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As pessoas galegófonas fomos abençoadas nas últimas semanas. Quem se importar com a língua tem visto como nos últimos anos os apoios institucionais foram dizimados nas escolas e outros organismos. As associações que têm a língua como foco sabem disto. Mas nestes dias houve uma volte-face, pequenos gestos que fizeram a diferença. Sabela, uma cantora galega que está a concorrer no programa espanhol Operación Triunfo, decidiu cantar na sua (nossa) língua. Ela é jovem, mulher, galegófona e sem preconceitos. Digo isto último porque para além de cantar na nossa língua, escolheu interpretar uma canção da banda Marful, escrita com as mesmas grafias que eu estou agora a usar. As suas ações deram visibilidade a uma realidade linguística desconhecida por muitos e muitas e também a um modelo ortográfico muitas vezes colocado em questão.
Através dos programas da tv e das redes sociais pudemos ver as reações de quem a ouvia, pessoas de cá e de lá. Fãs até do Brasil e Portugal. Surgiram montes de dúvidas e debates interessantes. É galego? é português? vejam este vídeo do Eduardo Maragoto.Se calhar pensam que este não é o espaço para este género de coisas, mas queria aproveitar o post para dar os parabéns à nossa Sabela e também, é claro, falar de questões linguísticas. É por isso que vou destacar algumas construções e léxico:

  • VOTAR: o verbo rege a preposição EM. Portanto, Eu voto na Sabela cada dia através da aplicação.
  • ESCOLHER vs ELEGER: Já tínhamos falado nisto noutro post anterior. É só para vos lembrar que não são sinónimos e que há um contexto de uso para cada um deles.

Como neste ano próximo vamos ter também eleições, vou matar dois coelhos de uma cajadada e adiantar algum vocabulário também sobre isto:

  • assento, cadeira: o quociente eleitoral distribue o número de cadeiras ou assentos que irão ocupar os representates políticos, então, os resultados eleitorais são medidos em votos e cadeiras.
  • autarca: é o ou a presidente de uma câmara municipal.
  • autárquicas: são as eleições ao governo da câmara municipal.
  • boletim de voto ou voto: é o papel que depositamos na urna para votar.
  • urna: vaso ou objeto similar onde se recolhem os votos num ato eleitoral, num sorteio, lotaria, etc. As furnas são umas piscinas naturais, de facto, há várias praias na Galiza e Portugal assim chamadas. O voto é sério não depositem na areia.
  • recenseamento eleitoral: operação para determinar o número de habitantes de um país, cidade, freguesia…para os cidadãos registados terem direito ao voto.
  • vereador, -a: cada um dos membros eleitos para constituírem a câmara municipal.

Votaram já hoje na Sabela? Eu já fiz. Só sonho com que ela chegue a ser presidente!

* Publicado em Lusopatia,
Carme Saborido

Carme Saborido

Carme Saborido é uma ativista sociocultural e professora. Nasceu em Padrom em 1982 e licenciou-se em Filologia Galega na USC. Atualmente frequenta o grau de Língua e Literaturas Modernas na mesma universidade.

O seu blogue, Lusopatia , quer ser uma janela aberta ao mundo que permita ver os vastos horizontes e dinamismo da nossa comunidade linguística.
Carme Saborido

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  • Ernesto V. Souza

    Ganhe ou não o que ficou demonstrado e que aquilo de que o povo não está preparado para o reintegracionismo é fake…;)

  • Venâncio

    A canção “Negro Caravel” é magnífica: na letra, na melodia, na orquestração. A mensagem que ela envia é que a Galiza é capaz de produzir ‘qualidade’.

    Mas… ao ouvi-la, só de longe em longe eu reconhecia palavras. O que entendi bem foi “do meu peito” e, para lá disso, “dolor”, “Dios” e, evidentemente, “coraθón”, a palavra destacada e final.

    Pergunto-me onde fica demonstrado, aqui, que o povo está preparado para o reintegracionismo.

    P.S.
    No vídeo do Eduardo Maragoto, aparece a frase (da canção de Marful) “mulheres valentes que ensinam os dentes”. Nenhum falante de português entende aquele “ensinam”, e a frase soa absurda. Ensinam o quê? Ensinam a morder?

    É pura semântica espanhola. Nós diríamos “mulheres valentes que mostram os dentes”.

    Significativo é o Eduardo não ter achado necessário dizê-lo. Os galegos entendem… porque sabem castelhano.

    • Ernesto V. Souza

      Cousas que acontecem… suponho que um português culto, dono e senhor de uma ideia da língua terminada terá também tremendas dores de cabeça a ler textos algo antigos, clássicos, primitivos, rurais, brasileiros, africanos… e correrá aos dicionários para cousas que nós achamos da casa. A contrário do que nós, que encalhamos a toda hora nas cantigas de hoje no youtube, nos textos de opinião dos jornais, nos comentários do facebook…

      • Venâncio

        É isso, mas é bastante mais do que isso.

        As verdadeiras diferenças aprendem-se. O problema dificilmente superável será sempre o das falsas semelhanças, o da semântica inesperada (os “falsos amigos”) entre Galego e Português, sobretudo quando há um Galego influenciado pelo Espanhol.

        No entendimento da problemática galega por parte dos falantes de Português, é essencial darem-se conta que os galegos são bilingues (e quanto mais cultos mais bilingues), estando portanto eles à vontade numa língua, o Espanhol, que para nós é cheia de alçapões.

        • Ernesto V. Souza

          Mas Fernando, apenas é assumirem os portugueses que o galego é um dos mais fascinantes casos de crioulo da Língua portuguesa, que por uma banda tem elementos raiz e evoluções paralelas que coincidem ou aparecem em qualquer geografia ou estrato inverossímil da língua e por outro que apresenta lógica e irreversivelmente uma muito antiga e forte influência e sobreposição do castelhano moderno e literário…

          é dizer o galego tem tudo aquilo do que menos gostam os portugueses XD

          • Venâncio

            Meu caro, todos os minutos dos meus dias são (ou eu queria que fossem) dedicados a levar os portugueses a assumirem…

            … que o português é um dos mais fascinantes casos de crioulo da Língua galega.

            Mas sei que, para isso, não preciso de contar com os reintegracionistas galegos. Sim, estamos em lados opostos da luta.

          • Ernesto V. Souza

            Pois… essa é a tese. São crioluos, uns com estado outros sem ele… Na prática os galegos assumimos ou poderíamos assumir muitos desses falsos amigos, sendo os falsos os da banda de lá… XD

            Eu trato de os convencer do lado galego… mas aí o galeguismo e o nacionalismo entraram há muito por um caminho errado e levaram o reintegracionismo com eles…

            A cousa, penso eu… dado que o problema é e será simplesmente incontornável e sem solução, pela nossa realidade, tradição e ambiente… haverá que o considerar não um defeito senão uma característica…

            Simplesmente é uma mudancinha de perspectiva: no canto de procurarmos
            os falsos amigos no português padrão desses loucos espanhóis galegos,
            consideremos esses fenómenos gritantes como marcas de identidade… contemporâneas.

            O galego ainda luta por existir. Se sobrevive este século que começa… quem sabe para onde pode rumar.

            Saúde,

          • Venâncio

            E há outra coisa.

            Também o português, e muito antes do galego, «apresenta lógica e irreversivelmente uma muito antiga e forte influência e sobreposição do castelhano moderno e literário…»

            São inúmeros os castelhanismos correntes em português que a RAG explicitamente condena.

            Ah, como é fácil, e tentador, simplificar a História!

          • Ernesto V. Souza

            Pois, Fernando, mas os portugueses não moram na Espanha…

            Se os galegos, hoje, nos separássemos e baníssemos o castelhano das nossas vidas. Iríamos construíndo e colorindo um crioulo moderno verdadeiro.

            Mas acho, cumpre assumir a realidade de uma Galiza na Espanha, com uma população submersa no castelhano, uma massa minguante de falantes nativos sem muita consciência linguística e uma minoria crescente de falantes nativos aculturados em castelhano mas linguistica/nacionalmente conscientes e neo-falantes que vão construindo um neo-galego para uso culto. E entre eles estão as tribos reintegracionistas, muito ativas mas ainda em pleno monólogo hamletiano…

    • Eduardo Maragoto

      Eu diria mais: “ensinar” é um vulgarismo em espanhol, que nesta língua está a ser banido aos poucos dos meios de comunicaçom de massas. Mas todo o vulgarismo que entra polo espanhol tem um longo percurso ainda a percorrer no nosso fraco galego, que se nom conta com meios de comunicaçom capazes de promover o uso de certas palavras, menos ainda tem para rejeitar outras. Mas essa nom é a questom, e voltamos a debate de sempre.

      O nosso, Fernando, nom é esse movimento de gramáticos que tu tantas vezes tens reclamado aqui. Nom existimos para puxar as orelhas a quem nom se expressar como nós prescrevemos. Livre-me Deus! O nosso objetivo é reconstruir muitas unidades feridas de morte e isso nom se faz cabando mais valas entre uns e outros.

      • Venâncio

        Eduardo, mostras ter uma noção de “gramática” de tipo prescritivo e correctivo. Há quanto tempo essa noção foi abandonada por gente com um mínimo de discernimento!

        Quando eu digo que o reintegracionismo galego não tem (desde a morte de Carvalho Calero, há quase 30 anos) um gramático, aludo a alguém que conhece e expõe o funcionamento do idioma, com as suas possibilidades, a sua flexibilidade, a sua adequação aos usos.

        Que chatice que isto não te fosse claro! Ando aqui a falar prò boneco.

        • Venâncio

          Dizes que “enseñar” é um vulgarismo em espanhol. O DRAE parece não dar-te razão. O valor de “mostrar” está, de resto, muito claro em 4. Admito que “enseñar = mostrar” esteja a ser banido. Mas, do que leio e ouço, ainda está muito vivo e corrente.

          ENSEÑAR

          1. tr. Instruir, doctrinar, amaestrar con reglas o preceptos.

          2. tr. Dar advertencia, ejemplo o escarmiento que sirva de experiencia y guía para obrar en lo sucesivo.

          3. tr. Indicar, dar señas de algo.

          4. tr. Mostrar o exponer algo, para que sea visto y apreciado.

          5. tr. Dejar aparecer, dejar ver algo involuntariamente.

          • Venâncio

            Aproveito para informar-te (não para corrigir-te) de que esse uso que fazes de “o nosso” é simples decalque do esp. “lo nuestro”.

            Não sei como conviria um galego dizer. Mas em português diríamos “o nosso problema”, “a nossa preocupação” e similares.

            Acontece que o nosso idioma não possui o artigo “lo”, que permite distinguir “el español” e “lo español”.

            Também não nos são permitidas construções como “lo primero” em, por exemplo, “Lo primero es mi madre”. Uso este exemplo porque é real, tendo sido traduzido por mão inábil como “O primeiro é a minha mãe”, frase impenetrável para nós.

            É uma simples questão estrutural, dessas que um gramático, com gosto, vos explicaria. 😉

          • Ernesto V. Souza

            Mas são matizes, meus, matizes… e possibilidades.

            Atenção… uma cousa é que não são permitidas em Português culto de Portugal… outra que os galegos tenhamos que tomar direitinha essa escolha léxica e formular…

            Por exemplo…

            Eu sempre ouvi o cão ensina os dentes… ou a Sabela ensinou os dentes…

            até onde eu entendo, no galego popular “mostrar” ficou ou soa a cultismo. Os cães mostram os dentes… entende-se, mas a gente não diria… ou diria, olha que engraçado, que moderno, que snob…

            Como aquilo de “mora” na rua da Paz… olha aí mora… será um senhor conde quem lá vive…

            ou acho… achas que?

            e etc…

            e com “o nosso” (ou com ao [mesmo] tempo]) igual… entende-se? sim, não, não estamos afeitos, estamos… mas quem saberia dizer quando entrou no idioma… talvez foi ontem pelo castelhano, talvez entrou a contrário… dalgum galego no castelhano…

            E, por isso o dos falsos amigos, decalques, erros (mas a respeito de que, para que sociedade?)…não sei… parece-me pouco, produtivo…

          • Venâncio

            Não tenho aqui à mão a “Gramática da Lingua Galega” do Freixeiro Mato. Mas tenho a certeza de que ele não concebe como galego legítimo uma distinção correspondente a “el gallego” / “lo gallego”.

            Não porque seja proibido, mas simplesmente porque o nosso idioma não o prevê. Tal como o castelhano não prevê o infinito pessoal.

            Não são MATIZES, meu, são ESTRUTURAS. Mas eu vejo em vós muito pouca disposição para tomar estas coisas a sério.

          • Ernesto V. Souza

            Umas são e outras não… umas são velhas, outras novas, umas consagradas por muito que francesinhas, outras hoje impossíveis e amanhã aceites…

          • Venâncio

            De nihil sciendo, dizia o outro.

            Pois é, nada é verdadeiramente importante.

          • Venâncio

            Vamos começar pelo princípio.

            O castelhano, essoutra língua que se criou independentemente da nossa, tal como a nossa se criou independentemente dela, o castelhano, dizia eu, tem um artigo que nós não temos: LO. É um artigo ‘neutro’.

            Deste modo, o castelhano pode jogar (e de facto joga) com a oposição “EL español”, “LO español”.

            Nós não podemos fazê-lo, pois a nossa língua não tem aquele artigo.

            *
            A questão de “LO nuestro” é um tanto diferente. Trata-se de um idiomatismo castelhano. Com isso, um castelhano quer dizer “as nossas coisas”, “aquilo que para nós é importante”, “aquilo que nos é próprio”.

            Mais uma vez: nós não podemos dizê-lo. E, se o fizermos, estamos a forçar o nosso idioma a exprimir algo para o qual não foi feito.

            N.B.
            Temos, sim, a possibilidade de dizer, por exemplo, “O importante é ter saúde”, “O principal é ter espaço” e semelhantes. Mas não podemos ir tão longe como o castelhano no uso do neutro, como em “Lo primero es mi madre”. Vertido como “O primeiro é a minha mãe”, soa absurdo. A não ser a ouvidos habituados ao castelhano…

          • Venâncio

            Este é exactamente o tipo de questões, Eduardo Maragoto, que competiria a um gramático reintegracionista expor-vos.

            Como eu disse acima, o gramático analisa e descreve o funcionamento (!) do idioma, as suas estruturas, ou as estruturas que outro idioma tem mas não o nosso.

            Vós necessitais duma pessoa assim como do pão prà boca.

          • Ernesto V. Souza

            Mas por que soa absurdo? soa esquisito a quem nunca ouviu, mas algo que à primeira já se percebe tão absurdo n não será…

            De qualquer jeito não passa de um modismo perfeitamente possível. Nenhuma regra da língua impediria, nenhuma estrutra profunda. Apenas o hábito, o sucesso… explica, faz entender e dá possibilidade a sua circulação.

            Que seja erro ou falso amigo no português… não quer dizer – ou não deveria dizer nada para um galego.

            Os galegos teríamos que diferenciar entre o que e realmente impossível na língua galega e o que não é considerado correto no português.

            P.s O castelhano criou-se e medrou por séculos tão independente do galego como o galego hoje do castelhano…

          • Venâncio

            Eu não me pronuncio sobre o que é admissível, ou não, em Galego.

            Digo-te, só, que nenhuma possibilidade linguística portuguesa ou brasileira admite “O primeiro é a minha mãe”.

            E ouve: já era tempo de definirdes, explicitamente, até onde o Galego pode conviver com o Castelhano.

            Mas, na prática, o Galego já se acomodou à convivência com ele, evitando formas em conflito. Por isso diz, por exemplo, “tu eres” (e não “tu es”), “tu vas” (e não “tu vais”).

            São estratégias de sobrevivência.

          • Ernesto V. Souza

            Fernando. Não podemos por-nos a definir nada sem antes estabilizar a Situação linguística na Galiza. Essas cousas exigiriam um modelo em construção referendado que tivesse uns referentes (autoridades) respeitados e assumidos.

            Mas não podemos estabilizar a deriva atual de destruição e mimese sem antes confrontar como conjunto o projeto de laminação e subtituição linguistica programado pelo estado Espanhol.

            E não podemos construir um conjunto sem antes lograr um mínimo entendimento entre as partes.

            Todos os processos, as grandes fases assim gizadas, são para décadas (cada uma delas). Podemos como até o de agora ir fazendo aos poucos, às arroutadas ou improvisando em função da oportunidade ou da gente que anda e não anda nos diversos espaços. MAS como comprovamos é tempo e trabalho bastante perdido, sem antes ter arrumado algum contexto e fase prévia.

            Para além, o movimento linguístico de restauração, na Galiza, perdeu o ânimo, a fantasia, a energia, o humor, a vontade de viver e mesmo de sobreviver. Precisa justamente e como nunca desses elementos que desbotou e que andam no reintegracionismo.

            O reintegracionismo, nesta época escura e sem ânimos é ilha, faro e porto de abrigo. Um espaço generoso que abre as suas portas e faz chamado a recomeçar de novo.

          • Venâncio

            Caro Ernesto,

            Falas num projecto de “substituição linguística programado pelo Estado”. Isto soa-me a ficção cientifica ornada de conspiração universal.

            Vou-te contar uma história. Quando comecei a publicar sobre a castelhanização do Português no período de 1450-1730, com a correspondente desistência de explorar léxico galego-português, logo houve quem dissesse que essa exploração tinha forçosamente existido, mas que o Estado espanhol tinha destruído os textos em que ela se manifestara.

            Um cenário belíssimo… como conspiração de forças escondidas. Ele implicaria um conhecimento pelo Estado dos materiais autóctones, mais um interesse linguístico do Estado por esse idioma marginal.

            Transponhamos a coisa para a Galiza. Acreditas, a sério, que forças do Estado estão linguisticamente empenhadas em minar e triturar o galego? Conta-me histórias! Isso suporia um conhecimento (!) e um interesse (!) que o Estado exactamente não tem… por um idioma marginal. Não dêmos tais asas à fantasia.

          • Ernesto V. Souza

            home… Existir não existirá… mas funcionar funciona… Poderia citar o Alcalá, já que gosta, de 1972, o que disparou a carta famosa de Lapa… mas aproveito o de hoje fresquinho:

            https://twitter.com/xavier_alcala/status/1075869216149041152

          • Venâncio

            E quem é que não ensinou esses jovens a falar galego? Foi o Estado… ou foram o paizinho e a mãezinha?

          • Ernesto V. Souza

            Bom isso já não é a análise da língua aí depende de se nos colocamos numa ideologia liberal, num nacionalismo de esquerda, ou numa direita populista… algum dos dogmas de cada uma das correntes passam justo por aí.

            Afinal a existência das línguas (e com ela todos os seus fenómenos internos e realizações) vai ser mais bem cousa da economia, da sociologia e da ideologia…

          • Carlos

            Entom eu coloco umha dúvida: se “O importante é ter saúde” ou “O principal é haver espaço” som construçons legítimas, e, contrariamente, “O primeiro é a minha mãe” é inadmissível, como podemos ter certeza dos usos corretos do “O” em cada caso? Qual a “fronteira” que separa os usos apropriados dos espúrios?
            Eu entendo que pode ser claro para um falante de Portugal, mas para umha pessoa também escolarizada em espanhol apresentam-se mais dificuldades.
            Obrigado!

          • Venâncio

            Carlos, essa dúvida é perfeitamente compreensível.

            De facto, como em muitos outros usos do idioma, o falante nativo “sabe” o que vale e o que não vale.

            Mas, tentando alguma racionalização, digamos que o português não admite um correspondente de “LO primero”. E que, dum modo geral, o português é bastante mais parcimonioso que o castelhano nesse âmbito de “O + adjectivo”.

            Contudo, e mais uma vez, aquilo que o galego já absorveu de castelhano, e aquilo que o português também já absorveu dele, não coincidem, e não são necessariamente condenáveis. Mas causam diferenciação entre nós, e é bom que o conheçamos.

          • Ernesto V. Souza

            Mas há questões que são de lógica, de estrutura e outras de hábito…

            O título do artigo, por exemplo…

            A pouco que reparemos, mesmo com o hábito castelhanizado, “Votar a” entra em contradição com a estrutura do idioma, ou com casos combinatórios parecidos que não são admitidos… esse A aí cantaria…

            Na primeira vez que se nos diga já fica claro.

            Mas… outras… o hábito pode ser simplesmente moda ou sucesso expresivo consagrado, numa altura remota ou bem achegada da língua.

            E a língua Portuguesa, como a Castelhana… como todas as línguas apenas unificou hábitos e registros com a imprensa, a escola e a TV.

          • Venâncio

            Sim, as preposições regidas por este ou aquele elemento duma frase não obedecem a uma lógica apreensível. Por exemplo, no artigo acima, a Carme escreve, e eu destaco:

            «autárquicas: são as eleições AO governo da câmara municipal».

            Nós em português dizemos “eleições PARA o governo”, “PARA o parlamento”, etc.

          • Venâncio

            Carlos ainda:

            Existe uma curiosíssima construção castelhana que nós de todo desconhecemos. Exponho-a por meio dalguns exemplos:

            Mira, verás LO RÁPIDO que adelantamos.

            No sabes LO AMIGAS que fuimos.

            Condenadas a ser incomprendidas por LO PREMATURAS.

            Quiero que seas consciente de LO PODEROSA que es tu firma.

            *

            Em português, diríamos por exemplo:

            Olha, vais ver como ultrapassamos rápido.
            Olha, vais ver a rapidez com que ultrapassamos.

            Não sabes como éramos amigas.
            Não sabes quão amigas éramos. [construção culta]

          • Carlos

            Interessante, Venâncio. Obrigado!

            Olha, aproveitando a conversa sobre o “LO”, como passarias para português esta construçom espanhola: “TODO LO CONTRARIO”?
            Exemplo:
            -Pensaba que erais muy amigos.
            -¡No, todo lo contrario!

            Há algumha alternativa próxima da construçom espanhola sem ter de fazer uso de “em absoluto”, “de maneira nengumha” ou algumha outra similar?

          • Eduardo Maragoto

            Nom, nom, a minha frase nom admite a traduçom “Lo nuestro”, mas “El nuestro” (o movimento). Há um erro de leitura (ou de traduçom) na tua interpretaçom.

          • Venâncio

            Admito e retracto-me. Mas podem ter tido alguma utilidade as observações que o meu erro inspirou.

  • Luis Trigo

    Caríssimo Fernando Venâncio,

    Isto da intercompreensão é mesmo tramado. Ao restaurar uma ruína numa zona rural a um km de Penafiel, 35 km do Porto, dei conta que os meus amigos que me visitavam, por exemplo do Porto e Bragança, não percebiam o que os meus vizinhos diziam. Passado algum tempo, dei conta que um desses vizinhos também não percebia o que eu dizia, olhava para a mulher quando eu falava para intuir o que eu dizia através das respostas da mulher. Há pouco tempo uma amiga minha começou a falar como na sua aldeia de Gondomar, bem perto do Porto. Do pouco que ela falou assim, pareceu-me madeirense, mas quando estes falam continental, porque quando falam mesmo madeirense nenhum continental os percebe. A conversa cortou com o comentário sobre a censura da mãe quando ela falava assim.

    O problema na Galiza é bem mais profundo que o bilinguismo. Os neofalantes, que são um dos actuais motores do galego, constituem também um desafio porque naturalmente lhes faltam algumas intuições daqueles que mamam o galego das suas mães, como se diz na Galiza. Este é um dos focos de tensão com os paleofalantes. Mas a sua atitude pode ser considerada heróica, uma vez que muitos desses paleofalantes lhes recusaram essa mama para que os seus filhos pudessem ascender socialmente a falar “fino” – castelhano. Isso também pode ser um foco de tensão com os portugueses que mamaram o galego das suas mães.

    Essa tensão pode também dar-se quando se fazem analogias entre o galego e o inglês como línguas internacionais. O inglês britânico ou americano, mas mais o britânico, é diferente do internacional e os nativos compreendem que não estão a falar com outro nativo no inglês internacional – um professor meu que estudou na Escócia, com aquele sotaque cerrado, comentou comigo numa conferência que lhe fazia impressão o inglês de Inglaterra da oradora e em tom jocoso disse-me – “porque é que ela não fala inglês internacional”.

    Deu-se o caso de num projecto com americanos estar a analisar os erros de corpora de estudantes de inglês em expressões idiomáticas e não encontrar nenhuns, simplesmente porque a utilização de expressões idiomáticas ser um indicador de fluência. Uma conclusão tão básica que nem se tinha posto no início. E no entanto é a comunalidade de algumas expressões idiomáticas que animam muitos galegos na aproximação com Portugal e Brasil.

    Outro ponto de tensão coloca-se na desvalorização das diferenças entre variedades que tem corolário na forma de encarar o AO. Não compreendem, que ao contrário do que acontece no Brasil com a sua predominância de vogais abertas, a supressão de consoantes chamadas mudas tem consequências na pronúncia das vogais em Portugal, resultando até em caricatas diferenças gráficas entre variedades introduzidas pelo AO. E isto quando nesta sociedade alfabetizada, as pessoas não mamam/aprendem o galego apenas das suas mães, mas também dos livros e internet. O grave aqui nem sequer é não compreender, é a atitude – quando pessoas que se queixam do apartheid gráfico defendem o binormativismo e desvalorizam, pior que isso depreciam, pessoas com outras opções gráficas.

    Outro ponto de tensão é a falta de exposição dos portugueses ao galego da Galiza, ao contrário do que acontece em relação ao castelhano. Isso faz com que muitas vezes os portugueses mudem para castelhano ao falar com o galego. Isto poderia ser amenizado com o reconhecimento no sistema educativo e cultural português de que falamos a mesma língua…

    Mas o mais importante é que não empolemos estas questões. Muitas vezes estas tensões são sinal de afeição – é importante que não descarrilem para repulsa.

    Um abraço!

    • Venâncio

      Meu caro Luís Trigo,

      Isso que conta da incompreensão no Douro deixa-me pasmado. E vou dizer porquê.

      Há coisa de 60 anos, cheguei eu, menino e moço, a Braga, vindo do Alentejo, e achei-me rodeado de miúdos da mesma idade, minhotos, durienses, trasmontanos. E não houve entre nós qualquer dificuldade de compreensão, a não ser quando algum material lexical divergia.

      Agora imagine, 60 anos depois, quando o padrão lisboeta já conquistou e unificou o País muito mais do que já então o fazia. Não, aí, nisso que conta, há gato. Só que eu não percebo qual.

      A nossa questão com a Galiza e o galego é, evidentemente, doutra ordem. E, nessa questão, importa não dar ouvidos a voluntarismos (“As coisas são o que eu quiser que sejam”), e manter-nos firmes no campo do conhecimento e da informação. E esses não nos permitem dizer, sem mais, que, como Vc aí diz, “falamos a mesma língua”. Fossem as coisas tão simples!

      Nesta questão, imperam os voluntarismos. Os reintegracionistas “querem” que Galego e Português sejam a mesma língua. Os autonimistas (e, com eles, o grosso dos linguistas portugueses) “querem” que não o sejam. Mas nunca, nem uns nem outros, apresentaram jamais uma demonstração daquilo que afirmam.

      Pessoalmente, bem gostaria eu de poder demonstrar alguma coisa neste domínio. Nunca o consegui. Por isso, faço finca-pé em dois aspectos importantes da questão.

      Primeiro, que HISTORICAMENTE o Português foi, e é, o Galego que o Reino de Portugal adoptou como sua língua, já que outra não na havia… E, segundo, que Galego e Português FUNCIONAM hoje como a mesma língua. Acontece que estes dois aspectos são facilmente apreensíveis, mesmo por gente menos treinada nestas questões.

      Claro, esta minha posição não me granjeia o aplauso de quase ninguém. E só me dá trabalho tentar expor, dia sim dia também, as razões dos meus pontos de vista. Mas pronto: trabalho é coisa que nunca me assustou.

      Um abraço muito amigo.

      • Luis Trigo

        Caro Fernando Venâncio, não estou a falar do Douro em geral, estou a falar de algumas zonas rurais com população envelhecida. No caso de Penafiel, embora o concelho tenha contacto com o Douro em Entre-os-Rios, na zona de que falo nota-se mais traços transmontanos na fala e muito poucos do Porto. O falar de Braga está muito mais próximo do Porto. Também concordo consigo no que respeita a que é muito importante a informação e que se deve dosear o voluntarismo. Principalmente quando se pretende uma aproximação. Uma das coisas que um reintegracionista deve saber é que o termo lusista pode ser conotado com a extrema direita em Portugal, por exemplo. E no entanto tem sido o voluntarismo, nomeadamente dos neofalantes, que tem permitido travar alguma da decadência do galego na Galiza. É muito complicado dizer-lhes quando travar esse voluntarismo. É uma questão bastante difícil de gerir.
        Outro abraço amigo 🙂

        • Luis Trigo

          Só para ter a noção, alguns dos pedreiros de uma aldeia de Lousada com apeadeiro de comboio, 45 minutos, falavam de ir ao Porto como se fosse uma viagem que tivessem de planear bem. E agora muitos deles, de Penafiel e Lousada, estão a trabalhar no boom de obras nas casas do Porto 🙂

        • Venâncio

          Isto que o Luís Trigo escreve é sério. «Uma das coisas que um reintegracionista deve saber é que o termo lusista pode ser conotado com a extrema direita em Portugal».

          Sim, já bastantes vezes alertei os reintegracionistas para a convergência de linguagem, e até de pontos de vista, com a extrema-direita portuguesa. Mais ainda: houve no passado uma colaboração entre reintegracionistas e um grupo de extrema-direita, no livro “Galiza-Portugal: Uma só nação” (Lisboa, Nova Arrancada, 1997), fruto dum colóquio em Vila Verde.

          Por isso insisto em que é necessário conhecer a realidade portuguesa, é necessário não idealizá-la, com o risco de seguir o canto das sereias portuguesas que lhes tentam fazer o ninho atrás da orelha… e por vees o conseguem.

          • Ernesto V. Souza

            boh… os portugueses não são assim todos idiotas… Acho que haverá algum inteligente…

          • Venâncio

            Pois é, Ernesto. E o idiota sou eu, que vos aviso. Vai-te lixar, pá!

          • Ernesto V. Souza

            Não homem… o senhor de idiota não tem nada…

          • Venâncio

            Pois parecia que sim, a julgar pela leviandade com que este tipo de avisos meus é recebido entre vós. Nunca tive em resposta algo como “Ainda bem que nos avisas”.

          • Luis Trigo

            Esse boh é mesmo típico do nordeste transmonstano, muito bom 🙂 Podendo não parecer, também há muita idiotice em Portugal 😀 acho que não se pode escapar a um fenómeno universal… O maior problema nem sequer é uma questão de inteligência, é o processamento que determinadas coisas requerem, tanto a nível intelectual como emocional, que pode levar algum tempo e disponibilidade mental que as pessoas normalmente não cedem. É muito complicado para um português progressista assumir-se como lusista, muito mais para um brasileiro ou angolano… E se o objectivo é definir uma matriz comum, o mais adequado seria galeguista…

      • Carlos

        Fernando:
        Como bem di, a influência exercida polos dialetos falados nas capitais dos países sobre as demais variedades continua a ser muito forte. É óbvio, claro, que o papel dos meios de comunicaçom para conseguir essa maior homogeneidade tem sido crucial.
        No entanto, eu gostaria de saber a sua opiniom acerca de se existem diferenças entre o caso espanhol e o português. Talvez polo facto de eu viver em Espanha e, conseqüentemente, de ter estado exposto a umha quantidade superior de espanhol do que de português, tenho a sensaçom de as diferenças regionais serem mais evidentes aqui do que em Portugal. Haverá em Portugal, no tocante ao idioma, um maior grau de homogeneizaçom? Será menor a distáncia que há entre a fala de um tipo de Bragança e a de um habitante de Faro do que a que existe entre um corunhês e um falante de Málaga?
        Abraços!

        • Venâncio

          Caro Carlos,

          A minha idade permite-me um arco temporal de seis décadas na apreciação desse tipo de fenómenos. Posso, assim, verificar que a uniformização pelo padrão de Lisboa foi um processo que se veio estendendo e cimentando.

          Quando cheguei a Braga em 1955, vindo do Sul profundo, tive a noção das particularidades de todo o tipo (morfológicas, lexicais e pragmáticas) dos falares minhotos. E porque tinha muitos colegas do Douro e de Trás-os-Montes, também dos dessas regiões. Foi para mim uma escola preciosíssima, e foi talvez aí que comecei a ser linguista.

          Hoje em dia, qualquer falante bracarense abaixo dos 30 anos se exprime praticamente do mesmo modo que qualquer outro citadino do país inteiro. Isto quer dizer que, dentro de 20 ou 30 anos, a expressão portuguesa estará inteiramente uniformizada, sobrando talvez só algum leve sotaque por região.

          Eu próprio falo um português ‘neutro’. De tal modo que a minha voz anda a conduzir motoristas Portugal afora, num dos vários sistemas de GPS. Sim, sou o exemplo acabado da uniformização. 😉

          Não sei como é a situação na Espanha. Os meus contactos com espanhóis de diversas latitudes não são suficientes para poder responder à tua pergunta. Suponho, sim, que o mesmo processo que de seu em Portugal se venha dando na Espanha também. Sei (se bem estou informado) que existe um certo prazer em marcar publicamente as particularidades regionais do espanhol. Isso é em Portugal inteiramente inexistente, salvo casos excepcionais.

          • Carlos

            Gostei do exemplo do GPS! Explica muito bem a questom. Essa é a triste realidade: apagam-se os ricos matizes regionais!
            Apesar de vocês terem essa uniformidade, eu tenho comprovado, a partir de conversas informais com portugueses, que existe umha variedade do português continental que parece manter umha notável singularidade até hoje: o português transmontano. Tenho ouvido bastantes vezes comentários que apontam para essa originalidade do transmontano: léxico específico, um sotaque muito particular, etc.
            Para compreendermos esta especificidade do português falado em Trás-os-Montes, suponho que devemos dirigir a nossa atençom às influências galegas, leonesas e, seguramente, ao relativo isolamento da regiom durante séculos.
            Certamente, é um tema bem interessante o do português transmontano.
            Abraços!

          • Venâncio

            Em Trás-os-Montes, e mais exactamente no Leste da província, fala-se uma língua oficialmente reconhecida, diferente da portuguesa, o Mirandês, do grupo astur-leonês. Não sei se te referes a ela.

          • Carlos

            Eu sei, eu sei. Estava a me referir ao português falado na regiom, nom ao mirandês.
            Os comentários de portugueses a que aludia fôrom feitos em relaçom às peculiaridades do português aí falado, nom do mirandês 😉

          • Venâncio

            Certo. Mas mais uma vez: essas particularidades serão só encontráveis na fala de pessoas idosas.

            Eu constato que, aqui no Alentejo, quase todas as peculiaridades de há meio século desapareceram, ou só gente de idade avançada ainda as conserva,

          • Luis Trigo

            Caro Fernando, eu concordo que a uniformização em pt é cada vez mais elevada, mas ainda assim percebo alguma variação mesmo em pessoas mais novas, principalmente em estratos sociais mais baixos. O que eu também percebo é que são cada vez mais difíceis de observar. Como diz o João Veloso no vídeo, os falantes vigiam-se mais em determinadas situações e acredito que isso também aconteça quando ouvem o seu português neutro de GPS 😉

          • Luis Trigo

            Só para lhe dar um exemplo, trabalhei há pouco tempo com uma pessoa com menos de trinta anos que falava um português lisboeta SIC, estilo ” muita loco”, que eu não considero neutro. Era até de uma família abastada. Qual não é o meu espanto quando passado meio ano o ouço a falar com um amigo ao telemóvel num portuense carregado. O meu maior espanto foi até ele ter como referência de português padrão o lisboeta pimba da SIC…

          • Ernesto V. Souza

            Mas isso é a normalidade numa língua. Uma cousa muito interessante e que eu não dou conseguido explicar nestes foros nossos, por mais que tento é que no processo de restauração do galego, na obsessão por conseguir um padrão culto (um, outro) fomos esquecendo que uma língua a sério tem definidos e coexistem nela, sabores, estratos, regionalismos, falares urbanos e rurais, gírias, calões, falares snobs, modelos académicos, modelos cultos…

            Na Galiza do XIX até hoje na caixa galego metemos tudo, sem discriminar: operando normalmente em base a um critério diferencialista com o castelhano que ignorava o oceano Português (apanhamos sim, na tona alguma cousinha da camada culta ou literária, mas tratando esse Português como um bloco, sem reparar em matizes, épocas, estratos…). E apanhamos de ouvido (porque os galegos reverenciamos no melhor estilo celta, a quem fala jeitoso) expressões que davam força, falares e modos ruráis, casenhos, medievais, exageramos por décadas no hiper-enxebrismo…

            Temos por tanto um modelo literário, que perfeitamente encaixa nos modelos regionalistas de qualquer parte do mundo. Porém não temos uma língua plena. Temos ilhas, temos usos localizados… e temos também umas instituições que dão pena, uma TVG ruim e uma Junta da Galiza que parece trabalhar para o inimigo.

            Como se pode construir e reconstruir senão e pelo uso, pelo contraste?

            Obrigado pelos comentários.

          • Luis Trigo

            Eu é que agradeço, Ernesto, um abraço!

          • Venâncio

            Tudo isso é como dizes, Ernesto.

            E, contudo, tenho de confessar-te uma coisa: em anos e anos de leitura aqui no PGL, constato que, na imensa maioria das vezes, quando quereis vincar algo de modo idiomático, recorreis ao castelhano. É como se o galego idiomático não tivesse força, ou não o conhecêsseis, ou vos envergonhásseis dele. Ou como se não se pudesse ser engraçado em galego.

            Fico, autenticamente, perplexo.

          • Ernesto V. Souza

            Pois a realidade é que não podemos, salvo aqueles idiotas e puritanos que deixam as línguas reduzidas a esqueletos espidos, diferenciar que é galego de que é castelhano. Não podemos e portanto é absurdo perder tempo tratando de fazê-lo… eu isso sempre achei uma teima de professorinhos novos de escolas de idiomas… Fantasias… Se pudéssemos diferenciar no nosso acervo mental, fraseológico, lexical, nos modismos e idiotismos infantis, familiares, escolares, amicais, literários… o que é galego do que é castelhano não haveria problema.

            A questão é… dado que não podemos, e que portanto não podemos aprender português direito, salvo aqueles idiotas que pensem que uma língua é um esqueleto e uma gramática, e mortifiquem o seu corpo e a sua prosa em penitência de anos até conseguirem uma imagem de santos e uma língua sem vida… E para que? se teremos que conviver com isto, não é mais simples criar uma língua que seja culta e completa dentro deste esquema interferido e ir fazendo??

            P.s. Eu é que fico perplexo, em dando fim a 2018 e vem com isso de parecer mais galego quem mais lhe imita a fala e coloca de quando em pouco enxebrezas? acabáramos…

          • Venâncio

            Já várias vezes me perguntei o que significa esta exclamação “Acabáramos!”, e não consigo compreender.

          • Ernesto V. Souza

            quer dizer: numa conversa, explicação, depois de muitas voltas, leiras, explicações e reviravoltas… “ah… era isso?/ é bom saber…” com um matiz de retranca e algo de negação.

            Acho que na origem é castelhano de teatro clássico ou de zarzuela. Mas no castelhano não se emprega, ou talvez esteja aí no fundo dos armários da gente idosa… e no galego oral é moeda corrente.

          • Venâncio

            Obrigado pelo esclarecimento.

    • Carlos

      Olá, Luís.
      Ao ler o seu comentário lembrei-me de umha pequena reportagem feita há alguns anos por um canal de televisom português. Coloco o vídeo abaixo.
      No começo da reportagem, a apresentadora afirma de maneira categórica que “o Norte do país é mais rico em pronúncias e dialetos do que o Sul ou Centro”. Ignoro se é umha afirmaçom veraz, mas, em qualquer caso, manifesta essa diversidade diatópica que, corroborada polo teu comentário, parece existir nas regions setentrionais do país.
      Relativamente às falas madeirenses, é tam elevada a dificuldade existente para perceber o que um falante do arquipélago di? Fiquei um bocado surpreendido com a sua asseveraçom. Tenho ouvido opinions de portugueses nom madeirenses que, certamente, certificam a distáncia existente entre as falas continentais e as das ilhas, mas nom sabia que a diferença fosse tam acentuada.
      Partilho o vídeo:
      https://www.youtube.com/watch?v=RVaT7ESiWt4
      Um abraço, amigo!
      Carlos

      • Carlos

        P.S.:
        E, já que no vídeo falam tanto do tema om/ão, talvez seja um bom momento para lermos ou relermos aquele interessante texto do Fernando Venâncio “O indesejado ditongo -ão” 😉

        • Luis Trigo

          Segundo o testemunho de um dos populares do vídeo, o pom do Porto contrasta com o pam de Fafe – 70 km de distância 🙂

          • Venâncio

            Isso é interessante. Significa que ainda há resquícios do “pam” original.

            Importa também dizer que o “pom” do Porto é o produto duma uniformização das terminações hstóricas -ÃO, -AM e -OM.

            Isto é, o Porto uniformizou IRMOM, POM e RAZOM, tal como Lisboa uniformizou IRMÃO, PÃO e RAZÃO.

          • Luis Trigo

            Eu pergunto-me se essa uniformização do ão não se deu a partir de Trás-os-Montes. Seguindo o rasto dialectal de “irmão” a partir do galego oriental e do galego-asturiano – mas é apenas uma conjectura superficial.

          • Venâncio

            Não, caro Luís Trigo. A uniformização das três terminações -ÃO, -AM e -OM em -ÃO deu-se de Coimbra para baixo, e depois subiu rumo à fronteira norte.

            Aproveito para uma correcção ao que afirmei acima. A uniformização portuense não é em -OM, mas em -ÕU, Portanto, criando esse ditongo.

          • Luis Trigo

            Agradeço-lho o esclarecimento meu caro Fernando Venâncio. Eu
            estava mesmo a falar da origem na introdução do “ão” que causasse o caos, originando essa bifurcação entre o Porto e o resto de pt. Eu sei que um pássaro não faz a primavera… Mas irmão grafa-se “irmán” no RAG e “irmám” no AGAL conforme a fala ocidental galega, por contraste ao “irmao” oriental. O Fernando Venâncio fala até deste caso de grafar o irmão num dos seus artigos… Claro que isto é pouco até para especulativo.

          • Ernesto V. Souza

            Não, no agálico foi sempre IRMAO, e no galego de antes de 1982 não era infrequente…

          • Luis Trigo

            Obrigado Ernesto, como já tinha visto grafado irmám, presumi que fosse essa a opção. Mas de facto também já tinha visto a palavra irmao.

            Pode até encontrar-se irmám aqui:

            https://aeg.gal/publicacons/item/56-a-historia-da-galiza-em-50-datas

            “1037 Vermudo III morre na Batalha de Tamarom contra os navarros, a sua irmá e herdeira Sancha recupera Castela, casando com o conde e irmám do rei navarro, que reina com ela como Fernando I. A disputa com Nafarroa por Castela só se resolve em 1057, na Batalha de Atapuerca.

            mas também no mesmo texto irmao:

            “1366 Guerra civil castelhana entre Pedro I o Justo, e o seu meio–irmao Henrique, apoiado pola grande nobreza castelhana e a alta hierarquia episcopal, decididos a defender o senhorio feudal contra a pretensom de Pedro de impor um maior controlo da Coroa. (É neste contexto que se produz o levantamento de Maria Castanha contra o bispo de Lugo). Fernando Ruiz de Castro “o da guerra”, líder dos petristas na Galiza, será despossuído dos seus títulos e possessons, e substituído polos Osório (Lemos) e a família real (Trastámara). Umha nobreza de segunda linha (Andrade, Sarmiento…) substitue os partidários derrotados de Pedro.”

          • Nicolau

            Eu penso que grafando «irmao» –sem til– em galego AGAL se incorre numha incongruência GRÁFICA. O encontro de a+o representa na escrita um hiato, quando na pronúncia nunca é tal. Tanto na fala ocidental /irmám/ como na centro-oriental /irmau/, ocorrem sempre duas sílabas e nom três (/ir-mám/ ou /ir-mau/). O uso do til à portuguesa («irmão») indica-nos visualmente que nom estamos ante um hiato, mas ante «outra cousa». E esta «outra cousa» é como o joker do baralho: pode ser lida segundo a fala de cada um. O mesmo acontece com as seqüências «-ã», «-ãs», «-ões», «-ães» e «-ãos». A leitura para umha mesma pessoa é sistemática. E este sistema só difere do português e do brasileiro nos singulares «-om» e «-am».

            Já como curiosidade, os ocidentais nom podemos fazer a pergunta «Ti tinhas irmãos ou irmãs?» assi sem mais, pois pronunciamos exatamente igual as formas no feminino e no masculino, tanto plural como singular. Temos que introduzir um determinante: «Tinhas algum irmão ou algumha irmã?»

      • Luis Trigo

        Olá Carlos, há também alguma variação entre estratos sociais. Mas se um popular madeirense não estiver inibido perante um continental ou numa situação formal é difícil compreendê-lo.
        Já conhecia o vídeo, obrigado 🙂
        Um abraço!

      • Venâncio

        Permita-se-me uma curta observação. Na Natureza, e mais exactamente na Biologia, os “cenários originais” são sempre os mais diversificados e complexos. Em Portugal, a região de Entre-Douro-e-Minho tem uma diversidade lexical e fonética incomparavelmente maior que, por exemplo, o Alentejo, muito mais uniforme nas suas peculiaridades.

  • Nicolau

    Na minha opiniom, a constatável inconsistência do verbo «ensinar» na Galiza, assenta em que realmente nom existe no galego popular.

    Na Galiza, quem tinha que ensinar nom ensinava, mas «enseñaba». Temos aí já o verbo «ensinar» traduzido para castelhano e a acaparar por volta de 80% do uso que podia ter em galego. E 20% restante? Pois aqui o povo, antes que usar um verbo que semelhava reservado aos mestres de escola, decidiu inverter o significado de «aprender» para que fosse válido tanto para quem transmite quanto para quem recebe («Meu pai aprendeu-me o ofício de carpinteiro»). Esta inversom de siginificado de «aprender» é mesmo recolhida nos dicionários RAG e Estraviz.

    O verbo «ensinar», desapareceu do galego popular.

    Mas a cousa nom ficou por aí. O verbo «enseñar» do espanhol também significa «mostrar». E eu tenho-o ouvido freqüentemente em galego, mas assi tal qual é em espanhol, sem traduzir e adaptado à conjugaçom galega («Ensenhei-lhe as fotos»). Por tanto, no galego popular usa-se para este significado os verbos «mostrar», «amosar» e «*ensenhar».

    NOTA: Em todo o momento me estou a referir ao galego popular, o galego falado por pessoas que sempre farárom nesta língua e… obviamente fazendo uso da minha memória. Nom entro em se é correto, normativo ou vulgar.

    • Venâncio

      Nicolau,

      Pergunto, então, qual é o estatuto de MOSTRAR no galego, quer espontâneo (falado ou escrito), quer cultivado.

      Pergunto isto, pois o Ernesto afirmou algures aqui abaixo (ou acima) que “mostrar” é um cultismo.

      Isto parece ficar contrariado pela existência de 5.382 escritas ocorrências de MOSTRAR no “Tesouro Informatizado da Lingua Galega”.

      Procurar como “lema”.

      http://ilg.usc.es/TILG/gl/search/simple

      • Venâncio

        No meu artigo “Uma proposta portuguesa para o léxico galego” (Grial, nº 186, 2010, 102-107), exponho a vantagem de, dadas duas palavras galegas correntes, escolher sempre aquela que coincida com o Português.

        É minha convicção que o aproveitamento do Português deve ser feito de maneira organizada, criteriosa, e não votado ao espontaneísmo.

      • Nicolau

        Venâncio:

        Fum procurar a afirmaçom do Ernesto e nela di que «[mostrar] ficou ou soa a cultismo» no galego popular. Entendo que pretende dizer (rogo o Ernesto me desculpe o atrevimento) que este verbo pode ser percebido entre os paleofalantes como «galego de dicionário» próprio dos neofalantes. Concordo bastante com a afirmaçom, pois estamos a falar em percepções. E estas variam dum paleofalante mais velho para um mais novo. Muitas palavras (e sintaxe) que som percebidas por falantes de toda a vida como «de dicionário» ou «galego moderno desse que vos aprendem agora na escola», som percebidas polos mais velhos como «assi é como falávamos antes». Refiro-me a palavras como «garfo», «colher», «funil», «mostrar» (si, esta também), ou «toro de pescada», por pôr exemplos vividos por mim mesmo; ou frases como «onde vai?», «pousa isso», «que foi?» ou «aí está o javali que o lobo matou». Os equivalentes no galego falado (e escrito) atual, tanto em neofalantes como em muitos paleofalantes, som, logicamente, decalques do espanhol. Por ordem: «tenedor», «cuchara», «embudo», «ensenhar», «rodaxa de merluza», «onde está?», «pom/deixa isso aí», «que passou?» e «aí está o javali que matou o lobo».

        Julguei necessária esta introduçom para responder a pergunta sobre o estatuto de «mostrar» em galego atual. Eu tenho-o ouvido, si, em paleofalantes, mas em claro retrocesso frente ao «ensenhar» do espanhol. É por isso que no processo de restauraçom do galego se intromete esse «ensinar» como sinónimo de «mostrar».

        Existe outro verbo com o mesmo significado: «amosar». Nom recordo tê-lo ouvido nunca nos meus familiares mais velhos, mas nom duvido da sua existência no galego popular. Procurei no TILG e aparece umhas 256 vezes. Modernamente é mui utilizado por ser o preferido no galego RAG (que também admite «ensinar», aliás). Suponho que por diferencialismo frente a «mostrar», coincidente com o espanhol (si: estas cousas acontecem: por diferencialismo com o espanhol evita-se o verbo «mostrar», mas admite-se ao seu lado o espanholismo semántico «ensinar»).

        • Venâncio

          Nicolau,

          Tudo informação interessante. Algumas observações que o teu comentário me inspira.

          1. Quando procuras no TILG, importa distinguir entre “palavra” e “lema”. Tu procuraste MOSTRAR como palavra. Mas como lema (isto é, incluindo as diversas formas) o número de ocorrências é muito superior: 2.255.

          2. Tive de ir ver no Google Imagens o que é o gal. “toro de pescada”. É o que nós chamamos “posta de pescada”. Suponho que “posta”, nesse sentido, também ocorre tanto em galego como em castelhano.

          3. Excelente exemplo, esse de «aí está o javali que o lobo matou» vs. «aí está o javali que matou o lobo»… Numa aula que dei há meses em Lisboa, no departamento do nosso amigo Marco Neves, servi-me doutro exemplo:

          El hospital que abrió EL rey.
          O hospital que o rei abriu.

          El hospital que abrió AL rey.
          O hospital que abriu o rei.

          4. O DIFERENCIALISMO é uma preocupação que está sempre presente na Galiza. Isto é, o castelhano é uma constante referência, ainda que pela negativa. Repara em que, nos títulos de obras em galego, existe sempre um elemento, por mínimo que seja, descoincidente com o castelhano.

          5. Esse diferencialismo está também presente em numerosos HIPERLUSISMOS. Alguns exemplos curiosos ao acaso:

          um galego meio (por médio), Idade Meia (por Média), ela estava fora de sim (por si), tuda / tudos, embora isso (por apesar disso), pâginas, fantâstico, precisso, Santa Mãe Igreja (por Santa Madre Igreja), etc.

          Nalguns casos, o diferencialismo faz-se relativamente ao galego:

          conhezido, praço (por prazo), Galiça, são de Ourense (por som), etc.

          Os diferencialismos, ao serem conscientes, são reveladores das atitudes do utente e do funcionamento do sistema.

          • Nicolau

            Nunca ouvim o de «posta de pescada». Desconheço se existe em galego.

            Quando vou comprar o peixe, se a pescantina é velha, entende-me perfeitamente. Se é nova, ainda sendo galegofalante, nom entende nem o de «toro» nem o de «pescada». Isto é um caso triste de perda de língua.

            Quanto ao dos exemplos tipo «aí está o javali que matou o lobo», certamente em muitos títulos de notícias em galego (e em espanhol, ainda que menos), necesito ler um pouco o texto para entendê-los, o polo menos deter-me um segundo a pensar. Falta-me o contexto. Nom me ocorre o mesmo quando leio num jornal português.

          • Venâncio

            Nicolau,

            O caso de “o javali que matou o lobo” ilustra patentemente o que aconteceria quando Espanhol e Português entrassem em contacto num contexto (como é o da Galiza) em que o Espanhol é dominante. A sintaxe espanhola tenderia a ser a decisiva. O mesmo aconteceria com a semântica. Um óptimo exemplo é “No es cierto”, que não é “Não é certo” (= No es seguro). Como esses exemplos, há dezenas, se não centenas.

            Não é preciso ser profeta para prever que uma introdução do Português como “língua oficial da Galiza” redundaria, a médio prazo, num caos cognitivo: um falante nunca saberia se o outro estava a seguir a sintaxe e a semântica portuguesas ou se as espanholas. No longo prazo, o Português acabaria deformado e triturado pelo Espanhol, sem dó nem piedade.

            Eu lembro isto porque suponho que existem por aí espíritos imensamente generosos e imensamente ingénuos que sonham uma Galiza bilingue de Espanhol e Português… Qualquer linguista diria o mesmo que eu digo acima. Mas, felizmente para o Português, esse cenário nunca se realizará.

          • Venâncio

            A respeito de “posta”, acabo de ler em Ferrín (num ‘post’ do Facebook de ‘Gerardo do Corvelo’):

            «Bacallau que se servía con verdura en postas regadas pola allada».

        • Ernesto V. Souza

          Exatamente Nicolau… é isso, bem melhor explicado na sua complexidade.