Ἧaaaai Yanomami!



Os brancos nos chamam de ignorantes apenas porque somos gente diferente deles. Na verdade, é o pensamento deles que se mostra curto e obscuro. Não consegue se expandir e se elevar, porque eles querem ignorar a morte. […] Ficam sempre bebendo cachaça e cerveja, que lhes esquentam e esfumaçam o peito. É por isso que suas palavras ficam tão ruins e emaranhadas. Não queremos mais ouvi-las. Para nós, a política é outra coisa. São as palavras de Omama e dos xapiri que ele nos deixou. São as palavras que escutamos no tempo dos sonhos e que preferimos, pois são nossas mesmo. Os brancos não sonham tão longe quanto nós. Dormem muito, mas só sonham consigo mesmos.
(Davi Kopenawa Yanomami)

“E quando a catástrofe tiver terminado, nós, os povos indígenas americanos, ainda estaremos aqui para povoar o hemisfério. Pouco importa se estivermos reduzidos a um punhado de gente vivendo no alto dos Andes. O povo indígena americano sobreviverá; a harmonia será restabelecida. É isso a revolução”.
(Oglala Lakota, 1980)

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Davi Lopenawa “urihi a”

Hoje é o último dia do ano 2020, um ano estranho demais e não via claro por onde acabar, não via claro o que dizer que fosse urgente e sereno a um tempo. Vieram no meu auxílio as palavras dos nossos irmãos yanomami com os que nos unem vínculos insuspeitados. A questão era como falar da filosofia sapiencial e a política de um jeito que transmitisse um sabor e um saber, ao mesmo tempo que pusesse em toda a sua realidade o meu sentir sobre a situação em que nos achamos. De modo que  trago aqui as palavras do xamã e líder yanomami Davi Kopenawa. Elas aparecem no livro A queda do Céu escrito polo antropólogo Bruce Albert, de onde tirei também citação de Oglala Lakota Durante muitos anos Bruce recolheu e gravou conversas com Davi Kopenawa. Unidos pola amizade e sendo um antropólogo atípico Bruce conseguiu transmitir um livro único que se afasta dos modelos académicos que convertem ao indígena e a sua cultura em objeto de estudo colonial. Tal e como o próprio Bruce exprime na sua metodologia ele concebe-se antes como um diplomata na fronteira entre culturas que tenta traduzir a palavra Yanomami respeitando profundamente o que eles têm a dizer, o que ele chama de “pacto etnográfico”. Realmente Bruce Albert chama-se de “etnógrafo”, que é mais humilde palavra, pois ele quer realmente aprender dos Yanomami. E está convencido que nós temos muito que aprender deles. Aprender que? Basicamente aprender a ser seres humanos. O “povo da mercadoria”, como lhe chama Davi Kopenawa aos brancos, a esquerda e a direita está imerso num paradigma negacionista da vida e as suas vertentes multidimensionais, mostra-se extraordinariamente surdo à necessidade de uma mudança radical de vida que tem a ver com o aprofundamento do ser no sentido das velhas palavras délficas: “quem se conhece a si mesmo conhece o universo e os deuses”. O homem branco vive numa lixeira em que os seus sonhos se convertem em pesadelos emaranhados no culto da personalidade e do eu narcisista. É por esta causa que os novos templos e lugares de encontro são os centros comerciais. Mas suspeita o “povo da mercadoria” que a própria palavra “mercado” está a aludir ao deus Mercúrio e que havia um sentido sagrado para a troca e o comércio cujas origens iam além de um mero valor monetário? Porque, digam o que digam, o neoliberalismo capitalista não é a “promoção do livre-mercado” mas a mais abjeta promoção da escravatura dos mercados nas mãos de multinacionais de todo tipo e cuja única lei é o “consumo, a adição e a destruição de qualquer outro sentido que não seja a compra-venda e a redução da humanidade a uma fábrica nas mãos de uns poucos “iluminados”.

O “povo da mercadoria”, como lhe chama Davi Kopenawa aos brancos, a esquerda e a direita está imerso num paradigma negacionista da vida e as suas vertentes multidimensionais, mostra-se extraordinariamente surdo à necessidade de uma mudança radical de vida que tem a ver com o aprofundamento do ser no sentido das velhas palavras délficas: “quem se conhece a si mesmo conhece o universo e os deuses”.

Sabemos que os seus métodos não são democráticos nem respeitosos com nada: empresas de armamento, farmacêuticas e petroquímicas, mineiras, automóveis, eletricidade, alimentação, grande distribuição, etc. Nenhum dos seus interesses nestes momentos converge com os direitos humanos e a vida sobre a terra.
Segundo David Groeber (recentemente falecido) a sociedade moderna é a única que se põe a questão de como produzir a maior quantidade de riqueza material possível. Isto não foi uma preocupação nem objetivo em si de nenhuma sociedade anterior, polo menos não há tratados ao respeito. A riqueza das nações de Adam Smith abre um campo que não parou desde então. A questão antes era: como fazer uma sociedade mais justa, mais equilibrada. Considerava-se que essa era a resposta política, ética e filosófica que valia a pena. É sintomático.
Mas estão  tão longe as palavras de Davi Kopenawa da nossa mentalidade cultural? Realmente não. Não, se tivermos consciência de que nós também somos indígenas submetidos a um processo de colonização. Nas raízes gregas (não são as únicas!) da civilização ocidental encontramos o caso de Sólon de Atenas (640-560), um dos sete sábios de Grécia. Ele conseguiu endireitar uma difícil situação, à beira da guerra civil, eliminando a escravatura por dívidas, proibindo a hipoteca da terra, promovendo tribunais populares e cancelando o sistema de pagos por arrendamentos de terra. Foi um elemento central que, ao estilo dos médicos, conseguiu moderar a difícil situação que ameaçava a sociedade ateniense, embora fosse criticado por aristocratas e populares por não os ter favorecido tanto quanto esperavam. O relevante aqui é que ele foi o responsável de chamar a Epimênides de Creta, um sábio excêntrico e xamânico que foi capaz de determinar que Atenas se achava baixo um miasma psíquico produzido polo assassinato dos Cilónidas quarenta anos atrás, tal e como nos lembra Aristóteles na sua Constituição dos Atenienses. Refugiados na acrópole depois de uma tentativa de golpe de mão que fracassou foram massacrados sem ter em conta o direito de asilo que o templo garantia. Foi feita uma catarse organizada por Epimênides de Cnossos em que se purificou Atenas. Plutarco lembra que Epimênides se negou a receber quaisquer pagamento polo serviço, aceitando tão só um ramo da oliveira sagrada de Atenas, com o que ficou satisfeito.
a-queda-do-ceuDe modo que o que aqui comentamos noutros artigos sobre as origens da cultura ocidental representada em pensadores-xamãs como Parménides, Heráclito, Pitágoras, Empédocles, etc. não se afasta da mentalidade de Davi Kopenawa, os budistas zen ou tibetanos, o hinduísmo tântrico, os sufis, a mística judaica, o cristianismo esotérico. Onde está, pois, a diferença? A diferença está no esquecimento das palavras essenciais na nossa cultura , das palavras-originais, da própria linguagem para nos entender na realidade multidimensdional e realizar dita perceção. Trata-se da desaparição da “linguagem” dentro das línguas. Tema longo demais para este artigo. Não é algo alheio à cosmovisão da vida rural galega até há bem pouco. Bastaria ler Romeiros do alén, de Marcial Gondar para intuir os vestígios de uma perceção do mundo que nos acompanhou até agora mesmo na nossa cultura popular. A maneira em que o complexo de inferioridade do homem “moderno” se compensa com uma autosuficiência arrogante é devastadora mas não é definitiva. Não é, em todo o caso, a última palavra. Entre outras cousas porque essa “palavra” não está ao seu alcance.
Sem dúvida alguma concordaríamos em considerar a alfabetização e os programas de formação da população uma questão política. Como também o seu contrário é uma questão política. Aquilo que define uma ação educativa tanto formalmente como informalmente tem a ver com as finalidades e objetivos da mesma. Implicitamente isto significa ter uma determinada conceção filosófica da realidade e do ser humano. O ensino obrigatório das sociedades modernas tem a ver com processos paradoxais: por um lado com os ideais ilustrados de progresso educativo e humano, por outro com a formação das pessoas para serem utilizadas dentro de um modelo produtivo onde  podam ter um lugar dentro de uma  cadeia alienante. O que define a educação atualmente são as necessidades produtivas e uma conceção economicista. Quer dizer, não há uma economia para os seres mas os seres estão aí para a “economia”. Isto é bastante insólito mas é concordante com todos os sistemas imperiais e de escravatura que existiram ao longo do tempo. O próprio processo ilustrado adoece de uma visão limitante da natureza humana e da natureza em geral.

O ensino obrigatório das sociedades modernas tem a ver com processos paradoxais: por um lado com os ideais ilustrados de progresso educativo e humano, por outro com a formação das pessoas para serem utilizadas dentro de um modelo produtivo onde  podam ter um lugar dentro de uma  cadeia alienante. O que define a educação atualmente são as necessidades produtivas e uma conceção economicista.

É o paradigma racionalista absolutamente absurdo da nossa cultura atual. Uma política adequada ao nosso tempo deverá inverter dita tendência aceitando a ignorância fundamental com respeito ao que mais importa. Não seriam más notícias. O nosso não-saber poderia levar-nos a meditar, aprender e, quem sabe?, quiçá deixar que o coração ganhe um lugar nesta terra para se dirigir na sua intimidade à terra abençoada, inclinar-se respeitosa e amorosamente perante Ela e dirigir as nossa verdadeiras intenções ao seres que realmente sabem com o fim de que a justiça e a paz se realizem verdadeiramente no nosso planeta. Certamente assim a política poderia ser outra cousa.  Há outro caminho?

Segundo a cosmovisão yanomami a nossa ligação e responsabilidade vincula todo o planeta. Eles não se consideram só responsáveis polo seu povo mas polo planeta Terra. Se o último xamã desaparecer o céu desabaria. A Amazônia não é só  um lugar onde se produzem os mais intensos intercâmbios fotosintéticos ou biológicos para o bem do nosso planeta, ela é também um dos eixos que unem céu e terra. É um dos elos, secreto e patente, que mantém vivo o planeta além da sua mera sobrevivência física ou química. A cegueira mais assombrosa da ciência atual é essa: pensar que a vida é uma questão de física ou combinações químicas e manipulações de ADN. A vida mantém-se enquanto haja seres que se conectam com os diferentes níveis do cosmos. O dia que isso acabe não há laboratório que não tenha que fechar. E, por certo, que também será o fim da política. Mas esse hipotético fim que tanto temia Abraracourcix não acontecerá enquanto existir a poção mágica, não é?

“… e também [está] essa injusta cobiça dos chefes dos povos, aos que aguardam
numerosas dores que sofrer polos seus grandes abusos.
Porque não sabem dominar o seu esgotamento nem em ordem dispor
os seus sucessos numa pacífica conciliação comum.
Fazem-se ricos cedendo a manobras injustas.
Nem dos tesouros sagrados nem dos bens públicos
se abstêm nos seus furtos, cada um polo seu lado entregado ao saqueio,
nem sequer respeitam os augustos alicerces da Justiça (Diké),
a que, silenciosa, conhece o presente e o passado,
e ao cabo do tempo em qualquer das possíveis formas chegará para vingar-se.”

(Sólon de Atenas, Eunomia 7-16)

Feliz e proveitoso 2021, [email protected] [email protected]

José António Lozano Garcia

José António Lozano Garcia

Nasceu na cidade da Corunha em 1967. É professor de Filosofia no ensino secundário. Foi finalista em 1988 do Prémio de poesia Nacional O Facho. Em 1989 publicou no livro coletivo Fogo Cruzado (AGAL) o relato O pêndulo sob o pseudónimo Jorge Mário Novais. Em 1993 foi prémio ex-aequo junto a Xavier Alcalá no certame de narrações breves Manuel Murguia de Arteijo pelo seu relato Retrato antigo:pinturas e superfícies. No mesmo certame recebeu em 2016 o 3º prémio pelo relato A Aranha de Sidney . Publicou em 2002 no livro comemorativo dos 10 anos do prémio Manuel Murguia o relato Porco Transgénico.
Em 1995 publicou Nocturnos indígenas na obra coletiva 7 Poetas com o grupo Hedral, do que formou parte.
Em Fevereiro de 2020 publicou Obscura Anatólia na editora Urutau, o seu primeiro poemário a título individual.
No âmbito da filosofia tem várias publicações em Portugal e na Galiza sobre o filósofo portuense José Marinho. Especialmente interessado pelas vias iniciáticas da Tradição primordial está a dirigir a sua criação atual na interação de filosofia, poesia, teatro e música para resgatar a conexão originária e viva da arte na sua função espiritual e sapiencial. Tenta ligar-se a um pensamento libertário que integre as sabedorias ancestrais e originárias da raça humana.
É colaborador da revista digital Palavra Comum onde tem publicado ensaio, poesia e narrativa.
José António Lozano Garcia

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