Nique Nunes: “A visom internacional da nossa fala fai da escola Semente um meio de empoderamento espetacular”



3Nique Nunes é promotor da Semente da Corunha, a última escola Semente aberta no país, que começou o seu primeiro curso escolar em 2019/2020.

É um dos promotores da última Semente, a da Corunha. Porque decidiu envolver-se nesta iniciativa?
Eu e a minha parceira resolvemos pôr em andamento o projeto, perante a impossibilidade de escolarizaçom das crianças num sistema de ensino galego, tanto a respeito da língua como no tocante aos nossos princípios culturais, já que, infelizmente, o ensino público nem possibilita, nem facilita, nem garante umha educaçom em galego. Antes polo contrário, a escola oficial é um agente castelhanizador de grande magnitude.

Portanto, dada a situaçom atual da língua e da nossa cultura, a única hipótese era a criaçom de umha escola galega e em galego na nossa cidade.

Quais foram as principais dificuldades às quais a Semente da Corunha se enfrentou? Tiveram uma boa acolhida por parte da vizinhança da zona? E por parte da sociedade corunhesa, em geral?

O primeiro entrave foi conseguirmos umha equipa de trabalho para materializarmos o projeto: Após várias apresentaçons ao longo do tempo, conseguimos um grupo humano de excelente qualidade para atingirmos a finalidade proposta. Mas isso foi apenas o começo…

Depois tivemos de luitar com toda a papelada administrativa para sermos umha associaçom, procurarmos umha sede física onde poder realizar os nossos propósitos, darmos a conhecer a iniciativa, captarmos sócias, conseguirmos crianças, envolver as famílias no projeto…e como é óbvio, o financiamento, se calhar o mais complicado para fazer realidade os nossos sonhos e fonte de constantes problemas e dificuldades…

Mas, afinal, apesar de estarmos ainda às voltas com muitos desses assuntos, conseguimos ter umha base sólida e estável além de um espaço ótimo para o desenvolvimento adequado das crianças, eixo fundamental de todos os nossos esforços.

No que di respeito ao acolhimento, acho que ainda somos umhas grandes desconhecidas tanto no bairro quanto na cidade, embora tenhamos feito muitas propostas e atividades.

464823255_394502Tem um filho pequeno na Semente Corunha. Antes de entrar nesta escola, ia a algum infantário? Porquê?

O Roi estivo escolarizado no ensino público um ano. Tomámos essa decisom por causa da sua necessidade de estar com crianças: é um meninho muito sociável e precisa do contato com os seus iguais. Mas, foi tempo avondo para percebermos que por esse caminho, o ensino público, nom ia dar certo: os valores que se transmitiam, a metodologia empregada, sistema de trabalho, etc, nom era o adequado para o desenvolvimento pleno das capacidades do nosso rebento. Embora tivesse umha boa docente…mas o próprio sistema nom permite ser diferente, sair do caminho traçado…

A respeito da língua, o panorama era desolador, nengumha das crianças de mais de cinco anos falava em galego…apesar da professora ser galego-falante…

O ensino público, nom ia dar certo: os valores que se transmitiam, a metodologia empregada, sistema de trabalho, etc. E a respeito da língua, o panorama era desolador, nengumha das crianças de mais de cinco anos falava em galego…

Conhece outras crianças que, sendo o galego a língua habitual ou única no lar, assistiram a infantários ou escolas públicas ou privadas? Nota alguma diferença entre eles e o seu filho em relação ao uso da língua?

Conheço, e a diferença é esmagadora: a maioria das crianças abandonam a língua com o passar do tempo por causa da forte pressom a que estám submetidas e, as poucas que resistem, sofrem umha importante merma na qualidade.

Todo o contrário acontece com as crianças da Semente, já que o galego é a língua veicular das aulas, a forma de expressom normal e “natural”, o que somado à visom internacional da nossa fala, fai da escola um meio de empoderamento espetacular.

400019300622_86751Há quem diga que o importante é os miúdos falarem, seja lá como for, concorda?

Nom, nom concordo. Se essa pergunta fosse feita aos falantes de espanhol, qual seria a resposta?… Tanto teria que falassem de qualquer maneira?

Acho que como todo na vida deve ser feito “com jeito”, isto é, se quigermos ter um futuro como povo diferenciado, com a nossa cultura própria: simbologia, costumes, valores, tradiçons…etc, a língua, ainda que soe a tópico, é o nosso principal sinal de identidade. Se perdermos a língua, perdemos o que nos fai únicos, diferentes, ou seja, “originais”…De facto, nos tempos que correm estarmos num parque galego é como estar num parque de Burgos, Múrcia…com todos os meus respeitos por essas povoaçons.

Mas a qualidade lingüística começa em nós, ao igual que a escolha da língua, por isso é fundamental trabalharmos os aspetos psicológicos e sociológicos desta: autoestima, autoconfiança…

Poderia explicar, brevemente, os objetivos do Projeto Semente e a sua importância para o país e, especialmente, para a nossa língua.

A resposta teria de ser mui longa por causa da grande carga pedagógica, cultural e identitária que supom, mas o objetivo último, do meu ponto de vista, seria o desenvolvimento integral das crianças no contexto cultural próprio para serem adultas autônomas e críticas com a realidade, e assim tomarem as suas decisons de forma consciente e livre, sem intermediários que pensem por elas, orgulhosas de serem galegas, empoderadas numha língua internacional que abre portas, nom as fecha.

Em resumo, som a “semente”, a base para a construçom do País, com maiúsculas.

O objetivo último da Semente, do meu ponto de vista, seria o desenvolvimento integral das crianças no contexto cultural próprio para serem adultas autônomas e críticas com a realidade, e assim tomarem as suas decisons de forma consciente e livre, sem intermediários que pensem por elas, orgulhosas de serem galegas, empoderadas numha língua internacional que abre portas, nom as fecha.

Por último, a língua, para quê?

Como já dixem antes, a língua é a principal ligaçom com a realidade, a forma de interpretá-la, entendê-la, vivê-la… é portanto, a nossa forma de sermos e estarmos no mundo. A expressom máxima da nossa cultura, onde estám depositados todos os nossos saberes e afectos.

Se nom a transmitirmos, perderemos essa essência íntima que nos fai diferentes, únicos.

E, além de mais, é a nossa vantagem competitiva, pois temos a capacidade de comunicaçom, a todos os níveis, com o mundo de expressom galego-portuguesa, um monte de possibilidades com só abrirmos a boca, sem sair da casa.

Karina Pereira Rei

Nasci em 1995. Considero-me meio muxiana (de onde é a minha família) e meio corunhesa (cidade em que me criei). Sou graduada em Galego e Português e em Inglês pela Universidade da Corunha. Após concluir estes estudos, em 2018, fui estudar para o Porto o Mestrado em Português Língua Segunda/ Língua Estrangeira, o qual, se tudo correr bem, teria de finalizar este ano.


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  • E. Vazquez Souza

    Que bom… para além da língua, tenho a sensação que a cativada das Sementes vai ser absolutamente privilegiada… já não apenas pelas famílias e tribus arredor senão pela sintonia na sua interatuação com o sistema educativo e os modelos pedagógicos… com as possibilidades de ter um aprendizado mais amplo, ativo, diverso, completo e interessante… uma educação de elites em condições populares… 😉

    Mil primaveras mais para as Sementes…

  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    Muito bom.
    O reintegracionesmo constroi país a sério, colocando as pedras do edifício de jeito sólido.
    Que bom esta nova semente de escolas publicas publicas nacionais