NOVA SÓCIA DA AGAL

Wiktoria Grygierzec: «Se não se fala o galego “na intimidade”, os grandes atos e declarações públicas não vão fazer muito com e por ele»

«Para demasiados alunos, o galego já é mais uma língua estrangeira. Neste cenário, urge renovar completamente as linhas do discurso e do trabalho, pensar em novas táticas»



Wika 2Wiktoria é polaca. Vem de outra Galiza, da Galicja de Cracóvia. Estudou Filologia Portuguesa na Universidade Jagiellonski de Cracóvia e teve contacto com aulas de galego ILG-RAG na sua faculdade. Foi mesmo pela sua professora que decidiu visitar a Galiza várias vezes e foi na segunda viagem que ficou cá até hoje.

Para um/a galego/a é difícil imaginar a vida de uma pessoa na Galiza polaca. Conta-nos um bocado sobre a Galicja… Alguma semelhança com a nossa terra?

A Galiza daqui é um conceito mais antigo e mais homogéneo. A minha Galicja foi mais efémera, existiu apenas entre o século XVIII e os inícios do século XX, abrangendo muitas culturas e línguas: polaca, ucraniana, rutena, austríaca, judaica… Hoje em dia, em Cracóvia —uma belíssima cidade histórica e universitária donde sou— lembramos Galicja sobretudo quando no inverno bebemos “grzaniec galicyjski”, vinho quente com especiarias. Parecidos? Imensos, os bons e os menos bons. No século XIX, no império austro-húngaro —ao qual pertencia— todos identificavam Galicja com fame e pobreza… Esses belos elementos da identidade fizeram com que ambos os tipos de galegos nos tornássemos muito aventureiros, com imensa vontade de viajar pelo mundo em massa. Estivemos e estamos em todas as partes do mundo e se calhar até na Lua. Logicamente, não tive problemas de adaptação nesta terra.

Na Polónia fizeste estudos em Filologia Portuguesa. Porque decidiste estudar português? Qual foi a origem desta decisão?

É uma dessas inexplicáveis coisas de destino, o fado… Um dia, a minha mãe ouviu na rádio que na Universidade de Cracóvia inauguravam o curso de Filologia Portuguesa e ficou muito entusiasmada. Eu daquela andava a estudar o castelhano e tinha pensado na Filologia Hispânica. Foi mesmo no último momento de apresentar a documentação para a universidade quando me deu essa cousa tão galega chamada popularmente “arroutada” e troquei os papéis para o português. Doze anos depois só posso dizer: rapazes e raparigas, escutai as vossas mães, elas sabem o que é bom nesta vida!

Foi na universidade que descobriste o galego e parece que aqui tudo mudou. Porque decidiste pesquisar no âmbito da língua da Galiza? Qual era o teu objeto de estudo?

Devo agradecer por esta descoberta a minha professora de galego em Cracóvia, Maria Filipowicz-Rudek, uma pessoa e docente excecional. Foram as aulas dela que me ajudaram a apaixonar-me pelo galego. Devo admitir que pelo caminho foram usados muitos incentivos como alimentar os alunos com a “torta de Santiago” no dia do exame ou oferecer livros gratuitos. Eu, como filha de livreiros, não consigo dizer “não” nem aos livros nem à comida gratuita, acho que foi assim como fui apanhada… Como naquele momento inicial da aprendizagem percebia o galego e o português como línguas separadas, com história comum, decidi pesquisar nessa história comum e procurar o momento em que se “divorciaram”. Mesmo que o meu trabalho e esforço fossem bem valorados pelo professorado, devo admitir que não encontrei esse momento mágico que procurava e pessoalmente considero a minha tese um exemplo de fracasso científico.

Em que momento descobres o reintegracionismo e como foi mudando o teu posicionamento?

Descobri o reintegracionismo muito cedo, o mesmo ano em que comecei a estudar o galego. Acho que foi o ano 2004… Primeiro foi um amigo, que encontrou um manual de normas alternativas do galego na Internet; depois conheci umas pessoas reintegracionistas. Foi esse o momento em que apareceu uma dúvida no meu modo de perceção da língua galega, ainda que no início não me convence e até fui hostil com ela. No entanto, com o tempo descobri que os preconceitos que realmente tive em contra do reintegracionismo foram só de natureza política. Felizmente, descobri também que pertencer à AGAL não exige nenhum posicionamento nem militância política. Quando percebi que é só questão científica e filológica, permiti-me a liberdade de “mergulhar” nela. Agora esperemos que não afogue! (risos)

Quando decidiste que o reintegracionismo era a melhor estratégia para o galego?

Realmente foi há pouco tempo. Antes, pelo ensino que recebi fui isolacionista, mais da escola de Ramom Pinheiro que de Castelão. Quero dizer, que a minha experiência com pessoas de ideologia isolacionista foi sempre positiva. De facto, a minha mudança de fação não é nenhum tipo de traição nem é efeito de nenhuma batalha pessoal. Seria imensamente triste e contraprodutivo que entrasse em luitas pessoais quando a nossa causa comum está a sofrer. O que acontece é que levo já mais de sete anos nesta terra e observo a sociedade. O que vejo é que o galego está a desaparecer dos espaços público e privado. Por exemplo, a perda do galego nas gerações mais novas parece já imparável. Para demasiados alunos é já mais uma língua estrangeira, ao mesmo nível do inglês ou o francês. Neste cenário desolador acho que é preciso e urgente renovar completamente as linhas do discurso e do trabalho, pensar em novas táticas, sejam elas oficiais ou não. A verdade é que não conheço o futuro, mas as táticas empregadas até agora não parecem funcionar bem. Acho que devemos atuar como médicos perante um vírus desconhecido: por um lado procurar a causa (do rejeitamento social da língua), e por outro lado procurar sempre novos remédios. Ainda não sei se o reintegracionismo vai ser funcional, o que sei é que oferece um horizonte mais amplo e dá acesso ao conhecimento de mais espaços culturais (cujo valor e riqueza como filóloga portuguesa conheço e não posso negá-los), portanto a priori parece-me muito positivo.

Wika 3Recentemente na Através Editora publicamos A normalização linguística, uma ilusão necessária. Aos teus olhos, há muito de ilusão a respeito da língua da Galiza?

No contexto da normalização linguística na Galiza, acho que a ilusão seria pensar que foi uma cousa bem feita e aplaudida por todos os interessados nela. Eu vejo problemas que não existem em Euskadi ou na Catalunha e que aqui continua a haver. Cá os poucos que sobrevivemos à uniformização cultural e linguística vinda do centro do Estado, centramo-nos em discutir entre nós, enquanto estamos a perder falantes à velocidade da luz. Na Galiza, o que temos atualmente é um minifundismo linguístico. Todos acham que o seu modelo da língua particular é o correto e não cedem. O argumento popular mais clássico é “isto é assim de toda a vida” (por exemplo, o caso duma famosa feira de “pulpo”). Cada falante, mesmo sem nenhuma base científica, acha ter direito a uma opinião linguística válida mas todos esquecem que para além de “toda a vida” deles, o galego já tem história milenária e que se escrevia e cantava em galego antes de que se escrevesse em castelhano. Diz-se que não é bom olhar para trás, mas justamente no caso do galego é preciso olharmos bem para trás para ganharmos o futuro.

Qual achas que deveria ser o caminho para garantir o futuro da língua?

É complicado ser profeta, mas os conceitos básicos para mim são o respeito e o conhecimento. Todos sabem falar castelhano “por respeito” mas quase ninguém sabe falar galego por e com respeito. No que diz respeito ao conhecimento uma coisa que não suporto é a perda da memória histórica, tanto por parte da Galiza como de Portugal. No presente ocultam-se os factos e ocultam-se os vínculos. Os portugueses, por exemplo, tentam ocultar a sua origem galaica quando dizem que a sua língua vem diretamente do latim vulgar ou quando falam da formação do país sem mencionarem de que entidade se separou. Os galegos, pelo contrário, parece que ocultam aos alunos a existência das literaturas portuguesa e brasileira, textos que qualquer aluno galego medianamente inteligente poderia e saberia ler com 2 ou 3 explicações adicionais do professor (da mesma maneira que nas aulas de castelhano, o professor tem de explicar certo léxico cubano, mexicano ou argentino que não se usa na variante “padrão” do castelhano da Península Ibérica). Na Galiza desperdiça-se um potencial que é falar 2 línguas mundiais desde criancinhas. Em vez disso contam-vos que tendes uma língua internacional e uma língua regional que é parecida com a língua dos vizinhos, mas como os vizinhos são mais pobres e o único bom que têm são as toalhas baratas em Valença do Minho talvez nem valha a pena… (não continuo porque sinto raiva). Se tivesse poder religioso, diria que é um pecado desperdiçar oportunidades e talentos.

Porque demoraste em te associares à AGAL e e que esperas da associação?

Demorei porque erroneamente achava que pertencer à AGAL exige algum tipo de compromisso político, sobretudo de esquerda. Como as experiências históricas do meu país, Polónia, são totalmente opostas às de Espanha e Portugal, tinha muito medo de trair por exemplo a memória histórica do meu país e de todos os meus compatriotas que sofreram muito com a ditadura soviética. Felizmente, uma cousa é uma língua do Oeste de Europa e outra coisa é a política no Leste de Europa; portanto, com a ajuda dos amigos que me explicaram que não devia ter medo (agradecimentos especiais ao amigo Eliseu Mera), deixei de me preocupar. O que espero? Simplesmente sentir-me bem, ter conversas proveitosas e frutuosas e saber que há mais pessoas com ideias semelhantes às minhas, preocupadas com a língua e amantes da filologia.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2030?

Se vejo os pais a falarem o galego com os seu filhos, e em consequência os rapazinhos e meninas a falarem galego entre eles/elas, já estou satisfeita. A transmissão duma língua de geração a geração é a única via de sobrevivência dum idioma. Se não se fala o galego “na intimidade”, os grandes atos e declarações públicas não vão fazer muito com e por ele.

Conhecendo Wiktoria

  • Wika 1Um sítio web: Chamai-me rançosa mas sem Internet vivíamos mais tranquilos.
  • Um invento: Acho que a roda foi o mais importante, depois dela a imaginação humana não teve limites.
  • Uma música: Gosto de quase todas, menos de alguma de Wagner…
  • Um livro: Um só? Qualquer de Sofi Oksanen (o meu último descobrimento literário).
  • Um facto histórico: Recuperação da independência da Polónia em 1918 (em geral gosto de todas as recuperações da independência).
  • Um prato na mesa: Experimentos de cozinha fusão polaco-galega da minha mãe; por exemplo, bolo de sementes de papoula com licor-café.
  • Um desporto: Maratonas gastronómicas.
  • Um filme: Continuarei sendo patriota, recomendo o último Oscar polaco, “Ida”.
  • Uma maravilha: Que os seres humanos ainda não acabássemos com a vida neste planeta.
  • Para além de galega da Galicja: Leitora incansável.

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  • http://pgl.gal Valentim R. Fagim

    Tivem o prazer de ter uma conversa com ela e se a galega média fosse assim, vivíamos noutra sociedade radicalmente diferente. Muito bem-vinda ao nosso navio, Wika.

    • Daniel Vasques Ribeira

      Ó Valentim, tens nas tuas conversas um património imaterial de incalculável valor!

  • Ernesto V. Souza

    Lindíssima entrevista, bebe-se como um bálsamo… haverá que provar esse “grzaniec galicyjski”…

    Arroutada, desconfiada e… mesmo retranqueira: “Gosto de quase todas, menos de alguma de Wagner…” bem merece uma medalha Castelão… 😉

  • madeiradeuz

    Uma poderosa entrevista, um olhar e avaliação externas para verificarmos a solidez do nosso projeto. Acho que chegas num magnífico momento à AGAL, Wika! 🙂

  • Joám Lopes Facal

    Boa-vinda, Wiktoria, e boa estadia nesta pequena república. O filme “Ida”, maravilhoso e a Polónia umha potente identidade nacional que todo superou. Um prazer a tua companhia.

  • http://www.notas.gal Eliseu Mera

    Já me encargarei de que gostes também de Wagner. Vai-te preparando…

    • Ernesto V. Souza

      XD XD XD “Não posso escutar muito Wagner. Fico com vontade de invadir a Polônia”

      https://www.youtube.com/watch?v=l-DZixyuPqg

      • http://www.notas.gal Eliseu Mera

        XD mas o certo é que, posto que a Alemanha -infelizmente- já invadiu toda a Europa, já não podemos ver a música de Wagner como um risco 😉

    • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

      Eliseu, caro, a Wika e a Paulina conhecem-se?

      • http://www.notas.gal Eliseu Mera

        Conhecem, são mui boas amigas. De facto, eu conhecim a Paulina via Wika.

        • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

          Depois da colónia brasilega vai haver uma polonega em Compostela! 🙂

  • MartinhoDeDume

    Adorei. Concordo com o Ernesto: um bálsamo.

  • ranhadoiro

    Que maravilha de entrevista e de pessoa. O melhor deste país está no reintegracionismo…Ela já é “este país”

  • Louredo

    Mas porquê a entrevista nom é em galego da Galiza, pois ela aprendeu. É polo mesmo motivo polo que muitos galegos falam castelhano? prestígio social? A ainda pior, porque o entrevistador nom o fai em galego?Se nom prestigiamos a variedade galega ninguém o vai fazer por nós. É como quando um falante urbano di que gosta muito do galego e que está bem que se promova, mas nom di nem umha só palavra nele

    • madeiradeuz

      Acabas de comparar o uso da norma portuguesa do galego com o uso do castelhano?

      • Louredo

        Acabo de comparar deixar de usar umha norma própria na Galiza para usar umha norma nom própria por razons de prestígio. Nom me refiro aos factos lingüísticos, mas aos sociolingüísticos. Evidentemente a norma AGAL e a portuguesa fam parte do mesmo idioma. A razom última é a mesma do que o abandono do galego por parte de muitos galegos

        • madeiradeuz

          Tu pressupões que a escolha foi feita por razões de prestígio. Eu, pola contra, faria-o por razões de familiaridade com uma variedade ou por maior segurança nela. Por exemplo, se eu fosse ao País Valenciano, falaria o catalão como na Catalunha e seria essa variante com que escreveria, porque apesar de que tenho conhecimentos da variante valenciana, não são avondos como para me exprimir com segurança.

    • Wika G

      Olá Louredo, obrígadissima polo teu comentário. Sou nova aqui e ainda nunca escrevim em normativa AGAL. (Vou tentar agora, disculpade a minha ignorância se nom o fago bem). As variantes escritas do galego que conheço som efetivamente o galego ILGA-RAG que estudei sempre ou o português europeu (aprendi antes do AO). De facto, umha das maiores dúvidas que quixem preguntar e esclarecer o dia da minha entrada na AGAL é o que me recomendades quanto ao -om / -ão e vejo que a cousa nom está tam clara, que no presente há duas tácticas paralelas. Como recebi as preguntas básicamente em português respondi da mesma forma quase automaticamente, nunca pensei na questom do maior ou menor prestígio dalgumha das línguas ou grafias. Falo 5 línguas e som incapaz de dizer qual tem ou deveria ter mais prestígio, ou colocá-las numa pirámide social, nem percebo as pessoas que deixam de falar uma língua pola suposta baixa estima social que tem. Para mim a grafia é umha ferramenta e é um acordo social que há (ou deve haver) entre os falantes. Até às vezes digo que de o quixermos e de sermos muito “friquis”, os falantes do galego prescindir dos caráteres latinos e criar umha escrita e um alfabeto próprio. O que observei que tornar o galego “fácil” e aproximá-lo do castelhano nom resultou porque deu ao galego o matiz nom só de língua regional e local, mas de algo “súbdito” em relaçom com a língua de Madrid. O galego escrito “à castelhana” é um pouco como aquela série de livros em inglês “(qualquer cousa) for Dummies”. Eu nom considero o povo galego “Dummies” (parvinhos). Por isso acho que através da escrita devemos tentar lembrar às pessoas as conexóns (como recomendades escrever esta terminaçom em plural?) naturais com a língua filha do galego que é o português. Obviamente, tens razom, nom temos que roubar e emprestar tudo do português (que ao fim e ao cabo é umha língua historicamente posterior à galega), nem temos que subordinar o galego ao português, podemos adatar o galego às nossas características próprias e estou a favor disso. Ainda preciso de formaçom nestes novos caminhos da vida e eu estou aberta às ideas que me proponhades. Obrigadinha / grazas a todos pela ajuda.

      • Louredo

        dziękuję /muito obrigado, sinceramente. Fica explicado! Qual é a sua opiniom do beloruso e do macedónio, devem ser consideradas línguas independentes? Que opina de que o sérvio se escreva com cirílico e o croata em latino, quando som a mesma língua? Só som perguntas curiosas, nom há qualquer intençom polémica. Desculpe a maçada e benvida à eterna discusom da norma

        • Wika G

          Efetivamente, além das questons ortográficas (que passam pola vontade de maior ou menor reflexom dos traços fonéticos atuais na escrita) há problemas léxicos. No entanto já entre o português europeu e o brasileiro há tantas diferenças léxicas… ou até há cousas para as que os lisboetas e os portuenses se desentendem! Como poderiam neste quadro nom diferenciar-se os galegos? Um dato curioso: Mesmo entre o inglês do UK e do USA há imensas diferenças no léxico e eu nunca ouvim nenhum falante dalgumha variante do inglês duvidar de como escrever ou questionar a pertença do seu idioma ao denominador comum chamado “inglês”. Seica os que nos complicamos as vidas somos os lusófonos. 😉 Quanto ao eido eslavo: 1. Caso sérvio-croata – questom puramente religiosa. Os sérvios som ortodoxos e os croatas católicos. A religiom ortodoxa está intrinsecamente ligada à creaçom do alfabeto cirílico. Todos os eslavos nalgum momento da nossa história escolhemos entre o poder do império católico-romano ou o império bizantino. Os polacos por exemplo deixamos que nos evangelizasse Roma em vez de Constantinopla, por isso sempre quixemos grafar a nossa língua com caráteres latinos. 2. Questom do bielorusso – para mim sempre, igualmente que o ucraniano, foi língua distinta do russo. As 3 tem umha origem comum mas desde polo menos século XVI há diferenças claras. Bielorusso foi utilizado na escrita no Principado Lituano e recebeu fortes influências do polaco quando Lituânia e Polónia se uniram no 1569. Depois das partiçons da Polónia quando as terras bielorussas passaram às mans russas o idioma foi proíbido e perseguido, situaçom que se prolonga até hoje. O atual ditador bielorruso tenta fazer desaparecer a língua e dilui-la no russo. Desde a minha forte oposiçom ao imperialismo soviético e russo, digo nom a considerar bielorruso como parte do russo. 3. A questom do macedônio é a que menos controlo, mas a separaçom é ditada pola fronteira política e este caso vejo-o como mais parecido ao caso galego-português. Consideraria-os a mesma língua, aínda que com certeza haverá alguém quem me contrarie.

          • Louredo

            Mas a diferença entre o par inglês/norteamericano e o par galego/português é que ninguém na América ou no Reino Unido quer deixar de usar léxico próprio, enquanto na Galiza há quem propom a substituiçom do léxico galego característico pelo próprio do português estándar. Os escritores americanos construiram o inglês, mas até agora nem os escritores galegos nem a sociedade galega participou na formaçom do português moderno. Sem conhecer o caso bielorruso (só tenho algumhas noçons de russo e lim nalgures que há 1000 anos russo e bielorrusso eram indistinguíveis) nom deixa de ser interessante que é também por 1400-1500 quando o galego começa a receber influência notória do castelhano e a manifestar-se os traços mais definidos das diferenças entre galego e português. Mesmo os teóricos do autonomismo sostenhem (p. ex. H. Monteagudo) que até 1400 galego e português eram indistinguíveis. A questom nom é se há muitas diferenças entre brasileiro e português europeu, a questom é qual é o modelo léxico e ortográfica para o galego e de onde sai. Nom é?

          • Wika G

            1. Concordo! O império linguístico construido pelos ingleses foi sempre inclusivo e recetivo com variantes geográficas (ainda que o impéro geográfico e as questons humanas por exemplo na conquista da América do Norte fossem outra cousa…). O português polo contrário foi sempre muito hostil com o galego. Essa teima purista portuguesa foi outro elemento que nom mencionei na entrevista que me manteve longe do reintegracionismo. Se os castelhanos desprezam os galegos, é preciso ver a definiçom do galego nos dicionários portugueses (Priberam, pontos 8 e 9). Falei muito com os portugueses sobre o galego e há imensa gente que até o considera dialeto de… “espanhol”. Sempre considerei que quem precisa de reintegracionismo e de educaçom linguística som mais eles que os galegos. 2. Dentro do isolacionismo tamém sempre estudei que polo menos até finais da Idade Média o português e o galego eram indistinguíveis. Só se começaram a distinguir depois da “doma e castraçom” da Galiza quanto a força castelanizadora começa a ser imparável. No caso russo-bielorrusso-ucraniano, efetivamente há 1000 anos nom houve distinçom nenhuma. Existia o que se poderia traduzir como “antigo eslavo oriental” que posteriormente sofreu “trifurcaçom”. Os linguistas eslavos falam dum periodo muito longo entre secs. XIII e XVII nos que se teriam esclarecido as diferenças entre as 3 línguas. Infelizmente nom falo bielorrusso portanto nom podo dizer muito sobre as diferenças estruturais. Só conheço questons políticas e sociolinguísticas e podo dizer que todos os vizinhos da Rússia sempre sofreram consequências muito brutais do imperialismo “made in Moscova”, portanto qualquer cousa que (n)os distinga desses nossos irmáns eslavos que sonham com a grandeza e poder mundial, aferramo-nos a ela “com unhas e dentes”. Hoje em dia o bielorruso e o ucraniano som mais que nada sinais e indicativos da identidade nacional que se formou a sobreviveu a pesar das fortes repressons e oposiçom tanto do tsarado como posteriormente do stalinismo (e até dalguns intentos de polonizaçom, os polacos também nom somos livres das culpas, a diferença com a política de Moscova é que os nossos governantes nom acostumavam recorrer a genocídios para promover o uso da língua…). As elites inteletuais bielorrussas modernas som as que ressistem e loitam pola independência e por manter língua e cultura próprias, ou seja segundo as minhas observaçons exatamente ao contrário do que acontece na Galiza onde as “elites” oficiais som uns fieis servidores de Madrid (as elites verdadeiras nom som tomadas a sério pola maior parte da sociedade galega). Suponho que dalgumha maneira daí vem a minha percepçom diferente do assunto da tipologia linguística eslava.

          • Louredo

            Obrigada polos comentários. É sempre interessante obter pontos de vista de pessoas de cultura eslava, pois neste ámbito houvo um bom número de separaçons lingüísticas de variantes próximas. Animo-lhe a fazer artigos sobre a questom. Saudinhos

          • Heitor Rodal

            Muito esclarecedores comentários. Obrigado, Wika.

            E de resto, emprega a norma que melhor te aprouver e sente-te à vontade.

            Saudações e Bem-vinda.

    • Heitor Rodal

      ???

      A entrevista, o entrevistador e mais a entrevistada empregam o galego.

      • Louredo

        Como chama ao galego da Galiza,
        noroestino? Ah, nom me diga, nom existe um galego da Galiza…

        • Heitor Rodal

          Mas como não vai existir o galego da Galiza, ho? E não só um, muitos: afinal cada galega e galego têm o seu particular, igual que você e mais eu. Como também há um monte de galegos particulares e diversos de Portugal, Brasil, Angola,… e mesmo também da Galicja, como este tão fermoso que emprega a Wika.

          Saúdos.

  • filipediez

    Deliciosa entrevista e interessantes reflexões.

  • Paul

    Gostei de ler esta entrevista e vi um ponto em comum com a entrevistada que acho importante.

    O movimento reintegracionista tem a imagem muito colada à esquerda (por vezes a mais radical) e acreditem que o uso da bandeira com a estrela vermelha por alguns afasta muita gente. Visto que a Galiza é tendencialmente conservadora (como o norte de Portugal), seria importante frisar CONTINUAMENTE que a estratégia reintegracionista está aberta a todos os quadrantes políticos e não está associada a ideologias.

    Na mesma linha, quando vemos notícias nos média internacionais sobre a
    independência da Catalunha, quase sempre vemos uma menção sobre o País
    Basco, mas nada sobre a Galiza. Penso que a razão para o sucesso dos
    movimentos identitários (com enfase para a língua) nessas “nações sem
    estado” é o facto de haver um apoio do centro, ou seja, não se
    restringe às extremidades da curva de Gauss que são habitadas por poucos. Os números estão no centro (de esquerda e direita) e esse deveria ser o público alvo prioritário.

    Concordo por isso com as estratégias que ultimamente mostram às pessoas que o Galego é bom para o emprego e para os negócios pois abre portas para um mercado mundial. Seria também bom “copiar” os Catalães e recrutar para o reintegracionismo pessoas de “estratos sociais” com poder para influenciar a percepção social da língua junto das massas e inverter o rumo actual de perda (celebridades, empresários, desportistas, etc). Deve-se também “martelar” na cabeça das pessoas a associação da estratégia isolacionista ao falhanço total que se observa actualmente, que vos afasta dessas oportunidades por ser uma norma fechada ao mundo.

  • Wika G

    Muito obrigada a todos pelos comentários! Sinto-me mais que bem-vinda. O meu “ego” cresceu bastante. 😉

  • http://miromoman.wordpress.com/ Miro Moman

    Avante a conexão Galicia-Galicja! Venho de reencaminhar esta entrevista (junto com ligações para o sites de Paulina Ceremużyńska e Sonja Lebedynski) para Aleksandra, uma peregrina galega de Cracóvia que trouxe desde Bratislava a Saint-Jean-Pied-de-Port em Maio. Espero que tenha sobrevivido o caminho 😉

    • Wika G

      Este mundo é um pano! Conheço a Aleksandra e estive com ela em Santiago depois de que completasse o caminho. Foi-lhe de maravilha. Falou-me dum galego que a trouxe de carro a Saint-Jean Pied-de-Port. Obviamente sobra dizer que conheço também a Paulina. 😉

      • Louredo

        Visto que polos vistos hai já umha boa maioria de “pessoeiros” do Portal da Língua que optam polo português haverá que refugiar-se na norma de 2003 (seja coerente Sr Momám e deixe o eslovaco, fale checo , seja culto)