AFONSO DANIEL CASTELÃO PARA CELEBRAR O DIA DO LIVRO



cartaz collage Castelao

Dia do Livro é comemorado a 23 de abril. Uma data para destacar a importância social e cultural que têm os livros e a sua leitura por parte dos cidadãos de todas as idades. Galegos e galegas deveriam ler as obras mais importantes dos nossos escritores e da nossa cultura. E, entre eles, especialmente, os Cantares Galegos de Rosália de Castro, Queixumes dos pinos de Eduardo Pondal, Aires da minha terra de Curros Henriques, o Cancioneiro galaico-português das Cantigas de amigo, de amor e de escarnho e maldizer, Vento mareiro de Ramom Cabanilhas, Longa noite de pedra de Celso Emílio Ferreiro, Os sonhos na gaiola de Manuel Maria, Dos arquivos do trasno de Rafael Dieste, Invenção do mar de Marinhas del Valhe, Lua de Além-Mar de Guerra Da Cal, Cantarenas de Delgado Gurriarám, Ensaio histórico sobre a cultura galega de Otero Pedraio, Ensaios e Poesias de João Vicente Biqueira, Teoria do nacionalismo galego de Vicente Risco, Prosas Galegas de Cuevilhas, Quintana viva de Filgueira Valverde, Pensamento e Sementeira de Vilar Ponte, Etnografia galega de Taboada Chivite, Farsas para títeres de Blanco Amor, Nemancos de López Abente, Galiza hoje de Isaac Diaz Pardo, Verbas na edra do vento de Pura Vázquez, História da Literatura Galega Contemporánea, Problemas da língua galega e Scórpio de Carvalho Calero, Os Eidos de Ugio Novoneira, Nau senlheira de Bouça Brei, Castelão artista de Luís Seoane, Os enredos dos rapazes de Joaquim Lourenço, Santa Marta de Moreiras de Ben-Cho-Shei, Castelão na luz e na sombra de Paz Andrade, Antolim Faraldo: o grande sonhador de Fernandes del Riego, Estudos filológicos galegoportugueses de Isaac Estraviz, Rafael Dieste de Henrique Rabunhal, Baralha de sonhos de Gil Hernández, Por um galego extenso e útil de Martinho Montero, Os distantes de Álvarez Cáccamo, Atlas histórico da Galiza de Barbosa Álvares, Vento de amor ao mar de Adela Figueroa, Teatro para se comer de João Guisám, Janela aberta de J. Alberte Corral, Lembranças da terra de Ângelo Brea, Romaria às covas do demo de Manuel Lourenço, Joguetes para um tempo proibido de Carlos Casares, Contos de fada em Dó Maior de J. R. Rodrigues Fernandes, Prontuário ortográfico das IF de Carlos Durão, A imagem de Portugal na Galiza de Carlos Quiroga, Entre os teus olhos de Artur Alonso, Cautivério de Fingoi: os anos lugueses de Ramom Reimunde Norenha, Borobó Manuel Maria de Rudesindo Soutelo, Hino verde de Bernardino Granha, Caminho sem retorno de Francisco Pilhado, Lua do Senegal de Fernandez Paz, Lume de biqueira de Vásquez Pintor, A mulher na Galiza de Maria José Queizám, Uma primavera para Aldara de Teresa Moure, Se os carvalhos falassem de Concha Roussia, A festa dos maios de Clódio Gonçález Pérez, Festas populares da Galiza de Felipe Seném López, o livro Vida, paixão e morte de Alexandre Bóveda, escrito por Gerardo Álvarez Galhego, e, muito especialmente, a considerada a “Bíblia de galegos e galegas” o Sempre em Galiza de Castelão. Uma obra que todos os galegos devem ler e conhecer, publicada pela primeira vez na Argentina, pela editora galega Nós, em 1944. É por esta razão pela que, dentro da série que iniciei com Sócrates dedicada a grandes vultos da humanidade, escolhi desta vez a figura de Castelão, que todos os escolares dos diferentes níveis do ensino devem conhecer, ler os seus livros e olhar os desenhos dos seus diferentes álbuns. Este depoimento faz o número 97 da série.

PEQUENA BIOGRAFIA

Castelao criança

Tomo como base a biografia de Castelão elaborada pela Fundação de seu nome, por considerá-la fiável e certa. O ilustre e multifacetado intelectual Afonso Daniel Manuel Rodríguez Castelão é a figura mais relevante da História da Galiza do século XX. Nasceu em 1886 em Rianjo e, com onze anos, teria de sair da sua vila para conhecer de perto o mundo da emigração na Pampa argentina. De regresso à Galiza, concluiu o ensino médio e iniciou os estudos de Medicina (1903-1909). Nesta altura encontramos um Castelão moço muito dinâmico, participando em alguns episódios teatrais, pintando caricaturas e assistindo à tertúlia do Café Colóm.

Em 1910 começou a trabalhar como médico rural na sua vila, mergulhando na política local. Porém, a profissão médica não conseguiu satisfazê-lo e uma crise de cegueira em 1914 precipitou o seu afastamento da Medicina. Pronunciou uma série de conferências como artista plástico. Concorreu para entrar no Instituto Geográfico e Estatístico de Ponte Vedra e ganhou em 1916 uma vaga de funcionário público. Desde o ano seguinte, alternaria o novo trabalho com o de professor auxiliar de desenho no Instituto Geral e Técnico da cidade. Nesta altura Castelão é já um artista reconhecido e o seu labor está centrado no mundo das artes plásticas: exposições (estampas Nós) e conferências (“Algo sobre a caricatura”). No entanto, também são anos de reflexão sobre as relações entre a Arte e a Terra, reflexões que há de expor na conferência Arte e Galeguismo (1919) e que hão de confirmar-se definitivamente depois da viajem que, em 1921, realiza pela Europa (Diários de Arte). A partir deste momento, a plástica facilitará a entrada da literatura: Cousas da vida (1922), Cousas(1929), Os dous de sempre (1934), Retrincos (1934). No âmbito pessoal, sofre a perda do filho e o agravamento da sua doença ocular. Nestas circunstâncias partiu para a Bretanha, onde começou As cruzes de pedra na Bretanha, dada a conhecer em 1930.

capa cousas da vida castelao

Com a chegada da República e a fundação do Partido Galeguista, somar-se-á ao Castelão artista o Castelão político. Em 1931 foi eleito deputado por Ponte Vedra nas Cortes Constituintes e defendeu em Madrid iniciativas do programa galeguista. No final desse ano de 1931 Castelão contribuiu com numerosos comícios por todo o país para a unificação e consolidação do nosso nacionalismo. Porém, em 1934 foi desterrado para Badajoz, onde vai começar a escrever o Sempre em Galiza. Por fim o rianjeiro regressa a Ponte Vedra. Convocadas eleições em 1936, consegue o mandato com maior número de sufrágios da província pontevedresa. Nos anos da guerra comprometeu-se inteiramente com a defesa da legalidade republicana. É a época de uma maior radicalização do antifascismo e do sentimento patriótico em Castelão, que se reflete nos álbuns de guerra (Galiza MártirAtila na GalizaMilicianos), de grande difusão internacional.

Símbolo do nacionalismo galego, desenvolveu uma atividade contínua no exílio. Depois de uma etapa de grande expetativa, iniciada com a sua nomeação em 1946 como ministro em representação dos partidos antifascistas galegos, entrou num período de enorme desencanto que não superaria durante a sua permanência em Paris em exercício do novo cargo. Nos primeiros meses do ano 1949 foi-lhe detetado um cancro no pulmão que o afastou da atividade pública. Em 1950, ano em que se dissolve o Partido Galeguista, falece em Buenos Aires.

FICHAS TÉCNICAS DOS DOCUMENTÁRIOS

  1. Casa de Castelão em Rianjo.

     Duração: 5 minutos. Ano 2009.

     

  1. Companheiro Daniel.

     Duração: 3 minutos. Ano 2016. Canta Suso Vaamonde.

     

  1. A Castelão.

     Duração: 3 minutos. Ano 2010. Canta Suso Vaamonde.

     

  1. Lela, estão as nuvens chorando.

     Duração: 6 minutos. Ano 2018. Realiza Arsénio Landa.

     

  1. Lela. Castelão.

     Duração: 5 minutos. Sédiva Sons, 2016.

     

  1. Homenagem à obra Alba de Glória de Castelão.

     Duração: 3 minutos. Realiza Cris Terceiro, 2018.

     

  1. Afonso Daniel R. Castelão.

     Duração: 4 minutos. Ano 2009.

     

  1. Chegada dos restos de Castelão à Galiza.

     Duração: 11 minutos. Ano 2015.

     

  1. O retrato.

     Duração: 7 minutos. Produtora: RTVE, 2018.

     

  1. Castelão, desenhador e pintor.

     Duração: 9 minutos. Realiza: Joam Seca, 2015.

     

  1. O pai de Miguelinho.

     Duração: 4 minutos. Realiza: Miguel Castelo (1977). Publicado em 2010.

     

INTERESSANTES DEPOIMENTOS DE CASTELÃO

Pelo seu grande interesse, apresento a seguir vários depoimentos de Castelão, que foram publicados no ano 1951 na revista Seara Nova de Lisboa, dentro do volume núm. 1204-1207 (3, 10, 17 e 24 de fevereiro de 1951), um monográfico dedicado a Castelão e à Galiza. O próprio Castelão já tinha publicado nesta importante revista um depoimento sobre “O regresso dos emigrantes” em 20 de março de 1924, no número 33, e outro intitulado “A Terra” no número 425 de 7 de fevereiro de 1935. Dos muitos publicados no volume especial de 1951, tenho por bem apresentar os três mais importantes;

  1. O intercâmbio galaico-português:

    “Até faz pouco tempo as relações entre Portugal e a Galiza, reduziam-se a visitas académicas de tunos e professores. A Universidade castelhana, que o Estado espanhol sustenta em Compostela, bem podia entender-se com a Universidade de Coimbra, “esse terrível foco desnacionalizador, por cruel ironia situado no meio da mais estranha paisagem quinhentista”, -sem comprometerem o artifício cultural e político em que vivíamos. Os visitantes universitários de Além-Minho esmeravam-se em falar-nos num castelhano risível, e nunca deixaram um só livro português posto à venda nas nossas livrarias. Consideravam natural que os galegos só pudéssemos comprar obras portuguesas traduzidas de forma infame para o castelhano, porque não sabiam que podíamos lê-las no idioma de origem. Lembro-me que no ano 1906 fum eu a Coimbra numa tuna académica e os estudantes lusitanos zangavam-se quando eu lhes falava em galego, como se com isso lhes lembrasse qualquer origem bastarda. Não lhes importava que juntos connosco, numa unidade superior às contingências políticas, tivéssemos criado monumentos literários, que são marcos da civilização ocidental, numa língua que eles depuraram e agigantaram, embora nós soubéssemos manter em prístina pureza e no estado eminentemente popular daquela literatura. Para eles Galiza estava no Norte, embrulhada em nevoeiros e em chuvas… e os estudantes portugueses toleavam com as “zarzuelas” madrilenas e sonhavam com amores sevilhanos… E contai com que naquela época primavam em Coimbra os ideais republicanos.

    Emparelhados com o torpe arredismo que os portugueses sustentavam frente à Galiza, nós oferecíamos um quadro muito mais lamentável que o deles. Os estudantes galegos – senhoritos educados na ignorância de si mesmos – escarneciam da melosa cortesia dos portugueses, de importação francesa, e da música ciciante da sua linguagem, e ao voltarem das Tunas pugnavam uns com os outros no arremedo da oratória e da gentileza com que foram agasalhados em Portugal. Neste mester os tunos recorriam a toda a casta de bufonarias com tal de fazerem rir os seus companheiros. Lembravam-se dos pés de cavalo, dos contos de réis, do vinho verde… e, às vezes, do amor frenético de alguma servente mulata…; mas era seguro que não meteram o nariz numa cadeira, nem se assomaram a nenhuma livraria, nem aprenderam o nome de nenhum escritor (isto seria português para os futuros médicos, advogados e boticários). No entanto, não todos éramos estudantes da “Casa da Troia”. Alguns voltávamos a Portugal com olhos prenhes de formosura e com o coração fendido de saudades, muito ledos de termos olhado ali o nosso próprio génio em liberdade. Também algum de nós trazia livros de versos e aprendia-os de memória. E não era raro que de volta de Portugal um estudante, que bem podia ser o autor deste depoimento, ficasse mais galego que antes e com ânimos para desentolher as possibilidades de uma Galiza livre e independente.

    Na Nossa Terra, diz Risco, podia-se ser mestre, bacharel, professor, médico, funcionário, magistrado, notário, cónego, bispo, obter os mais altos graus e os mais altos cargos sem saber nada da Galiza. O Estado concede gratuitamente o direito a ignorá-la. Eis aqui o modo absurdo que se tem de culturizar o nosso país: forçando-o a ignorar-se a si mesmo. Podia exigir-se aos galegos que conhecessem Portugal, quando nem os estudantes universitários conheciam o passado e o presente da Galiza? Naquele tempo acabava de falecer Alfredo Branhas e os seus discípulos enterraram solenemente o seu corpo e com ele as ideias regionalistas. Porém, bem aginha jurdiram instituições de cultura galega, à margem do ensino oficial, impulsionadas por uma superação do velho regionalismo político. O enorme labor realizado pela revista “Nós”, o Seminário de Estudos Galegos e as numerosas obras literárias e de investigação que se publicavam em idioma galego, não só galeguizaram o clima intelectual da Nossa Terra, senão que, ademais levantaram orgulhosamente o natural galeguismo do nosso povo. Foi então quando na Galiza se produz um grave e sentido interesse pelas cousas de Portugal.

    Se da esfera das especulações do espírito descemos ao terreio das realidades políticas, é doado lembrar que até nos programas de ação estava presente o interesse que nos inspirava Portugal. Assim, na primeira “Assembleia Nacionalista Galega” (Lugo, novembro de 1918) fizemos a seguinte declaração: “Acreditando na acidentalidade das formas de governo, interessa-nos aclarar que não apelamos por nenhuma; porém, simpatizaremos, desde logo, com aquela que se amostre mais doada para chegar à federação com Portugal”. Cumpre dizer que no início das atividades galeguistas conviviam as mais extremas e opostas tendências do país, à semelhança da fenecida “Solidariedade Galega” e obedecendo ao melhor dos seus preceitos: “Já que um só nada pode, devemos e podemos fazê-lo todos juntos”. Por isso, é de admirar que o nosso setor direitista fosse capaz de abraçar o republicanismo com tal de que assim chegássemos à união com Portugal. Hoje os galeguistas somos ardidamente republicanos e ardidamente partidários da União Ibérica”.

  1. O problema da língua:

    “A criança galega que vai à escola fala uma língua diferente, embora semelhante à do mestre: uma língua que não é a dos livros nem a das cartas que se recebem na sua casa. A criança esforça-se em falar na língua do mestre, que considera superior à que falam seus pais. A criança aprende a dizer muitas cousas sem saber o que diz e sem compreender bem o significado das palavras que pronuncia. A interferência das duas línguas rebaixa o desenvolvimento espiritual da criança, porque não sabe falar na língua do mestre e tem vergonha de falar na língua que mamou. A criança não é dona de nenhuma língua, porque o idioma imposto não logrou matar o seu idioma natural; porém, logrou degradá-lo. A criança perde a expressão espontânea do pensamento e sofre um complexo de inferioridade que não o vai abandonar enquanto viva. A criança que sofre os efeitos do bilinguismo e não passa pelos graus superiores do ensino perde aquela originalidade verbal que conservam os analfabetos inteligentes. Resulta inferior a um analfabeto.

    A criança acha que não se pode escrever a língua que fala e que somente se escreve o castelhano. A criança perde na escrita os poucos recursos de expressão que ainda conserva para falar. A criança aprende a escrever quatro frases em castelhano e com elas tem que governar-se. A criança galega, ainda depois de chegar à idade adulta, jamais deixa numa carta a pegada de seu carácter e da sua personalidade. O resultado final é que a língua imposta “não fecunda o campo das ideias” e que os galegos da aldeia vão perdendo, pouco a pouco, os conhecimentos escolares. E, depois de saber ler e escrever, trocam-se muitas vezes em analfabetos.

    Eu sei tudo isto porque o experimentei e porque foi comprovado noutros países semelhantes ao nosso. Eu também sou filho do povo e fum à escola sem entender bem a língua do mestre, e também vi como três companheiros de fala castelhana eram os mais adiantados, e não porque tivessem mais talento, segundo comprovei mais tarde, senão porque falavam a língua do mestre. Que criança galega não sofreu esta mágoa!

    A nossa generosidade podia ser tão sublime que aturássemos o sistema nivelador do ensino, como nos tempos mais recuados da monarquia borbónica; porém, não admitimos que a República democrática siga inçando a nossa Terra de mestres forasteiros, que desconhecem a fala das crianças que devem educar e instruir. Para que compreendais a fundura deste crime abonda que contemos a seguinte anedota:

    Chega um mestre andaluz a uma escola galega. O mestre não entende a fala das crianças, e as crianças não entendem a fala do mestre. O mestre desenha no quadro uma “cunca” e pergunta a uma criança: -Como se yama lo que acabo de dibujá? A criança não responde. Então o mestre andaluz quer ajudá-la: te a, ta; seta a, sa…E a criança responde: “Cunca”. Então o mestre, que não sabe o que o rapaz diz, solta uma gargalhada… esta gargalhada, de aparente inocuidade, é, no entanto, como um tiro que a criança recebe no centro mais nobre do seu espírito, uma ferida quiçá incurável.

    Para que a escola galega seja de proveito não chega com utilizar nos primeiros graus do ensino a língua materna das crianças; é necessário, ponho por caso, outra distribuição das férias e dos horários, ajeitando as ordenanças do curso à vida rural da Galiza. Pensai nas chuvas e frios do inverno, nos caminhos rurais e nas distâncias que as crianças percorrem para chegarem à escola, molhadas e aterecidas. Por outro lado, é necessário criar escolas de formação agrária, que dignifiquem a comunidade rural, fomentando o espírito comunal, inculcando o apego à terra nativa e criando a base de uma ampla cultura técnica e agrária. A escola rural deve ser diferente da escola das vilas ou cidades. Para isto, cumpre formar professores especializados, com destino às aldeias. Assim evitaremos que as nossas escolas rurais sejam lugares de trânsito para docentes senhoritos ou para mestres que se asfixiam nos climas labregos do rural.

    A escola única, inspirada em princípios democráticos, não se pode mudar em agente igualitário, que elimine os acidentes naturais do espírito. Olhando ao interesse da criança, “a pedagogia não pode ser niveladora”, e, portanto, cumpre saber que entendem os mandões da instrução pública por “escola única”. Escola unificada para lograr que todos os espanhóis consigam um mínimo de conhecimentos para luitarem na vida e para converterem-se em elementos úteis à coletividade, está perfeitamente bem; porém, escola única como sistema de política assimilista, para lograr uma cultura uniformada, matando as variedades culturais, que é a riqueza de todos, isso é um jeito fascista. Isso nunca. Escola que não garanta a cultura de criação, escola que não utilize o idioma materno das crianças, como jeito pedagógico indiscutível, escola para Galiza igual que para Castela, isso nunca. Esse sistema fere a nossa dignidade, porque somente um povo selvagem tem a obriga de deixar-se assimilar, somente um povo selvagem pode ser exterminado. Os galegos devemos opor-nos a um sistema de educação que empobrece o espírito do nosso povo e que tende ao seu extermínio como elemento de cultura”.

  1. A união galaico-portuguesa:

    “Cumpre buscar na variedade incontrovertível da Península uma harmonia dos carateres diferentes, expressão do ideal comum, indivisível e próprio de todos os povos hispanos. Procuremos, pois, o senso moral e superior da unidade hispana, capaz de ser politicamente tão poderoso como foi a ideia católica no período da Reconquista. Porém, a paz e a saúde de Hespanha há vir só com a integração de cada indivíduo na sua própria terra e com respeito à variedade dos caracteres nacionais. Cumpre dizer que os galegos não provocaremos luitas destrutoras, de que estamos bem aborrecidos; porém, sim, provocaremos a realização do hispanismo patrimonial dos dous Estados da Península e das várias nações que integram Hespanha. Somos ardidos defensores da união ou aliança ibérica, porque no fundo insubornável da nossa alma bole o desejo de achegar-nos a Portugal e de confundir-nos com ele; porém, primeiro aspiramos a dar remate feliz à nossa obra hespanhola (a obra do pacto de “Galeuzca”). Em algum momento da decadência de Hespanha existiu o perigo de levar até o Ebro a fronteira francesa, entregando Galiza a Portugal e dividindo a Península em dous Estados de igual peso. Pois bem, nós, os galegos “nacionalistas”, imos fazer uma declaração bem meditada: “Luitaremos sempre contra qualquer pensamento que mingue as possibilidades de uma Hispânia grande”. Nós queremos abolir a hegemonia de Castela porque o nosso nacionalismo é predominantemente cultural, e já comentámos que a única solução de que gostamos é a do federalismo ibérico, porque assim o nosso espírito agora oprimido, confundiria-se com o português, na missão conjunta de criar para o mundo atlântico uma nova civilização.

    Vejamos, pois, até que ponto nos sentimos unidos a Portugal, pois não todo ele nos atrai amorosamente. Alguém há dizer que a fronteira minhota já é um abismo intransponível, e nos dizemos que os homens não criam impossíveis nem contravêm definitivamente os desígnios da natureza. Ponhamos um exemplo: Os romanos torceram o curso do Sil, com o objeto de extraírem o ouro que tinha no leito do rio. A nossa gente confiava tanto na engenharia dos romanos que se aventurou a fazer casas no canal antigo do Sil, como se o rio pudesse esquecer-se do seu natural destino. O Sil, entretanto, suspirava pelo velho leito, e um bom dia, ao cabo de muitos séculos, afundiu-se o túnel do Monte Furado e as águas do rio apoderaram-se do que lhes pertencia, e hoje voltam a correr por onde corriam antes. Esta lição, avisada no refrão que diz: “ao cabo dos anos mil as águas vão por onde soíam ir”, ensina-nos que o artificioso desvio de Portugal não é tão seguro como acreditam os castelhanos e mesmo os portugueses. Qualquer dia afunde-se a engenharia política, e os portugueses e galegos voltamos a falar e cantar no mesmo idioma; porém, também se podem restaurar fronteiras que foram demolidas…

    A nossa Terra, na sua extensão de província romana e de reino suevo, conservou a sua integridade até o final do século XI, em que Afonso VI teve por bem dividi-la em dous condados irmãos. Assim nasceu Portugal: num pedaço de terra galega, entre o Minho e o Douro, separado de Castela pelo inexpugnável maciço de Trás-os-Montes. O Condado portucalense chegou a ser reino separado, pela decisão corajosa dum Príncipe sem semelhante… O sólio de Afonso Henriques, fundador do reino português, não cabia em tão pequeno recinto e buscou a sua expansão em direção ao Sul, tomando “terra de mouros” e deslocando-se dos pátrios lares, quer dizer, da Galiza. Alguns portugueses dizem que Portugal partiu para a guerra e que a Galiza ficou tecendo saudades à beira do Minho, a suspirar, namorada do novo ausente. Bonita figura, abofé! Porém, quem suspira é Guimarães, vendo a capital portuguesa em “terra de mouros”…

    A reconquista que iniciaram os portugueses foi privativa deles, independente da que sustentavam os castelhanos. Ambas as forças podiam encontrar-se entre si nas terras ganhas ao inimigo, além da Galiza, onde desaparecem as montanhas divisórias; porém, Castela desviava-se de Portugal, em direção ao Mediterrâneo, à Itália ou à Flandres, e na soidade desértica das Estremaduras foi possível estabelecer uma fronteira. A incomunicação dos dous reinos, depois da conquista de Granada, consolidou a independência de Portugal e forjou o dualismo estatal que hoje se aceita como inevitável; porém, a Portugal faltou a Galiza e nunca chegou a ser uma nação tão forte como Castela. E desde Lisboa não se olha nem se sente a necessidade da Galiza, porque tampouco está ali o berço de Portugal, do Portugal inassimilável.

    A “sede insensata de infinito” emborcou a energia inteira dos portugueses nas anchas águas do Atlântico, a navegarem “por mares nunca dantes navegados”. As façanhas marinheiras de Portugal correspondem à grandeza lírica que carateriza o etnos galaico. Portugal, “não movido de prémio vil”, realizou a ilusão cósmica da Galiza, criada no cabo Fisterra, onde a alma viageira do mundo antigo se assomava ao Mistério. As façanhas foram portuguesas; a ilusão que as guiou era galega. E o deslocamento da metrópole, levada de Guimarães à cabeça das Estremaduras, significa uma suplantação da lírica pela épica e um alonjamento das fontes originais, que, ao final, haviam de mudar em inútil tragédia o esforço dos navegantes. Portugal é pequeno! Diz-se que os portugueses foram navegantes e não conquistadores, como podia dizer-se que a influência céltica era neles mais forte que a cristã; porém, Portugal não podia sustentar um império faltando-lhe a força, o trabalho, a paciência, a serenidade, a massa humana da Galiza. A potência era galega; a impotência provém da desintegração galaico-portuguesa. Imaginemos o que seria uma integração das duas pátrias em uma só nacionalidade, e então o Império português seria hoje algo mais que uma expressão retórica, sublimada por Camões”.

 

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

Vemos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um Cinema-fórum, para analisar a forma (linguagem fílmica) e o fundo (conteúdos e mensagem) dos mesmos.

Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Afonso Daniel Castelão, a sua obra literária e artística, as suas ideias e a sua defesa da língua e da cultura da Galiza. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias.

Podemos organizar no nosso estabelecimento de ensino um Livro-fórum. O livro básico de Castelão, a ler por estudantes e docentes, teria que ser o tantas vezes mencionado Sempre em Galiza, de que existe uma boa edição realizada pela AGAL. Outra atividade interessante podia ser a projeção, com leitura incluída dos pequenos textos, de viva voz, dos desenhos dos seus álbuns Nós, Atila na Galiza e Galiza Mártir, e da série de Cousas da Vida.

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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