A literatura galega arriba na Póvoa do Varzim



Matias Mourinho (Através Editora), Andrea Jamardo (presidenta de Compostela Literaria), Quico Valeiras (Chan da Pólvora) e David Cortizo Conde (Urco Editora)

Matias Mourinho (Através Editora), Andrea Jamardo (presidenta de Compostela Literaria), Quico Valeiras (Chan da Pólvora) e David Cortizo Conde (Urco Editora)

Compostela Literária é um coletivo de livrarias e editoras da capital galega que reúne várias entidades (livrarias Chan da Pólvora, Através Editora, Os Mundos de Carlota, Lila de Lilith e Tirana, e Urco Editora, Auga Editora, Positivas Editora, Tulipa Editora e ediçons Do Peirao). Esta segunda-feira 18 de fevereiro, um grupo de pessoas da associaçom visitarám Póvoa de Varzim para participar em Correntes d’Escrita, um dos eventos literários mais importantes do pais vizinho. O PGL conversa com David Cortizo Conde (Urco Editora), Matias Mourinho (Através Editora) e Quico Valeiras (livraria Chan da Pólvora), para debulhar o evento da próxima semana e reflexionar sobre o diálogo entre os dous sistemas literários.

Como nasceu a iniciativa de ir esta comitiva de Compostela Literária às Correntes d’Escritas?

D.C. É um pouco curioso porque foi o Concelho o que se contactou connosco para gerir a presença da SELIC ali. A Póvoa de Varzim estivo convidada o ano passado na SELIC e este ano o festival convidou a SELIC. O Concelho, logo, decidiu encarregar-nos isto, já que também somos o grupo promotor da SELIC.

Além de Compostela Literária, há mais presença de editoras ou autoras? Que entidades estarám presentes?

Q. V. Cada dia vam estar duas pessoas, formamos quase todas parte de Compostela Literária. A mais também está Maria Meixide, que vai apresentar De Ushuaia a La Quiaca, caderno de viaxe e o Mapa Emocional de Compostela. Além do mas comunicou-se à Mesa do Livro a nossa presença para poder enviar o seu material. Entre elas estariam Numax, Alvarellos…

Vai participar a associaçom em algúm ato?

D.C. Sim, Compostela Literária de facto vai participar num concreto, onde apresentaremos o próprio projeto de Compostela Literária. Vai ser na próxima quinta-feira às 20.30 horas.

Q.C. Xabier Xardón e O Leo também vam representar o seu projeto de Detéxtonos, em representaçom de Positivas. E depois eu vou apresentar o projeto da livraria Chan da Pólvora, especializada em poesia. Além da própria feira, vai haver atos paralelos antes, durante e depois da feira em si mesma.

Participastes antes nalgum evento deste tipo em Portugal?

M.M. O reintegracionismo sim. A presença galega há tempo que está em Póvoa. Na Correntes d’Escritas sobretudo na figura de Carlos Quiroga. Ele leva muitos anos indo, e fazendo lá contatos. Em todo o caso, para nós também é bom ir como [Através] editora, com livros mesmo de autores galegos que nom som tam conhecidos na lusofonia para que se deem a conhecer e que os próprios portugueses podam ver uma editora galega lusófona.

Compostela Literaria Matias Mourinho

Salvador Sobral disse na última gala do aRitmar que ele era “galego do sul”, enquanto toda a Espanha tem as costas voltadas para Portugal, a Galiza “está completa e eternamente apaixonada”, mesmo quando “às vezes isso nom é recíproco”. É possível a sinergia entre os dous sistemas literários? Há potencial sem explorar?

D. C. Nós temos uma autora portuguesa no catálogo que é de Lisboa, que quando ganhou um prémio literário chegou cá, conheceu a Teresa Moure e o Carlos Quiroga e, a partir de aí, deu-se da realidade. Porém, ela disse que nom escutara falar disto nunca na vida lá em Portugal. Se calhar a gente do norte sim que deu conta, pela Correntes d’Escritas e Carlos Quiroga mas… eles nom é que vivam de costas a nós, é que nom têm conhecimento. Som um Estado aparte, mas acho que se podem gerar muitas sinergias.

Q. V. Penso que há que diferenciar entre o sul e o norte, que chegaria até o Porto. Nom obstante, o que penso que fam falta som políticas reais da Junta para potenciar as fontes culturais entre ambos os países. Depois, a maiores, no nosso mundo que é o sistema do livro nom há os mecanismos suficientes. Nom existem mecanismos para criar sinergias e que seja fácil trazer livros. A uma livraria nom lhe é fácil -a menos que fales diretamente com uma editorial- trazer depósitos de Portugal. E hoje em dia, fazer um bom fundo em firme custa muito. É complicado e, afinal, entre as entidades podemos fazer iniciativas pequenas mas é muito difícil sem um ajuda das instituiçons.

D.C. Aí está o exemplo da livraria Ciranda, a única de toda a Galiza em português, que tivo que fechar porque nom havia público para o livro que tivesse.

M.M. Eu diria que, mais que dois blocos que precisam de ajudas institucionais para se relacionar. Penso que, mais que considerar como nos podem ajudar de fora, acho que deveriamos deixar de pensar em blocos e entender que, sem sinergia ortográfica, nom vai haver outras sinergias porque é impossível que as haja. Vam continuar a pensar o mesmo que pensam agora,  ou que é espanhol ou que é outra coisa, mas é algo que nom lhes interessa. É muito difícil logo que com uma ortografia espanhola nos façam caso.

Qual pensais que é a atitude do público português?

D.C. Claro, nós temos a experiência nos títulos que temos publicado em português e som muito difíceis de mover. E um era um prémio literário duma autora portuguesa e ainda assim… Até me custa enviar o livro a Portugal. Mandamos mails a livrarias portuguesas e ainda assim nom queriam o livro.

É a Galiza mais ciente da potencialidade do relacionamento com a lusofonia que esta? É isto causado pela divergência ortográfica?

D.C. Sim, com certeza.

M.M. Sim, claro.

Q.C. Nom sei se pela divergência ortográfica, mas acho que tem muito peso a fronteira estatal. Há uma barreira. Isso passa também com muitas zonas arraianas de Andaluzia ou Extremadura. Partilham uma querença e uns hábitos com Portugal, mas nom muito além. Nom sei até que ponto é mais factível uma luta de simplesmente entendermos. Resulta doado ler em português, nom sei a eles. Porém, há uma constante na autoria galega –dá igual a arte que for– que quando se quere transcender olha-se para Espanha e nom para Portugal. É uma parvada, porque penso que seria mais interessante olhar para o sul.

“Há uma constante na autoria galega de qualquer arte na que, em que se quere transcender, olha-se para Espanha e nom para Portugal. É uma parvada, penso que seria mais interessante olhar para o sul”

Como podem ser estimuladas estas sinérgias? Comentavais que nom chegavam as ajudas instituicionais senom que cumpria a convergência ortográfica?

M.M. Penso que isso está fora das nossas maos mas há que tentar atacar por todas as frentes. O ideal seria que, no plano cultural, se pensasse nom no cenário espanhol mas no marco da língua. Entóm, pensaríamos numa ortografia diferente que fosse comum com o resto da família linguística e que, no plano das medidas concretas das livrarias, fazer mais coediçons, mais encontros… que venham mais autoras galegas fora e mais autoras lusófonas aqui.

Q.C. Sim. De facto, Positivas acho que em março fai o de ‘Arrincando marcos0, que é isso de levar ediçons de Positivas a livrarias de Portugal para fazer lançamentos. Este ano imos ir ao Porto, à Poetria, e aí eu como livraria vou tentar propor a Poetria repetir o mesmo na Chan da Pólvora. Que acontece? O tema é que editora está interessada em fazê-lo porque volvemos ao mesmo. Aqui há um público potencial para autoras portuguesas, mas lá nom sei que interesse têm em vir aqui.

D.C. Bom, sempre há. Houve várias editoras que vinheram aqui.

Bebe entom mais o sistema galego do lusófono que ao revés?

D.C. Isso é pelo que disse Matias. Nós aceitamos a norma deles porque é um idioma universal, mas eles por que vam fazer o esforço de se adaptar a uma norma que nom lhes vai achegar demasiado? Nem intelectualmente, porque é o seu idioma deturpado, nem a nível económico nem nada. O falho está aí. Logo, também há iniciativas privadas no seu dia… Por exemplo, antes da TDT, eu em Ponte Vedra via duas televisons portuguesas e quando cheguei a Compostela para viver cá, vinha com uma ideia clara do que era o português, de que era muito semelhante, de que o entendia perfeitamente… Tinha uma vontade cara a Portugal. E aqui em Compostela nom notei o mesmo cara a Portugal porque nom tiveram esse contato com o pais. É mais permeável noutras artes, como a música?

Q.C. Isso é muito interessante. Aí anda Paco [Macías] com o tema da bossa nova, de misturar-se em artes. Sempre dim que a música é universal, e aí estám os trabalhos de Narf e Uxia com o mundo da lusofonia, que tenderam uma ponte estupenda D.C. É que quando é oral, já nom existe essa fronteira, perde-se.

M.M. Sim, e depois está toda essa fronte do aRitmar, que também trabalha ali. Pensando no anterior… em termos musicais sei que é diferente, mas em termos literários, o interesse das galegas a respeito doutras normas penso que a nossa conceiçom parte dumas ideias fixas que nom têm por que ser assim. Os interesses também som criados. Pode haver gente que diga que Teresa Moure escreve nesta norma porque nom há interesse para a outra, e Teresa Moure mudou e continua vendendo livros noutra normativa, e nom se passa nada. O do interesse é relativo. Depende do que nos fam comer e que nom, quem recebe prémios e quem nom, que editoras podem apresentar-se a prémios e quais nom…

Compostela Literaria Quico Valeiras e David Cortizo Conde

Leva o reintegracionismo o colante de ‘outsider’ do sistema literário galego?

M.M. Nom é propriamente a vontade de Através, porque de facto o próprio nome parte da ideia de que queremos atravessar fronteiras. Nom temos vontade de nicho nem de ghetto, mas é evidente que isso na Galiza pode limitar muito as possibilidades enquanto vendas e repercusom de certas autoras, mas isso é já mais pelo próprio sistema literário e de subvençons.

D.C. Sim, é o mesmo que disse ele. O que deixa de vender Através e vendem as outras som as compras institucionais, porque nom podem aceder, e as compras que fam em centros para clubes de leitura e assim… Que som mínimas. Porém, Susana Aríns, por exemplo, vende muito. Tal como o Séchu Sende e Teresa Moure, e nom vendem menos por mudar de norma. De facto o Séchu penso que vende mais agora que antes de mudar de norma.

Quais som os objetivos de cara às Correntes d’Escritas?

D.C. Passá-lo bem, ainda que imos estar de nove e meia da manhá a doze da noite… [risos] O objetivo de Urco é publicar outros dous livros na norma internacional: o de Susana Aríns e o de Teresa Moure. Vamos ter já um catálogo de 4 títulos na editorial, e também imos levar títulos em galego ILGA, que também se vendem às vezes. Rarezas. A ideia é tender pontes e procurar uma distribuidora ou uma livraria de referência.

M.M. Fazer caminho.

D.C. É que a Através custa também.

M.M. Sim. É difícil porque a efeitos práticos, é uma editora pequena para além de questons ortográficas. É uma editora pequena que chega dum mercado ainda mais pequeno, porque nom passamos de 3 milhons. Eles, ao contrário, têm um mercado enorme que partilham parcialmente com o Brasil e som autónomos. Para eles, somos -entre aspas- “satélites”. É difícil meter-se ali. D.C. Está muito monopolizado, porque têm duas grandes distribuidoras…

Q.C. Ai é onde eu falava das condiçons políticas, porque se realmente interessara ‘oficializar’ o reintegrado… Acho que é uma questom mais política, que influe em que, por exemplo, nom se visibilize uma possibilidade ortográfica distinta. E se assim fosse, Através nom deveria ter problema porque a qualidade literária do catálogo está ai.

Qual é o objetivo do Chan da Pólvora?

Q.C. Eu vou realizar a mesa para falar um bocado do projeto da livraria. E gostaria também de criar uma rede de possibilitar uma passagem de poetas, que é o nosso quadro, portuguesas que tivessem cá um sítio onde poder recitar e fazer encontros.

Há muito movimento na poesia portuguesa?

Q.C. Sim, sim. De facto eu acho que pode fazer muito movimento aí a editora Urutau, que era brasileira e agora está a editar também autoras galegas. E tem um catálogo de autoras galegas potentes. Xabi Xardón, por exemplo, também vai ser editado, e Eli Ríos, Rebeca Baceiredo também tirou já livro… E parece-me muito interessante porque têm autores brasileiros e galegas na norma ILGA. E há distriubiçom das poetas brasileiras na Galiza e acho que também devem mandar para o Brasil as nossas poetas. Parece-me muito interessante isso. É claro que hoje nom vai haver uma revoluçom da maior parte do sistema literário cara ao reintegrado, mas penso que essa convivência pode ser interessante. Se calhar som mais ‘foucaultiano’ [risos].

M.M. Eu nom é por por-me anti-‘foucaultiano’ [ri], mas acho que as normas nom som dogmas de lei ou barreiras enormes. Nom é tam complexo.

D.C. Eu opino tal como Matias. Afinal é um construto, hoje é uma norma e se calhar amanhã poda ser outra. Se o extrapolares a qualquer outra questom social, como o matrimónio entre pessoas do mesmo sexo –antes nom podias e agora sim– entendes que é uma norma que fixa como se escreve um idioma. O idioma nom desaparece em absoluto. Os idiomas mudam, mudam em todos os países do mundo, todo o tempo.


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  • abanhos

    Muito boa iniciativa e grande sucesso a participação, oxalá