AS AULAS NO CINEMA

VITTORINO DA FELTRE, CRIADOR DA ‘ESCOLA DA ALEGRIA’

Documentários vários



Dentro da série dedicada aos grandes vultos da humanidade, que iniciei com Sócrates, e que todos os escolares devem conhecer e admirar, escolhi para o presente depoimento um grande educador italiano, pertencente ao Renascimento, Vittorino da Feltre (1378 – 1446), também conhecido pelo apelido Rambaldoni. Com ele completo o número 33 da série. Foi um humanista, religioso pedagogista e professor da Universidade de Pádua, que se destacou na educação com o seu trabalho de preceptor dos filhos da família Gonzaga, em Mântua. Precursor de conceções e práticas pedagógicas que seriam difundidas séculos depois (escola gratuita para os desafortunados, a postura exemplar do mestre, raciocínio independente, planos de estudos enciclopédicos, associação do exercício do corpo com o exercício do espírito, proposta de ensino gradual). Destaca-se na prática pedagógica através de relatos registrados por seus ex-alunos e também por preocupar-se com um ensino atrativo para as crianças, por entender a necessidade de criar oportunidades de expressão da personalidade, por repudiar punições com agressão ao corpo e pelo constante apelo à honra.

giusto_di_gand_e_pedro_berruguete_vittorino_da_feltreNascido em Feltre, na Lombardia, perto de Veneza, em 1378, de uma família humilde (seu pai era escrivão), aparece entre os mais conhecidos educadores italianos do século XV. Pela sua pequena estatura alguns o alcunharam de Vittorino e associaram a alcunha ao da sua cidade natal de Feltre, razão pela qual na história é conhecido melhor com o patronímico de Vittorino da Feltre. Cursou estudos na universidade de Pádua e em Veneza, e à vez, trabalhava como «Magister puerorum» (Mestre de crianças). Em 1422 obteve as cadeiras de Filosofia e Retórica da Universidade de Pádua. Posteriormente, exerceu como professor de matemática e línguas clássicas (latim e grego). No seu pensamento educativo teve grande influência Pier Paolo Vergerio, autor do primeiro tratado de pedagogia do humanismo, e Guarino Guarini di Verona, com quem aperfeiçoou o grego, em Veneza. Também teve como professores Giovanni de Ravena e Gasparino Barzizza nas disciplinas literárias, e Jacobe de Forli nas ciências físicas e astronómicas. Teve ademais o duplo prestígio da antiguidade e das suas precisas conceções. Era professor da universidade de Pádua quando em 1425 foi chamado pelo príncipe Giovanni Francisco Gonzaga de Mântua para que educasse os filhos da nobreza. Faleceu em Mântua a 2 de fevereiro de 1446.

A SUA ESCOLA:

Fez dotar de móveis a sua escola que estabeleceu em 1423 numa Vila de Mântua, propriedade de seu amigo Francisco Gonzaga, a que batizou com o nome de «Casa Giocosa», que significa «Casa da Alegria», onde se viam pinturas e desenhos em que apareciam crianças a brincar com todo o tipo de brinquedos. Afastada da agitada e mundanal vida cortesã, ele vivia nela com os mesmos alunos na mesma casa, pelo qual foi considerada como a primeira escola pupila secular. E pode considerar-se também como uma verdadeira escola nova, em que reinava um clima de alegria e liberdade e corrigiu os abusos correntes da época, desterrou as refeições copiosas, por outras singelas e frugais, e também promoveu vestidos e móveis modestos. Nela os estudantes eram exercitados na dança, nos instrumentos musicais e no canto, e, na primavera, interrompiam-se as aulas para participar em roteiros e passeios escolares, com longos recreios. Esta escola iniciou a verdadeira educação laica na Itália, já que a mesma utilizou métodos completamente opostos aos que caracterizaram a educação monástica nos mosteiros da Idade Média, tanto nos seus objetivos como na forma de tratar as crianças. Para conseguir isto Vittorino inspirou-se nos modelos educativos da educação grega e também nos princípios pedagógicos do seu contemporâneo Pedro Pablo Vergerio, expressados nos Conselhos sobre Educação, onde comentava a importância dos exercícios físicos e as atividades lúdicas. Os exercícios físicos e as práticas higiénicas caracterizaram o programa da escola de Mântua, a qual, por tratar-se de um centro exclusivista para as crianças da nobreza muito ricas, contava com um extenso número de docentes. O grupo de auxiliares do diretor incluía mestres especialistas de danças, equitação, esgrima e natação, a cujos exercícios acrescentava a luita, as corridas, os saltos, a arcaria, a esgrima, os jogos com bolas, a caça e a pesca. Os filhos dos grandes humanistas do século XV foram seus alunos. Acolheu também outros muitos estudantes vindos de toda a Europa, pelo grande prestígio que teve, devido aos seus sistemas liberais, eruditos e naturais que empregava. O seu sistema pedagógico foi imitado em toda a Europa, especialmente na Inglaterra. Deve dizer-se ainda que estabeleceu outras escolas similares em Milão e Veneza.

A «Casa Giocosa» contava com amplos campos para a prática de tão variadas atividades e era obrigatória a participação dos alunos. O próprio da Feltre juntava-se aos estudantes na hora da realização dos exercícios, que ocupavam uma parte considerável do horário escolar, e encabeçava as excursões e roteiros ocasionais a locais próximos, e mesmo afastados, incluídos os Alpes. Esta sua escola é considerada como a sua grande obra pedagógica, ao defender a ideia de que a escola não tem que ser um lugar carente de interesse, desagradável, um fardo pesado ou algo obrigatório, mas antes um local confortável, alegre e útil para a vida. O próprio nome da instituição por ele criada sugere já todo um programa pedagógico e uma amostra do estilo com que queria Vittorino ambientar o seu ensino. Para ele, o caminho da educação era impossível sem a Educação Física. Ao remeter para o mundo clássico, em especial para a cultura grega, via o fundamento da atividade física nos gregos na ideia de que não era possível a perfeição sem a beleza do corpo. Segundo o seu critério, a educação física era tão importante como qualquer outra das disciplinas no processo formativo dos estudantes, porque podia contribuir para a aprendizagem de outras áreas do conhecimento humano. Também era importante como uma forma de disciplinar o corpo humano, preparar para a defesa do país, o descanso e a recriação física. Por isso, alguns autores consideram Vittorino da Feltre como o primeiro em estabelecer um programa escolar de educação física.

ANTOLOGIA DE DOCUMENTÁRIOS:

1. Vittorino da Feltre. Duração: 15 min.

2. Vittorino da Feltre. Duração: 4 min.

3. Vittorino da Feltre «Escola Giocosa»-UPN. Duração: 3 min.

4. Vittorino Ramboldini da Feltre. Duração: 5 min.

5. Scuola Primaria Vittorino da Feltre. Duração: 4 min.

6. Vittorino da Feltre il canto Italia. Duração: 2 min.

AS SUAS AÇÕES EDUCATIVAS BÁSICAS:

Muitas das ideias pedagógicas de Vittorino da Feltre foram enormemente inovadoras para aquele tempo, e algumas mesmo o são hoje. Eis uma antologia das suas ações e ideias pedagógicas:

– Propôs realizar vários estudos ao mesmo tempo, para que o espírito descansasse com a variedade dos assuntos a estudar e trabalhar. Por isso, louvava a enciclopédia dos gregos, porque a ciência e a educação se compõem de numerosas disciplinas, e é conveniente conhecê-las para refletir sobre elas na sua oportunidade.

– Procurou todos os meios para que o ensino fosse atrativo.

– Prodigava cuidados especiais aos menos dotados ou desfavorecidos, para os quais exigia uma atenção sustentada.

– Era inflexível a respeito da decência e das boas maneiras.

– Pretendia conhecer a fundo os seus alunos, para o qual os deixava em plena liberdade de ação nas relações que tinham com ele.

– Informava-se sobre as condições das suas famílias para descobrir as influências da herança e do atavismo, e escolher assim as atividades a desenvolver e as artes a dedicar-se.

– Cultivava o amor para o bem e a afeição ao estudo, por meio de elogios dados oportunamente, cultivando-se com cuidado o sentido da honra e o afã da glória.

– Os castigos repugnavam o seu modo de ser, por isso os aplicava só em caso de extrema gravidade.

– Acreditava que era preferível prever as faltas por meio de uma disciplina prudente, e a bondade inteligente, combinada com a firmeza, era o melhor sustém da cultura moral. O afeto dominava neste seu sistema, unindo mestres e discípulos.

– A educação devia estar baseada no interesse dos escolares, os quais não deviam considerá-la um castigo em nenhum caso.

– A educação física deve ser considerada como qualquer outra disciplina, dentro do processo educativo do indivíduo, pois é indispensável para a aprendizagem de outros campos do saber. E para disciplinar o corpo, para o descanso e a recriação. Foi ele um importante criador de exercícios especiais para crianças com incapacidades físicas.

– O seu sistema pedagógico foi um modelo de estilo renascentista, que se distinguiu por procurar a educação completa da pessoa desde as artes e as letras.

– Os aspetos morais tinham primazia no seu modelo, conquanto harmonizados com a importância outorgada às ciências naturais, às expressões artísticas, aos exercícios corporais, reforçando tudo isto com a prática das virtudes mais seletas. É o seu modelo o melhor expoente da pedagogia humanista e um precedente da educação ativa de Pestalozzi.

– Tudo, no seu sistema, tendia para o desenvolvimento da razão e para refletir e pensar, procurando que o ensino fosse agradável, atrativo e motivador.

– Os exercícios escritos realizavam-se com muito cuidado e o mestre sempre os comprovava e corrigia.

OPINIÃO SOBRE A SUA FIGURA:

Segundo Vespasiano da Bistici, na sua obra Vida dos homens ilustres, «Vittorino da Feltre era um homem de categoria, e de vida sóbria, instruído no grego, no latim e nas sete artes liberais. Era reputado em toda a Itália pelas suas virtudes e os seus conhecimentos e por isso numerosos aristocratas venezianos lhe enviaram os filhos para que os educasse e lhes ensinasse as belas letras. Ele permitia-lhes praticar exercícios físicos, e os filhos dos nobres eram encorajados a fazer todos os exercícios bons para o desenvolvimento do corpo, dando-lhes estes recreios depois de terem aprendido e recitado as suas lições. Fazia leituras nas disciplinas apropriadas a cada classe e ensinava as artes liberais e o grego. Estabelecia um horário apertado, e não consentia que nenhuma hora fosse perdida. Raros eram os alunos que abandonavam a casa, e regressavam sempre à hora marcada; à noite todos eram obrigados a recolher cedo. Assim os criava nos hábitos de ordem e de aplicação».

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:

Vemos os pequenos documentários citados antes e depois desenvolvemos um Cinema-fórum, para analisar os seus conteúdos e as propostas de Vittorino da Feltre para a educação.

Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Vittorino da Feltre, o seu pensamento, as suas ideias educativas, a sua vida e a sua obra. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias.

Podemos levar a cabo um Debate-papo entre todos, estudantes e docentes, para desenvolver na nossa instituição escolar um projeto educativo, em que se acolham muitas das propostas e ideias educativas de Vittorino da Feltre. Projeto que depois tentaríamos durante um tempo pôr em prática nas nossas aulas. Seria interessante tirar depois, entre todos, conclusões para o ensino e a educação atual.

 

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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