A identidade lusófona nas dez cordas da viola

A exemplo do Brasil, a viola em Portugal caminha a passos largos para um reconhecimento e aceitação



ivan_vilelaViola caipira, viola sertaneja, viola de dez cordas, viola cabocla, viola de arame, viola de folia, viola nordestina, viola de repente, viola brasileira. Não se assuste leitor, comecei listando tantos nomes, para mostrar o quanto a viola caipira (de 10 cordas) é popular no Brasil, sendo um dos porta-vozes do interior do Brasil.
Mesmo com tanta identidade por todo o Brasil, a origem da viola é lusitana e, navegou com os portugueses por todo o Globo, quando o “mar com fim era grego ou romano e, o mar sem fim era português”. “No séc. XVI vários tipos de viola de mão coexistiam na Península Ibérica”.
E, o Espaço Brasil entrevistou Ivan Vilela, um dos mais renomados instrumentistas brasileiros, com uma sólida carreira de 18 discos gravados e ainda, Professor Doutor e criador do primeiro curso de viola brasileira em nível universitário no mundo, na Universidade de São Paulo – USP e que agora está na Universidade de Aveiro, Portugal, envolvido no Projeto AtlaS, uma importante pesquisa sobre os instrumentos de corda, em especial o cavaquinho e a viola portuguesa (e a viola caipira, obviamente).
Ivan Vilela além de destacado músico e pesquisador, é o responsável por colocar a Cultura Caipira e a viola em um patamar mais elevado na arte. Sua obra, musical e acadêmica, ocupa lugar de excelência na música mundial.
Apesar de nos remeter ao mundo rural, a viola tem um passado urbano, tanto em Portugal quanto no Brasil.

Ivan Vilela, um dos mais renomados instrumentistas brasileiros, com uma sólida carreira de 18 discos gravados e ainda, Professor Doutor e criador do primeiro curso de viola brasileira em nível universitário no mundo.

Desde 2018 você está em Portugal, pesquisando na Universidade de Aveiro. Qual é o objetivo do Projeto “Memória e mediação das práticas e dos instrumentos musicais na circulação entre comunidades interligadas” ?
O projeto se chama AtlaS, Atlântico Sensível e pretende estudar as relações sociais e mudanças organológicas alavancadas pelos instrumentos de cordas dedilhadas portugueses no espaço da lusofonia no Atlântico. Mais notadamente as violas e os cavaquinhos, mas também dando atenção ao bandolim.

Tem havido uma revitalização no uso desses instrumentos supracitados bem como uma manifesta mobilidade de seu uso para outros segmentos musicais e funções nas celebrações.

Cremos que uma série de fatores internos, em cada país, e externos que têm movido esta roda de transformações como um efeito colateral à tentativa de globalização como uniformização dos mercados pela via do consumo. Isto gerou manifestações contrárias de afirmação das culturas locais em todo o planeta. O próprio mercado fonográfico, percebendo isto, incorporou este fazer de fusões sonoras dando caminho a um novo segmentos que foi chamado em meados dos anos 1980 de World Music, ou música étnica, música dos povos onde quando não apresentados em seus estado natural, estas manifestações eram fundidas a elementos de uma música pop que tem pretensões de universalidade no mercado fonográfico.

Também a ideia de pensamento ecológico que acabou por valorizar a diversidade cultural e nisto, as manifestações das culturas populares perceberam aí um espaço de divulgação de suas naturezas.

No caso do Brasil, uma certa desilusão com o viver numa grande cidade fez as pessoas, agora impossibilitadas de retornar ao campo ou cidades pequenas, buscarem valores que outrora fizeram parte de suas vidas, muitos destes valores ligados aos seus universos de origem, frequentemente um mundo mais ruralizado onde as relações humanas passavam por um outro crivo diferente do imposto pelo capitalismo na grandes cidades.

É importante repararmos que estes países em foco, todos têm uma realidade de sobreposição de tempos históricos em seus territórios, ou seja, há uma diversidade de valores convivendo contemporaneamente num mesmo país. Como exemplo; há vários Brasis, o Brasil do século XXI das grande cidades, o Brasil de 1940 dos interiores, o Brasil de 1910 dos interiores mais profundos. O mesmo ocorre em Portugal e em Cabo Verde. Enfim, há uma malha de sobreposição de tempos históricos que de certa forma resulta também na sobreposição de valores culturais. E certamente a viola e o cavaquinho protagonizam ações dentro desses diferentes tempos históricos.

A presença de artistas como o Almir Sater em telenovelas, a presença de artistas cabo-verdianos no cenário da música mundial como a Cesária Évora, dentre outros mais jovens, e a revitalização das culturas locais em Portugal também são fatores que muito ajudam na exposição e aceitação desses instrumentos em uma prática mais contemporânea de música e de cultura.

Note o fenômeno das quase duas centenas de ensembles de viola (chamados de Orquestras de viola) no Brasil, das orquestras de bandolins e de cordofones dedilhados de Portugal Continental e da Madeira, dos grupos de cavaquinhos (braguinhas e machinhos) na Madeira, dos grupos de violas nos Açores. Há todo um universo de reapropriação destes instrumentos afirmando as suas raízes e agora dando-lhes asas para voar por outras paisagens sonoras.

Enfim, há todo um campo a ser estudado onde esses instrumentos podem ser vistos agora como agentes de uma expressiva modificação cultural e não apenas como objetos passivos nas mãos dos tocadores e fabricantes.

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Pude constatar o imenso trânsito cultural que existe entre a Galiza e o Norte de Portugal

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Os instrumentos de cordas ganharam os mares e o mundo com as navegações portuguesas e foram “alterados” em cada país. Podemos dizer que cada nativo colocou a sua identidade nesses instrumentos?
Sim. Partindo da ideia de que os efeitos específicos das forças globais dependem da maneira como são mediados em esquemas locais, uma ideia afirmada pelo antropólogo estadunidense Marshall Sahlins, é muito claro como cada povo foi criando soluções de adaptação dos instrumentos à sua cultura específica. Haja visto no Brasil as violas feitas de buriti, de lata, de cabaça, de bambu. As multiformas dos instrumentos, as adaptações a recursos eletrônicos como os cavaquinhos de Cabo Verde e também as violas do Brasil, algumas de corpo sólido como as utilizadas pelos violeiros que tocam rock’nroll.

Aí a criatividade humana se manifesta para que não falte nunca a música em seus ritos,festas e manifestações de louvor à vida, à amizade, ao amor.

Explique qual é a situação atual da viola de Portugal (braguesa, amarantina, beiroa, toeira e campaniça)
Notamos que tem havido uma revitalização no uso destes instrumentos nos países em questão (Brasil, Cabo Verde e Portugal; não conseguimos verba para chegar em São Thomé e Príncipe, na Guiné e em Angola) mas estes processos têm sido diferente em cada país, o que nos motivou a entender quais as razões de tantas diferenças e, no caso do Brasil e de Portugal, um dos fatores esteve ligado a como o chamado Estado Novo – Getúlio, no Brasil e Salazar e, Portugal – trataram as suas culturas populares a partir dos anos 1930.

Antonio Ferro, um dos idealizadores do projeto cultural salazarista, nos anos 1930-40, percebeu que os grupos folclóricos, (em Portugal chamados de ranchos folclóricos) poderiam muito bem ser a estampa de manifestação identitária de Portugal diante da Europa e, por conseguinte, do mundo. Desta forma buscou-se algo idílico como uma Portugal do século XIX que ainda estivesse manifesta nesses grupos (difícil imaginar como eram exatamente essas manifestações no século XIX pela própria falta de registros mais detalhados dada a ausência de recursos fotográficos, videográficos e até iconográficos desta época).

Assim foi ocorrendo um engessamento dessas manifestações no sentido de uniformizá-las e as tornarem mais “artísticas” e performáticas que folclóricas no que tocam às suas coreografias, instrumental e canto. Até encontros onde as pessoas vivenciavam como era viver na idade média, com ritos, vestimentas e comportamentos ocorreram neste período em questão.

Ora, acabaram por inventar uma nova tradição, por recontarem a história à maneira que imaginariam que ela serviria melhor ao ideário do regime ditatorial de Salazar.

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A criatividade humana se manifesta para que não falte nunca a música em seus ritos, festas e manifestações de louvor à vida, à amizade, ao amor.

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Nesta medida, o que era a manifestação de um conjunto de crenças, de um conteúdo, que chamamos de folclore, passou a ser uma manifestação de uma ideia preconcebida onde a forma, outrora resultante de uma percepção de mundo passasse agora a viver por si própria e pelo ideário político-ideológico que a orientava. No Brasil tratamos estas manifestações pelo nome de parafolclórico. Pois as expressões estão desconectadas das cosmologias que as geraram.

Aí, as vestimentas e a maneira de se tocar os instrumentos passaram de uma forma livre e espontânea para uma forma fixa, predeterminada. Ocorreu então uma museologização do folclore enquanto expressão natural e espontâneade um povo. A viola acabou entrando nesta circunscrição, o que impediu que ela se desenvolvesse no quesito de tocabilidade, de ser mais afeita a um desenvolvimento performático mais amplo, pois a própria estrutura física (organológica) do instrumento muitas vezes não favorece a essas demandas.

 

A viola caipira, no final dos anos 1980 ganhou novos adeptos, formas de tocar e despertou interesse em uma juventude acostumada com música estrangeira, chegando à Universidade de São Paulo como curso de graduação, com centenas de inscritos. O que é preciso para a viola portuguesa alcançar esse patamar?
Ótima Pergunta. Um dia numa loja de discos vi uma estante de souvenires musicais como pequenos instrumentos, avulsos e em suas várias formações. Assim, tinha uma pequena orquestra na vitrine. Havia também uma bigband, um grupo de fado e instrumentos avulsos. Enquanto manifestação identitária da cultura do país, a guitarra portuguesa, ou guitarra de fado como aqui é chamada, tinha em suas várias formas e formações. Em nenhum momento encontrei nesta vitrine uma viola, nenhum modelo de uma das cinco violas existentes em Portugal. Isso pra mim disse muito de como a viola é vista e sentida de maneira geral pela cultura portuguesa.

É certo também que esta situação vem se modificando desde a criação de um projeto no Alentejo, em Castro Verde, onde um jovem em 2003 aprendeu os toques da viola campaniça com os velhos tocadores e passou a ensiná-los aos jovens. Pedro Mestre, este notável músico, acabou por protagonizar um movimento de resgate das violas portuguesas que a cada dia se fortalece mais aqui em Portugal. Em Braga, aqui no Norte do país, já se criou a AVIBRA (Associação da Viola Braguesa) que promove encontros e cursos permanentemente. A viola e o cavaquinho têm entrado em alguns currículos de ensino público aqui em Portugal continental.Na Madeira, este processo já se encontra bem mais andado e com visíveis resultados musicais de disseminação e apropriação desses instrumentos em questão pelas camadas mais jovens da população. Isto ocorre a partir do trabalho de músicos e professores locais como é o caso da Associação Xarabanda. Nos Açores, a viola também está no ensino da rede pública e há muitos anos é um instrumento presente no ensino musical em conservatórios com cadeira de viola, métodos e bons professores.

Tem ocorrido em diversas cidades aqui de Portugal, Encontros de Cultura Popular onde fabricantes, músicos, pesquisadores e artista de outros segmentos podem trocar impressões entre si e com o público que lota esses espaços. Vários deles com participação de músicos e agentes culturais galegos como Ramón Almuinha e Mauro Sanin, dentre outros. Cidades como Braga, Odemira, Santo Tirso, Vila Real, Caminha e Amarante mantém encontros permanentes de ensino pesquisa e difusão desses instrumentos em questão.

Creio que a viola em Portugal caminha a passos largos para um reconhecimento e aceitação. Este movimento se dá por simpatizantes e também por ações nas Câmaras onde legislações e apoio físico e financeiro são criados à estas manifestações.

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Quais serão os desdobramentos dessa pesquisa ? Livros, discos, concertos, cursos, palestras etc.
Exatamente. O AtlaS é projeto para uma vida inteira e pretendemos, cada qual em sua universidade, manter uma frente de estudos na pós-graduação com este fim. Estamos trabalhando em videodocumentários, a edição de, pelo menos, dois livros onde um deles será escrito a partir das indagações levantadas nas entrevistas. Cursos e palestras já começaram a ocorrer desde o ano passado. Também a apresentação acadêmica em congressos nacionais e internacionais. Quanto aos discos temos ideia de fazer um com as vozes dos cantadores entrevistados e também um outros onde chamaríamos cantores da lusofonia para interpretar músicas tradicionais recolhidas por nós ou já muito presentes nesses cancioneiros.

A viola de Braga, típica da região do Minho, obviamente teve (e ainda deve ter) grandes tocadores galegos. Este projeto pretende incluir a Galiza e suas obras para viola?
Certamente. Esta foi uma das minhas primeiras propostas quando aqui cheguei e curioso que depois comecei a constatar o imenso trânsito cultural que existe entre a Galiza e o Norte de Portugal. Não podemos nos esquecer que as origens de Portugal se dão num território galego, se não me falha a memória histórica. Falam a mesma língua, tem afeições um pela cultura do outro, e universos culturais muito aproximados. Curioso também com a Galiza é a proximidade com alguns povos de regiões do Brasil. Guimarães Rosa explorou muito esta questão em sua literatura.

O pesquisador Ivan Vilela está em pleno desenvolvimento em Aveiro. E o músico Ivan Vilela, com 17 discos gravados, como está aparecendo no continente europeu?
De maneira muito acanhada (risos) e depois desta pandemia então, nem se fala. Embora haja um estímulo do coordenador do AtlaS, o professor Jorge Castro Ribeiro, e da diretora do INET (Instituto de Etnomusicologia da Universidade de Aveiro) a professora Susana Sardo, onde o projeto está sediado, eu não me sinto muito à vontade de fazer desse tempo de pesquisa, onde fui contratado para tal, um período de desenvolvimento pessoal de minha carreira artística.

Minhas saídas foram poucas e rápidas. Em 2019, no Rudolstadt Festival, na cidade de Rudolstadt, Alemanha; também em Berlim, no Sarau Mundi e em Weimar na comemoração dos dez anos da criação pela UNESCO da Cátedra de Estudos Transculturais na Universidade de Weimar, sob a batuta do antropólogo Tiago de Oliveira Pinto. Por ocasião de uma palestra que fiz na Universidade de Viena, aproveitei para tocar em Viena e em Krems, a convite da professora de línguas românicas Marina Ellend Corrêa.

Em Abril eu faria duas apresentações em Paris e em algumas cidades de Portugal com a violeira francesa Fabienne Magnant, mas fomos impedidos pelas condições de confinamento impostas pelos governos em função do Covid-19. Agora em Junho iria para a Madeira e possivelmente para os Açores, em Outubro, mas tudo isto agora fica suspenso até segunda ordem.

Fiz algumas apresentações em Portugal nesses encontros acima citados e em outras ocasiões de festivais e encontros.

Breve Currículo de Ivan Vilela

Professor na Faculdade de Música e no Programa de Pós-Graduação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) na área de musicologia e etnomusicologia, onde também leciona na graduação viola brasileira, história da Música Popular Brasileira, percepção musical, rítmica, música de câmera e produção radiofônica.

Doutor em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo, mestre e graduado em Composição Musical pela Universidade de Campinas.

Seus escritos e pesquisas estão voltadas ao estudo das culturas populares e da música popular brasileira e portuguesa.

Atua como compositor, arranjador e instrumentista. Mantém intensa atividade artístico-musical e didática no Brasil e no exterior.

Atualmente é pesquisador principal do Projeto AtlaS(Atlântico Sensível) onde estuda os trânsitos e relações sociais de instrumentos portugueses, notadamente a viola e o cavaquinho, pelo Atlântico lusófono. Projeto acolhido no Instituto de Etnomusicologiada Universidade de Aveiro (Inet-md) no triênio 2018-2021.

Para conhecer mais a viola caipira, Ivan Vilela é o professor do curso livre e gratuito de viola caipira idealizado pelo Sesc São Paulo, disponível aqui.

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E-mail = [email protected]

José Carlos da Silva

Desde 2008, José Carlos da Silva é correspondente do PGL no Brasil. Residente em Campinas (São Paulo), é produtor cultural e periodista. Como produtor cultural trabalha pela difusão da cultura caipira, que tem na viola de 10 cordas, sua maior expressão.

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  • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

    Viva! O enorme Ivan Vilela de novo na Galiza, ainda que seja virtualmente. Obrigada José Carlos!

    • Jose Carlos Silva

      Obrigado, Isabel! Ivan Vilela e o Projeto AtlaS estão a aproximar toda Lusofonia pelas cordas dos instrumentos!

  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    Quanto se apreende no PGL
    Excelente texto