Xabi Gómez: “Onde melhor se conserva o idioma é em comarcas muito despovoadas e envelhecidas: o que nom ajuda a prestigiá-lo”



asturo-leones-mirandesO asturo-leonês é a língua europeia mais próxima geográfica e linguisticamente do galego-português, o que permite a inteligibilidade mútua.

Ainda é falada na Terra de Miranda e na maior parte das Astúrias, do oeste e norte de Leom e do noroeste de Samora. Muito hibridado com o castelhano, está presente noutras comarcas leonesas, samoranas, salmantinas, cacerenhas e cântabras.

Declarada oficial em Portugal desde 1999 mas ainda nom na Espanha, embora alguns concelhos asturianos a tenham declarado co-oficial, é qualificada como em perigo de extinçom pola UNESCO.

 

  • Imagem do domínio linguístico (tirada da Wikipédia).

 

Para sabermos mais Xián Neto entrevistou para o PGL Xabi Gómez, leonês de mãe duvresa e pai berciano, nado em 1975 em Zurique e atual Porta-voz Nacional da organizaçom AGORA País Llionés.

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Como foi que de meninho tiveche contacto com o leonês e com o galego?

Na emigraçom na Suíça vivíamos com os avós paternos que emigraram sendo novos e conservárom um leonês melhor dos que ficárom. No regresso ainda miúdo e sem os avós, passamos a morar em Leom e tudo se tornou em castelhano.

Pola banda materna, chegou-me o galego que reforçava no verão que decorria no Val do Duvra. Foi precisamente o galego que me foi ajudando a descobrir umha língua oculta trás dos giros, estruturas gramaticais e léxico que conhecia e que no começo simplesmente identificava como “nom falar bem”. Daquela, o espaço reservado para o leonês na escola reduzia-se a um parágrafo dum livro nomeando as três o quatro principais caraterísticas e mais nada.

A princípios dos anos noventa redescobriu-se Cuentos en dialecto leonés de Bardón e a língua voltou a ter mais presença na cidade.

 

No entanto a língua passou por tempos melhores, nom é?

Com certeza. Entre os séculos XII e XIII o asturo-leonês foi ganhando ao latim os usos formais da corte do Reino de Leom empregando-se na justiça, na administraçom ou na organizaçom do território, em textos como os foros de Avilés e de Uviéu, o Fueru Julgu e mesmo em obras literárias como umha das cópias do Livro de Alexandre. A perda de poder político cara a Castela fai que no século XV fora substituído completamente polo castelhano nesses usos formais, transmitindo-se oralmente até o século XX, com a exceçom dalguns exemplos como o “barroco” Antón de Marirreguera, a Ilustraçom asturiana do século XVIII e a literatura do Costumbrismo. No último quartel de século XX começa o Surdimientu e o regresso da língua a umha maior produçom escrita em todo o domínio linguístico.

 

E qual é a situaçom atual?

Em Miranda a oficialidade é simbólica, falto dum desenvolvimento legal amplo. Trata-se dum território pouco povoado, periférico e com escasso peso em Portugal. Desenvolveu a sua própria ortografia e organizam-se cursos de aprendizagem, encontros de blogueiras e mesmo há algum grupo de música que canta em mirandês.

Nas Astúrias existe a Academia de la Llíngua Asturiana e umha «Direición Xeneral de Planificación Llingüística y Normalización» que subvenciona iniciativas em prol do idioma. Até a universidade o ensino do asturiano é opcional e sob pedido. Na televisom autonómica tem umha presença ainda testemunhal: programas culturais, algum concurso e agora também jogos de futebol da 2ªB. Além disso, existe umha «Xunta Asesora de Toponimia» que está a favorecer a recuperaçom dos topónimos tradicionais e nos últimos anos vários concelhos declarárom a co-oficialidade da língua, embora sentenças judiciais posteriores tenham impedido o seu desenvolvimento. É, com certeza, o território onde a língua goza de maior prestígio social e presença (meios de comunicaçom digitais, literatura, música, etc.).

Nas terras leonesas o rexurdir cultural é mais novo. No norte existem grupos de música moderna que gravam em leonês, lojas em que tem presença e também nalguns letreiros da Câmara Municipal de Leom. Desenvolvem-se cursos para adultos como os organizados pola associaçom Faceira e nalguns concelhos da Cabreira, por iniciativa municipal, colocárom-se letreiros nas estradas e ruas com a toponímia bilingue. Também na localidade salmantina de Robrea a rotulaçom das ruas é bilingue. Em Samora é a associaçom Furmientu a pular pola língua destacando a realizaçom de palestras, concursos e a publicaçom dalguns artigos e vocabulários no jornal La Opinión de Zamora.

O pior de tudo é a nula sensibilidade da administraçom política autonómica que, a pesar de o leonês aparecer no artigo 5.2 do Estatuto de Autonomia de Castela e Leom, reprime a criaçom de organismos públicos para a sua proteçom e mantém-no fora do ensino oficial.

  • Documentário: Llionés, la llíngua llionesa.

 

Há pouco soubem da associaçom Reciella conseguir introduzir o asturiano como língua veicular nalgumhas escolas infantis públicas de Xixom Candás e Uviéu. Seria possível em Leom ou Samora?

Onde melhor se conserva o idioma é em comarcas muito despovoadas e envelhecidas. o que nom ajuda a prestigiá-lo. Neste aspecto a situaçom da língua em Leom é semelhante à dos anos setenta em Astúrias. A curto prazo os dous objetivos principais som conseguirmos a visibilizaçom da toponímia tradicional mas, desta volta, exigiremos ser pola açom da Junta de Castela e Leom e a entrada no ensino oficial que poderia ser mediante um convénio semelhante ao existente para o galego e a sua oferta nas Escolas Oficiais de Idiomas.

 

Para finalizamos, como olhas o futuro da língua?

Com temor e esperança. Estamos num momento crítico e que a língua nalgumhas comarcas pode desaparecer numha ou duas gerações pola perda dos falantes patrimoniais, facto infeliz que também pode acontecer com o galego sob administraçom castelã. Porém, é certo que na última década aumentou o prestígio social e o número de neofalantes o que me fai ser um pouco otimista.

 

ANEXOS

  • Poemas da antologia poética “Deixando’l cuerpu” (2015) de Fran Allegre (Villareiyu d’Órbigu, 1977):

 

Nun volvo

Nun volveréi a ser fecundáu pa la inspiración,

enxamás buscaréi musas…

Ser fecundáu, parir,

mancor son, qu’amorladas obras paren.

Cortáime la manu, si la poesía cortan,

paráime’l pasu , si la poesía paran,

dexáime dormir, si la poesía duerme,

dexáime morrer, si la poesía muerre.

 

 

Una mirada vacía

Una mirada vacía arimada a la ventana.

Una mirada vacía, que mira, y nun vei nada.

El cristal, nel sou reflexu, que naide mira, amosaba.

Un “naide”, o un “too” vacíu, nunca y siempres será nada.

Siempres qu’esista’l vacíu, nun esistirá mirada,

nunos güeyos qu’asperan alcontrar a los qu’aman.

 

Non miedu

Esti miedu nun esiste,

nin esti aforfugu.

Too afuyóu col miedu a perdete,

las puertas rompióu’l campu esti díe,

las qu’outru puestas fourun pola mente.

Nun esisten.

Dilióulas el sol cola pacencia.

Nel mieu desiertu, ruchar veo la yerba.

Atrévoume yá agora, y yá m’escalzo.

Y ando.

Pisando faigo caminu hasta la playa,

La del tou mar,

y t’alcuentro a ti…

Asperanza.

 

LIGAÇÕES:

 


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  • abanhos

    Muito bela entrevista e esclarecedora entrevista

  • abanhos

    “Para finalizamos, como olhas o futuro da língua?

    Com temor e esperança. Estamos num momento crítico e que a língua nalgumhas comarcas pode desaparecer pola perda dos falantes patrimoniais, facto infeliz que também pode acontecer com o galego sob administraçom castelã.. Porém, é certo que na última década aumentou o prestígio social e o número de neofalantes o que me fai ser um pouco otimista”.

    Bem certo, o que pode passar ao galego sob administração castelã, é dizer a todo o galego que é da Galiza que não constituiu Portugal, pois todo ela está inserida em castela/espanha e sob administração castelã, até quando parece não sê-lo

  • abanhos
  • jot

    Obrigado Xián e Xabi por toda esta info de primeira mão. Gostaria de poder transmitir uma mensagem positiva, mas não a encontro.
    É sábia a reflexão do amigo abanhos: a Gz autoanêmica tb está sob administração castelã.
    Força!