A Estatalização Linguística segundo o Dr Yvo JD Peeters



peetersA Fins dos anos 80 e começos dos 90 do século passado, o doutor Yvo JD Peeters, um linguista flamengo, que formava parte do Comité de espertos do Conselho da Europa para a aplicação dos direitos linguísticos recolhidos na Carta Europeia para as Línguas Regionais e Minoritárias, e consequentemente a supervisão de como eram garantidos às minorias nacionais e as minorias linguísticas dos estados, esses direitos; simplificando, o direito de viverem e se reproduzirem socialmente como tais em todos os campos. Foi também consultor da ONU para redigir a Declaração Universal dos Direitos linguísticos, da que pelo menos por duas vezes apresentou-nos aos galegos o rascunho do que se estava fazendo para fazermos propostas e observações. Ele tem trabalhado também no quadro do tratado da União da Língua Neerlandesa (o modelo que ele imaginava para a Galiza), e no campo de consultoria da União Europeia nas suas políticas linguísticas. Ele atualmente é membro da Academia Flamenga do Neerlandês.
Peeters era grande conhecedor da realidade da minorização linguística na Europa e no estado espanhol, um colaborador constante com o esforço na matéria nos Países catalãs e no País Vasco, além da Galiza.

Mais alá das suas intervenções em congressos e fóruns reintegracionistas na Galiza (participara no II congresso internacional do galego-português na Galiza, com a comunicação: O Tratado da União da Língua Nerlandesa como exemplo para o galego-português. E no III Congresso: Europa como garantia dos direitos linguísticos). Logo gostava imenso de passeios, compartir comidas e cervejas, e com o seu bom humor neerlandês, encorajar-nos a enveredar por caminhos certos etc.

Para ele o caso da Galiza, era o mais semelhante que conhecia do seu próprio caso, na Bélgica. Na Galiza interagiu com muito pessoal, instituições de governo, Conselho da Cultura, partidos nacionalistas galegos etc. não só com os seus bons amigos da AGAL, e ficava assombrado do limitado das formulações que se faziam na Galiza, o seu nível pacato, e como todas estavam muito condicionadas pelo jeito da nossa inserção no estado, como eramos presos duma história que era mais uma miragem que outra cousa.

Yvo JD Peeters ficava assombrado do limitado das formulações que se faziam na Galiza, o seu nível pacato, e como todas estavam muito condicionadas pelo jeito da nossa inserção no estado, como eramos presos duma história que era mais uma miragem que outra cousa.

Para ele a estatalização linguística é uma lei universal da prática dos estados com as línguas que não se corresponderem com a língua que se chama de “nacional”, e é sempre um processo prévio, se não se agir adequadamente, da minorização mais absoluta e do desaparecimento.
De facto, para ele o sucesso das minorias linguísticas, quase sempre minorias nacionais, tem o primeiro dos alicerces em destruir completamente essa isca, que leva ajudas e dinheiros e sucesso de algumas pessoas, mas que para o coletivo, não vão dar certo, pois é justo todo o contrário.
Como esperto do Conselho de Europa, ele distinguia minorias linguísticas de minorias nacionais -sempre também linguísticas-. Por exemplo, o albanês na Itália ou o mirandês em Portugal, são minorias linguísticas, e os galegos são uma minoria nacional.
A categoria minoria nacional, não era usada por ninguém no âmbito do estado espanhol, como se isso for uma redução da sua condição e direitos. Não vai ser até que Puigdemont e o independentismo catalã começarem a jogar na liga da libertação, no quadro do direito internacional, que o conceito de minoria nacional, com todas as suas potencialidades jurídicas, viu a tona no âmbito ibérico.

Naquela altura Peeters já nos falava da sua força jurídica.

No ano de 1991 (eu acho que era membro do Conselho da Agal, ou entrei ao final do ano?), Peeters ofereceu-se para fazer um pequeno seminário sobre o assunto. Nele participou além de Peeters, o linguista esperantista italiano A. Chiti-Batelli. A máxima autoridade em matéria de jurisprudência das línguas naquela altura, e também ele assessor do Conselho da Europa, Guy Heraud. E Luis Jean Calvet com uma intervenção muito contrastiva com a de Peeters e mais do gosto comum dos galegos, que se sentiam mais a vontade, e mais próximos com o problema do bâmbara da Guiné, -uma língua sem história escrita-, que com o neerlandês de modelo, como se isso rachasse algo íntimo da nossa forma de estarmos no mundo.

O debate alargava-se nos jantares e cervejas desses dias, onde Calvet e Peeters resultavam contrastivos.

Calvet começou aí a ganhar popularidade nos círculos de estudiosos do tema na Galiza. Laiovento publicou alguma das suas obras e foi convidado repetidamente pela “oficialidade” linguística do sistema autonómico.
Pedro Fernandes Velho, Maria do Carmo Henriquez, e Felisindo R. Vilarinho, elaboraram um relatório sobre os quinze anos de Normalização da língua, que passados já quase trinta segue cheio de exatidão nas suas analises.

A AGAL editou o encontro com os diversos depoimentos no livro Poder, ideologia e língua, que segue a ter muita utilidade, porem mais que abrir um debate que parecia importante, por razões muito diversas, de aquele fio não se seguiu a tirar para desfazer a meada.poder-lingua-e-ideologia

Peeters seguiu em contacto com o reintegracionismo, mas pouco a pouco foi esquecendo-nos, era como se ele se convencesse de que com os galegos não há muito que fazer, as próprias posições de Maria do Carmo na altura sobre a língua e o seu relacionamento com o português padrão… Peeters chegou a pôr os alicerces para contornar alguns problemas no relacionamento com Portugal na altura. Tratara a Alberto João Jardim, presidente da Madeira e com plataformas europeias nas que podíamos tentar penetrar. Ele achava que se podia amanhar um acordo com a AGAL e a Madeira, mas saiu o tema de se era de direitas, se era cacique…e a cousa já não foi explorada.(Além do tema do nome da língua, que pejava qualquer ação)

Pode-se dizer que até que se impulsionou a Academia Galega da Língua Portuguesa (idealizada em Bragança 2007), que abriu fendas que pareciam inimagináveis, essa via estava morta. AGLP, colocou-nos no mundo lusófono, abriu novos caminhos, permitiu a Galiza estar na CPLP como consultores e como membros, (salvo que o governo autonómico agora o desbotar…). Mudou a nossa perceção internacional, e possibilitou a Lei Paz Andrade (lei 1/2014).

* Na wikipédia diz 2006, porém isso é engano, foi no 2007, na realização dos Colóquios da Lusofonia em Bragança no mês de outubro (eu era o Pte. da Agal e em 2006 não). Estavam lá representantes da Academia de Ciências de Lisboa e da de Letras do Rio. Chrys Chrystello encorajou-nos a trabalhar nesse sentido, era a grande carência que sentiam dos galegos. Da Galiza participavam Monteiro Santalha, Freixeiro Mato, Ângelo Cristóvão, Foz e eu próprio, (desculpai se esquecim alguém, Concha Rousia?).

Martinho Monteiro Santalha na sua intervenção, mudou o seu conteúdo para falar da construção duma Academia Galega da Língua Portuguesa, isso foi bem apoiado por Ângelo e eu próprio e deu lugar a bem interessantes debates com os colegas portugueses e com Freixeiro e Foz, que tinham uma posição comum (basicamente o nome). Foz regressou de Bragança comigo no carro, e fomos falando disso todo o tempo, acho que depois de 5 horas de debate ele estava convencido. Freixeiro no primeiro ato de apresentação do projeto da Academia, pode-se dizer que foi o primeiro em chegar, e nunca faltou aos grandes atos públicos da AGLP, desde a constituição. O nosso grande gramático já usa o galego internacional em todos os seus trabalhos que voam por cima das nossas fronteiras, e acho que seja como for, tinha que estar já na Academia. Aguardemos que pronto os que tem que aprovar essas cousas o façam.

 

 

Eis a Intervenção de Yvo JD Peeters

Língua e Identidade

(e a sua frequente manipulação pelo processo da estatalização linguística)

A língua é um dos elementos mais importantes da identidade individual, assim como coletiva do homem e dos povos e isto sob as suas duas funções fundamentais: a representativa e a comunicativa (J. P. Bronckart, 1985). Como já bem apontou Wilhelm von Humboldt há um século e meio, cada língua corresponde a uma forma diferente de apreender o mundo (Humboldt, 1836). Traficar com a língua de um povo é em consequência uma ação por natureza, extremamente grave, já que se toca a sua alma mesma. Nenhuma política linguística pode ser elaborada à ligeira. As consequências podem pois, ser irreparáveis.

A responsabilidade de aqueles que nos governam, neste âmbito, é total. É por isso pelo que nos encontramos reunidos aqui em Ourense, justamente para estabelecer a responsabilidade do Governo autónomo da Galiza, face ao atentado infringido à identidade linguística do povo galego e das suas relações com a língua mãe, o português.

* Para Peeters, era algo muito grave o que se estava a passar na Galiza com as políticas linguísticas a que éramos submetidos. Se a cousa não mudar o resultado seria um desastre.

Ele percebia o português como o galego que usaríamos na Galiza se não tivéssemos sido submetidos por Castela. Eis lá a vossa ortografia histórica.

Como flamengo entendia isso muito bem, e usava um termo muito caro a sua comunidade, o de língua mãe, para a variante da língua que usufruía a plena normalidade.

Vocês, enfrentam-se na Galiza a uma política que definiríamos de estatalização lingüística. Por «estatalização lingüística» entendemos o contrário da dinâmica de autodeterminação, quer dizer uma estrutura estatal ou mesmo infra-estatal (nos estados federados ou regionalizados) que se justifica a posteriori ao se outorgar identidade linguística pela via política ou administrativa.

* Por exemplo nas Astúrias as autoridades linguísticas na matéria asturianiçam a nossa língua nesse território criando, uma nova língua com novas normas, com cursos etc.

Espanha divide o catalã em línguas diferentes, que não tem sucesso pela resistências das elites culturais do país, mas tentaram fazer nascer o baleã ou o lapao, ou com a Real Academia de cultura valenciana (gémea da RAG) o valenciano blaver.

Sem retrocedermos demasiado longe na história, queremos apresentar aqui alguns dos exemplos mais salientáveis de estatalização de línguas neste século. Não entanto, é interessante citar um exemplo mais antigo, pelo que tem de extravagante. Após anexação pela Áustria da Bósnia-Herzegovina, povoada essencialmente de muçulmanos de língua servo-croata. Em 1886 as autoridades de Viena tentaram promover uma suposta nova língua “bosníaca”. Esta ideia nunca teve muitos adeptos e soçobrou com grande fracasso nos tormentos da Grande-Guerra (Gasinski 1985)

* A Galiza pode olhar-se como num espelho, com a política de estatalização, seguida na Áustria com muito sucesso, para o esloveno da Caríntia.

Um exemplo mais concreto é-nos fornecido pela Noruega. Conseguida finalmente a independência em 1904 após uma longa união com os seus poderosos vizinhos, Suécia e Dinamarca, a classe política norueguesa prega-se sobre si própria e quer forjar como for, uma identidade linguística própria. Com este fim criaram-se comissões oficiais que tinham como tarefa percorrer os campos e os povos para recolherem o vocabulário chamado «autenticamente norueguês». Assim uma nova língua é forjada, o «Lansdmall» que se opõe ao «Bokmal». Esta política nunca conseguirá substituir o um polo outro, o que trai como consequência que atualmente a Noruega possui duas normas linguísticas concorrentes, tendo cada uma os seus seguidores.

Há que observar que a situação norueguesa é na base a origem da noção científica de «planificação lingüística» (language planning), pois é neste caso quando se empregou pela primeira vez o termo em 1959 por E. Haugen. 

Há que observar que a situação norueguesa é na base a origem da noção científica de «planificação lingüística» (language planning), pois é neste caso quando se empregou pela primeira vez o termo em 1959 por E. Haugen.

A União Soviética, desde o seu estabelecimento no 1922, tem-se mostrado como especialista na estatalização linguística. Isto sob dois aspetos:

A) Dividindo as grandes massas de populações turcomanas e criando um grande número de supostas repúblicas socialistas que pedem a entrada na nova União. Assim atualmente estamos habituados a ouvir os termos Uzbekos, Turkmenos, Kasakhos, Quirguizes, Azerís e conhecemos as repúblicas com esses nomes, e subjetivamente imaginamos uma variedade de povos muito diferentes. Nada é menos certo. Na atualidade ainda desde as alturas do Cáucaso até os confins da China encontra-se um «continuum»> linguístico turcomano apesar de tudo.

Sem a política divisionista de Moscovo, que privou também estas populações do seu alfabeto árabe, desligando-as assim das suas raízes, houvera podido fazer-se uma estandardização global dos falares turcomanos em união com a própria Turquia (que em 1924 adota o alfabeto latino).

B) Separando as minorias periféricas soviéticas da língua da sua nação mãe (S. Devetak, 1988). Os exemplos mais conhecidos aqui são a Carélia e a Moldávia.

A Carélia é a parte oriental da área linguística finlandesa. Antes da segunda guerra mundial, a União Soviética não englobava mais que um troo muito pequeno desta zona. Constituía originariamente uma comunidade municipal autónoma, transformada em 1923 numa república autónoma da RSFSR, limítrofe com o novo Estado finlandês constituído em 1917 e separado deste pela nova fronteira que viu depois do crescimento do território russo em detrimento da Finlândia, a ASSR foi elevada ao nível de uma república da União, de novo abolida em 1936. Não obstante, os esforços sob o Estalinismo de criar uma norma careliana diferente da finlandesa, é esta última a que ficou como língua oficial da ASSR de Carélia até hoje, enquanto a população segue a falar a variante local. Evidentemente a URSS implantou o alfabeto cirílico na Carélia.

A situação na Moldávia é semelhante à da Carélia no sentido em que se trata também de um território originariamente muito pequeno, que foi acrescido por novos territórios apartados da Roménia durante a segunda guerra mundial para formar a R.S.S. de Moldávia. Maioritariamente povoado por romenos, desde então chamados moldavos. Esta república também foi tão submetida às interferências russas que se poderia chamar «hibridiçada». Não obstante, todos os esforços do sistema comunista para quebrar os vínculos com a vizinha Roménia, -comunista também-, a consciência de pertencerem à cultura romena não pudo ser destruída, a prova disto foi feita de uma maneira assombrosa o ano passado, quando, ajudada pela perestroika, as autoridades locais restabeleceram o alfabeto latino, assim como a utilização do vocábulo «romeno» para designarem a sua língua. O primeiro ministro de Moldavá (novo nome da república) aginha foi a Bucareste para reclamar uma federação da sua república com o «Estado-Maẽ».

Assim, às vezes a história toma a sua vingança.

* Quando a unificação da Alemanha, houve um tentar fazer o mesmo na Roménia, porém a intervenção da União Europeia foi decisiva para travar isso, que segue a ser um objetivo da maioria dos moldavos

A história do Macedónio é também muito instrutiva. Esta «língua» eslava, a mais recente, apareceu ao final da segunda guerra mundial quando os partisans de Tito decidiram organizar a Jugoslávia comunista, sobre uma base federal. Para obstaculizarem o domínio Sérvio, o Estado foi dividido em seis repúblicas, entre as quais a Macedónia, no território que antes se chamava Sérvia Meridional. A variante eslava falada nestas regiões era desde sempre vista por Sofia como um dialeto búlgaro, o que linguisticamente é perfeitamente defendível. Como as isoglossas do búlgaro ocidental (ou o assim chamado macedónio) não correspondiam ademais com a fronteira do Estado, Bulgária reconhecia ao principio da após-guerra uma «minoria macedónia» no sudoeste das suas fronteiras.
Com todos os instrumentos ao dispor do poder de Belgrado e os seus acólitos em Skopje, o macedónio foi planificado e dotado de academias, universidades e outros sinais exteriores de oficialidade.
No marco da estratégia comunista para os Balcãs, Bulgária não sustinha mais que debilmente as suas reivindicações. Não obstante, acontece que o hegemonismo Sérvio de Miloseviĉ parece ter reavivado o interesse de Sofia pelos seus «irmãos ocidentais».
Por outra parte, Grécia tirou a sua vantagem da querela «macedónia». Contrária a reconhecer uma língua, para ela não existente, aproveita-se para esmagar a minoria da língua eslava (Macedónio -búlgara) no seu território próprio.

Voltemos agora face a Europa Ocidental.

O exemplo mais estonteante, exceto o de Noruega tratado mais acima, é certamente Luxemburgo. Este pequeno estado de língua e cultura alemã, desde a primeira guerra mundial, mas ainda mais, desde o nazismo, tem desenvolvido um retrocesso linguístico sobre si próprio que raia a esquizofrenia. Com efeito, apesar do facto de que uma imensa maioria da população fala uma variante (moselfrankish) do alemão, uma grande parte da vida oficial realiza-se em francês. Só a imprensa escrita tem resistido -até agora- a esta tendência. Os luxemburgueses cultivam o seu dialeto com uma aplicação dificilmente compreensível. Eles afastam-se assim, adrede, do mundo cultural e linguístico alemão, o mais grande de Europa..
Em 1984, por via legislativa, o parlamento luxemburguês proclamou o dialeto local como língua nacional, deixando um lugar de segunda ordem ao francês (língua alóctone) e um ridículo terceiro posto ao alemão.
O caso luxemburguês é o exemplo típico e supremo de estatalizacão lingüística. Como o Estado é super-poderoso no nosso mundo, nada pode impedir-lhe acreditar ser o detentor do poder de decretar «soberanamente» qual será a língua dos seus habitantes.

O caso luxemburguês é o exemplo típico e supremo de estatalizacão lingüística. Como o Estado é super-poderoso no nosso mundo, nada pode impedir-lhe acreditar ser o detentor do poder de decretar «soberanamente» qual será a língua dos seus habitantes.

Fenómenos semelhantes podem ser observados já ao nível de autoridades infra-nacionais cuja legitimidade é quiçá mais duvidosa do ponto de vista etno-linguístico.
A França que é um dos Estados da Europa ocidental mais refratário ao reconhecimento da pluralidade linguística dentro das suas fronteiras, sistematicamente tem ensaiado quebrar as suas «minorias» das suas raízes. Quando a introdução da Lei Deixonne em 1951, que outorgava um lugar mínimo a estas línguas, uma distinção subtil foi feita entre as chamadas línguas regionais da França. O bretão o ocitano, o catalã e o basco de um lado, e as variantes de línguas estrangeiras, tais como o flamengo (neerlandês), o alsaciano lorenês (alemão) e o corso (italiano), do outro. Estando excluídas estas últimas do regime Deixonne. Desde então o poder francês não deixou de tentar isolar os falantes destas línguas fazendo algumas concessões, essencialmente em proveito das variantes locais (regime Holderith na Alsacia-Lorena) e chegando a induzir o conceito de «língua corsa» de tal jeito que esta «língua» pudesse desde aquela prevalecer desde o regime e da Lei Deixonne. Desde que os 200.000 corsos se desligaram oficialmente do seu património lingüístico italiano, o maná do Estado é-lhes generosamente atribuído. De facto, não fica, pois, na França mais que uma só comunidade linguística privada totalmente de todo reconhecimento oficial, os flamengos. Porque, na sua maioria, sempre fugiram de serem encerrados num dialetalismo desmedido promovido por certas organizações a soldo de Paris; são os únicos na França que não tenhem nenhum ensino público da sua língua: 0 neerlandês!.

* A estatalização leva sempre ajudas, recursos, dinheiros, as vezes bem generosos do estado, para garantir umas elites firmes na defesa dessa estatalização.

Para Peeters, ser defensor da autodeterminação e da estatalização linguística, percebia-o como cousa de doidos… E dizia na Galiza um pasma com o que descobre. O pessoal entra num beco sem saída…

* Os flamengos da França, estão hoje em dia introduzidos no tratado da Tall unie, -pela porta traseira- e isso contra o parecer da França. E com sucesso estão contornando as políticas francesas, cousa que bate firme com o “sucesso francês” com outras comunidades.

A sua teima é ainda mais salientável à vista da exiguidade do grupo (uns 100.000 utentes residuários) não pode ser devida mais que ao exemplo do grande vizinho do Norte. Com efeito, os flamengos da Bélgica por muito maioritários que eram nesse Estado foram submetidos durante mais de um século a uma política insidiosa por parte dos detentores do poder tentando convencê-los de que falavam uma língua diferente dos Países-Baixos. Esta tese também encontrava um certo sustém em Flandres, mesmo nos círculos literários e culturais católico-conservadores que queriam assim distanciar-se dos Países-Baixos «protestantes».

Felizmente esta tendência, chamada particularista, não prevaleceu e a língua oficial de Flandres é o Neerlandês, o que foi confirmado pelo primeiro decreto feito polo parlamento autónomo de Flandres em 1970 e solenemente pelo tratado da União Linguística entre Flandres e os Países-Baixos em 1980. (Nederlandse Taalunie 1980)

Isto leva-nos naturalmente a Galiza, onde eu não devo descrever a situação.

É suficiente quiçá fazer observar que o número de portugueses se corresponde ao número de falantes galegos numa medida comparável de relação dos Países-Baixos a respeito de Flandres, isto é 2/3 – 1/3, o que nos leva a reformular a proposta feita aqui, há alguns anos, de propor a conclusão de um acordo de tipo União Linguística entre a Galiza e Portugal.

Aos que me rebateriam dizendo que para isto falta a vontade política no Estado português, eu responderia que esta mesma vontade não existia mais que de uma forma extremamente limitada nos Países -Baixos e que o Tratado da União Linguística tem sido imposto praticamente por Flandres desde o momento em que tinha os meios políticos, quer dizer a partir de 1970.

A modo de conclusão destas propostas sobre língua e identidade é útil insistir sobre o facto de que é necessário dissociar a identidade linguística de tal ou qual pertença política ou estrutural e que é totalmente possível, ser cidadão espanhol-galego, e falar português, tal e como se pode ser cidadão italiano-tirolês e falar alemão.

* Ele em discussões fora das palestras afirmava incluso, que era mais importante reclamarmo-nos falantes de português, ainda que a escrita fosse distinta (pensava no modelo AGAL), pois o simples nome português é alavanca bem poderosa da vossa desestatalização linguística.

Chega com querê-lo primeiro e tirar as conclusões políticas depois.

[Traduzido por D. José M. Barbosa Alvarez]

NOTAS J. P. BRONCKART, Les sciences du langage, un défi pour l’enseignement?, UNESCO, Lausanne, 1985. S. DEVETAK, The equality of nations and nationalities in Yugoslavia, T. Z. GASINSKI, The question of dominant language and dominant nation in a multi-ethnic society, in S. A. Journal of Linguistics, Occasional Papers, n.° 2, 1985, pp. 32-57. E. HAUGEN, Planning for a standard language in modern Norway, in Anthropological Linguistics, 1959 (3), pp. 8-11. W.V. HUMBOLDT, Ueber die Verschiedeuheit der Menschlichen Sprachbanes, Bonn (1836), Reprint 1968.

Alexandre Banhos Campo

Alexandre Banhos Campo

Alexandre Banhos Campo (Crunha 1954) é Licenciado em Ciências Políticas e em Sociologia (especialidade de demografia e população) pela Universidade Complutense. Em Madrid foi membro fundador do grupo LOSTREGO.

Post-grau em gerimento de formação e processos formativos pela UNED, e tributários pola USC. Tendo desenvolvido alargadas atividades no campo da formação, em todos os ramos, e também na sua condição de formador.

Tem sido colaborador jornalístico, e publicado inúmeros artigos sobre os temas da sua atividade.

Ligado ao ativismo galeguista na Galiza desde há 40 anos, tendo ocupado diversos postos de responsabilidade em diversas instituições e entidades. Neste momento é do conselho consultivo do MIL, dos Colóquio da Lusofonia e o atualPresidente da Fundação Meendinho.
Alexandre Banhos Campo

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  • Ernesto Vazquez Souza

    Que bom Alexandre…

    Agora que amargor deixa… Quanto caminho idiota… Quanto tempo perdido…

    Eu também estou:

    “assombrado do limitado das formulações que se faziam na Galiza, o seu nível
    pacato, e como todas estavam muito condicionadas pelo jeito da nossa
    inserção no estado, como eramos presos duma história que era mais uma
    miragem que outra cousa.”

    • https://pglingua.org/index.php abanhos

      Ele espantava-se com a afirmação do português nasceu do galego e as conclusões que muito pessoal tirava de aí. Que asneiras achava nisso…pensam vocês que a fronteira era da Galiza e Portugal…e de ser algo é o que ela é, da espanha.
      Ele dizia como vos é tão difícil de entender que Galiza também era o território que constituiu Portugal…

      Foi muito ativo na Galiza, como te podes imaginar, não ganhou nenhum almoço de graça do aparato raguistico/oficial.

      Ele seguiu muito ativo no relacionamento com as minorias nacionais basca e catalã de todos os territórios, mas com a Galiza pouco a pouco foi-se afastando.
      Tinha na sua língua algo assim como: Para quem não quer eu tenho muito…
      via a cousa nossa sem remédio

      • Ernesto Vazquez Souza

        A mim a Galiza faz-me pensar sempre no conto de Wells, “a terra dos cegos”…

        Não é apenas que sejam cegos… e que acham a vista uma doença perigosa…

        https://pt.qwe.wiki/wiki/The_Country_of_the_Blind

        • https://pglingua.org/index.php abanhos

          Muito bom o exemplo.
          O seminário esse deveu-se não pouco ao seu interesse.
          O II congresso internacional do galego-português na Galiza, ele apresentou a comunicação. O Tratado de União da Língua neerlandesa, modelo para a Galiza.
          Percebeu que da proposta o seu impacto, que ele achava bem ajustada a Galiza, fora quase zero.
          E insistiu connosco…como no conto.

          Para saber o valor das propostas na Galiza temos um bom termómetro, é só reparar nele:
          Se és convidado pola oficializada acomedada na estatalização ou não, e o trato que recebes…quanto mais gabado…já sabes: Cousa gabada, cousa cagada. Ou gabo-te cuitado que a feira te levo

          • Ernesto Vazquez Souza

            Eu cada vez mais me espanto de tanto como a tantos nos enganaram, de quanta ignorância sem valor como chegamos a aprender de cor para repetir e maravilho de como tanta e tanta gente que um dia não há tanto pareciam ser mestres eram uns colaboracionistas sem escrúpulos…

            Saúde

  • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

    É possível que não houvesse muito remédio naquela época. O importante é que haja um pouco mais de remédio agora…

  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    De Yvo JD Peeters são também de muito interesse duas comunicações publicadas na Agália núm 46 página 225, intitulada Comunicação, Identificação e dominação linguística.
    Onde estabelece uma série de parámetros para avaliar a posição dum idioma.

    E no núm. 43 da Agália, página 341. O direito à língua nos documentos internacionais e na jurisprudência supranacional.

    Is dous textos procediam dos seus depoimentos no Congresso os direitos linguístico de 1994, celebrado no instituto Gelmirez I de Compistela

    https://a.gal/revista-agalia/

  • Venâncio

    Suponho que Yvo Peeters acabou por aperceber-se de que o caso Frandres-Holanda não foi, nem é, paralelo ao de Galiza-Portugal.

    • Ernesto Vazquez Souza

      Nada é igual a nada, e a nunca as circunstâncias de um tempo e um espaço ajustam noutros, Fernando…

      Mas tudo quanto anima e facilita um percurso serve… o que desanima, lamento, mas termina por cansar…

      • https://pglingua.org/index.php abanhos

        Nunca nada é igual e nunca vamos voltar aos mesmos sítios
        Pátria

        (Texto íntegro)

        Ernesto Guerra da Cal

        PÁTRIA

        «Porque volvió, sin regresar, Ulises.»

        MIGUEL ANGEL ASTURIAS

        A Galiza
        é para mim
        um mito pessoal
        maternal e nutrício
        com longa teimosia elaborado
        de louco amor filial
        de degredado
        (E de facto é também
        —porquê não confessá-lo—
        um execrável vício
        sublimado)

        A Galiza
        foi sempre para mim
        um refúgio mental
        um jardim de lembranças
        sossegado
        um ninho de frouxel acolhedor
        para onde fugir
        do duro batalhar e do estridor
        da Vida
        e do acre ressaibo do Pecado
        Subterfúgio subtil
        e purificador
        de interior evasão
        para o descanso da alma
        na calma
        pastoril
        da perfeição de Arcádia
        da Terra Prometida
        da imaginação

        A Galiza
        é o meu amor constante
        tranquila e fiel esposa
        e impetuosa amante
        sempre
        como Penélope a tecer
        na espera
        ansiosa e plácida
        paciente e palpitante
        do retorno final
        do seu errante e navegante Ulisses
        —outra quimera!

        Amo-a
        como o náufrago desesperado
        ama a costa longínqua e ansiada
        que nunca há-de avistar
        Amo-a
        com saudade antevista de emigrado
        que à partida se sabe já
        fadado
        a ser ausente morrinhento*
        de nunca mais voltar
        Porque ninguém jamais regressa do desterro
        à mesma terra que deixou
        (O Espaço dissolve-se no Tempo:
        os lugares
        e as gentes que os habitam
        mudam e morrem sempre
        e nós também morremos
        e mudamos
        Posso eu acaso me reconhecer
        naquele rapaz loiro
        que chorando partiu
        um dia crepuscular e montanhoso
        de Quiroga
        no Sil
        há tantos anos
        e tantos desenganos?)

        Amo-a
        Amei-a sempre
        porque nunca deixei
        de estar ligado a Ela
        pelo umbigo
        Porque Ela foi meu berço
        e onde quer que eu morrer
        Ela há-de ser
        o meu íntimo
        e último jazigo

        Amo-te
        enfim
        Galiza
        coitada, triste e bela Pátria minha
        como Tu és
        como o Senhor
        num mal dia te fez
        órfã de história e alienada de alma
        vespertina submissa e maliciosa
        rústica e pobrezinha

        Amo-te
        sobretudo
        como eu te quereria
        como eu em mim te crio
        dia após dia
        como um encantamento da minha infância
        e da minha fantasia

        Amo-te
        como eu
        tresnoitado poeta evangelista
        te invento e mitifico
        E, como com Jesus Cristo fez Mateus,
        visto com ilusórios véus
        a tua miseranda e cinzenta Paixão
        e intento
        com interna e intensa
        distante devoção
        pôr-te um ninho de Glória imaginária
        num apócrifo Novo Testamento

        ESTORIL
        1984

      • Ernesto Vazquez Souza

        P.s. Há não apenas a Língua, mas também classes, estados e poder…
        A consolidação do poder dos reis, com ele a consolidação do estado e da língua e a concorrência com a alta nobreza… Uma questão que ultimamente me dá voltas na cabeça…é que quando falamos do galego antigo e o moderno não percebemos a tripla rotura.

        O galego da nobreza galega, a língua daqueles poderosos feudais, a antiga dos cancioneiros, desapareceu, penso, totalmente com eles…

        Nem em Castela os Reis, nem em Portugal os poderosos a podiam querer… Por causas diversas há uma rotura e uma refação: interna, no caso português, uma re-elaboração do galego culto (contra o galego culto – identificado como arcaico e nortenho – como sabemos e nos disse o Corredoira) no português; e outra externa no caso da Galiza, por ingerência substitutiva do castelhano adaptada pela nobreza e utentes cultos… até aí bem…

        Mas, na Galiza, o povo que a conservou… mas que conservou? o galego das cantigas? Como havia de dominar a língua culta? como havia de querer a língua dos seus opressores?

        E sem língua culta por ausência de cultores…Não será que também há cá mais uma outra rotura e uma refação modulada pelo tempo noutra forma menos marcada da língua mais popular, silvestre, dialectalizada e diversa?

        • Venâncio

          Ernesto,

          Não podes dizer que não tendes cultores, quando tendes Ferrín, M. Rivas, Alcalá, e nem falemos dos mortos, com Cunqueiro e outros mais.

          Mas há um aspecto muito certeiro naquilo que afirmas aqui acima: o galego era a língua dos senhores feudais, primeiro da Galiza, depois de Portugal. Foram eles a fomentarem-no e a defendê-lo. Isso durou, de facto, até 1385. E é então que desponta esse outro padrão, o de Lisboa, chamado “português”.

          • Venâncio

            De muito interesse é o artigo seguinte, quea achas na Net:

            José Carlos Ribeiro Miranda, «O galego-português e os seus detentores ao longo do século XIII», e-Spania, 13, Junho de 2012

            e-spania.revues.org/21084

          • Venâncio

            E outra coisa: o galego que sobreviveu oralmente até 1850 era riquíssimo. Em não pouco casos documentados por escrito, adianta-se ao português. Dou exemplos em “Assim nasceu uma língua”.

          • Ernesto Vazquez Souza

            Lerei.

            Efetivamente. Fernando, acho que para o certificado de baptismo do português, 1385 é a data chave. Também acho que sendo os galegos aqueles Andeiros, as Castro e os Travas… é lógica uma rotura, renomeamento e redesenho pelos poderes ascendentes de Lisboa…

            Mas o galego rico e popular, desses cultores galegos, de Martin Sarmiento em adiante, até chegar a esses maravilhosos autores que me cita (e bastantes mais que como sabe eu conheço e conformam mais que nada esta língua que eu uso)… também não é o galego culto da nobreza galega medieval, o galego das cantigas e dos restos em prosa… é o que se configurou depois do postergamento da nobreza galega em Castela e Portugal e da sua sujeição à língua de Castela… é logicamente o que estava na boca e mãos do povo… provavelmente era mais livre, mais rico e mais variado que o culto e formalizado das classes cultas… mas provavelmente era também mais fraco como sistema…

            A história da construção do galego de Sarmiento a Geração do 1925 (a anterior à guerra civil) teve várias vias, modificadas por três assaltos interferidores do castelhano com apoio do Estado espanhol: um em 1865, outro a partir de 1885, e outro a partir de 1900… coincidentes com propostas nacionalizadoras espanholas e com saltos na alfabetização em Castelhano…

            A história é bem interessante e dista muito de ser clara… agora simples, simples não é…

          • Venâncio

            Do galego das cantigas sobreviveu a arquitectura gramatical (a morfologia, a sintaxe, alguma fraseologia) e bastante léxico.

          • Ernesto Vazquez Souza

            pois… o galego popular, até a escolarização maciça em castelhano e a TV era uma língua plenamente medieval…

          • Ernesto Vazquez Souza

            Mas e última cousa…

            Os que re-construíram o galego culto a partir do século XIX, na base desse galego popular medieval refeito sem modelos cultos próprios, estavam alfabetizados em castelhano e eram donos de uma retórica e tradição latino-castelhana e depois puramente castelhana, com algum contato com o português… portanto é neste esquema que começaram a criar e restaurar um modelo, uma (ou várias) proposta de língua…

            Ponhamos por caso que os derradeiros neste nesse esquema sejam Rivas, Alcalá, Ferrín… e que eu por exemplo simplesmente proponho uma reconstrução alternativa… poderia retrotrair-me ao XIII ou ao XVIII… e começar de zero… ou poderia fazer outras cousas…

            Logicamente eu não tenho o talento deles, mas em qualquer caso, o meu modelo alternativo, continuaria a ser galego; outra via ou proposta… continuaria a conetar com o galego medieval e perdido, com o português renascentista e contemporâneo, com as propostas cultas galegas do XIX e XX, com o galego popular oral e teria bastante de castelhano… portanto divergiria do português atual e do galego culto em uso…

            ??

          • Venâncio

            Caro Ernesto,

            Esse poderia ser um “programa” reintegracionista. Era sim preciso, indispensável mesmo, que fosse definido, isto é, descrito. Para que todos soubessem de que se trata e para que pudesse reunir a adesão que decerto mereceria.

            Mas esse é trabalho de linguistas. Que, como sabes, escasseiam por essas bandas. Contudo, sem essa descrição material, sem essa proposta informada, nunca se chegará a terreno útil.

          • Ernesto Vazquez Souza

            homem… aqui onde me vê eu serei dos que mais tem batalhado e reclamado que isso dos séculos escuros é uma criação romântica, moderna, nacionalista… e perniciosa… colada aí com a invenção da Doma e castração… e não poucas vezes terei comentado nas nossas conversas no PGL

            Esses foram séculos em que a Galiza é uma potência humana, económica e militar… e se nesses séculos a gente culta da Galiza produz pouco em galego (ou pouco se conservou), porém lê em português… De facto acho que até Sarmiento (que já funciona em códigos estado nação e escreve em galego como código de cifrado pela brutalidade satírica e subversiva que encerram os seus textos) nunca deixaram de considerar que o Português não fosse mais que um galego requintado e musical… a mesma língua…

            É depois de Sarmiento (e sobre a obra de Sarmiento que rompe na realidade a tradição até Feijoo e re-elabora uma proposta não com o português senão desde os restos documentais medievais) que tudo se re-elabora e entra erroneamente na dinâmica uma língua uma nação…

            Mas Sarmiento era já um nacionalista espanhol e também um anti-português declarado (como também eram o Cura de Fruime, Cornide ou é Ferrin) que achava a Galiza ser a cabeça e o principal da Espanha e não podia aceitar que a SUA língua galega lha aquelassem aqueles mouros ingratos do Sul…

            é super interessante isto também… acho…

            Saúde

          • Venâncio

            Sim, fundamental para toda a perspectiva da própria língua por parte dos portugueses foi a descoberta da literatura medieval, sobretudo dos Cancioneiros.

            Essa descoberta foi-se dando toda ao longo do século XIX, e mesmo assim só no círculo fechado dos especialistas. Ela, a descoberta, deu-se, para mais, num ambiente de crescente nacionalismo português, que explode em 1890 com o Ultimato inglês (que nunca existiu senão em mentes portuguesas, mas essa é outra história). Em suma: conceder à Galiza algum protagonismo na criação literária medieval era complicado para as exacerbadas mentes portuguesas.

            Em todo esse cenário, existe, sim, uma nota destoante: a das páginas que Teófilo Braga dedica ao galego. Cito de Assim nasceu uma língua / Assi naceu ũa lingua:

            O primeiro contacto directo dum público português com um galego mais recente dá-se em 1877, quando Teófilo Braga, publicando o seu Parnaso Português Moderno, nele inclui, na ortografia original, poemas galegos contemporâneos. Entre eles, quatro de Rosalia e cinco de Valentín Carvajal. E porque faz ele isso? Teófilo explica-o detidamente, dedicando ao galego 26 cerradas páginas da sua Introdução. Diz ele, no essencial, que o galego foi a língua em que primeiro se ‘poetou’ na corte de Castela e na de Portugal; que a actual lírica galega é uma das «formas arcaicas» da poesia portuguesa; que «a conquista romana veio muito cedo influir na constituição do dialecto galego» (o autor usa ‘dialecto’ sem qualquer depreciação); e Martín Sarmiento, investigador setecentista galego, aqui citado com assentimento, afirmara: «Cuando Portugal estaba en posesión de los Moros, se hablaba ya en Galicia el idioma vulgar». São, uma por uma, concepções do maior interesse e que, quanto sei, nunca entre nós se haviam expressado. Pelo menos tão curiosa é a factual ausência, entre nós, de referências a este insólito estudo de Teófilo.

          • Ernesto Vazquez Souza

            Mas não espanta Fernando, essa era a narrativa comum antes da virada de 1868, em que Saco y Arce rebenta o esquema que ainda estava vigente no álbum da Caridade e nos primeiros poetas dos Rexurdimento…

            Nos primeiros de Pintos, que é editor de Sarmiento, e da geraçao porvincialista de 1846 e nos da Geração de Rosalia, Murguia, La iglesia e Pondal Rexurdimento pleno.

            É fundamental a Memoria para La história de la Poesia e poetas españoles (ibarra 1775) de Sarmiento. Ele é o primeiro a dizer essas cousas e o primeiro a suspeitar da existencia (partindo da testemunha do Marques de Santillana) de uma poesia antiga cancioneiril galega. A obra influiu amplamente em Murguia & al…

            Romero Ortiz (um dos provincialistas e protagonistas da revoluçao de 1846 e depois figura principal na política parlamentaria espanhola), em castelhano escreveu em 1869, uma Literatura Portuguesa

            http://www.cervantesvirtual.com/obra/la-literatura-portuguesa-en-el-siglo-xix–estudio-literario/

            bote um olho no prólogo nomeadamnete nas páginas 10-12…

            Houve uma fortíssima rotura depois da década de 1870… uma narrativa controlada por Espanha… em polèmica com tentativas diversas para volver à tradição (nomeadamente Pondal e os da Cova céltica) e com apoio nas teses de Braga, Murguia, Sarmiento…

          • Venâncio

            Muito esclarecedor.

      • Venâncio

        Só os factos da História podem, honesta e utilmente, “animar um percurso”.

        Dizendo doutra maneira, os mitos “animam”, decerto, mas desencaminham-nos.

        • Ernesto Vazquez Souza

          A história não são factos puros, Fernando… é o futuro sempre que narra o passado em função dele ou dos interesses que se jogam no presente…

          • Venâncio

            Certo. Mas conseguimos aproximar-nos bastante dos factos passados, se reunirmos o maior número de dados, passados e presentes. Eu procurei fazer isso no meu livro. E, por exemplo, espero ter demonstrado que a invenção do “galego-português” só estrangou.

          • Ernesto Vazquez Souza

            É claro… a invenção do galego-português foi uma necessidade portuguesa, quanto castelhana.

            A descoberta dos cancioneiros rompia todo o esquema e a história feliz das línguas no ocidente peninsular… acontece o mesmo na historiografia… a cada vez mais os dados demosntram que existia a Galiza e existia o galego antes de Portugal ou Castela serem nada.

            Toda a historiografia do galego e da Galiza está errada, do século XVIII em diante. Está tudo desviado, meu amigo… há que refazer com lógica sorteando preconceitos e lições repetidas por toda a parte… aí sempre é bom os dados e as achegas como a sua… quanto mais melhor…

            Vou ver se algum dia leio o seu livro… mas não ando com ânimos nos últimos tempos… passa-me um pouco como ao Peeters… desesperei dos galegos…

            Saúde,