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“A lírica medieval oferece perspectivas para questões que ainda hoje estão na ordem do dia” Yara Frateschi Vieira, Maria Isabel Morán Cabanas e José António Souto Cabo falam-nos sobre o livro A Santiago em romaria vem

O mais novo lançamento da Através Editora, A Santiago em romaria vem: a lírica galego-portuguesa e Compostela, propõe um mergulho acessível no universo da literatura galego-portuguesa medieval, explorando seus principais protagonistas, a riqueza das cantigas e o papel central de Santiago de Compostela nesse cenário cultural. Para compreender melhor o caminho que levou à elaboração da obra e a relevância do tema, conversamos com as autoras, Yara Frateschi Vieira, Maria Isabel Morán Cabanas e José António Souto Cabo, especialistas reconhecidas internacionalmente no estudo da lírica medieval.

A entrevista foi realizada por escrito, através de troca de e-mails. Por isso, as respostas aparecem identificadas pelas iniciais das autoras, permitindo ao leitor acompanhar facilmente a voz de cada uma ao longo da conversa.

Em primeiro lugar, para que as leitoras e os leitores do PGL possam conhecer as pessoas que organizaram o livro, gostaria de perguntar como cada um de vocês começou a interessar-se pela lírica galego-portuguesa. E, além disso, como surgiu a colaboração entre os três? 

Y: Comecei a interessar-me pela lírica medieval já durante os anos da Faculdade, quando fui aluna do Prof. Segismundo Spina e, mais tarde, do Prof. Paul Zumthor. Embora tenha feito o meu doutorado sobre Literatura Portuguesa contemporânea, orientada pelo Prof. Massaud Moisés, sempre tive especial carinho pela lírica galego-portuguesa, cujo estudo fui aprofundando e acabou por se tornar dominante na minha atividade nas últimas décadas do s. XX. Para isso foi muito importante a minha estadia na Galiza, quando preparava a Antologia de Poesia Galega (1996) e o livro sobre as cortes senhoriais galegas do s. XIII (1999), bem como o trabalho com os colegas brasileiros na Associação Brasileira de Estudos Medievais. Mais ou menos na mesma altura, em Santiago de Compostela, fiz parte da equipa, formada pelos professores José Luís Rodríguez, M. Isabel Morán Cabanas, José António Souto Cabo e eu, que preparou e publicou o livro Glosas Medievais ao Cancioneiro Medieval Português de Carolina Michaëlis de Vasconcelos (2004). A nossa colaboração inicial remonta a esse trabalho, estendendo-se a outros, posteriormente.

M.I: Como aconteceu com a professora e investigadora Yara Vieira, também comecei a interessar-me pela lírica medieval nos anos da Faculdade na Universidade de Santiago de Compostela, tanto nos últimos da licenciatura, como no mestrado e no doutoramento.  Tendo focado nesta última fase académica o Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, primeira compilação poética editada em Portugal, sob a orientação do professor José Luís Rodríguez, foi necessário um estudo aprofundado da poesia anterior transmitida de forma manuscrita, sobretudo do ponto de vista temático e a nível comparativo, a fim de reparar em sobrevivências e inovações. Durante esses anos e até o momento atual, realizei algumas estadias de investigação em universidade e centros de pesquisa de Portugal e no Brasil (universidades de Lisboa e de Minas Gerais, por exemplo), em que tive um contacto muito próximo com estudiosos de ampla experiência na lírica medieval. Até hoje também fiz parte de projetos liderados por investigadores do grupo de Filologia Românica que abordaram diversos aspetos da literatura galego-portuguesa. Concretamente, a minha integração na equipa do projeto sobre as notações marginais de Carolina Michaelis no Cancioneiro da Ajuda, formada pelos especialistas José Luís Rodríguez, Yara Frateschi Vieira e  José António Souto Cabo, levou-me a muitas outras colaborações ligadas à investigação e transferência de conhecimento com o mesmo pessoal. Entre outras, posso mencionar a publicação de um roteiro virtual sobre a lírica medieval e os livros O amor que levei de Santiago e O caminho poético de Santiago, base do que agora lançamos sob o título de A Santiago em romaria vem.

J.A: A minha curiosidade pola lírica galego-portuguesa começou nas aulas do instituto quando nos falárom brevemente daquel movimento poético e tivo continuidade crescente durante a minha formaçom universitária. Esse interesse levou-me a realizar, sob a orientaçom do professor José Luís Rodríguez, a minha tese de mestrado nesse ámbito com um trabalho intitulado A religiom e a igreja nas cantigas satíricas. O meu contacto com a documentaçom dos séculos XII e XIII permitiu-me, por outro lado, aprofundar no conhecimento de diversos poetas desse movimento, nomeadamente daqueles de cronologia mais recuada e portanto ligados às suas origes, o que se plasmou, entre outros estudos, no livro Os cavaleiros que fizeram as cantigas (2012). A colaboraçom com Yara Frateschi Vieira e Isabel Morán Cabanas, a que elas já se referiram, tem sido muito satisfatória do ponto de vista humano e académico. 

O livro A Santiago em romaria vem: a lírica galego-portuguesa e Compostela trata de um tema que une literatura, história e cultura. Como vocês explicam, de forma simples, o que é a lírica galego-portuguesa e de que modo ela pode contribuir para compreendermos o passado literário da Galiza?

Y, M.I e J.A: Os primeiros poemas que conhecemos na nossa língua são “cantigas” (poemas cantados), que chegaram até nós em cancioneiros, copiados no s. XIII (Cancioneiro da Ajuda) e no s. XVI (Cancioneiro da Biblioteca Nacional e Cancioneiro da Vaticana). Essa poesia, inseparável da música, era cantada, na língua mais tarde denominada “galego-português”, por trovadores (e jograis), em ambientes aristocráticos (cortes reais e/ou senhoriais), e a sua origem e a sua difusão estão relacionadas à crescente peregrinação a Santiago de Compostela e ao importante desenvolvimento urbano desse centro religioso. Embora o seu modelo fosse a lírica trovadoresca praticada na Occitânia e no Norte da França, adquiriu características próprias no novo ambiente e estendeu-se por toda a parte centro-ocidental da Península Ibérica. Essas cantigas constituem, portanto, os primeiros textos literários na língua “galego-portuguesa” e, portanto, são um documento histórico e cultural dessa língua e suas ramificações posteriores. Além disso, as suas características formais e temáticas deixaram uma tradição poética e cultural que persiste até os dias de hoje (por exemplo, o conceito de amor cortês teve decisiva relevância na forma como o Ocidente construiu a sua visão do amor e, consequentemente, a sua poesia amorosa ao longo dos séculos).

Compostela aparece como um espaço central nesse universo poético, quase como uma personagem. Que papel desempenha a cidade, real e simbólica, nesse conjunto de cantigas e na tradição literária da lírica medieval em galego-português?

J.A: Uma das caraterísticas da galego-portuguesa é o facto de nela serem muito raras as referências espaçotemporais, nomeadamente no caso das cantigas de amor e de amigo. É por isso notável que Compostela e os seus arredores tenham sido escolhidas como pano de fundo para diversos textos, em proporçom muito maior do que acontece com outras localidades. Esse feito debe ser relacionado com importáncia da cidade do ponto de vista político, cultural e religioso desde o do século XII. Nom podemos esquecer, por outro lado, que a capital galega terá sido certamente palco para o espetáculo trovadoresco, mesmo no ámbito catedralício, e que vários autores oriundos dela contárom com importante protagonismo. 

O livro é uma reedição revista e atualizada de O Caminho Poético de Santiago, publicado em 2015 no Brasil. Que mudanças e acréscimos principais foram feitos nesta nova edição e o que motivou esse retorno à obra? 

Y., M.I. e J.A: O livro editado em 2015 pela Cosac Naify ficou praticamente indisponível, depois que a Editora foi encerrada. Por esse motivo, a oportunidade de reeditá-lo agora, pela Editora Através, foi extremamente bem recebida por nós, uma vez que possibilita torná-lo acessível novamente e a uma população mais ampla, na Galiza e em Portugal. As mudanças e acréscimos introduzidos foram as seguintes: atualização de informações biográficas sobre trovadores, quando disponíveis, e de novas referências bibliográficas relevantes para o texto da obra; inclusão de fotos de alguns locais referidos nas cantigas; e alteração da grafia dos antropónimos, que naquela edição era atualizada e aqui, ao contrário, acompanha as mesmas normas utilizadas na edição dos textos medievais das cantigas.

Como vocês veem a importância de publicar obras como esta para um público mais amplo, não apenas universitário? A lírica medieval ainda é atual? 

Y., M.I. e J.A: O público que se interessa por poesia, em geral, encontrará nessa forma literária medieval, por um lado, as raízes daquilo que hoje em dia se produz como poesia,  podendo mesmo reconhecer as fontes de alguns casos modernos e contemporâneos de diálogo intertextual (como o movimento do neotrovadorismo na Galiza e as múltiplas recriações em todo o espaço literário, não só da lusofonia, mas da Península Ibérica e doutras partes da Europa em que também se assistiu ao florescimento do espetáculo trovadoresco); por outro lado, terá acesso a perspectivas diversas diante de questões que ainda hoje nos preocupam e, realmente, estão na ordem do dia e do debate social  (relações de género, relações entre minorias étnicas, entre estamentos sociais e/ou profissionais  etc.). No entanto, como se trata de poemas e textos produzidos há vários séculos, em circunstâncias socioculturais muito distintas, e transmitidos, por vezes, de forma fragmentada ou alterada, é fundamental que o público leitor interessado possa ter em mãos não só uma edição dos textos rigorosa do ponto de vista filológico, mas também comentários esclarecedores acerca das dificuldades específicas de compreensão, situação histórica e interpretação que envolvem.  As cantigas recolhidas no livro fazem parte fundamental do património não só literário, mas histórico e cultural nas mais diversas dimensões. E, realmente, situa Santiago como ponto fulcral no mapa das primeiras manifestações literárias em galego-português.

As cantigas recolhidas no livro fazem parte fundamental do património não só literário, mas histórico e cultural nas mais diversas dimensões.

Para finalizar a entrevista, gostaria de pedir que escolhessem os trovadores ou jograis favoritos de vocês. E, se possível, que mencionassem uma composição também. 

Y: É difícil escolher, porque são muitos os trovadores e jograis galego-portugueses com bela e importante produção; além disso, como compunham em 3 géneros principais distintos – cantigas de amor, de amigo e de escárnio e maldizer – fica ainda mais complicado eleger um único. Feitas essas ressalvas, vou destacar um trovador galego que atraiu a minha atenção desde cedo, Pai Soarez de Taveiros, compositor de uma das cantigas mais problemáticas de toda a lírica galego-portuguesa, a famosa “Cantiga da guarvaia”: No mundo non me sei parella. Pai Soarez é também autor de cantigas de amor, de amigo e tenções; dentre elas, agrada-me especialmente uma de amor, que seduz pela forma original como trata o tema do “amor cortês”: Como morreu quen nunca ben.  

M.I: Como acontece com a Yara, também não é fácil para mim selecionar um autor e um texto da produção aqui recolhida.  Porém, uma predileção especial sinto por Joan Airas de Santiago e, ainda mais concretamente, pela sua cantiga Pelo souto de Crexente, cuja dose de hibridismo (entre cantiga de amor e o género provençal da pastorela) lhe imprime um encanto singular, enfatizado na referência ao entorno natural compostelano e à personagem da pastora (podemos até dizer que os seus versos inauguram a tradição literária do rio Sar, que em Rosalia de Castro tem o seu máximo exponente).  Igualmente, e pela proximidade com esta, seduz-me a única pastorela propriamente dita que conservamos, a cantiga de Pero Amigo de Sevilha, Quand’ eu un dia fui en Compostela. Quanto à sátira, parece-me extraordinária a crítica in crescendo e o desenho do mundo às avessas presente na cantiga de Airas Nunez, Porque no mundo mengou a verdade e, já para não deixar fora da minha resposta outro tipo de discurso maldizente, ousado e mesmo muito irreverente, incluo aqui o texto da Abadessa oí dizer, de Afonso Eanes do Coton, cuja habilíssima mistura dos elementos sagrados e sexuais (explícitos e simbólicos) não deixará nunca de causar surpresa, sorrisos e risos. E devo citar, ainda, alguma das duas cantigas de D. Denis relativas aos modos de trovar provençal e galego-português, mostrando o rei-trovador pleno conhecimento das relações e, ao mesmo tempo, das diferenças entre ambos: Quer’eu en maneira de proençal e Proençaes soen mui ben trovar (como se pode ver, custa-me decidir e esta escolha talvez se deva a certa deformação profissional e ao ótimo aproveitamento didático que apresentam os dois textos)

J.A: Na escolha de poetas e composiçons, coincido em boa medida com as minhas colegas, mas gostava de somar à lista outras sete que tenho por imprescindíveis: Agora me quer’eu ja espedir de Nuno Eanes Cerzeo; Bailemos nós ja todas tres, ai amigas de Airas Nunez; Vaiamos, irmana, vaiamos dormir de Fernando Esquio; Fez ũa cantiga d’amor de Juião Bolseiro; Levad’ amigo, que dormides as manhanas frias de Nuno Fernandez Torneol; Levou-s’a louçana, levou-s’ a velida de Pero Meogo e Quand’ eu vejo las ondas de Rui Fernandez de Santiago.

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