O velho István Mészaros e a nossa caixa de ferramentas



Amiúde falamos sobre as vantagens da nossa inserçom no espaço mundial de expressom galego-luso-brasileira, que nos permite o acesso a todo aquilo que a maior parte do nosso povo até hoje nom conheceu, ou só conheceu através do espanhol.

Isso pode muito bem concretizar-se, por exemplo, no acesso à obra de grandes autores e autoras das ciências sociais, sem passarmos pola portagem que impom a nossa assimilaçom obrigatória ao Reino de Espanha. O reintegracionismo permite-nos já hoje um ensaio de soberania em pequena escala, o que de nengumha forma deveria degenerar, como às vezes acontece, no elitismo de se conformar com a autorrealizaçom individual enquanto o nosso país está a esboroar ao nosso redor.

A obra do filósofo István Mészáros, falecido este 1 de outubro no Reino Unido aos 87 anos, é um bom exemplo dessas portas e janelas abertas pola prática reintegracionista. No meu caso, tinha referências prévias dele, até pola difusom que supujo a sua amizade pública com Hugo Chávez. Mészáros era, de facto, o mais sério e valioso discípulo do maior filósofo do século XX, o também húngaro e marxista Gyorgy Lukács, cuja monumental obra está também traduzida há já uns aninhos para galego do Brasil, sem que, curiosamente, exista ainda em espanhol a mais importante: a sua ‘Para umha ontologia do ser social’.

No caso de Mészáros, comecei há alguns anos a leitura dos seus textos diretamente em galego do Brasil. A minha estreia foi com o volume ‘Atualidade histórica da ofensiva socialista’, cujo subtítulo sintetiza a tese principal contida nas suas páginas: ‘umha alternativa radical ao sistema parlamentar’. Nela, Mészáros analisa a profunda crise, de dimensons mundiais, da esquerda revolucionária, reduzida a umha versom crítica integrada no próprio sistema que supostamente combate.

Mészáros considera a atual crise capitalista, de modo polémico e nom consensual, como tendo um caráter “estrutural”, e nom meramente cíclico, o que nos conduz para umha provável destruiçom como espécie, se nom se produzir umha superaçom do modo de produçom hegemonizado polo capital como forma de relaçom social. Nesse quadro, acha que a transformaçom do sistema só será possível se incidirmos na sua reproduçom interna ou “sociometabólica”, indo muito além da simples atuaçom institucional no campo de jogo da democracia liberal, como até agora a esquerda tem feito e onde sempre acaba por ser neutralizada.

O questionamento radical desse reducionismo parlamentarista, que tolhe a prática totalidade da esquerda atual e que, de facto, é tam visível no nosso país, é o cerne desta recomendável obrinha do autor húngaro. Umha leitura imprescindível e umha boa via introdutória para a sua extensíssima produçom teórica.

Indico a seguir só mais umha obra do velho filósofo recentemente falecido. Neste caso, é umha proposta de leitura e estudo quase para toda umha vida, como corresponde às grandes obras de referência da história do movimento revolucionário socialista. Trata-se de ‘Para além do Capital’, um dos livros de cabeceira de Hugo Chávez, com mais de 1.000 páginas de umha grande densidade e profundidade analítica. Umha das mais importantes obras no campo do marxismo atual e umha importante atualizaçom ou continuaçom do trabalho de dous gigantes do pensamento revolucionário: Karl Marx e Gyorgy Lukács.

A Galiza nom é umha exceçom, mas é preocupante o desprezo existente na nossa esquerda polo estudo crítico da realidade a partir das ferramentas científicas que o marxismo disponibiliza. É verdade que Karl Marx, o nosso maior teórico, considerou que “cada passo do movimento real vale mais do que umha dúzia de programas”, alertando contra a recriaçom intelectual sem conexom na realidade. Porém, todos os movimentos com possibilidades de êxito estivérom sempre obrigados a estudar a sociedade concreta e acertar nas propostas para a sua verdadeira transformaçom.

A enorme obra de István Mészarov fai parte da caixa de ferramentas disponível e à nossa espera no caminho da construçom de um futuro diferente. Um futuro socialista.

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  • Joám Lopes Facal

    Maurício: “O reintegracionismo permite-nos já hoje um ensaio de soberania em pequena escala”, perfeito, excelente convite a tanto activista tributário de esquemas e experiências políticas de importaçom.
    Ao Mészáros, nom o lim e também nom sou muito devoto da herdança de Hugo Chávez mas considero útil qualquer contributo sério –e esse com certeza é– a pensar na perspectiva da sociedade pós-neo-liberal que, para mim, inclui parlamento e democracia representativa: a ágora antes que a rua.
    Seja bem-vindo este convite ao pensamento crítico.

    • fromgaliza

      Obrigado, Joám. Só um par de apontamentos: Mészáros (nascido em 1930) é discípulo de Lukács, nom de Chávez. Portanto, nom fai parte da “herança” de Hugo Chávez. Poderíamos debater até que ponto Chávez se inspirou ou nom em Mészáros, para além de o líder venezuelano ter manifestado admiraçom polo filósofo húngaro.
      Quanto à “democracia representativa”, a proposta de Mészáros é para quebrar o domínio do capital, nom do “neoliberalismo”. Para isso, há que enfrentar o mecanismo central do lucro e a exploraçom como fundamento da reproduçom social no capitalismo, e nom limitar-se ao trabalho institucional. É a isso que Mészáros se refere com ir além da democracia liberal, nom para rejeitar a democracia, mas para reivindicar umha democracia diferente, ao serviço doutra classe social diferente da que hoje domina.
      Recomendo-che esse livrinho que cito aí como introduçom ao autor. Já o ‘Para além do Capital’ exige muita dedicaçom de leitura e estudo… Um abraço.

      • Joám Lopes Facal

        Maurício, bem sei que o Mészáros nada tem a ver com Chávez nem –con certeza sendo um filósofo marxista– com qualquer proposta de signo populista.
        O neoliberalismo é a filosofia hegemónica nas instituiçons europeias, A sua essência consiste em substituir a política polas normas, custodiadas estas polo Bundesbank e o Tribunal Constitucional alemám.
        Este é o formato do debate político que nos interpela; a reproduçom social do capitalismo é umha questom maior cuja eventual superaçom nom parece registrar o radar da política contemporánea nom obstante a radical mudança tecnológica em curso.
        Tentarei fazer-me com o livro que me recomendas para renovar as minhas leituras hungárico-marxistas detidas, há já muitos anos, em Agnes Heller, discípula de Lukács

        • fromgaliza

          Fago-cho chegar eu sem problema.

  • GOMEZ

    Língua e Soberania andam lado a lado. Se os galegos querem poder falar em seu idioma e preservar sua identidade, devem fazer como os catalães… É inevitável!

    • Galego da área mindoniense

      Suíça?

      • GOMEZ

        Espanha? E a Catalunha? Porque não está contente?

        • Galego da área mindoniense

          Na Suíça, cada zona tem a sua língua e fala-a sem probremas. E estám num só país: Suíça.
          Em Castela á ũa atitude cara as outras línguas do Estado coma em Paris, e assim lhes vai… Se fosse coma em Bern, outro conto seria.