado uma longuíssima série de amarguras de toda a sorte. Já não bastavam os mouros, mais ou menos inquietos dentro dos seus últimos redutos de Múrcia e de Granada; desavenças familiares gravíssimas com os seus irmãos, mancomunados com a nobreza insaciável, com a sua esposa, despeitada pelo deserdamento do neto, e por último até com o seu próprio filho, invejoso do sobrinho, atribularam o pobre monarca, que expirava a 4 de abril de 1284 de dor de ânimo, como dizem as crónicas, na sua muito amada cidade de Sevilha, em cuja conquista tinha participado, na companhia de seu pai.

“A política de Afonso O Sábio era desastrada, o seu imperialismo ingénuo e as suas desventuras domésticas não o impediram de ser um semeador de beleza e um grande civilizador”

A história, cruel para os governantes fracos, ditou, por boca do jesuíta Mariana, a sua severa sentença: “de tanto considerar o céu e observar os astros, perdeu de vista a terra”. E um poeta moderno, Marquina, diz dele, do seu irmão em Apolo, esta cousa descaroável: “De tanto olhar ao céu, caiu-se-lhe a coroa”. Não importa: a sua política desastrada, o seu imperialismo ingénuo e as suas desventuras domésticas não o impediram de ser um semeador de beleza e um grande civilizador. E, por agora pelo menos, é isto que verdadeiramente nos interessa. A sua obra que, publicada em série, daria hoje talvez 20 grossos volumes, é uma vasta enciclopédia, em que está encerrado quase que tudo o saber do tempo; na História Geral, na Crónica de espanha, nas Sete Partidas, no Lapidário, no Livro da Esfera, no Livro do Xadrez, colaboraram, em simpática fraternidade, cristãos, árabes e judeus. Admirável lição de tolerância, que nos deu esse homem do século XIII! Que nos preste a nós, homens do século XX. E também aos do XXI.

FICHAS TÉCNICAS DOS DOCUMENTÁRIOS

  1. Afonso X: A sua vida, a sua obra e o seu tempo.

Duração: 78 minutos. Produtora: Fundação J. March.

Palestra de Isidro Bango (Março de 2016).

2. Afonso X o Sábio. Pequena biografia.

Duração: 12 minutos.

3. Afonso X o Sábio.

Duração: 6 minutos. Produtora: TV de Castela-Leão.

4. Afonso X o Sábio, rei de Castela-Leão e outros reinos.

Duração: 12 minutos. Apresenta: Diego A. Azero Saravia (2016).

5. Cantigas de Santa Maia de Afonso X o Sábio.

Duração: 5 minutos.

Intérpretes: Jordi Savall e Pedro Estevan.

6. Afonso X: Cantigas de Santa Maria.

Duração: 66 minutos. Produtora: Sequentia.

  7. Cantigas de Afonso X, por Luar na Lubre.

Duração: 9 minutos.

8. Rosa das Rosas. Afonso X.

Duração: 5 minutos. Produtora: Atelier de Bruno Amaral (2017).

AS LINDAS CANTIGAS DE SANTA MARIA

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Tenho por bem reproduzir e sintetizar o formoso estudo que fez sobre as Cantigas esse grande amigo da Galiza que foi Manuel Rodrigues Lapa. O seu depoimento foi escrito no seu dia com motivo de um importante recital das Cantigas de Afonso X que se levou a cabo em Portugal em abril de 1934, e publicado na famosa revista lisboeta Seara Nova. Comenta Lapa: “Nessa obra imensa avulta, pelo particularíssimo esmero com que foi composto, pelo fim piedoso a que se destinava e pela língua em que foi escrito, o livro das Cantigas de Santa Maria, é, naturalmente dele que vamos falar com mais pormenor. Um dos factos mais importantes é que, por volta de 1280, um rei castelhano, que foi o grande renovador da literatura da Castela, e como que o cabouqueiro da prosa castelhana, emprega o galego-português como língua das intimidades do coração. O idioma que imos ouvir cantado, e que possivelmente vai parecer estranho e bárbaro, era considerado, e com razão, no século XIII e ainda no século XIV, o veículo mais apropriado, pela sua inefável doçura, para exprimir os afetos da alma. Por toda a Península, com exceção duma pequena parte ao nordeste, onde hoje é a Catalunha, se falava e se escrevia normalmente o português. Fenómeno ainda obscuro, que anda à procura duma explicação satisfatória: seria uma simples moda literária ou haveria, como parece, uma razão mais forte, um substrato antigo galego-português, que se impusesse, ao menos, para a exteriorização dos debates líricos? O que é certo é que as Cantigas de Santa Maria são, com a Demanda de Santo Graal e com as incomparáveis crónicas de Fernão Lopes, o documento literário mais importante da Idade-Média portuguesa. E são sobretudo o mais completo, mais suntuosa e refinadamente artístico. O texto, português de lei, duma riqueza incalculável, sobre o que há pouco o Dr. Rübecamp de Hamburgo, escreveu um grosso volume, ainda inédito, completa-se com a música e com soberbas iluminuras, que constituem um dos mais perfeitos trabalhos de pictografia do século XIII, atestando, a par de influência francesa e talvez italiana, o génio peculiar dos artistas peninsulares. Desse livro verdadeiramente real podemos tirar agora uma levíssima ideia na presente audição”.

“As 430 cantigas do livro versam naturalmente sobre temas piedosos, milagres atribuídos à poderosa intervenção da mãe de Jesus, e, mais raramente, nas cantigas de loor, são efusões líricas duma alma enredada nos espinhos da terra e enamorada do céu. Não são própriamente uma obra original, antes uma compilação monumental de escritos hagiológicos anteriores, como o famoso Speculum historiale de Vicente de Beauvais, os Milagres de Gonçalo de Berceo, os Milagres de Nossa Senhora do grande poeta maiano Gautier de Coincy e de muitos outros, no número dos quais portugueses, que lamentavelmente se perderam. Mas o que dá excecional valor a esse Cancioneiro é que esses contos maravilhosos se converteram, transplantados para a Península e juntos aos de cá, numa polícroma galeria de costumes, jamais excedida e não sei mesmo se igualada. A verdadeira Comédia Humana do século XIII está feita nas Cantigas; e tudo isto a propósito da Virgem Maria, da sua inexcedível bondade, do seu perdão facílimo, que se prodigalizava por vezes a gente bem ruim, a ladrões e assassinos. Todas as classes da sociedade do tempo surgem diante de nós, a plena luz, nos seus tipos representativos: o rei caprichoso, o rico-homem soberbo e luxurioso, o cavaleiro galante e aventureiro, o mercador ganancioso, o judeu avaro e perseguido, o taful blasfemo, o jogral remedador, o vilão diligente e simplório, o clérigo devasso e nigromante e a monja pecadora, ávida de mundanidades. É difícil, senão impossível, dar uma ideia exata dessa obra, tão grande é a variedade dos seus aspetos”.

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A seguir, Lapa apresenta, de forma maravilhosa, alguns quadros da obra, com maior força dramática ou de mais ingénuo pitoresco. Em concreto, da sua escolha, comenta uma dúzia de cantigas. Reconhece Lapa, ao início do seu depoimento, que se encontra seriamente embaraçado, perante a notação musical das Cantigas. E diz: “A letra forma, em esta grande obra de arte, corpo com a música, realizando-se a íntima combinação dos dous elementos, tão necessários, que um trovador provençal não hesitou em dizer: uma cantiga sem som é como um moinho sem água. Por isto, eu não sabendo de música e não estando já em idade de aprender, costumo iludir a dificuldade, falando um poucochinho mais do moinho que propriamente da água que o faz mover; coisa aliás legítima, segundo me parece, porque o texto das Cantigas tem por via de regra carácter narrativo e presta-se a considerações de ordem literária e cultural”.

UMA DAS CANTIGAS MAIS FORMOSA

    Virgem Madre groriosa

 Esta é de loor de Santa Maria.

    Virgem Madre groriosa,

de Deus filha e esposa,

santa, nobre, preciosa,

quen te loar saberia

     ou podia? 

    Ca Deus que é lum’ e dia,

segund’ a nossa natura

non viramos sa figura

senon por ti, que fust’ alva.

Virgem Madre groriosa…

     Tu es alva dos alvores,

que faze-los peccadores

que vejan os seus errores

e connoscan sa folia,

     que desvia

d’aver om’ o que devia,

que perdeu por sa loucura

Eva, que tu, Virgen pura,

cobraste porque es alva.

Virgem Madre groriosa…

    Tu es alva dos mesqos,

que non erren os campos,

a grandes, a pequenos;

ca tu iles mostras a via

     per que ya

o teu Filho todavia,

que nos sacou da escura

carreira maa e dura

per ti que es nossa alva.

Virgem Madre groriosa… 

    Tu es alva dos culpados,

que cegos por seus pecados

eran; mais alumeados

son per ti, Santa Maria.

     Quem diria,

nem quem osmar poderia

teu bem e ta gram mesura?

Ca sempre en ti atura

Deus a luz ond’ es tu alva.

Virgem Madre groriosa…

    Tu es alva per que visto

foi o sol, que éste Cristo,

que o mund’ ouve conquisto

e sacado du jazia

     e jaria,

e de que non sairya;

mais Deus por ti da altura

quis de ti, sa creatura,

nacer, e fez de ti alva.

Virgem Madre groriosa… 

    Tu es alva dos que creen

e lume dos que non veen

a Deus, e que por mal ten

o ben per sa bavequia

     d’eresia,

que é maa ousadia,

e Deus non á destes cura;

mais pela ta gran cordura

lles dás lume come alva.

Virgem Madre groriosa…

   Tu es alva que pareces

ante Deus e escrareces

os ceos, e que mereces

d’averes sa conpania.

     E querria

t’ eu ver con el, ca seria

quito de maa ventura

e metudo na folgura

u es con Deus, u es alva.

Virgem Madre groriosa

A ESCOLA DE TRADUTORES DE TOLEDO

Afonso X patrocinou a Escola de Tradutores de Toledo. “A tarefa do rei consistia em escolher os tradutores e as obras a serem traduzidas”, explica o livro La Escuela de Traductores de Toledo (Escola de Tradutores de Toledo). “Ele revisava as traduções, promovia debates intelectuais e patrocinava a criação de novas obras”. Os eruditos de Toledo começaram traduzindo uma grande quantidade de escritos árabes. Eruditos muçulmanos já haviam traduzido para o árabe as obras mais importantes das civilizações grega, indiana, persa e síria. Esse conhecimento acumulado tinha sido importante para os eruditos muçulmanos continuarem a se desenvolver nas áreas de matemática, astronomia, história e geografia. Por sua vez, a escola de Toledo procurou explorar esse conhecimento. Como? Traduzindo importantes escritos árabes para o latim e o castelhano.

As notícias a respeito das consecuções dos eruditos de Toledo espalharam-se por outros países. Homens de instrução do norte da Europa logo afluíram para Toledo. Tudo isso foi importante para o progresso científico e literário do Ocidente. De fato, os efeitos desse grande empreendimento de tradução teve um impacto no desenvolvimento da Renascença.

Os esforços dos tradutores de Toledo possibilitaram que médicos pudessem ler os escritos de medicina de Galeno, Hipócrates e Avicena, cujo Cânon da Medicina se tornou o compêndio médico básico em universidades da Europa até o século 17. Astrônomos podiam ler as obras de Ptolomeu e tirar proveito da trigonometria árabe e das tabelas de cálculos astronômicos feitas por Al-Khwārizmī. Afonso queria que aquelas traduções fossem entendidas pelo povo em geral. Essa iniciativa fez com que o idioma castelhano se tornasse uma língua científica e literária. O trabalho que Afonso iniciou ajudou a mudar o conceito geral de que o latim era a língua culta.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

Vemos os filmes documentários citados antes, e depois desenvolvemos um Cinema-fórum, para analisar a forma (linguagem fílmica) e o fundo (conteúdos e mensagem) dos mesmos, assim como os seus conteúdos.

Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Afonso X o Sábio, a sua obra e as suas ações. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias.

Podemos organizar no nosso estabelecimento de ensino uma Audição Musical das Cantigas de Afonso X. Existem discos e CDs das Cantigas, com diferentes intérpretes das mesmas. Com interpretação de Jordi Savall, existe um CD editado em 1993 e em 2009 por Alia Vox. Naxos em 1995 editou outro, com interpretação de Ensemble Unicorn. Antes Vanguard em 1972, editou um disco das Cantigas, interpretado pelo grupo The Waverly Consort. Interpretado pelo grupo Alla Francesca, no ano 2000, editou-se pela Opus 111 um CD muito interessante.

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.


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  • Venâncio

    A questão da “língua” das Cantigas de Santa Maria é muito elucidativa.

    Como José Paz Rodrigues diz acima, Manuel Rodrigues Lapa afirmava, em 1834, que as CSM estão escritas em português. Hoje, nenhum linguista ou filólogo português ousaria dizê-lo, sob pena de ridículo. E afirmam que estão escritas ou em galego, ou então em “galego-português”, designação que, sabe-se, foi inventada no século XIX para evitar dizer que os portugueses alguma vez falaram galego.

    As CSM estão escritas num galego gramaticalmente muito puro, mas lexicalmente bastante contaminado pelo castelhano. Não admira: elas foram escritas (em Toledo, sob a direcção do Rei Sábio), entre 1264 e 1284, por castelhanos galeguizantes, ou por galegos castelhanizados.

    O facto é que, só em adjectivos, contei cerca de 40 atestados pela primeira vez no nosso idioma exactamente nas CSM, mas já correntes em Castela. Para algum curioso destas coisas, aqui vão alguns deles.

    apressurado, atrevido, brioso, buliçoso (de bullicioso), denodado, desaguisado (‘injusto’), despeitoso (de despechoso), dolorido, esmerado, espantoso (‘assustador’), garrido, mentiroso, pavoroso, pedregoso, renegado, vagaroso.

    Nos léxicos de galego e português, estas palavras não só têm aí a sua primeira atestação, como ainda demoram a voltar a aparecer. Tudo provas de que foram importadas do castelhano.